domingo, 7 de abril de 2013

P de "Postais do fim do mundo" (II)





FREQUÊNCIAS DE ONDA CURTA


Vais começar uma viagem.
Atravessarás areias movediças,
bancos de nevoeiro, charcos insondáveis.

Dispõe-te a receber os sinais secretos
que as coisas do mundo emitem para ti.

O insecto que voa ao teu redor,
que senha, que promessa de jardim te traz?

O fogo branco da neve nas copas,
conseguiu silenciar o fogo verde das árvores?

A folha que, na margem do rio, se separa
do ramo do arbusto e cai, poderá unir-se
ao ramo certo da água sem a quebrar?

Chegam ondas de um extremo ao outro dos teus sentidos:
conseguiste sintonizar um dial secreto do mundo.

Mas deténs-te à beira desta página
e encontras uma frequência no teu interior,
uma transmissão. Uma mensagem de ti, escuta-a.
É o teu coração paciente: esse tradutor,
esse amanuense, esse secretário incansável
pondo vírgulas vinte-e-quatro horas por dia
a tudo o que o assombro profusamente lhe traz.








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