sábado, 8 de agosto de 2015

P de Poética (LV)


RONDÓ CAPRICHOSO


Por algum tempo, mesmo
que seja mínimo, as
coisas são perfeitas. A
rosa ganha caule mas
não desabrocha. A faca
brilha no ar mas não
desfere o golpe. Os lábios 
humedecem, antes
de cerrar os dentes.

Por algum tempo uma
criança habita a casa, um
gato aquece ao sol a
sua grata pelagem, um corpo
cansado adormece
no lençol limpo.

Por algum tempo, os insultos
não são proferidos
e os corpos enlaçam-se
apiedados do abismo
entre as próprias imagens.

Por algum tempo acreditamos
em grandes amores e viagens. Depois
consumimos
sucedâneos ou literatura.

Por algum tempo, olhamos
o quadro sem turistas
à frente. Escutamos o virtuose
sem tosses na assistência.

Por algum tempo, descobre-se
a cura. O amor regressa. A teoria
convence. A fé ressuscita. Acreditamos
em Únicos e Pátrias.

Até que esse algum tempo
perfeito e mensurável
em desmedido tempo
se transforma.


Inês Lourenço, Logros Consentidos,
Lisboa: &etc, 2005





[ID, São Miguel, 06/015]

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