quarta-feira, 31 de agosto de 2011

R de Regresso ao trabalho (XVIII)



Quando piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha Estação primeira


Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o Sol me queimando
E assim vou me acabando


Quando o tempo avisar
Que eu não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão e da minha mocidade

F de "(Une) Famille d'Arbres" (III)


Ponta Delgada, 12/08/2011

B de Biorritmo (CIV)



[...]
Who knows where the sidewalk ends
Well, the road will turn and the road will bend
They always say he marks the sparrow's fall
How can anyone believe it all?
[...]

terça-feira, 30 de agosto de 2011

V de Viagens (VI)



 De novo em Bruxelas,
pela mão de um dos meus artistas preferidos:

Um sítio visitado...


... e um rio pressentido.


[Fonte: François Schuiten e Christine Coste, Bruxelas - Percursos, Asa/Público, Agosto 2011]


sábado, 27 de agosto de 2011

B de Biorritmo (CIII)



There was a house half way round the world
And I was invited in for a small taste of gin
There was a hall with a thousand birds long
But the biggest one of them all was in a cage too small


I asked the caretaker cause he was the Maker
He looked at me and laughed, took another sip from his glass and said
Open up your ears and hearts
You put a big bird in a small cage and he'll sing you a song

That we all love to sing along
To the sound of the bird that mourns

[...]

P de Postais (IV)


Archaelogical Museum of Thessaloniki:
Glass birds from tombs of the Roman period.

[Obrigada, Ricardo]


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

P de (Os) Pássaros em Volta (XIX)

[Clicar para ampliar]



Ponta Delgada / 2011

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

N de "Na casa de Julho e Agosto"

CORPO SANTO


The ocean surface flexes and I am schooled with the fish,
flanked by the tail and tilt of their angled balance,
the cold intimacies of their flesh.
I could dedicate myself to this:
the pursuit of cadences in salt and warmth
and the sinuous will of this many-ribboned shoal
as it streams into rods of turquoise and gold...
I pitch between the water's sides,
its massy, burnished sheets, and am lost to its permissions
and slipways and its taste, as the milky spores
and coral globes of last night's spawning season
thread through my fingers and briefly luminesce,
as if I had somehow found a back door
and, uninvited, entered grace.


- Fiona Benson

I de (A) Insustentável Leveza do Ser


 Ilhéu de Vila Franca do Campo, 16/08/2011

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

B de Biorritmo (CII)



"[...]
 Uma estrela no céu, um tesouro no mar
 [...]"

T de "The days grow short..."

MUDANÇA DE ESTAÇÃO


para te manteres vivo - todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio - uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes
que se enforcam com a corda dos noctilucos
estendida nesta mudança de estação


- Al Berto

terça-feira, 23 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXIII)

CASTELO DE ALMEIDA LIMA


Do lado norte da ilha fica a minha casa. O mar
lança-se contra os vidros, vence a distância da vila, ruas e praças.
Setembro, em saudação
deposita à entrada do quarto a renda das marés.
Morreu ontem. E hoje desarmei o oratório. Os santos, as
pagelas, a humilde folha de oração
as imagens olhavam-te, gratas, de um a outro e outro Inverno
de uma vida
guardavam-te os lábios, as palavras no dia da sua festa
eram os teus hóspedes no norte desta ilha – ao longe, desde o cimo do
outeiro, a voz enleadora dos romeiros adormece a despedida e
na rua os caveleiros de São Pedro, celeste mensageiro, apagam a memória.

Do lado norte da vila, a minha casa
onde o vento demoradamente fala dos cimos do mar, guardo
as imagens, escolhidos companheiros de toda uma vida, no fundo
gavetão da cómoda. Estava vazio, à sua espera. (Vão sentir-se bem,
como se aguardassem a ressurreição dentro de um cesto entrançado.) Nas
gavetas cimeiras, toalhas de antiga sombra, lençóis, linho bordado
espera a visita do primeiro sono de nenhum recém nascido e a mortalha.
No oratório, a Cruz vai permanecer.
por detrás das portas fechadas. Ele sabe a tristeza da ilha, o nome da [vila, o
número da porta, o fumo pesado, azul ferrete da pequena cratera que [vai

da terra húmida para o azul cinza do céu. Ao longe, muito ao longe, na fronteira
nenhuma do mar
eu sou, eu sou agora a melancólica rapariga, a
trança ainda por fazer, tormento do laço tão azul, amarrotado.


João Miguel Fernandes Jorge, Castelos – I a XXXV,
Lisboa: Averno, 2004


Ponta Delgada/2011


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" - XXI b

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXIX

Vejo os amigos intensos que passaram
da paixão ao amor e com ternura os vejo.
Não pertencem ao grupo dos que nos fazem
sentir ignorantes, sempre com citação
ou referência a propósito, por exemplo,
de um fogo na serra, de um cão que atravessou
a estrada. Nem ao grupo dos que colam
voz transformadora a cada partícula de real.
Os amigos intensos se fazem vénias
é por brincadeira, eu com eles concluo
do péssimo estado do mundo. Era bom, era,
que fosse apenas Portugal. Os amigos
intensos não têm uma receita para me dar,
sabem que não há duas passagens iguais
da paixão ao amor, mas que é preciso
passar. Quando estão juntos os amigos intensos
são terra e ar, e água e fogo, palha e prata,
luz e oiro, murmúrio de folhas, eterna
canção, jura infantil, pêndulo forte, morna
parede, jardim selvagem, desdém que pensa,
ritmo que vem lá de muito longe, paixão
que soube passar ao amor, encontro e calor.


Helder Moura Pereira, A tua cara não me é estranha,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXII)

E o regresso foi assim:



Quanto é doce quanto é bom
No mundo encontrar alguém
[...]

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXI)

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje eu quero paz de criança dormindo
E abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de irmãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda pureza que eu quero lhe dar


- Dolores Durán

domingo, 21 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperança@ na vulcanologia" (XX)

Adormeci e acordei com esta música na cabeça:


sábado, 20 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XIX)

Conservo dos jardins da cidade a impressão dum calor abafado, mornaço, duma sombra fechada, dum silêncio religioso e dum passarinho a cantar... Esta solidão com árvores abandonadas (eu ando sempre na ponta dos pés dentro dos grandes jardins, porque comunica logo comigo uma alma estranha ali encantada e presente) fixou-se-me para o resto da vida. As casas são sempre as mesmas casas, os homens são sempre os mesmos homens de toda a parte. Os jardins não.


Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas - Notas e Paisagens,
Açores: Artes e Letras, Setembro de 2009, pp.228 e 229

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XVIII)

Ouviu-se a Nordeste, trazendo consigo mais um amigo:


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XVII)

Ouviu-se hoje, em mais uma chegada feliz:



[...]
I'm going in I’m going in
I like to see you from a distance
And just barely believe
And think that
Even lost and blind
I still invented love

terça-feira, 16 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XV)

 Ouviu-se hoje, a caminho do sítio mais bonito onde alguma vez nadei:



Don't you have a word to show what may be done
Have you never heard a way to find the sun
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Won't you come and say
If you know the way to blue?


Have you seen the land living by the breeze
Can you understand a light among the trees
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Tell us all today
If you know the way to blue?


Look through time and find your rhyme
Tell us what you find
We will wait at your gate
Hoping like the blind.


Can you now recall all that you have known?
Will you never fall
When the light has flown?
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Won't you come and say
If you know the way to blue?

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

S de Summertime (II)


Iris Murdoch, A Year of Birds, with wood engravings by Reynolds Stone,
London: Chatto & Windus - The Hogarth Press, 1984

domingo, 14 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XIII)

De facto, Miguel, come-se muito, muito bem no Cais 20.
Por exemplo, estas lapas:



sábado, 13 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XI)

Para o David


 



O sucesso de um risotto depende da preparação do caldo.



Recheio de meia morcela e polpa de seis maracujás.



Salteia-se a morcela.



Junta-se a morcela salteada e a polpa de maracujá ao arroz.



Acrescenta-se o queijo ralado.



Esta manteiga açoriana é óptima, mas nunca se deve juntar manteiga ao risotto.



Empratamento com vista para um pátio.



SAPATEIA AÇORIANA
[risotto de morcela e maracujá de São Miguel,
com Terras de Lava Branco no caldo e a acompanhar]
© Chef Rui Miguel Ribeiro *


* “A maravilha do risotto é não dar trabalho nenhum.”

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (X)

AQUI

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (IX)


NINHOS À CORISCO
[Pasta fresca, com cogumelos, courgette e poejo]
© Chef Rui Miguel Ribeiro 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (VIII)

Ouviu-se hoje, de regresso ao mundo:



[...]
There's a blaze of light in every word
It doesn't matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah
[...]

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (VII)

Para o Miguel:





[Isto são apenas os acompanhamentos. Imagina os pratos principais...]

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (VI)

Uma manhã de praia em São Miguel:


PRAIA DE SANTA BÁRBARA


No extremo da vila ficam as terras do morgado
Gusmão, ruína na oscilação dos dias e das noites – casa e
capela. Também podes passar uma espécie de cabo-não a
ser dobrado antes da aurora.
Pode varrer-te a face a esquiva palidez de quem teve morte
violenta – a cruz é o que quer dizer na humilde cimalha. Arde
de pavor pelo ocaso frio das estrelas. Não temas o esfacelado
rosto, a sua história fura-
-se de segredo. Guarda contigo a cor ambarina da íris, as
mãos, lábios estreitos de desejo. Sentirás a desarmonia do
pulso, se lhe tocares. Mas deixa os mortos entregues ao mal
dormido juramento. Não penses que querem um beijo ou a natureza
vegetal de um lírio. Eles vão pela fundura cega do Gólgota.

E se seguires pela linha da costa
se disseres adeus à neblina que nos cimos guarda o vaga-
-lume da Lagoa do Fogo, então
estás entre o mar e o céu e o negro calhau rolado e as coisas
contidas num ruir revolto. Som cavo e logo se espraia
que se desfaz e renasce ao redor a
coberto de lendas marinheiras e mapas. Revoa a prata de escamas
nas vogais perfeitas de Bárbara, onda a quebrar os ossos na
roda o martírio
trovão de lonjura
eco de sal
sem castelo de torre. E
sentirás na rede escondida do sangue
tranquila rosa de salitre.


João Miguel Fernandes Jorge, Antologia Açoriana (2011)

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (V)


BATATAS EMPADADAS
(batata-doce, com tiras de novilho, poejo e funcho, no forno)
© Chef Rui Miguel Ribeiro

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (IV)

Ouvia-se hoje, longe do mundo:


S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (III)

CEMITÉRIOS JUDEUS


Também eu tenho mortos sob
a praça e a rua da cidade
e quando me sento, pelo fim de
uma tarde, no conforto dos pesados
bancos de madeira
das igrejas mais antigas
repouso sobre os corpos mortos que
talvez tenham sido lugar de vida. Então
eles também me pertencem e os lábios
como podem dizer palavra
de oração?

E estando vivo o meu pai já não o tenho
porque perdeu o meu nome.

O amarelo, a cor da alegria, junto a
um rosto que se vai esquecer.

Nem os meus sonhos são de um amante
forte. (Resposta a Yehuda Amikai.)


João Miguel Fernandes Jorge, Antologia Açoriana (2011)



Cemitério Judaico de Ponta Delgada
[construído no ano de 1834]
 

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia"

A VOZ


A voz
que entoava
essa ave pequena
o mínimo pássaro

não é outra coisa
mais
do que
minha alma

hei-de
ouvir
canção

por
sobre a névoa
da ilha


João Miguel Fernandes Jorge, Antologia Açoriana (2011)




terça-feira, 9 de agosto de 2011

K de Kissing the sun (II)

Para M.,
no nosso aniversário



Marc Chagall, "Anniversaire", 1923

domingo, 7 de agosto de 2011

S de Summertime


Risotto de meloa, gambas e manjericão
num jardim só para amigos

R de Revisões da matéria dada - V b



"Belle, une rose qui a joué son rôle... mon miroir, ma clef d'or, mon cheval et mon gant sont les cinq secrets de ma puissance. Je vous les livre. Il vous suffira de mettre ce gant à votre main droite, et il vous transportera où vous désirerez être."

Jean Cocteau

R de Revisões da matéria dada (V)

J de "Jardins sous la pluie" - II b



[Obrigada, Luis]

sábado, 6 de agosto de 2011

J de "Jardins sous la pluie" (II)






Chuva de Verão em Santa Cruz,
01/08/11


B de Brincar com ossinhos (V)

OS ÚLTIMOS SERÃO TODOS


Depois de três anos
se não compra a campa
tem que exumar a ossada
pôr na gaveta

A prefeitura fez campanha
Minha família comprou uma
Já pusemos lá minha sogra
meu cunhado, o pai dele

No fundo fica o ossário
para onde vai
o defunto fresco -
um após outro
em camadas

Exumar depois é triste:
para tirar
quem ficou mais embaixo
tem que tirar todo mundo


- Fabio Weintraub, Baque (2007)

B de Biorritmo (CI)

Vá-se lá saber porquê, mas desde ontem à noite que não consigo tirar esta música da cabeça...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

C de Começar o dia com um livro novo* (III)


* Neste caso, a primeira página da primeira edição do primeiro livro de Maria Gabriela Llansol.

C de Cachaça



Tem gente que ama, que vive brigando
E depois que briga acaba voltando
Tem gente que canta porque está amando
Quem não tem amor leva a vida esperando


Uns amam pra frente, e nunca se esquecem
Mas são tão pouquinhos que nem aparecem
Tem uns que são fracos, que dão pra beber
Outros fazem samba e adoram sofrer


Tem apaixonado que faz serenata
Tem amor de raça e amor vira-lata
Amor com champagne, amor com cachaça
Amor nos iates, nos bancos de praça


Tem homem que briga pela bem-amada
Tem mulher maluca que atura porrada
Tem quem ama tanto que até enlouquece
Tem quem dê a vida por quem não merece


Amores à vista, amores à prazo
Amor ciumento que só cria caso
Tem gente que jura que não volta mais
Mas jura sabendo que não é capaz


Tem gente que escreve até poesia
E rima saudade com hipocrisia
Tem assunto à bessa pra gente falar
Mas não interessa o negócio é amar...

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

V de Vício (VIII)

Um dos problemas de se comprar um livro 60 anos depois do seu lançamento, é que já se chega demasiado tarde para coisas destas:

segunda-feira, 1 de agosto de 2011