Sempre acreditei que só as palavras
me saíam da boca, e eram elas
que me podiam adiar a morte.
Hoje sei que me sai da boca um fio,
transparente e tenaz como uma insónia,
que te atou à minha vida para sempre.
Não há cigarras nas árvores. Os besouros
fugiram. Apenas os grilos vêm beber aos
degraus das casas. O cão rodopia sobre
si mesmo encantado com a luz, mas a
mulher vive indiferente a tudo isso ______
Se houvesse aqui monumentos antigos junto ao mar, ruínas, arcos, cemitérios, mas não, não existe nada,
diz a mulher.
É o seu corpo agora que se enrola no
vento à procura de um espaço pequeno
onde possa esconder os objectos e rezar.
- Destrói os teus escritos, já que não tens fé neles.
- São provas contra mim.
- E se todos os teus leitores te absolverem?
- Serei eu a denunciá-los, por serem meus cúmplices.
[...]
Se tivesse coragem, só escreveria poemas anónimos.
*
Escolher uma filosofia? Um taoismo da raiva.
[...]
A escreve um poema. B continua-o num desenho. Baseando-se nesse desenho, C compõe uma música. Graças a ela, D consegue aperfeiçoar os movimentos de um motor. Este último permite a E descobrir uma nova cura, que inspira F na sua teoria sobre a evolução do pensamento humano. G aplica a teoria de F em poesia. G e A são a mesma pessoa. Ou então: um poema só é válido se a sua última palavra for também a primeira palavra de dez poemas a escrever, a primeira pincelada de cem quadros a pintar, a primeira nota de mil sinfonias a compor. A poesia é indivisível e supera o poema, o seu tapa-buracos.
*
Tudo é desespero na poesia: o achado ainda não é o poema, a perfeição já não é o poema.
[...]
Escreve como se as tuas obras fossem já póstumas, e a tua língua uma língua morta. Mas: traduz todos os dias o teu poema da véspera na tua língua de amanhã.
Ele podia ouvir os cães à distância, e os seus latidos
levaram-no até à capela que se erguia junto à estrada,
mas não entrou nela. Isto ficava aquém de rezar, e os cães negros eram apenas os seus pensamentos de noites de terror
através das rígidas e gratificantes florestas de Santa Cruz;
o coração dele coxeia, borbulhando sangue como bagas no seu caminho,
três ou quatro cristas de palmeira, e os berros loucos dos papagaios
são como o rumor dos testemunhos num julgamento obsceno,
mas atravessam o céu róseo e desvanecem-se, e regressa o consolo.
Na quente e oca tarde, um grito atravessa o vale,
um falcão plana, e atrás da chama das perpétuas uma colina arde
com um sulco de fumo azul; isto é tudo o que há de importante.
Ó folhas, multiplicai os dias da minha ausência para os subtrair
à humilhação do castigo, à emboscada da desgraça
pelo que são: excremento que não merece nenhum tema,
nem o nó e o aprumo de um cedro ou a erva branda,
apenas o desdém da indiferença, de suportar a tempestade de abusos
como o ágil movimento dos ramos que se agitam com a graça
da resistência, curvando-se do mesmo modo que o bambu obedece
às rajadas horizontais de chuva, não enquanto martírio
mas enquanto complacência natural; abaixo dele havia uma casa
em que sem qualquer ferida era mais do que bem-vindo,
e cães dóceis vinham até ao portão atraídos pela sua voz.
quando eu já cá não estiver
para gostar das coisas a que dei um nome
quem lhes dirá que o meu estava dentro delas
como uma folha de tília
desenhada no frio de uma ardósia?
[...]
Emanuel Jorge Botelho, Os ossos dentro da cinza,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos,
A vida é demasiado séria para eu continuar a escrever. A vida costumava ser mais fácil, e muitas vezes agradável, e então escrever era agradável, embora também parecesse sério. Agora a vida não é fácil, tornou-se muito séria e, por comparação, escrever parece um pouco disparatado. Escrever não é, muitas vezes, sobre coisas reais, mas depois, quando é sobre coisas reais, está muitas vezes a ocupar o lugar de algumas coisas reais. Escrever é demasiadas vezes sobre pessoas que não aguentam mais. Tornei-me entretanto uma dessas pessoas. Sou uma dessas pessoas. O que eu devia fazer, em vez de escrever sobre pessoas que não aguentam mais, é pura e simplesmente desistir de escrever e aprender a aguentar. E prestar mais atenção à própria vida. A única maneira de me tornar mais inteligente é não voltar a escrever. Há outras coisas que eu devia estar a fazer em vez disso.
Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril,
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?
Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.
Frésias,
ó pura memória
de ter cantado –
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
– que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?
Não sei se o fio do horizonte separa ou junta dois azuis. Faz rimar azul com azul, mas é talvez falsa, essa rima. O finito e o infinito, e ao meio uma só linha a cerzir azul com azul: céu e mar não rimam, e no entanto haverá rima mais perfeita? O mar, e depois dele o outro azul (que às vezes parece negro), assim por esta ordem. Ou é apenas falsa rima, a esconder, noite com noite, uma outra noite maior e mais dispersa?
[...]
Rosa Maria Martelo
in Siringe, com capa de Luis Manuel Gaspar e arranjo gráfico de Inês Mateus,
O primeiro cuco e as primeiras brisas primaveris. Agora, nas ilhas mais ao sul, as primeiras cigarras começam a saudar a luz do Sol e as andorinhas a construir os ninhos nos beirais. (Destrói o ninho da andorinha e vais ficar com sardas, diz a lenda popular. Outra superstição diz que haverá uma morte na casa.) No primeiro dia do mês, os rapazes fazem uma andorinha de madeira, enfeitam-na com flores e vão de casa em casa, pedindo moedas e cantando uma pequena canção que varia de lugar para lugar na Grécia. Este costume vem da mais remota Antiguidade e é mencionado por autores gregos antigos.
Em algumas ilhas do Mar Egeu, os camponeses acham que dá azar lavar ou plantar vegetais durante os três primeiros dias de março. Se se plantar árvores, estas murcham. O sol de março queima a pele; e um fio vermelho e branco no pulso não deixa que os nossos filhos tenham queimaduras solares.
[...]"
Lawrence Durrel, As Ilhas Gregas,
trad. de Carlos Leite, Lisboa, Relógio D'Água, 2016
"[...] Quando vivia em Londres, o terror era quase insuportável. Não conseguia escapar aos homens; as suas vozes entravam pelas janelas, e até as portas trancadas se revelavam frágeis salvaguardas. Saía de casa para combater as minhas alucinações, e mulheres de rua miavam-me, homens carentes e furtivos lançavam-me olhares de cobiça, trabalhadores pálidos e exaustos passavam por mim a sorrir, com o seu olhar cansado e o seu andar ansioso, como veados feridos a pingar sangue, e pessoas idosas, curvadas e mortiças, cruzavam-se comigo, falando sozinhas, absolutamente indiferentes a um séquito esfarrapado de crianças trocistas. Refugiava-me então nalguma capela, mas mesmo aí a minha perturbação era tão grande que me parecia que o pregador palrava, encadeando Grandes Pensares tal como o Homem-Macaco fazia; ou numa biblioteca, e aí os rostos concentrados nos livros lembravam-me apenas criaturas pacientes à espera da sua presa. Os rostos vazios e inexpressivos das pessoas nos comboios e nos autocarros eram particularmente repelentes; eram tão parecidos com seres humanos como o seria um cadáver, de modo que não me atrevia a viajar a menos que tivesse a certeza de estar sozinho. E nem eu parecia ser uma criatura racional, mas apenas um animal atormentado por uma estranha perturbação do seu cérebro, que o obrigava a vaguear sozinho como um carneiro doente.
You are tired,
(I think)
Of the always puzzle of living and doing;
And so am I.
Come with me, then,
And we'll leave it far and far away—
(Only you and I, understand!)
You have played,
(I think)
And broke the toys you were fondest of,
And are a little tired now;
Tired of things that break, and—
Just tired.
So am I.
But I come with a dream in my eyes tonight,
And knock with a rose at the hopeless gate of your heart—
Open to me!
For I will show you the places Nobody knows,
And, if you like,
The perfect places of Sleep.
Ah, come with me!
I'll blow you that wonderful bubble, the moon,
That floats forever and a day;
I'll sing you the jacinth song
Of the probable stars; I will attempt the unstartled steppes of dream, Until I find the Only Flower, Which shall keep (I think) your little heart While the moon comes out of the sea.
Já é tarde. Os grunhos do andar de cima terminaram, enfim, de celebrar estridentemente a vitória do Benfica em Bordéus. Na companhia de Chet Baker, estive a ler As Grandes Ondas e senti-me, uma vez mais, visitado por um fogo limpo que cresce a cada leitura. Até um descrente, como eu, acaba por encontrar ali a única religião possível, onde o amor (pelo que é belo e verdadeiro) e o ódio (pelo que é vil e interesseiro) sabiamente se equilibram numa corajosa Guerra Santa.
Foi sempre assim: há os que esculpem versos, recorrendo a aclamadas e simiescas habilidades ou a revoltas de papelão, e existem, nos antípodas (escandalosamente ignorados), os poetas incondicionais, na urgência do seu grito, sussurro ou pranto. Tive a sorte de conhecer alguns desses príncipes sem reino e, em particular, António Barahona. À partida, dir-se-ia, muito pouco nos poderia aproximar. Mas ignorámos ambos, até que fosse chegado o momento, que a amizade é uma ponte incalculável e que o fundo respeito pela língua que partilhamos se tornou uma moeda rara, desprezada por banqueiros, políticos ou linguistas que se deleitam com novas escravaturas, e que tudo procuram traduzir em números.
*
Ao poeta, se realmente o for, nada pode ser alheio. Sabe-o, crua e visceralmente, António Barahona: «E pergunto-me por que escrevo, do mesmo modo que pergunto por que respiro; e reaproprio-me de tudo, a fim de vislumbrar o Todo, na tentativa de converter em harmonia a dissonância do mundo». Daniela Gomes foi sensível a este apelo, permitindo que as rosas rotativas do poeta se fundissem no mar inominado em que corpo e espírito se equivalem, para que o verbo sangre e resplandeça.
*
Poucas grandes ondas tenho visto assim tão altas. Devia oferecer-vos, em vez deste texto, rosas brancas e vermelhas, coisas de cheiro feliz.
- Manuel de Freitas
in Telhados de Vidro n.º 18, Lisboa, Averno, Maio de 2013
Regressámos à praia,
esgotada essa série de acidentes
em que o menor foi o amor,
ao contrário do que se previa.
Deixámos a maré subir
na memória, cancelar-nos
a areia sob os pés, levar
até os restos do navio encalhado
que ressuscitava todas as manhãs,
corpo de ossos já limpos.
Podia ter sido o meu.
Somos, afinal, dos últimos:
desfiamos gerações, contando onda após onda
após onda, até ao mergulho final.
E escrevemos como vivemos,
na espuma ou nos vidros embaciados
da cidade, com a teimosa convicção de que
nada ficará – nós não ficaremos.
"Caminhavam e dormiam contra o ritmo do mundo. [...] Atiravam ao rio os jornais, e isso era a sua oração: serem levados, erguidos, pisados, sem sentirem no homem o osso da dor instalada no esqueleto, mas só o pulsar do fluxo do sangue. Nada de combates, de violências, de despertar."
Anaïs Nin, "A Casa Fluvial", Debaixo de uma Redoma,
You talk like Marlene Dietrich
And you dance like Zizi Jeanmaire
Your clothes are all made by Balmain
And there's diamonds and pearls in your hair, yes there are
You live in a fancy apartment
Off the Boulevard Saint-Michel
Where you keep your Rolling Stones records
And a friend of Sacha Distel, yes you do
But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
I've seen all your qualifications
You got from the Sorbonne
And the painting you stole from Picasso
Your loveliness goes on and on, yes it does
When you go on your summer vacation
You go to Juan-les-Pins
With your carefully designed topless swimsuit
You get an even suntan on your back and on your legs
And when the snow falls you're found in Saint Moritz
With the others of the jet-set
And you sip your Napoleon brandy
But you never get your lips wet, no you don't
But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Won't you tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
Your name, it is heard in high places
You know the Aga Khan
He sent you a racehorse for Christmas
And you keep it just for fun, for a laugh
They say that when you get married
It'll be to a millionaire
But they don't realize where you came from
And I wonder if they really care, or give a damn
Where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
I remember the back streets of Naples
Two children begging in rags
Both touched with a burning ambition
To shake off their lowly-born tags, so they try
So look into my face Marie-Claire
And remember just who you are
Then go and forget me forever
But I know you still bear the scar, deep inside, yes you do
I know where you go to my lovely
When you're alone in your bed
I know the thoughts that surround you
'Cause I can look inside your head
Não nos induzas em tentação. sed libera nos a malo. Livra-nos, se puderes,
das angústias sem fim, das noites de insônia,
dos sonhos possíveis que se tornam impossíveis.
Livra-nos do assédio dos fracos,
da inconsistência das coisas,
do medo sem motivo, das confissões
excessivas e do sucesso,
que tira a nossa liberdade
e é capaz de iludir os mais sagazes.
A Terra precisa tanto de mais parques de estacionamento
como nós precisamos de mais remendos de asfalto
implantados no rosto e nos órgãos genitais
para que minúsculos discos voadores
do Planeta dos Germes Extraterrestres
possam estacionar em nós como as moscas
que E. Dickinson ouviu zumbir
à volta da sua cabeça quando morreu.
Mulher, casa e gato.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
[...]
Era bem claro, nessa noite,
o quanto a sua música
se afastava de "other forms
of boredom advertised as poetry",
denúncia que se mantém válida.
Não serão bússolas duradouras
- tudo, enfim, falece -,
mas são palavras que nos protegem
da avalanche dos dias e dos meses,
destas poucas horas a que chamamos nossas.
Uma maneira de voltar a morrer?
Talvez,
quando até nas cinzas encontramos lume.
Manuel de Freitas
in pequena morte: poemas, Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2008
A última vez que te encontrei foi diante do Banco Qualquer Coisa. Verificavas o preço das acções. Elas baixaram, não há dúvida. Talvez isso prejudique o teu futuro na América e até mesmo a tua actual capacidade para os estudos. És fraco e não podes impedi-lo. Se fosses resoluto poderias ordenar a um dos responsáveis: "sobe-me essas acções, badameco!"
Não confio já nos santos ou nos poetas e muito menos nos heróis.
Tudo é agora uma questão de mais ou menos brutalidade, de maior ou menor capacidade de matar. Impunemente - é preferível.
As acções baixam - não há dúvida.
Manuel de Castro, "Hans e a mão direita"
in GRIFO - Antologia de inéditos organizada e editada pelos autores, 1970
Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne,Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar --mas será involuntariamente? -- bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso. No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará. Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim. A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.
Adília Lopes, Le Vitrail La Nuit/A Árvore Cortada,
Lisboa: &etc, 2006