domingo, 30 de julho de 2017

C de "Chama a luz com um assobio" (II)


CASTELO DA BAIXA-CHIADO


As escadas, no coração da terra.
à hora tardia de julho. Cantava, na galeria
deserta, um mundo a que nunca pertenci.

Cantava, cantava sempre. A ondulação do verso subia
das águas fundas do Tejo, desfazia num murmúrio
a mágoa da sua voz

lançava, não a parede
de um fado, mas o túmulo do destino: violência inerte e fértil
dissolvia no céu vazio do verão

nos azulejos em eco
viajava no pátio e nas veias da cidade
sem valor e sem préstimo a que possa recorrer, sem
vislumbre de qualquer esperança

era a toada mercadora dos vermes brancos do fado
«que queres ouvir e ver e tão perto?» (parecia perguntar-me) e
avançava na espessa noite da terra
deteve-se no meu caminho

junto às ribeiras do rio, perdia-se
resto de lívida luz. A voz já não cantava
medida da perdição

bem próximo da minha pele. Alguém
apaixonado, compreenderia num olhar
o que não tinha nome em nenhuma outra língua

nem lugar em nenhuma outra pátria. A carruagem corria (taça de
metal branco) o timbre da sua voz
pela noite de Lisboa
sorte que está connosco
pronta a gerar plantas que envenenam a vida

num leito de folhas mortas.


João Miguel Fernandes Jorge, Castelos I a XXXV,
 Lisboa: Averno, 2004

sexta-feira, 28 de julho de 2017

segunda-feira, 17 de julho de 2017

R de 'Rezar na era da técnica' (XXV)


Um dos poemas lidos ontem, 
no Paralelo W, pelo Nuno Moura:




in Poemas Ameríndios - mudados para português por Herberto Helder,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997

sábado, 8 de julho de 2017

E de Efeito Borboleta (V)


R de Regresso ao/do Trabalho (LI)





à saída do turno, na mudança de turno
de novo a névoa pelos ossos
a alma trata de si e por favor não me fales da noite
o tempo perdido pelo caminho
com essa coisa comerciante

mãos nos bolsos
subindo a estrada, entre as canas da índia
dentro das ruas como nos desenhos
até chegar a estas palavras

ardeu tudo há muito tempo
andamos com restos no bolso, um minuto por vigiar
como almas penadas, aquelas que erram
sem poderem regressar
nunca
ou não era bem assim


João Almeida, A Formiga Argentina,
Lisboa: Averno, 2005




[ID, 'Aqui a tua casa: esta névoa', São Miguel 015]



*



PARTE POÉTICA


Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos 
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados, 
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre. 
Mas entretanto já é hora de dormir. 
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.


José Miguel Silva, Últimos Poemas,
Lisboa, Averno, 2017

terça-feira, 4 de julho de 2017

segunda-feira, 3 de julho de 2017

C de "(O) começo de um livro..." (VI)


Não se regressa aos mortos:
eles expulsam-nos de qualquer regresso.
[...]




Rui Nunes, Lampedusa,
com arranjo gráfico de Luís Henriques,
Lisboa, Paralelo W, 2017

segunda-feira, 26 de junho de 2017

C de Carrosséis (XVIII)




Nunes da Rocha, Poemas obsoletos de um bicho imóvel,
Lisboa, Averno, 24 de Junho de 2017

C de Carrosséis (VII)




"I used to know a little square/so long ago, when i was small/all summer long it had a fair/wonderful fair with swings and all/I used to love my little fair/and at the close of every day/I could be found, dancing around/a merry-go that used to play//ah, mon amour/à toi toujours/dans tes grands yeux/rien que nous deux (...)"

sexta-feira, 23 de junho de 2017

P de Poética (LXII)





Ricardo Marques, A Noite [Variações],
com capa a partir de colagem de Rui Pires Cabral e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Alambique, 2017


quarta-feira, 21 de junho de 2017

P de Pele (V)




[Imagem de Splendor Solis, 
um tratado alquimista alemão de 1582]

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O de "Onde se lê 'gato'..." (XII)


QUE FAÍSCA FUGIU DO TEU OLHAR *


Nunca consegui despedir-me
dos meus mortos. Porque partíamos
para outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.

Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre doméstico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sítio de partidas
que ele conhecia.

Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir a porta. O latir
de todas as chegadas. A probidade
do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.

Só os nosso animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de
nenhum hades, nenhum céu.


* verso de um poema de Ruy Belo


Inês Lourenço, Logros Consentidos,
Lisboa, & etc, 2005




[O Barnabé,
fotografado pela sua Inês]

domingo, 4 de junho de 2017

sexta-feira, 2 de junho de 2017

V de Vida (IX)




Como falava ele ao pequeno-almoço,
quando abria o verso
sobre a onda que nunca rebentava?
Riscava o coração com aparos
de prata
e num êxtase diário subia ao sótão das palavras
a perguntar por Deus?

Qual a distância entre a criatura
e esse muro indiscreto de suor e sonhos
esse labor de mãos sujas de tinta
essa estrada de nada
e de madeira
esse quadro infantil retido na sanita
esse cuco soturno que afinal é um logro
esses passos perdidos na flanela do tempo
a pequena sílaba que descia do queixo
num líquido sabor a maresia
esses gestos de enfado e paciência
que ajudam a memória a subir ao palco
esse pulso cortado pela lâmina de barba
por fazer e é preciso chegar cedo ao concerto?

O gato dorme no colo.
O cão sabe de cor um soneto de Antero.
A rodilha das mãos espremida
em desespero de causa.
A carne sempre à espera de um talho mais discreto
nos sons, no sangue, na exposição das entranhas.
Chegou o intervalo e a história não acaba.
Acabou o poema e a vida ainda não chega.


Armando Silva Carvalho, Lisboas,
Lisboa: Quetzal, 2000

quinta-feira, 1 de junho de 2017

P de Pássaros anónimos (X)


O CORVO


O céu desta cidade não me vence.
Ao ver a lua cheia num rasgão de nuvens
esqueço-me das casas da minha casa,
das ruas da minha rua, das vidas da minha vida.
Há uma noite acesa no meu mundo.

E tu deitas na mesa.
Primeiro as mãos que não querem esperar
pelo corpo à beira do colapso
que julgo financeiro
em matéria de sexos pois são muitos e novos
os que tu disfarças.

Depois vem o aparelho da fala com a tua metafísica
varrida por vassouras de metal pungente
que correm pelo teu rosto e tu tão bem disfarças
com a faca do riso entreaberta.

Por fim o teu cabelo. É belo olhá-lo.
E belo vê-lo pousar como um corvo
na toalha branca do jantar.
E ver por fim a natureza que te ocupa
o órgão do prazer,
a música de Bach ou o ramo de luz
que cresce dos teus olhos.

Não vejo o teu coração, deixei de ver a lua.
E o céu desta cidade não me vence.


terça-feira, 23 de maio de 2017

domingo, 21 de maio de 2017

D de Da Capo




[Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
 com capa de Luís Henriques, Lisboa, Averno, 2013]


*



sexta-feira, 19 de maio de 2017

P de (Po)ética - LIX




"[...]
que el arte es largo y, además, no importa."

- ANTONIO MACHADO

segunda-feira, 8 de maio de 2017

P de Postais - V c


[...]
Primeiro olha para mim. Muito. Diz-lhe Eu só sei
fingir e correr
pela calada. Finjo que te amo quando caminhamos
por uma zona onde podemos ser assaltados.
Eu finjo a coragem e o acolhimento.
Chego-te para mim para que não percebas como o
meu medo gelou esta zona perigosa. Só que eu começo
a tremer e sugiro-te um pouco desse frio.
Então trememos os dois
no frio do meu medo, de braço dado, passo mais rápido,
confundidos, de braço dado, ausentes um do outro,
rasteiros.
Em silêncio após vários dias, continuamos.
E ainda hoje continuamos.

[...]


Nuno Moura, A Minha Casa,
Lisboa, Tea For One, 2016





[ID, 'Parallel Walks', 013]

terça-feira, 2 de maio de 2017

S de Self (III)


77


começa a alvorada como se houvesse outras mais
irá florir a ameixoeira na varanda
e a indestrutível batata-doce

perdi um amigo
talvez dois
desencontrámo-nos, quebranto de encruzilhada
ou por simples fastio

é verdade que não sou íntegro
nem honesto, caio por pouco sem ninguém saber

para fugir à dor na estrada desavinda
por um afago de mão enganada na barriga

mas hoje imponho-me a alegria da rectidão
arrumei a roupa e tomei banho

saio sem pecado para o conhecimento da manhã
aonde quer que me leve


João Almeida, Um milagre no caminho,
Lisboa, Averno, Maio de 2011