terça-feira, 31 de maio de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXIII

Deixa de espreitar para o outro lado do que és, Maynard, de te esconderes nas esquinas de ti próprio, nas esquinas das ruas onde te perdes. Esse jogo não dá nada. É por de mais cansativo e inútil. Há aquela história do homem, Maynard, que quis fugir à própria sombra, e parece que foi já há muito tempo, e dizem que ele ainda anda a correr, que andará a correr pelos tempos fora, e o raio da sombra nunca mais o larga. Já sabes que a maior parte da gente que te rodeia é uma cambada. Ao fim e ao cabo, desde o dia em que a mamã deu um tipo à luz, ele começa a aprender a existir no inferno, a coexistir com os vários infernos, que estão dentro e fora das pessoas, que as pessoas trocam umas com as outras, mercadoria que se chama congénita fraqueza humana, que é traição, que é tédio, que é apática observância de conveniências, que é mentira, que é dúvida. E depois há umas pequenas alegrias pelo meio, que foram mesmo inventadas para tornar menos monocórdica esta grande e excepcional angústia que é o ferrete do homem contemporâneo (zás, catrapás, foi um lindíssimo fim de período, uma frase de ribalta). Se estou a brincar contigo, Maynard, é para ver se te desfaço a pompa, digo bem, a pompa do chamado juízo crítico, pois tu acabas mesmo por fazer da auto-análise um imenso carnaval de lamentações. Não és corajoso, Maynard, és cobarde. A maioria dos outros, ao menos, são safardanas sem andarem a esconder-se nas esquinas de si próprios, à espera que passe uma aragem de bons sentimentos para nela se refrescarem. Preferem não pensar nisso, e pronto. Comem o que podem, dormem o que podem, deitam-se com as mulheres que podem, que se lixe o resto, que se lixe o resto. Mas tu acabas sempre nisto, Maynard. O inefável tribunal de ti próprio: és o acusado, o juiz, o advogado e o júri. E és o público. És, principalmente, o público, porque estas coisas sem público não têm graça nenhuma. E antes de continuares a desafiar-te, tenho a dizer-te que já sei o que vai acontecer: vais considerar-te culpado, mas tens a atenuante da tal angústia, e isso até é um bocado aristocrático, fica-te muito bem, Beethoven para a esquerda, Proust para a direita, e ainda assim uma grande margem de melancolia, e depois a certeza de que um homem só é verdadeiramente solidário com a sua solidão. Deixem-no passar, diz o povo, deixem-no passar, porque ele sofre muito e é grande, olha o sofrimento bem nos olhos e tem a coragem de continuar a viver. És um narciso da merda, Maynard. As piruetas que tu fazes para demonstrares a ti próprio que não és pior do que os outros.


- Dennis McShade, Requiem para D. Quixote (1967)

B de Biorritmo (XC)

Ouviu-se três noites seguidas. E dançou-se numa delas:

domingo, 29 de maio de 2011

D de Davam grandes passeios aos domingos

DIMANCHE



Entre les rangées d'arbres de l'avenue des Gobelins
Une statue de marbre me conduit par la main
Aujourd' hui c'est dimanche les cinémas sont pleins
Les oiseaux dans les branches regardent les humains
Et la statue m' embrasse mais personne ne nous voit
Sauf un enfant aveugle qui nous montre du doigt.


- Jacques Prévert




H de (The) Heart of Saturday Night

sábado, 28 de maio de 2011

B de Biorritmo (LXXXIX)




[...]
Les escaliers de la butte sont durs aux miséraux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
[...]

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A de Arquitectura

my love is building a building
around you,a frail slippery
house,a strong fragile house
(beginning at the singular beginning

of your smile)a skilful uncouth
prison,a precise clumsy
prison(building thatandthis into Thus,
Around the reckless magic of your mouth)

my love is building a magic,a discrete
tower of magic and(as i guess)

when Farmer Death(whom fairies hate)shall

crumble the mouth-flower fleet
He'll not my tower,
                                          laborious,casual

where the surrounded smile
                                                            hangs

                                                                             breathless


E. E. Cummings
in Selected Poems (Liveright)

I de Infância (II)

Ouviu-se ontem à noite:



Mon enfance passa
De grisailles en silences
De fausses révérences
En manque de batailles
L'hiver j'étais au ventre
De la grande maison
Qui avait jeté l'ancre
Au nord parmi les joncs
L'été à moitié nu
Mais tout à fait modeste
Je devenais indien
Pourtant déjà certain
Que mes oncles repus
M'avaient volé le Far West


Mon enfance passa
Les femmes aux cuisines
Où je rêvais de Chine
Vieillissaient en repas
Les hommes au fromage
S'enveloppaient de tabac
Flamands taiseux et sages
Et ne me savaient pas
Moi qui toutes les nuits
Agenouillé pour rien
Arpégeais mon chagrin
Au pied du trop grand lit
Je voulais prendre un train
Que je n`ai jamais pris


Mon enfance passa
De servante en servante
Je m'étonnais déjà
Qu'elles ne fussent point plantes
Je m'étonnais encore
De ces ronds de famille
Flânant de mort en mort
Et que le deuil habille
Je m'étonnais surtout
D'être de ce troupeau
Qui m'apprenait à pleurer
Que je connaissais trop
J'avais l'œil du berger
Mais le cœur de l'agneau


Mon enfance éclata
Ce fut l'adolescence
Et le mur du silence
Un matin se brisa
Ce fut la première fleur
Et la première fille
La première gentille
Et la première peur
Je volais je le jure
Je jure que je volais
Mon cœur ouvrait les bras
Je n`étais plus barbare


Et la guerre arriva


Et nous voilà ce soir.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

L de Livraria (IV)

A caminho da minha livraria preferida:

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLIX)


Leonora Carrington (1917 - 26 de Maio de 2011)
The Giantess, c. 1947

S de Sete rosas mais tarde (VI)

suppose
Life is an old man carrying flowers on his head.

young death sits in a café
smiling,a piece of money held between
his thumb and first finger

(i say "will he buy flowers" to you
and "Death is young
life wears velour trousers
life totters,life has a beard" i

say to you who are silent.-"Do you see
Life?he is there and here,
or that,or this
or nothing or an old man 3 thirds
asleep,on his head
flowers,always crying
to nobody something about les
roses les bluets
                        yes,
                               will He buy?
Les belles bottes-oh hear
,pas chères")

and my love slowly answered I think so.     But
I think I see someone else

there is a lady,whose name is Afterwards
she is sitting beside young death,is slender;
likes flowers.





Poema e desenho de E. E. Cummings
in Selected Poems (Liveright)


F de Fazer Fotografia (LI)



Realização: Theodoros Angelopoulos
Música: Eleni Karaindrou

T de Tratado de Pedagogia (XXXI)

may my heart always be open to little
birds who are the secrets of living
whatever they sing is better than to know
and if men should not hear them men are old

may my mind stroll about hungry
and fearless and thirsty and supple
and even if it's sunday may i be wrong
for whenever men are right they are not young

and may myself do nothing usefully
and love yourself so more than truly
there's never been quite such a fool who could fail
pulling all the sky over him with one smile


E. E. Cummings
   in Selected Poems (Liveright)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

C de Carrosséis (XII)

who are you, little i

(five or six years old)
peering from some high

window; at the gold

of november sunset

(and feeling: that if day
has to become night

this is a beautiful way)




Poema e desenho de E. E. Cummings
in Selected Poems (Liveright)


S de Sete rosas mais tarde (V)

[Sintra, Maio 2011]

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A de "até que os fios do coração" (III)

A ÚLTIMA NOITE


V

Conversámos de "coisas amáveis"
mantendo a distância de um deserto
entre as nossas miragens


- António Barahona, Ritual Análogo (1986)

V de Vício (VI)

Já não se fazem contracapas assim:


[1ªedição de Requiem para D. Quixote, de Dennis Mc Shade, aka Dinis Machado,
encontrada numa feira de velharias em Sintra]

H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (X)

Miguel, um almoço no "A Raposa", em Sintra, é mais ou menos assim:

[Céu em baixo]

[O couvert]

[Carpaccio tropical]

[Salmão grelhado com crosta de noz, acompanhado por risotto de pesto]

[A conta]

[Céu em cima]

Quanto ao vinho, na 5ª feira descobres por ti próprio como era.

domingo, 22 de maio de 2011

E de Espinhas para um gato (VII)

GATO PRETO


para "Territórios" de Natércia


I

Em busca d'alimento e alado cálculo
continuamente a vadiar esfaimado
II

Senhor do mel e das abelhas negras
eu mesmo: gato preto do telhado
com um caderno e um lápis e este livro
revelado por Deus e aves várias
III


Domino esta cidade com olhar
caçador, friamente árduo,
unido a um ritmo
donde se ouve o mar

Altero o percurso, en-
curto o verso:
quebro o cubo e
certifico-me do vinho
IV


À noite já estou
completamente bêbado:
não sei onde ponho as patas
nem sei pra onde vou
no verso irregular

Mas conheço cada telhado
como a polpa das minhas almo-
fadinhas, e não tropeço
V

E navego
telha a
telha
a técnica a-
prendida
no século das
trevas
trituradas
à trinca
VI


E daqui em diante
a grave prova:
explorar ruínas,
terrenos poluídos,
lixo, baldios, toxinas

Uma estreita passagem
entre a parede e a
pintura permite o
acesso à simetria
VII

E distendo o corpo
a todo o comprimento do eco
na preparação do
salto
VIII

O gato preto no epílogo
do branco
continua em branco:
já mil vezes o disse por
extenso
num ritual análogo



- António Barahona, Ritual Análogo, Lisboa: Edições Rolim, 1986 *



* O gato estava à minha espera em Sintra. O livro também, num alfarrabista.

B de Biorritmo (LXXXVIII)



Candy says
I've come to hate my body
And all that it requires in this world


Candy says
I'd like to know completely
What others so discretely talk about


I'm gonna watch the blue birds fly
Over my shoulder
I'm gonna watch them pass me by
Maybe when I'm older
What do you think I'd see
If I could walk away from me


Candy says
I hate the quiet places
That cause the smallest taste of what will be


Candy says
I hate the big decisions
That cause endless revisions in my mind


I'm gonna watch the blue birds fly over my shoulder
I'm gonna watch them pass me by
Maybe when I'm older
What do you think I'd see
If I could walk away from me


sábado, 21 de maio de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLVII)

Outras andorinhas voltam, não as que
partiram dos beirais, no Outono.
Mudaram no deserto as suas imagens,
e as que volteiam hoje sobre esta água
no passado conheceram outro destino.
Que lugar trarão na memória dos olhos?


- Fiama Hasse Pais Brandão


[Obrigada, Rosa]

sexta-feira, 20 de maio de 2011

B de Biorritmo ( LXXXVII)

Apetecia-nos ouvir ontem:



[...]
Esta casita de muñecas de alterne
este racimo de petalos de sal
este huracan sin ojo que lo gobierne
este jueves este viernes
y el miercoles que vendra
[...]

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XIV)


Tazio Secchiaroli, "Federico Fellini 8 1/2", 1963

M de Música para os meus olhos (XII)

M de Mesa de Amigos (VI)



Num jardim de Lisboa, ontem

I de Infância

LEMBRANÇA DA RIA DE FARO


Dunas atrás da casa
gafanhotos cor de
madeira cardos cor de areia
ao fim da tarde,
barcos na água rósea
onde a cidade, em frente à casa, cai
De madeira caidada a
casa está
sobre a areia, que escurece quando
a maré devagar desce na praia


- Gastão Cruz

quarta-feira, 18 de maio de 2011

F de Fazer Fotografia (L)


Elizabeth Taylor (1932-2011) com James Dean (1931-1955), em 1955.


B de Biorritmo (LXXXVI)



I knew a man Bojangles
And he danced for you
In worn out shoes
With silver hair, a ragged shirt
And baggy pants, the old soft shoe
He jumped so high, he jumped so high
Then he lightly touched down


I met him in a cell in New Orleans
I was down and out
He looked at me to be the eyes of age
As he spoke right out
He talked of life, he talked of life
He laughed, and slapped his leg a step


Mr. Bojangles, Mr. Bojangles
Mr. Bojangles, dance!


He said his name, Bojangles
then he danced a lick across the cell
He grabbed his pants
A better stance
Oh, he jumped up high
He clicked his heels
He let go a laugh, he let go a laugh
Shook back his clothes all around


He danced for those
At minstrel shows and county fairs
Throughout the south
He spoke with tears of 15 years
How his dog and he traveled about
His dog up and died, he up and died
After 20 years he still grieves

Mr. Bojangles, Mr. Bojangles
Mr. Bojangles, dance!


He said I dance now
At every chance in honky tonks
For drinks and tips
But most of the time
I spend behind these county bars
He said I drinks a bit


He shook his head
And as he shook his head
I heard someone respectfully ask
Please


Mr. Bojangles, Mr. Bojangles
Mr. Bojangles, dance!

terça-feira, 17 de maio de 2011

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (VI)

Ri sobre mim a Primavera. Regressam,
como se sabe, as andorinhas. Partem para longe
as palavras estultas dos amigos.
Já voltam para mim as antigas
palavras de amor. Em ti, rapaz,
resplandecem. Brincam nos teus passos
inseguros. Mas segura em mim caminha
solitária e serena a felicidade.


- Sandro Penna, No Brando Rumor da Vida (Assírio & Alvim)

F de Fazer Fotografia (XLIX)



Jean Moral
"Femme à la cigarette" (c.1930)
"La femme et l'oiseau" (1931)


[Mais uma descoberta via a place in the Sun]

H de «He loved beauty that looked kind of destroyed.»


[Vale, Dezembro 09]

R de Revolução *

mira para el cielo y busca la estrella polar resístete a la parva administración de los hombres y busca la estrella polar rígete por el aliento de las estrellas obstaculiza la administración y menosprecia el arte de redactar reglamentos no entres en su esfera pero no atentes tampoco contra el reglamento ése no es tu papel tú limitate a ignorarlo cuando tu actitud se generalice y por el mundo entero revienten las señales de que tu actitud se generaliza la administración caerá por sí sola y entre las carcajadas de los contribuyentes leprosos que roban para poder pagar los impuestos y lloran cuando se detiene el tren de los esclavos lejos de la estación en el campo por onde pasó el devastador incendio


- Camilo José Cela, Oficio de tinieblas 5 (1989)


* Já foi L de Levantar a cabeça. E podia ser R de Regresso ao Trabalho.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

F de Fluttered Wings (III)


Príncipe Real, 15/05/11

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXII

A arte diz respeito ao mundo da diferença, mas procura a semelhança. Por meios transversais. Não é possível apertar a mão ou explicar um desacerto. É como olhar nos olhos o outro para encontrar a brancura sem pupila, um corpo-a-corpo sem ninguém.
A arte procura uma semelhança: estar só, frente a um papel ou a uma pedra, um bocado de madeira, a braços com uma excitação sem nome, irrepresentável, e procurar-lhe um corpo para a envolver, como um fantasma perdido. Manter a frieza mesmo com a alma em fogo, tal é a experiência da ausência e é unicamente sobre ela, sobre o não poder estar entre iguais, que a arte se realiza, porque esse abandono, abandono único e irremediável, é a verdadeira terra do artista, apátrida entre os seus. É nesse abandono que a arte procura uma semelhança. Recolher, recolher-se aos sentidos.


- Maria Filomena Molder, Jorge Martins, Lisboa: INCM, 1984

 

P de Poesia (V)...


... e A de Acordo Ortográfico.

domingo, 15 de maio de 2011

F de Fazer Fotografia (XLVII)

O CAÇADOR DE IMAGENS



Salta da cama de manhã cedo, e só sai se tiver o espírito limpo, o coração puro, o corpo leve como roupa de Verão. Não leva quaisquer provisões. Bebe o ar fresco do caminho e aspira os seus aromas saudáveis. Deixa as armas em casa e contenta-se em abrir os olhos. Os olhos servem de redes em que as imagens ficam presas.
A primeira que ele captura é a do caminho que mostra os seus ossos, seixos polidos, e os seus trilhos, veias rebentadas, entre duas sebes carregadas de abrunhos e amoras.
A seguir apanha a imagem do rio, que empalidece em cada curva e adormece sob a carícia dos salgueiros. Quando um peixe mostra a sua barriga, o rio brilha como se lhe tivessem atirado uma moeda de prata e, sempre que cai uma chuva mais fina, fica com pele de galinha.
O caçador leva consigo a imagem das searas ondulantes, dos campos de luzerna apetecíveis e das pradarias debruadas de regatos. Pelo meio, ainda surpreende uma cotovia ou um pintassilgo em pleno voo.
Entra então no bosque. Não imaginava ter os sentidos tão delicados. Impregnado rapidamente de perfumes, não perde nenhum rumor, por mais abafado que seja, e, para conseguir comunicar com as árvores, os seus nervos ligam-se às nervuras das folhas.
Pouco depois, vibrando até à náusea, começa a sentir demais, agita-se, tem medo, deixa o bosque e observa ao longe os camponeses que regressam à aldeia vindos da fundição.
Ainda fixa por instantes, até os olhos não aguentarem mais, o sol que se põe e que pousa no horizonte as suas roupas luminosas, deixando as nuvens desarrumadas.
Por fim, quando regressa a casa de cabeça cheia, apaga a luz e, antes de adormecer, entretém-se longamente a contar as suas imagens.
Estas respondem obedientemente ao chamamento da memória. Umas despertam as outras, e o seu bando fosforescente vai acolhendo as recém-chegadas, tal como as perdizes, perseguidas e separadas durante o dia, cantam à noite, ao abrigo do perigo, e se juntam no recôndito dos campos.


- Jules Renard, Histórias Naturais
[trad. ID]

T de Tratado de Pedagogia (XXX)*



* Mas é também A de Alegria e Amor; C de Comunidade; e E de Estar. Se fosse, H de Humanidade, o mundo seria um sítio muito melhor.

sábado, 14 de maio de 2011

B de Biorritmo (LXXXV)




Oh, the good life, full of fun seems to be the ideal
Yes, the good life lets you hide all the sadness you feel
You won't really fall in love for you can't take the chance
So be honest with yourself, don't try to fake romance


It's the good life to be free and explore the unknown
Like the heartaches when you learn you must face them alone
Please remember I still want you, and in case you wonder why
Well, just wake up, kiss the good life goodbye

F de Fluttered Wings (II)


O título de um poema de Christina Rossetti e uma mesa de amigos.

E de Espinhas para um gato (VI)

O GATO


O meu não come ratos; não gosta disso. Só apanha um de vez em quando por brincadeira.
Quando já brincou o suficiente, poupa-lhe a vida e, inocentemente, vai sonhar para outro lado, sentado sobre o caracol da cauda, a cabeça insondável como um punho fechado.
Mas, por causa das suas garras, o rato morreu.


- Jules Renard, Histórias Naturais
[trad. ID]

R de Rebeca (X)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLVI)


Lisboa, 10/05/11

F de Fluttered Wings*


* Título de um poema de Christina Rossetti

terça-feira, 10 de maio de 2011

A de Amor (XV)

it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another’s, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another’s face your sweet heart lay
in such a silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be, i say if this should be—
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face, and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.



e.e. cummings
[retirado daqui,
com um grande beijo para partilhar um pouco a saudade]

R de Regresso ao trabalho (XIII)


Hoje, às 7h30:
"You can never hold back spring"


P de (Dois Anos de) Pássaros (XLIV)


Heinrich Vogeler, "Fruehling", 1897

segunda-feira, 9 de maio de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLIII)

O PRIOLO



No quarto, sobre uma cómoda,
o priolo embalsamado.
Penas de branco sujo e creme, tons de
castanho queimado. Protege-o
o vidro de uma redoma. Mesmo na morte,
um frouxel.

Tudo se avista deste quarto -
santos e pagelas por detrás das portas
do oratório - quando a noite e a ilha se
estreitam na cama desamada.
Vem um cheiro a maresia, a porões e os
passos de quem percorre, erradio, o

embarcadouro
sem saber a hora da partida
a hora de quem prometeu chegar. E
o pássaro na obediência da morte
fixado nas trevas que lhe povoam o canto,

na fronteira do lá fora
membros, ossos, vísceras, os meus erros,

o verso meu dentro do quarto. Sob a asa do
priolo, prata e luz a esvoaçar ao redor do
candeeiro entre os actos da vida.



- João Miguel Fernandes Jorge, Antologia Açoriana, com desenhos de Urbano, Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, Abril 2011

A de Amor (XIV)

22 - Da Sublimidade do Amor


É recorrente, nos programas de televisão vespertinos e entre amigos dados às chamadas "conversas moles", debater, pela enésima vez, as diferenças entre paixão e amor. E, contudo, creio que não existem. Não acredito em amores desapaixonados, ainda que o preço a pagar por este entendimento seja, o mais das vezes, a confrontação com a finitude dos amores. O que não convem a quem pretende vender ao mundo uma imagem estável ou viver na comodidade perguiçosa do conhecido, por oposição aos trabalhos a que os recomeços, as reinvenções, obrigam. Não há - nos amores de natureza erótica, de raiz erótica, de fundação erótica - grandes espaços para fraternidades, filiações, amizades que não estejam subordinadas ao erotismo (como na poesia não há espaço para mensagens que não estejam subordinadas ao "dizer poético", que acaba por ser, ele próprio, a sua mensagem mais abrangente e perene).

Mas o que não há, também, é uma obrigatoriedade de amar. Nesse plano, há muitos estádios intermédios que podem até, dependendo das circunstâncias, convir mais a cada qual. Até porque o amor não é uma questão de opção - é irracional, involuntário e altamente improvável. Pressupõe quadros, psicológicos e vivenciais, culturais e físicos, adequados e propícios. O amor é o menos democrático dos sentimentos, o mais elitista (só que, cá está, este elitismo é do seu foro interno - não de qualquer outro). E, sem que isso contradiga o que disse de início, o amor é eterno: quando um amor termina é sinal de que uma das pessoas em causa, ou ambas, morreram, ainda que a morte seja metamorfose ou renascimento ou morte-viva.

E pode, eventualmente, nestes casos, o amor permanecer eternamente vivo no outro, como se votado a um morto ou como amor sem objecto que não o próprio amor, tornando-se, assim, ainda mais substantivo.

Este tipo de amor, estou em crer, só é permitido aos poetas.


- Miguel Martins

T de "(um) torso dobrado pela música" (VII)

POESIA


Os dias e as noites
percutem
nestes meus nervos
de harpa

vivo desta alegria
enferma de universo
e sofro
por não saber
acendê-la
nas minhas
palavras



GIUSEPPE UNGARETTI
in Dez Poetas Italianos Comtemporâneos, sel. e trad. de Albano Martins, Lisboa: Publicações D. Quixote, 1992

domingo, 8 de maio de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXIX)


O final do Canto LXXXI, de Ezra Pound:



What thou lovest well remains,
                               the rest is dross
What thou lov'st well shall not be reft from thee
What thou lov'st well is thy true heritage

Whose world, or mine or theirs
                         or is it of none?
First came the seen, then thus the palpable
     Elysium
, though it were in the halls of hell,
What thou lovest well is thy true heritage
What thou lov'st well shall not be reft from thee


The ant's a centaur in his dragon world.
Pull down thy vanity, it is not man
Made courage, or made order, or made grace,
      Pull down thy vanity, I say pull down.
Learn of the green world what can be thy place
In scaled invention or true artistry,
Pull down thy vanity,
                 
Paquin pull down!
The green casque has outdone your elegance.


"Master thyself, then others shall thee beare"
     Pull down thy vanity
Thou art a beaten dog beneath the hail,
A swollen magpie in a fitful sun,
Half black half white
Nor knowst'ou wing from tail
Pull down thy vanity
               How mean thy hates
Fostered in falsity,
                Pull down thy vanity,

Rathe to destroy, niggard in charity,
Pull down thy vanity,
               I say pull down.


But to have done instead of not doing
               This is not vanity
To have, with decency, knocked
That a
Blunt
should open
          To have gathered from the air a live tradition
or from a fine old eye the unconquered flame
this is not vanity.
     Here error is all in the not done,
all in the diffidence that faltered ...

sábado, 7 de maio de 2011

A de Amor (XIII)




Altar das Almas / Macedo de Cavaleiros, Agosto 2010



T de Tratado de Pedagogia (XXVIII)


Maria João Worm, Os animais domésticos (Quarto de Jade)

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXI

ACORDAR TARDE


todas as flores murchas que alguém ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de sal tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia


- Al Berto, O Medo

sexta-feira, 6 de maio de 2011

B de Biorritmo (LXXXIV)





If today was not an endless highway,
If tonight was not a crooked trail,
If tomorrow wasn’t such a long time,
Then lonesome would mean nothing to you at all.

Yes, and only if my own true love was waitin’,
Yes, and if I could hear her heart a-softly poundin’,
Only if she was lyin’ by me,
Then I’d lie in my bed once again.

I can’t see my reflection in the waters,
I can’t speak the sounds that show no pain,
I can’t hear the echo of my footsteps,
Or can’t remember the sound of my own name.

Yes, and only if my own true love was waitin’,
Yes, and if I could hear her heart a-softly poundin’,
Only if she was lyin’ by me,
Then I’d lie in my bed once again.

There’s beauty in the silver, singin’ river,
There’s beauty in the sunrise in the sky,
But none of these and nothing else can touch the beauty
That I remember in my true love’s eyes.

Yes, and only if my own true love was waitin’,
Yes, and if I could hear her heart a-softly poundin’,
Only if she was lyin’ by me,
Then I’d lie in my bed once again.


- Bob Dylan

L de Ler - IVb

Reli ontem, a desoras, e nunca me canso destes versos:


[...]
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha,
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

[...]
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses

(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
[...]


Álvaro de Campos, Tabacaria, Lisboa: Ática/Babel, 2011
[Obrigada, Ricardo]

quinta-feira, 5 de maio de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXVII)


"Teacher going home" 
Robert William Vonnoh
(1858 – 1933)

R de Rebeca (IX)


Clarence H. White, "Warren and Bonnie"

F de Fazer Fotografia (XLVI)

Zoom


Desenhos do vagar, a erva
rente, um lamento de folhas
enlaçadas. Precipício

de sombras, a tarde inteira
em pedacinhos,
tocando a dor, um verso quase
insuportável. Assim posando

envolves a frescura, o labirinto
de sedas escondidas,
o consolo do lápis
quando escreves. Exílio apenas

ou desastre
estarmos assim sabendo
esta passagem, o traçado
da morte, essa leveza.


- José Carlos Soares, Este perder-se, 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XX

To Abiah Root


After the sudden death, at the age of twenty-seven, of Leonard Humphrey, a favourite teacher.
Amherst, January 2, 1851

I write A. to-night, because it’s cool and quiet, and I can forget the toil and care of the feverish day, and then I am selfish too, because I am feeling lonely; some of my friends are gone, and some of my friends are sleeping – sleeping the churchyard sleep – the hour of evening is sad – it was once my study hour – my master has gone to rest, and the open leaf of the book, and the scholar at school alone, make the tears come, and I cannot brush them away; I would not if I could, for they are the only tribute I can pay the departed Humphrey.
You have stood by the grave before; I have walked there sweet summer evenings and read the names on the stones, and wondered who would come and give me the same memorial; but I never have laid my friends there, and forgot that they too must die; this is my first affliction, and indeed ‘tis hard to bear it. To those bereaved so often that home is no more here, and whose communion with friends is had only in prayers, there must be much to hope for, but when the unreconciled spirit has nothing left but God, that spirit is lone indeed. I don’t think there will be any sunshine, or any singing-birds in the spring that’s coming… I will try not to say any more – my rebellious thoughts are many, and the friend I love and trust in has much now to forgive. I wish I were somebody else […].

E.


Emily Dickinson, Letters, Everyman’s Library, 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

B de Biorritmo (LXXXIII)

B de Biorritmo (LXXXII)

A palavra tem o seu terrível limite. Além desse limite é o caos orgânico. Depois do final da palavra começa o grande uivo eterno. Mas para algumas pessoas escolhidas pelo acaso - depois da possibilidade da palavra vem a voz de uma música, a música que diz o que eu simplesmente não posso aguentar.

CLARICE LISPECTOR

[Obrigada, Jorge]

L de Levantar a cabeça (V)

Na Feira do Livro / 1º de Maio


T de Tratado de Pedagogia (XXVI)

Que antepassado fala em mim?
Eu não posso viver simultaneamente
na minha cabeça e no meu corpo.
Por isso não consigo ser uma única pessoa.
Posso sentir-me uma infinidade de coisas ao mesmo tempo.
O verdadeiro mal do nosso tempo é já não existirem grandes mestres.
O caminho do nosso coração está coberto de sombra.
É necessário escutar as vozes que parecem inúteis.
É necessário que nos cérebros ocupados pelos longos tubos de esgotos, pelas paredes das escolas, pelo asfalto e pelas práticas assistenciais
entre o zumbido dos insectos.
É necessário encher os ouvidos e os olhos de todos nós,
de coisas que estejam no início de um grande sonho.
Alguém deve gritar que iremos construir as pirâmides.
Não importa se não as construirmos, é necessário alimentar o desejo.
Devemos esticar alma de todos os lados como se fosse um lençol dilatável ao infinito.
Se quiserem que o mundo evolua, temos de estar de mãos dadas,
devemos misturar-nos, os que se definem saudáveis e os doentes.
Vocês sãos! o que significa a vossa saúde?
Todos os olhos da humanidade estão a olhar para o precipício, para o qual nos estamos todos a dirigir.
A liberdade não serve, se não têm a coragem de nos olhar nos olhos,
de comer connosco, de beber connosco, de dormir connosco.
São os chamados saudáveis que têm levado o mundo à beira da catástrofe.
Homem, escuta!
Em ti água, fogo e depois cinza e os ossos dentro da cinza.
Os ossos e a cinza!
Onde estou, quando não estou nem na realidade?
E nem na minha imaginação?
Faço um novo pacto com o mundo:
Que haja sol de noite e neve em Agosto.
As coisas grandes acabam, são as pequenas que duram.
A sociedade deve voltar a ser unida e não tão fragmentada.
Seria suficiente observar a natureza, para perceber que a vida é simples
e que é necessário regressar ao ponto anterior onde enveredamos pelo caminho errado!
É necessário voltar às bases fundamentais da vida, sem sujar a água.
Que raio de mundo é este, se é um louco que vos diz, que devem ter vergonha.
Oh, Mãe!
Oh, Mãe!
O ar é algo de leve que anda à roda da cabeça
e torna-se mais clara quando ris.




- Discurso de Domenico (Erland Josephson), personagem do filme Nostalghia (1983), de Andrei Tarkovski, com argumento de Tonino Guerra


segunda-feira, 2 de maio de 2011

S de Sentir

MARLBOROUGH DRIVE


Se pudermos estar felizes não será mais bela
a voz do trompetista de Oklahoma? Oh, there’s
a lull in my life. Sim, o amor é triste e o mundo
é árduo e nunca nos serviu como convinha. Mas
nas cercanias da vila, no Volkswagen em segunda
mão, vê como resplandecem os vidros de Marlborough
Drive ao entardecer! Uma ambição sentimental

à nossa pequena escala, prados entre castanheiros,
duas onças de tabaco de enrolar. Que importa
que tudo rode para um fim e que a nossa verdadeira
condição seja morrer um pouco mais a cada instante?
A pele reconhece estas canções, sabe que é Junho,
conhece a estrada que devemos escolher. A pele
é sábia. Por uma vez, que valha a pena morrer.


- Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia (Averno)

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLII)



Pablo Picasso, "Chat saisissant un oiseau", 1939

domingo, 1 de maio de 2011

T de "(um) torso dobrado pela música" (VI)

Para o Miguel:







Edward Lear (1812-1888)




B de Biorritmo (LXXXI)