segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
A de Aniversário (IX)
I'm so happy 'cause today
I found my friends
They're in my head
I'm so ugly, that's okay
'Cause so are you
Broke our mirrors
Sunday morning is everyday
For all I care
And I'm not scared
Light my candles, in a daze
'Cause I've found God
I found my friends
They're in my head
I'm so ugly, that's okay
'Cause so are you
Broke our mirrors
Sunday morning is everyday
For all I care
And I'm not scared
Light my candles, in a daze
'Cause I've found God
[...]
domingo, 19 de fevereiro de 2012
A DOR
[Jardins da Gulbenkian, 1926]
Para o Alexandre e o Diogo
A dor tem afinal memória.
Guardámos-lhe as promessas
quebradas, o sangue cosido,
todos os passos no mapa do tesouro
que nos trouxe a esta tarde.
E o mapa pode até ser falso
ou a luz demasiado pobre,
que não nos voltaremos a perder
assim: aprendemos a traficar
o caminho a três vozes,
deixando os nossos mortos
e ruínas a marcar cada encruzilhada.
Basta agora escolher
um horizonte, abrir as mãos,
evitar as pontes do hábito.
Será uma estrada nova,
nossa. Chegaremos então.
ID
sábado, 18 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
P de Poética (XIX)
Sur la place chauffée au soleil
Une fille s'est mise à danser
Elle tourne toujours pareille
Aux danseuses d'antiquités
Sur la ville il fait trop chaud
Hommes et femmes sont assoupis
Et regardent par le carreau
Cette fille qui danse à midi
Ainsi certains jours paraît
Une flamme à nos yeux
A l'église où j'allais
On l'appelait le Bon Dieu
L'amoureux l'appelle l'amour
Le mendiant la charité
Le soleil l'appelle le jour
Et le brave homme la bonté
Sur la place vibrante d'air chaud
Où pas même ne paraît un chien
Ondulante comme un roseau
La fille bondit s'en va s'en vient
Ni guitare ni tambourin
Pour accompagner sa danse
Elle frappe dans ses mains
Pour se donner la cadence
[...]
Sur la place où tout est tranquille
Une fille s'est mise à chanter
Et son chant plane sur la ville
Hymne d'amour et de bonté
Mais sur la ville il fait trop chaud
Et pour ne point entendre son chant
Les hommes ferment leurs carreaux
Comme une porte entre morts et vivants
Ainsi certains jours paraît
Une flamme en nos cœurs
Mais nous ne voulons jamais
Laisser luire sa lueur
Nous nous bouchons les oreilles
Et nous nous voilons les yeux
Nous n'aimons point les réveils
De notre cœur déjà vieux
Sur la place un chien hurle encore
Car la fille s'en est allée
Et comme le chien hurlant la mort
Pleurent les hommes leur destinée
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XIII)
"Houve ocasião de tomarmos juntos o pequeno-almoço durante mais dum mês consecutivo García Lorca e eu. Um dia já na rua dirigiu-se a Federico um jovem enxuto como aço de navalha. Encostou-lhe o indicador ao peito e sentenciou: Tens de fazer arte social!
— Arte social?! Federico puxou escarro que não tinha e cuspiu-o para o lado: A arte é o social."
José de Almada Negreiros, Orpheu 1915-1965,
Lisboa, Ática, 1965
[Obrigada, Luis Manuel Gaspar]
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
domingo, 12 de fevereiro de 2012
sábado, 11 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Having a Coke with You
is even more fun than going to San Sebastian, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
or being sick to my stomach on the Travesera de Gracia in Barcelona
partly because in your orange shirt you look like a better happier St. Sebastian
partly because of my love for you, partly because of your love for yoghurt
partly because of the fluorescent orange tulips around the birches
partly because of the secrecy our smiles take on before people and statuary
it is hard to believe when I’m with you that there can be anything as still
as solemn as unpleasantly definitive as statuary when right in front of it
in the warm New York 4 o’clock light we are drifting back and forth
between each other like a tree breathing through its spectacles
and the portrait show seems to have no faces in it at all, just paint
you suddenly wonder why in the world anyone ever did them
I look
at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
except possibly for the Polish Rider occasionally and anyway it’s in the Frick
which thank heavens you haven’t gone to yet so we can go together the first time
and the fact that you move so beautifully more or less takes care of Futurism
just as at home I never think of the Nude Descending a Staircase or
at a rehearsal a single drawing of Leonardo or Michelangelo that used to wow me
and what good does all the research of the Impressionists do them
when they never got the right person to stand near the tree when the sun sank
or for that matter Marino Marini when he didn’t pick the rider as carefully
as the horse
it seems they were all cheated of some marvelous experience
which is not going to go wasted on me which is why I am telling you about it
- Frank O’Hara
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
P de Pele
When you hear sweet syncopation
And the music softly moans
'ain't no sin to take off your skin
And dance around in your bones
When it gets too hot for comfot
And you can't get an ice cream cone
T'ain't no sin to take off your skin
And dance around your bones
Just like those bamboo babies
Down in the South Sea tropic zone
T'ain't no sin to take off your skin
And dance around your bones
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
A de Antes de amanhecer (II)
ASUNCIÓN DE TI
A Luz
[...]
3
Puedes querer el alba
cuando ames.
Puedes venir a reclamarte como eras.
He conservado intacto tu paisaje.
Lo dejaré en tus manos
cuando éstas lleguen, como siempre,
anunciándote.
Puedes
venir a reclamarte como eras.
Aunque ya no seas tú.
Aunque mi voz te espere
sola en su azar
quemando
y tu sueño sea eso y mucho más.
Puedes amar el alba
cuando quieras.
Mi soledad ha aprendido a ostentarte.
Esta noche, otra noche
tú estarás
y volverá a gemir el tiempo giratorio
y los labios dirán
esta paz ahora esta paz ahora.
Ahora puedes venir a reclamarte,
penetrar en tus sábanas de alegre angustia,
reconocer tu tibio corazón sin excusas,
los cuadros persuadidos,
saberte aquí.
Habrá para vivir cualquier huida
y el momento de la espuma y el sol
que aquí permanecieron.
Habrá para aprender otra piedad
y el momento del sueño y el amor
que aquí permanecieron.
Esta noche, otra noche
tú estarás,
tibia estarás al alcance de mis ojos,
lejos ya de la ausencia que no nos pertenece.
He conservado intacto tu paisaje
pero no sé hasta dónde está intacto sin ti,
sin que tú le prometas horizontes de niebla,
sin que tú le reclames su ventana de arena.
Puedes querer el alba cuando ames.
Debes venir a reclamarte como eras.
Aunque ya no seas tú,
aunque contigo traigas
dolor y otros milagros.
Aunque seas otro rostro
de tu cielo hacia mí.
Mario Benedetti, Inventario - Poesía 1950-1985,
Madrid: Visor Libros, 2008
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
R de Regresso ao Trabalho (XXXVI)
Os outros sempre foram um território difícil
(imagem do manual de História e Geografia de Portugal - 5º Ano):
domingo, 5 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
R de Regresso ao real (IV)
[...]
XI.
Colocas a tua mão direita sobre o coração ao adormecer e regularizas deste modo o incómodo do tempo em que estiveste acordado, do tempo que houve que preencher com o absurdo quotidiano. Essa mão direita é uma aranha pacífica e atenta que ganhou também o seu repouso e um sonho que não é possível controlar nem situar na caótica convulsão do universo que a cada um pertence.
Dormes. E enquanto lutas com um grupo de bandidos num Rio de Janeiro onde nunca estiveste, enquanto assistes à passagem de semblantes luminosos de gente que deve ter morrido há muito tempo, ou enquanto sorris internamente perante uma história que existe no outro lado da realidade, a tua mão continua a arder, independente, na lenta combustão que a tornará lívida, inerte, dura e terrível, no transitório momento que separa a vida do apodrecimento. O sonho é apenas uma outra forma da realidade e talvez (quem o sabe?) a morte o seja também. Porém o que definitivamente se transforma é a tua mão direita, essa peça que tão descuidadamente transportas, como se fosse um direito absoluto a posse desse extravagante objecto, como se a memória te impedisse de observar o monstruoso teatro que ela, a mão, executa durante aquilo a que chamamos tempo. As unhas. Os dedos. As articulações. E algo ainda. Como aceitar impassível a presença da mão, desse pequeno corpo a cujo movimento não podes assistir atenta, continuamente? Estamos fabricados para as ideias gerais mas nada existe nelas que nos ofereça um pouco de paz, um pouco de certeza no destino de todos e cada um.
Acordas. Eis a tua mão direita que se move numa direcção que lhe é própria, e se te pergunto que fizeste com ela, que tens feito com ela, qual o seu futuro, então entenderás quanto o domínio, a percepção e o controle das diversas realidades te é interdito.
Colocas a tua mão direita sobre o coração ao adormecer e regularizas deste modo o incómodo do tempo em que estiveste acordado, do tempo que houve que preencher com o absurdo quotidiano. Essa mão direita é uma aranha pacífica e atenta que ganhou também o seu repouso e um sonho que não é possível controlar nem situar na caótica convulsão do universo que a cada um pertence.
Dormes. E enquanto lutas com um grupo de bandidos num Rio de Janeiro onde nunca estiveste, enquanto assistes à passagem de semblantes luminosos de gente que deve ter morrido há muito tempo, ou enquanto sorris internamente perante uma história que existe no outro lado da realidade, a tua mão continua a arder, independente, na lenta combustão que a tornará lívida, inerte, dura e terrível, no transitório momento que separa a vida do apodrecimento. O sonho é apenas uma outra forma da realidade e talvez (quem o sabe?) a morte o seja também. Porém o que definitivamente se transforma é a tua mão direita, essa peça que tão descuidadamente transportas, como se fosse um direito absoluto a posse desse extravagante objecto, como se a memória te impedisse de observar o monstruoso teatro que ela, a mão, executa durante aquilo a que chamamos tempo. As unhas. Os dedos. As articulações. E algo ainda. Como aceitar impassível a presença da mão, desse pequeno corpo a cujo movimento não podes assistir atenta, continuamente? Estamos fabricados para as ideias gerais mas nada existe nelas que nos ofereça um pouco de paz, um pouco de certeza no destino de todos e cada um.
Acordas. Eis a tua mão direita que se move numa direcção que lhe é própria, e se te pergunto que fizeste com ela, que tens feito com ela, qual o seu futuro, então entenderás quanto o domínio, a percepção e o controle das diversas realidades te é interdito.
Manuel de Castro, "Hans e a mão direita"
in GRIFO, 1970
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
P de Poética (XVIII) *
O ofício do poeta, ofício que não se aprende, consiste em colocar os objectos do mundo visível, tornado invisível pela borracha do hábito, numa posição insólita que interpele o olhar da alma e lhe confira tragédia. Trata-se, pois, de comprometer a realidade, de a apanhar em falta, de a inundar subitamente de luz e de a obrigar a confessar o que ela esconde. [...]
Jean Cocteau
* Mas também deve ser F de Fazer Fotografia.
sábado, 28 de janeiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XII)
[...]
Poesia, risco, amor. Neste feixe repete-se um rosto.
Rosto furador de muralhas, como verifica o poeta Paul Éluard, e do planeta minúsculo faz-se a partida para ilimitadas terras.
Acendem-se pássaros em pleno céu. A terra treme e o mar inventa canções novas. O cavalo do sonho galopa em cima das nuvens. A flora e a fauna transformam-se. A cortina do son, que ainda há pouco desceu sobre o tédio do velho mundo, volta a levantar-se para surpresas de astro e areia. E vingados que ficamos dos minutos lentos, dos corações tépidos, das mãos racionais, finalmente olhamos.
[...]
René Crevel
(na introdução que termina, citando
A poesia não é acto de um, mas de todos.)
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
B de Biorritmo - CXIII b
TIEMPOS DIFÍCILES
Era todo tan triste y tan absurdo.
No vivías apenas. Te colgabas de la pared de la melancolía
y veías pasar las lentas horas
que hacia nada conducen y hacia nunca.
Las mujeres te habían retirado
su protección, los dioses su asistencia
y la literatura su cobijo.
Fueron tiempos difíciles aquéllos.
Luis Alberto de Cuenca, El hacha y la rosa (1993)
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - XI c
[...] Para a multidão, uma vedeta é uma pessoa que caminha sobre as águas: triunfa, por procuração, dessa sensação de "mergulho" prenhe de angústia que é a sorte do homem moderno arpoado pelo anonimato voraz da multidão das grandes cidades. Ao ver os olhares prenderem-se à pantalha como a uma bóia de salvação, compreende-se perfeitamente que o seu contacto, mesmo imaginário, imunisa contra a morte, triunfa, ainda que por um só instante, do sentimento de não-reconhecimento que é o lote da vida das moléculas humanas em vão rebeladas contra a condição que lhes foi criada de entrar sem apelo "em composição". O difícil é saber-se a partir de quando uma fixação a princípio tão imprevista começou a ver-se mais ou menos sabiamente solicitada: porque é evidente não ter a oferta ficado muito tempo em atraso sobre a solicitação. O acidental, o imprevisto, como no cinema, ritualizou-se prontamente, e no negócio nem sempre é esquecido o juro do culto. Tudo se passa hoje como se produzisse uma "corrente de ar" que se tornou para o artista uma perigosa causa de desquilíbrio: é evidente que a partir dum certo grau de sucesso inicial, o escritor moderno se sente apesar de tudo apanhado pela "dimensão do grande homem". O nascimento do grande escritor corresponde em 1949 (pelo que diz respeito à grande massa do público) não a uma condecoração por serviços prestados (frequentemente a título póstumo) mas antes à necessidade difusa de prover sem demora a faltas e vazios entre os cabeças de cartaz (e isto é especialmente evidente nos meios fechados, como o da Boa Imprensa de extrema-esquerda, onde se produzem com frequência, por uma ou outra razão, mutações ou "separações"). A verdade é que o escritor dispõe hoje de mil maneiras de se manifestar de alcance muito mais eficaz do que que os seus livros. A sua situação ganha muito em rapidez ao servir-se de outras vias além da lenta penetração duma obra escrita, da lenta digestão dela por um público que a fome nem sempre devora. [...]
Julien Gracq
in A Literatura no Estômago, pp. 45 e 46
in A Literatura no Estômago, pp. 45 e 46
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XII)
LÍNEA CLARA
a Pollux Hernúñez
Dicen que hablamos claro, y que la poesía
no es comunicación, sino conocimiento,
y que sólo conoce quien renuncia a este mundo
y a sus pompas y obras - la amistad, la ternura,
la decepción, el fraude, la alegría, el coraje,
el humor y la fe, la lealtad, la envidia,
la esperanza, el amor, todo lo que no sea
intelectual, abstruso, místico, filosófico
y, desde luego, mínimo, silencioso y profundo -.
Dicen que hablamos claro y que nos repetimos
de lo claro que hablamos, y que la gente entiende
nuestros versos, incluso la gente que gobierna,
lo que trae consigo que tengamos acceso
al poder y a sus premios y condecoraciones,
ejerciendo un servil y injusto monopolio.
Dicen, y menudean sus fieras embestidas.
Defiéndenos, Tintín, que nos atacan.
Luis Alberto de Cuenca, La Vida en Llamas (2006)
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
L de (A) Luz da Sombra (XX)
Duas formas de luz (re)confirmadas ontem ao jantar:
a poesia e os amigos.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - XI b
[…]
Desde que existe um público literário (quer dizer: desde que há uma literatura) o leitor, colocado diante de uma grande variedade de escritores e de obras, reage de duas maneiras: por um gosto e por uma opinião. Instalado diante de um texto, vai produzir-se nele o mesmo clic interior que sentimos, sem regra e sem razão, quando encontramos alguém: "ama" ou "não ama", sente ou não sente, à medida que vai virando as páginas, a sensação de ligeireza, de liberdade pura, embora suspensa, que se pode comparar à sensação de um galope sobre um cavalo de raça. Pode-se dizer, efectivamente, no caso de uma feliz conjugação, que o leitor adere à obra, enche de segundo a segundo a capacidade exacta da forma vazia que vai aprofundando numa rapidez voraz, formando com ela, no vento contínuo das páginas viradas, esse bloco de velocidade lubrificada e sem falhas cuja recordação depois da última página vir bruscamente "cortar o gás" nos deixa atordoados e vacilantes como num princípio de náusea. Alguém que tenha lido um livro desta maneira fica preso a ele por um laço forte, uma espécie de aderência, qualquer coisa parecida com o sentimento vago de ter sido iluminado; durante uma conversa, cada um poderá reconhecer noutrém, mesmo só através de uma inflexão de voz particular, esse sentimento quando ele se exprime, por vezes com os mesmos rodeios e o mesmo pudor próprios do amor, e se uma certa ressonância se produz dir-se-ia que se tocaram dois fios eléctricos. É este sentimento, e ele só, que transforma o leitor em prosélito fanático que não descansa (sendo esse, talvez, o mais desinteressado sentimento que exista) enquanto não fizer partilhar por outros a sua singular emoção. Há livros que nos queimam as mãos, que semeamos como por encanto, que compramos meia dúzia de vezes sempre contentes por nunca os vermos voltar. Cinquenta leitores deste quilate, fazendo incessantemente vibrar quem os rodeia, são outros tantos portadores de vírus filtrantes que chegam para contaminar um vasto público – bastam algumas dezenas de anos, por vezes um pouco mais, frequentemente muito menos; a glória de Mallarmé, como se sabe, não teve outro veículo: cinquenta leitores que se deixariam morrer por ele.
domingo, 22 de janeiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XI)
[...] Aliás, algo agradava a esse público no tom destas vozes proféticas: a seguir à guerra, ele esperava instintivamente da sua literatura uma explosão, um levantamento em massa - tinha o direito de o esperar - representava-a de antemão brutal, excedida, apocalíptica, conquistadora, um pouco à maneira desse desembarque que tinha esperado durante tão longos meses. Comprava muitos livros - todos os que lhe eram propostos de semana a semana, de olho vidrado e sobrancelha carregada, como se lhe estendessem revólveres prontos a disparar, pelos arautos da nova Promessa. Quem o sabia? talvez fosse aquele, era preciso não perder o messias. [...] Contudo a arca milagrosa não se abria, não se avistavam senão os primeiros clarões precursores. Era preciso esperar; à beira do santo Lugar as revistas multiplicavam os novos acampamentos e faziam bicha - equipavam-se como para proteger a raça inteira dos dentes do dragão. Os meses passsaram, e os anos; veio a fadiga, e o desencanto; o público esfregou os olhos. Tinha diante de si este espectáculo chulo: jockeys de "Grand Prix" cavalgando lesmas.
Julien Gracq
in A Literatura no Estômago,
trad. Ernesto Sampaio, Lisboa: A Barca Solar, s/d
sábado, 21 de janeiro de 2012
C de Começar o dia com um livro novo (VII)
Nunca soube porque é que todos lhe chamavam "filosofia".
Ela dizia-me que eu era o sol e ela a lua, que eu era o cubo e ela a esfera, que eu era o ouro e ela a prata. Então saíam chamas do meu corpo e chuva de todos os poros do seu.
Abraçávamo-nos e as minhas chamas misturavam-se à sua chuva e formavam-se infinitos arco-íris à nossa volta. Foi então que ela me ensinou que eu sou o fogo, e ela, a água.
Arrabal, La Pierre de la Folie,
Paris: René Julliard, 1963
[Trad. ID]
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
F de Falar para as paredes (XI)
GRAVIDADE DO CORAÇÃO
A água das fontes corre gravemente como a boca de um cão. A rosa intimida-me. Nunca ri. E a árvore dorme de pé. Não brinca. Ordena, por exemplo, à sua sombra: deita-te, descansa, partimos assim que anoitecer. Ao anoitecer, a sombra sobe-lhe para os ramos e partem.
Quem ama escreve nas paredes.
Se eu visse o meu coração, já não teria coragem para te sorrir. Ele trabalha demasiado nesta noite sem lua. Deitado sobre ti, espreito o seu galope, que me traz uma má notícia.
Jean Cocteau, Tanta coisa por dizer,
Lisboa: Língua Morta, 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
P de (The) Privacy of Rain (XX)
O QUE PENSAS QUANDO OLHAS PARA MIM E NÃO DIZES NADA
Há um jardim com anões de barro quando não falas
mas isto sou eu a dizer e posso enganar-me e aliás
para que serve o que digo?
Estás a pensar na chuva que há-de cair só nas tuas mãos
nas minhas que me importa?
É a chuva? Pensas nela enquanto olhas
para mim Que mundo é este? Fala
diz qualquer coisa
ou deixa que assim seja por todos os séculos
ou eu ou a chuva
muito bem não podes decidir
É um prazer saber-e Amen
Abel Neves, Eis o amor a fome e a morte (1999)
domingo, 15 de janeiro de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
P de Poética (XVI)
LA EDUCACIÓN SENTIMENTAL
RÉQUIEM
Solía repetir con menosprecio:
la poesía para nada sirve.
Me quiso preparar para un infierno
donde, al bajar la guardia se arriesga uno a perder,
donde sólo el dinero protege de este frío
de la edad. Pero, en cambio, no sabía
que es por este motivo que la necesitamos,
que es preciso rastrear la poesía
por hospitales y juzgados: luego
ya hablará de la amada.
Hay poesía incluso en gente
que, al igual que mi padre, odió la vida.
Y tenía razón en su argumento:
de nada sirve, aquélla que él leía.
*
RÉQUIEM
Es la fotografia de un grupo de poetas.
Tiene una extraña mancha:
procede de la sombra de un árbol, o es el resto
de algún mal revelado.
Poca cosa, unos poetas:
son tan débiles.
Simulan fortaleza,
pasión, indiferencia.
Muertos mejoran, dicen.
Afortunados quienes pueden
hacer surgir el mito desde algunos versos
y desde un amarillo retrato de poetas.
Yo, que no aguantaría
ni una hora a Verlaine,
siento pena por ti,
amigo al cual no me devuelven
ni versos ni retratos
con las manchas que pone
la muerte al señalar
el primer candidato
al mito o al olvido,
dos formas, nada más, de un solo engaño.
Joan Margarit, Aguafuertes (1998)
R de Regresso ao Trabalho (XXXV)
"É curioso, mas uma prisão é menos sinistra do qualquer local de trabalho."
Albert Cossery, A violência e o escárnio,
Lisboa: Antígona, 1999
[Leitura de cabeceira desde os tempos do estágio]
[Leitura de cabeceira desde os tempos do estágio]
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
E de Espera (XXII)
Foi possível sabes?
O dia foi breve menos do que os outros possível
tão breve a passagem dum melro todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite tão breve
O dia foi breve menos do que os outros possível
tão breve a passagem dum melro todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite tão breve
Abel Neves, Eis o amor a fome e a morte (1998)
CHAPLINESQUE
We will make our meek adjustments,Contented with such random consolationsAs the wind depositsIn slithered and too ample pockets. For we can still love the world, who findA famished kitten on the step, and knowRecesses for it from the fury of the street,Or warm torn elbow coverts. We will sidestep, and to the final smirkDally the doom of that inevitable thumbThat slowly chafes its puckered index toward us,Facing the dull squint with what innocenceAnd what surprise! And yet these fine collapses are not liesMore than the pirouettes of any pliant cane;Our obsequies are, in a way, no enterprise.We can evade you, and all else but the heart:What blame to us if the heart live on. The game enforces smirks; but we have seenThe moon in lonely alleys makeA grail of laughter of an empty ash can,And through all sound of gaiety and questHave heard a kitten in the wilderness.- Hart Crane
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
ACTUALIDADES PATHÉ
Sobre vinte quilómetros de tela
Chapéu de coco e asas de anjo
Passa São Charlot,
O bem-amado do mundo,
Para o ensinar a rir
O riso universal
E redentor.
No cinema
Em cinco continentes ao mesmo tempo
É a minha pátria.
Claire Goll (trad. João Barrento)
in O Bosque Sagrado - o cinema na poesia,
Porto: Gota de Água, 1986
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
T de (Uma) teoria de pássaros (XXV)
O FAROL
Conto popular argentino
Cada mañana había que limpiar la linterna
de pájaros muertos.
Azorín
Deserto adentro,
Construir um farol.
Há algo que salvar em todas as partes.
Não deixes que me esqueça,
por favor.
Ânsia de escuridão torna-se caverna,
isolamento.
Graças a ti,
acedo ao exterior,
desenho um rumo.
Assim amanheço luz de entre as minhas sombras:
Pouco importa se há pássaros mortos.
Josep M. Rodríguez, Raíz
domingo, 8 de janeiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - IX
[...]
ILS ÉTEIGNENT LES ÉTOILES À COUPS DE CANON
Les étoiles mouraient dans ce beau ciel d'automne
Comme la mémoire s'éteint dans le cerveau
De ces pauvres vieillards qui tentent de se souvenir
Nous étions là mourant de la mort des étoiles
Et sur le front ténébreux aux livides lueurs
Nous ne savions plus que dire avec désespoir
ILS ONT MÊME ASSASSINÉ LES CONSTELLATIONS
Mais une grande voix venue d'un mégaphone
Dont le pavillon sortait
De je ne sais quel unanime poste de commandement
La voix du capitaine inconnu qui nous sauve toujours cria
IL EST GRAND TEMPS DE RALLUMER LES ÉTOILES
Les étoiles mouraient dans ce beau ciel d'automne
Comme la mémoire s'éteint dans le cerveau
De ces pauvres vieillards qui tentent de se souvenir
Nous étions là mourant de la mort des étoiles
Et sur le front ténébreux aux livides lueurs
Nous ne savions plus que dire avec désespoir
ILS ONT MÊME ASSASSINÉ LES CONSTELLATIONS
Mais une grande voix venue d'un mégaphone
Dont le pavillon sortait
De je ne sais quel unanime poste de commandement
La voix du capitaine inconnu qui nous sauve toujours cria
IL EST GRAND TEMPS DE RALLUMER LES ÉTOILES
[...]
Guillaume Apollinaire
sábado, 7 de janeiro de 2012
C de Começar o dia com um livro novo (VI)
22
Na universidade aprendeste a luz
que não vem nos livros, às escuras,
no teu quarto velho. Dois olhos, nariz
e boca. sargaços que são pernas e
braços de dois corpos que experimentam
a direcção do vidro queimado entre o
sol e a esperança, a dor que te ensina.
Rui Costa, Breve ensaio sobre a potência,
Lisboa: Língua Morta, Janeiro de 2012
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
M de Música para os meus olhos (XXII)
SONATA
Ouço-a enquanto a chuva cai,
e penso naquele cão solitário
que ia atrás do caixão de Mozart.
Sigo-o nos compassos deste piano
e nos caminhos que a água traça
ao deslizar pelos vidros.
Vou, misteriosamente feliz, seguindo um cão
feito ao mesmo tempo de música e de chuva.
Joan Margarit
[Trad. ID]
S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXV b
VIAGEM
Estou a pensar em ti dentro de um comboio
parado na estação de uma cidade
em que nunca estive.
Uma estação de plataformas cansadas.
De crepúsculo difícil.
Quando se esgota o tempo
é tão desolador atrever-se a sonhar.
O comboio arranca e passa em frente de uns edifícios.
Atrás de uma janela iluminada
vejo o interior: é um instante
com a vaga suspeita de umas vidas.
Também não sei muito mais
sobre aquilo a que chamámos o nosso amor.
Joan Margarit, Misteriosamente Feliz, 2009
[Trad. ID]
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
P de Poesia (IX)
A LIÇÃO DE ESTÉTICA
«Mas que beleza há na poesia?»
Escuta, quando vês um grande amigo
rodeado de mulheres, quando estás
fascinado com a orquestra, e sob o reflector
resplandecem as cores de uma deusa
que desce seminua à plateia,
onde tu estremeces, escondido
em toda aquela multidão!, quando em noite
escura e serena amigos dançam sem mulheres
numa praça ao som de um
acordeão e tu ficas à parte; pois bem, isso
não é belo para ti? Também é belo
para um velho que se chama
crítico e acha beleza em muitas coisas
e que até se aventurou a descobrir no mundo
e talvez fora do mundo, coisas cada vez
mais belas, mas que diz, com amor: «que belo
é este poema!» E tu,
tu olhas-me sem sequer me dares um beijo?
Sandro Penna, No Brando Rumor da Vida,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2003
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
E de Equilíbrio de forças (II)
Dícen?
Olvidan.
No dícen?
Envídian.
Hacen?
Fatal.
No hacen?
Igual.
Para que
'Sforzar?
Todo es
Hurgar.
Olvidan.
No dícen?
Envídian.
Hacen?
Fatal.
No hacen?
Igual.
Para que
'Sforzar?
Todo es
Hurgar.
Mário Cesariny, O Virgem Negra,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1996
R de Regresso ao real (III)
[...]
Mas nós, amigo, chegamos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem,
Mas acima de nós, lá em cima, noutro mundo.
Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar
Se estamos vivos, tanto nos querem poupar.
Pois nem sempre pode um frágil vaso contê-los,
O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina.
Depois toda a nossa vida é sonhar com eles. Mas os erros,
Tal como o sono, ajudam, e a necessidade e a noite fortalecem,
Até que haja suficientes heróis, criados em berço de bronze,
De coração corajoso, como dantes, semelhantes aos Celestiais.
Depois eles chegam, trovejantes. Entretanto penso por vezes
Que é melhor dormir do que estar assim sem companheiros,
Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,
Nem que dizer, pois para que servem poetas em tempo de indigência?
Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho
Que em noite santa vagueavam de terra em terra.
[...]
Mas nós, amigo, chegamos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem,
Mas acima de nós, lá em cima, noutro mundo.
Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar
Se estamos vivos, tanto nos querem poupar.
Pois nem sempre pode um frágil vaso contê-los,
O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina.
Depois toda a nossa vida é sonhar com eles. Mas os erros,
Tal como o sono, ajudam, e a necessidade e a noite fortalecem,
Até que haja suficientes heróis, criados em berço de bronze,
De coração corajoso, como dantes, semelhantes aos Celestiais.
Depois eles chegam, trovejantes. Entretanto penso por vezes
Que é melhor dormir do que estar assim sem companheiros,
Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,
Nem que dizer, pois para que servem poetas em tempo de indigência?
Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho
Que em noite santa vagueavam de terra em terra.
[...]
Friedrich Hölderlin, "Pão e Vinho"
in Elegias, Lisboa: Assírio e Alvim, 1992
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
R de Regresso ao Trabalho (XXXIV)
TÉ
La anciana echó hojitas de té en el agua hirviendo para ver mi vida. Por el humo se fueron mis sueños.
*
AJEDREZ
Estoy jugando el ajedrez con la Señora Muerte a la orilla del mar. Hemos cambiado las reglas. Cada vez que Ella o yo tocamos una pieza del contrario, la arrojamos tranquilamente al océano. Al cabo de cinco minutos quedan sólo su Rey y el mío.
- Oiga - le pergunto -, cuando ya no queden piezas, que hacemos? Tiramos el tablero?
Pero la Muerte abre muchíssimo la boca y me sonríe. No sé por qué, sospecho que Ella piensa en tirar otra cosa.
*
PURGATORIO
Mañana, casi todo el dia, será martes. O también miércoles. Es igual. Yo confundo los días. Ayer fue jueves y hoy es lunes. Llevo tanto tiempo encerrado que sólo espero al Domingo para que alguien me saque de aquí.
Javier de Navascués
in Isla de Siltolá – Revista de Poesía, 5-6,
Sevilha, 2011
domingo, 1 de janeiro de 2012
B de Bom Ano Novo (VI) *
LEGENDA
Hoje, quero da vida
Que ela seja tranquila;
Que seja uma dor e doa,
Mas uma dor boa:
Sem o sal que na ferida
A torna mais dorida.
- Emanuel Félix
* Uma espécie de resolução de Ano Novo.
T de (Uma) teoria de pássaros (XXIII)
THE BEGINNING OF MEMORY
There's a story in an ancient play about birds called The Birds
And it's a short story from before the world began
From a time when there was no earth, no land.
Only air and birds everywhere.
But the thing was there was no place to land.
Because there was no land.
So they just circled around and around.
Because this was before the world began.
And the sound was deafening. Songbirds were everywhere.
Billions and billions and billions of birds.
And one of these birds was a lark and one day her father died.
And this was a really big problem because what should they do with the body?
There was no place to put the body because there was no earth.
And finally the lark had a solution.
She decided to bury her father in the back of her own head.
And this was the beginning of memory.
Because before this no one could remember a thing.
They were just constantly flying in circles.
Constantly flying in huge circles.
- Laurie Anderson
[Obrigada, Hugo.
E Luís.]
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