sábado, 30 de abril de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXV)

O que sei de belo, de grande ou de útil, aprendi-o nesse tempo: o que sei das árvores, da ternura, da dor, e do assombro, tudo me vem desse tempo... depois não aprendi coisa que valha. Confusão, balbúrdia e mais nada. Vacuidade e mais nada. Figuras equívocas, ou, com raras excepções, sentimentos baços. Amargor e mais nada. Nunca mais... Nunca Londres ou a floresta americana me incutiram mistério que valesse o dos quatro palmos do meu quintal. Nunca caça às feras no canavial indiano foi mais fértil em emoção e aventura, que a armadilha aos pássaros na poça do Monte, com o Manuel Barbeiro. Uma nora, dois choupos, a água empapada, e, entre as ervas gordas como bichos, pegadas de bois cheias de tinta azul, reflectindo o céu implacável de Agosto. Os pássaros com as suas asas abertas desconfiam e hesitam: a sede aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam na armadilha agarramo-los com ferocidade. Chiu!... Uma andorinha descreve lá no alto um círculo perfeito, e vem, no voo desferido, arripiar com o bico a água estagnada. Toca numa palheira de visco - é nossa! Já tiveste nas mãos uma andorinha? É penas e vida frenética. E essa vida pertence-te!... Só ao fim da tarde regressava a casa com os bolsos cheios de rãs e os olhos deslumbrados.


Raul Brandão, Se tivesse de recomeçar a vida


S de Solidão (ou C de Comunidade) XIX

Entre os 11 minutos e os 13 minutos e 37 segundos, a minha cena preferida:

sexta-feira, 29 de abril de 2011

F de Fazer Fotografia (XLV)

polaroides


Frementes campaínhas
enredam-se na cancela
de madeira de buxo

O velho regador vermelho
esquecido junto
aos frios jarros

Uma pêra de inverno
apodrecida entre
caixotes demantelados

No meio da vereda
o lutuoso pássaro
animal melancólico

As verdes gavinhas
brilham de tanto
orvalho depositado

As janelas da casa
escancaradas
o vento nas cortinas

Uma chuva fina
de agulhas ponteia
os lençóis da tarde


- Luís Pignatelli, Obra Poética (& etc)

B de Biorritmo (LXXX)

C de (A) Comunidade

15 - Dos meus, aqui e agora

---------------------------- : a vida, intermitente.


Caído do chão, rindo duma piada sobre a Pietà e o Outão;

o vazio;


tocando ao lado de uma musa;

o vazio;


sendo o paciente português de uma francesa paciente;

o vazio;


ouvindo os comentários ao pugilato Bergman vs. Spielberg;

o vazio;


escalpelizando azulejos, noite cerrada, ao lado do poeta;

o vazio;


lendo um autógrafo sobre ilhas e arquipélagos;

o vazio;


apreciando pés na madrugada;

o vazio;


editando a alegria de um primeiro livro;

o vazio;


ouvindo: "Eh!, tanta carne!", estando eu de tronco nu;

o vazio;


aprendendo a raiz quadrada de um número negativo;

o vazio;


dando com as coordenadas de um poema e falhando as de umas moelas;

o vazio;


amando os miradouros da cidade;

o vazio.


Concluo: os meus vazios estão cheios.





MIGUEL MARTINS

quinta-feira, 28 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLI)


József Rippl-Rónai, "Mulher com gaiola", c. 1900

S de Solidão (ou C de Comunidade) XVIII

[Espero sinceramente que hoje, quando contar quantos somos, a matemática dos afectos continue a bater certo e a dar o mesmo total de ontem e de anteontem. É das poucas ciências em que preciso de confiar para estar viva. ]




CONTRA MUNDUM



This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.


T.S. Eliot



Hoje quantos somos? Quantos ainda
sentem o gosto, esse cheiro
escapando, estranho
como a nossa juventude.
Adiados vezes suficientes, mais
atrevidos ainda, num país que preferia
não, que gosta muito de chamar
à parte, de dizer que isto não é próprio,
não se faz, ou
explicar as suas razões e,
no fim, pedir uma atençãozinha.

Tenho o sono,
há dias, semanas já, sem funcionar.
Não me larga a ideia de que
endoideço
. A boca cheia de asas,
um rígido tremor, e quando a abro

nada. E então levo-me por aí, a pé,
a sentar-me pelos cafés, só, a dissolver-me
nuns versos. A chuva perde o juízo,
cai de todos os lados e cansa
a manhã, com as suas cores frágeis,
arrastadas, e aromas pútridos.
Mesmo a sombra
cheira a deus
nestes jardins de vento.
Fico a olhar umas flores afogadas
nesse charco de onde bebo
um último verso antes de ir-me.

Decoro detalhes, variações
mínimas neste
entardecer alucinado. Vou pela hora
em que a loucura se torna doce,
monologando como os velhos, a desfiar-me
pelos bairros, afogado em sonho.
Da boca cariada das ruas de Lisboa,
oiço e aproveito restos de frases esquecidas
de sentido, vozes já sem ninguém,
um inventário de coisas
que a música
sorve. Todas estas canções que ainda
nos procuram no sangue
um coração antigo. Quase nada
resta.

Sonho, enfim, a escuridão
dentro de uns cabelos
, lábios rombos de
amor, mesmo um assim, tão rasteiro. Uns
olhos verdes, quietos. Beleza dessa,
roçando a insolência.
Depois só a sombra parada nestas mãos,
de um corpo que se afastou e deixa
todo o seu peso num nome,
florindo minuciosamente,
num odor agudo, vago, tardio.

A cama baixa ao nível cruel
das recordações, desfeita por mulheres
dessas de dar à corda. O ébrio galope
de uma raça que já sabe
como tudo acaba
e continua a ter pressa.

Mas hoje quis, como
só poucos,
cortar ambas as mãos, deixá-las
sobre a pedra de uma igreja em ruínas,
rezando
, alimentando
as religiões do ritmo. Sons
agarrando a vida para escorchá-la,
fazê-la nascer de novo
e a uma ânsia nova, de olhos rasgando
em perseguição, que fareje e busque,
embosque e faça presas, morda e mate
com a sua boca incrível.

Quantos? Poucos, decerto, mas
em nenhuma época foram precisos
muitos.



- Diogo Vaz Pinto, Nervo, Lisboa: Averno, 2011

A de Amor (XI)

Um poema de amor que ninguém
tivesse feito e só um merecesse
e só o outro entendesse

E aí estaria ele o amor
em estado de pura nudez
litográfica à século das luzes



- Rui Caeiro, O Quarto Azul e outros poemas, Lisboa: Letra Livre, 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XL)



ah, tivesse eu asas de andorinha
e estes campos não eram o que me definha.


R. C.





A de Anjos Caídos

T de Tratado de Pedagogia (XXIV)

Se não fosse o Rui, não achava piada nenhuma a isto :)




R de Regresso ao Trabalho (XII)



[...]
Punctuated birds on the power line
In a Studebaker with the Birdie Joe Joaks
I'm diggin all the way to China
With a silver spoon
While the hangman fumbles with the noose, boys
The hangman fumbles with the noose

Got to get behind the Mule
In the morning and plow


Pin your ear to the wisdom post
Pin your eye to the line
Never let the weeds get higher
Than the garden
Always keep a sapphire in your mind
Always keep a diamond in your mind
[...]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

F de Falar para as paredes (VII)

Para o Barnabé e para o Miguel
(a caminho da Rua do Século):

R de Regresso ao Trabalho (XI)

"Choose life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television. Choose washing machines, cars, compact disc players, and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol and dental insurance. Choose fixed- interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisure wear and matching luggage. Choose a three piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing sprit- crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pishing you last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats you have spawned to replace yourself. Choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that?"

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXIX)

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXVIII)



"If you could only stop your heart beat for one heart beat"

[Obrigada, Patrícia]

A de Abril

NÃO POSSO



Nasce
em torpes corações a Primavera.
Tempo, astros, alegria nunca escolhem
sobre quem derramar-se.
Para exemplo deste imponderável
Goering amava os animais
e vem a Lisboa David Oistrakh
tocar para estudantes e rameiras.

Quando colho uma flor, sei
que ela mudará as minhas noites.
Mas é também conhecido
que a certas horas os carcereiros
despem a farda
e vão às Mercês e à Rinchoa
comprar cestos à beira da estrada
com morangos ou cravos. Não posso
com tanta ironia.



Fernando Assis Pacheco
in Cuidar dos Vivos (1963)

domingo, 24 de abril de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXIII)

L de (A) Luz da Sombra (VI)

M de (O) Magnetismo das palavras

At this unique distance from isolation
It becomes still more difficult to find
Words at once true and kind
Or not untrue and not unkind.


PHILIP LARKIN



Ainda nem tive coragem para desarranjar estas palavras e estrear as minhas :)


E de Estar (III)

Se é culpa, o conceber; nascer, tormento;
guerra, viver; a morte, fim humano;
se depois de homem, terra e vil gusano,
e, depois de gusano, pó e vento;

se vento, nada, e nada o fundamento;
flor, a beleza; a ambição, tirano;
a glória e fama, pensamento insano,
e vão, em quanto pensa, o pensamento,

- quem anda neste mar para afogar-se?
De que serve em quimeras consumir-se,
ou pensar noutra coisa que salvar-se?

De que serve estimar-se e preferir-se,
recordar algo tendo de olvidar-se,
e edificar, para depois ter de ir-se?


Lope de Vega
[Trad. José Bento]

B de Biorritmo (LXXIX)

sábado, 23 de abril de 2011

L de (A) Luz da Sombra (V)


A de Amizade (II) :

Receber um mail com o assunto "Porque sim". Encontrar lá dentro uma imagem que ajude a respirar. Não poder deixar de partilhar o "Porque sim", para que se perceba como foi importante recebê-lo. Querer guardar a imagem só para mim, pelo menos mais um bocadinho, para que se perceba como foi importante recebê-la. Acrescentar - com as maiores maiúsculas que conseguir - OBRIGADA.

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXVII)

Faz bom tempo. O ar está lavado, claro. Ao sol, as casas surgem nítidas, separadas. Agora, sempre que faz bom tempo, a angústia torna-me. Sinto uma espécie de impossível e débil reconhecimento em relação não sei a quê. Tudo parece longínquo, fora do meu alcance. Muito altas no céu, nuvens e um pouco de bruma. Tenho medo e confiança ao mesmo tempo. Preciso de respirar. Andorinhas. Um avião. Queria partir para qualquer lado. Perto ou longe. Para um sítio onde estivesse só e me sentisse bem, pudesse dormir de olhos abertos, sentir o ar fresco nas mãos, no rosto. Uma pausa na inquietação. A paz.



Ernesto Sampaio, Fernanda (Fenda)

W de Women’s Studies (II)

«Amada pastora minha,
teus repentes me maltratam,
os teus desdéns atormentam-me,
teus desatinos me matam.

À noitinha tu detestas-me
e queres-me de manhã;
insulto-te ao meio-dia,
e durante a tarde chamas-me;

agora dizes que queres,
e depois que só troçavas,
ris de minhas fracas obras,
choras por minhas palavras.

Quando sofres por ciúmes
estás mais contente e cantas;
e quando estou mais tranquilo
parece que te desgraças.

Criticas-me ao meu amigo
e ao meu inimigo gabas-me;
se não te vejo, procuras-me,
e, se te procuro, zangas-te.

Parti uma vez de ti,
choraste minha ausência grande,
e agora que estou contigo
com a tua me ameaças.

Sem mar nem montes no meio,
sem ter perigo nem guardas,
mar, montes e guardas tens
com uma palavra zangada.

As paredes de tua choça
parecem-me de montanha,
um mar o chegar a vê-las,
mil graças tuas desgraças.

Como tens num só momento
o amor e a mudança;
porém, pintam-no menino,
pouca vista e muitas asas.

Se Filis te fez ciúmes,
o tempo te desengana,
que como ela quer a alguém,
posso por outra deixá-la.

Se a aldeia toda o murmura,
a gente sempre se engana,
e é melhor que tu me queiras,
ainda que ela tenha a fama.

Com tudo isto amedrontas-me,
disfarças e ameaças-me;
se choras, - como detestas?
e se troças, - como amas?»

Isto dizia Belardo
a falar com uma carta,
à sombra de uma oliveira
que o dourado Tejo banha.



Lope de Vega, Antologia Poética, trad. José Bento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011

R de Rebeca (VIII)

Lipnitzki/Roger Viollet/Getty Images


Louis-Ferdinand Céline avec ses chiens, à Meudon, c. 1955

sexta-feira, 22 de abril de 2011

quinta-feira, 21 de abril de 2011

B de Brincar com ossinhos (III)


















"La danse macabre des femmes"

Paris/1491


E de Estar (II)

“Je sens une difficulté d’être.” C’est ce que répond Fontenelle, centenaire, lorsqu’il va mourir et que son médecin lui demande : “Monsieur Fontenelle, que sentez-vous ?” Seulement la sienne est de la dernière heure. La mienne date de toujours. Ce doit être un rêve que de vivre à l’aise dans sa peau. J’ai, de naissance, une cargaison mal arrimée. Je n’ai jamais été d’aplomb. Voilà mon bilan si je me prospecte. Et, dans cet état lamentable, au lieu de garder la chambre, j’ai bourlingué partout. Depuis l’âge de quinze ans, je n’ai pas arrêté une minute. Il m’arrive de rencontrer telle ou telle personne qui me tutoie, que je ne peux reconnaître jusqu’à ce qu’une poigne profonde arrache de l’ombre, à l’improviste, tout le décor d’un drame où elle tenait son rôle, où je tenais le mien, et que j’avais complètement oublié.



Jean Cocteau, La difficulté d’être (1947)

P de Páscoa Feliz (III)

Ainda inspirada pelo vídeo que gentilmente me enviaram - "Put a bird on it":

quarta-feira, 20 de abril de 2011

E de Espera (XIV)





[Esta espera, sim, tem hiperligação. A outra continua...]

B de Biorritmo (LXXVII)

I used to write
I used to write letters
I used to sign my name
I used to sleep at night
Before the flashing lights settled deep in my brain

But by the time we met
By the time we met the times had already changed

So I never wrote a letter
I never took my true heart
I never wrote it down
So when the lights cut out
I was left standing in the wilderness downtown

Now our lives are changing fast
Now our lives are changing fast
Hope that something pure can last
Hope that something pure can last

It seems strange
How we used to wait for letters to arrive
But what's stranger still
Is how something so small can keep you alive

We used to wait
We used to waste hours just walking around
We used to wait
All those wasted lives in the wilderness downtown

[...]

I'm gonna write a letter to my true love
I'm gonna sign my name
Like a patient on a table
I wanna walk again gonna move through the pain

[...]




- ARCADE FIRE

E de Espera (XIII)

AQUI

P de "Portugal não é um país pequeno" (VI)



E de Estar

Termina assim um poema de Juan Bonilla intitulado “El combate del siglo” – e podia ter terminado assim uma conversa:

Nuestra única tarea es conseguir
que cuando la campana anuncie
el final del combate,
el árbitro levante el brazo vencedor de la alegría.
Porque después vendrá la nada:
esa escuadrilla
de limpiadoras
que dejará el pabellón
como si nunca se hubiera celebrado tu combate.

terça-feira, 19 de abril de 2011

B de Brincar com ossinhos

Quand le monde sera réduit en un seul bois noir pour nos quatre yeux étonnés, - en une plage pour deux enfants fidèles, - en une maison musicale pour notre claire sympathie, - je vous trouverai.
Qu'il n'y ait ici-bas qu'un vieillard seul, calme et beau, entouré d'un "luxe inouï", - et je suis à vos genoux.
Que j'aie réalisé tous vos souvenirs,- que je sois celle qui sait vous garrotter, - je vous étoufferai.

*

Quando o mundo estiver reduzido a um só bosque negro para os nossos olhos espantados - a uma praia para duas crianças sinceras, - a uma casa musical para a nossa clara simpatia - encontrar-vos-ei.
Quando aqui só haja um velho, belo e calmo, rodeado de um "luxo inaudito" - ajoelhar-me-ei.
Quando for eu toda a vossa memória - seja aquela que sabe garrotar-vos - estrangular-vos-ei.



Jean-Arthur Rimbaud, Illuminations
[Trad. Mário Cesariny]

S de Satisfação (II)

Termina assim uma das cartas de Emily Dickinson:

No Rose, yet felt myself a'bloom,
No Bird - yet rode in Ether.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

B de Biorritmo - LXXVI b

A de Amor (X)

RÊVE OUBLIÉ



Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.



- António Maria Lisboa

H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (IX)

Para o Miguel, claro, de quem nos lembrámos logo que nos sentámos à mesa:

S de Segunda-feira

ESTAR



En cenas familiares y anchos domingos sórdidos,
en aulas medio llenas donde mi voz no es mía,
en la consulta del doctor sonriente
que firma unas recetas,
sobre el cuerpo desnudo en el que me demoro
para salir de mí transformado en temblor,
en los ojos de un niño en los que nado
hacia una costa ilusa donde el tiempo es mentira,
en las cafeterías donde los ceniceros atestados
medieron otra vez la victoria del tedio,
en álbumes de fotos que historian las huidas
que me condenan hacia el mismo punto
donde empeza a huir,
fulge constante una pregunta, cada letra
un colmillo ensagrentado:
qué estoy haciendo aquí?

Y cuando en la mañana me repito en el espejo
con cara de superviviente único de un accidente aéreo,
y cuando me reflejo en los escaparates
camino de una noche poblada de relámpagos,
y cuando la memoria me nubla el paladar
con el sabor de una boa ya muerta,
brotando de mi piel como uma picadura
otra vez la pregunta que no anhela respuestas:
qué estoy haciendo aquí?

Pero luego una voz dice mi nombre
y yo me reconozco, o sé vivir en los amplios salones
de una canción o sabe bien un cigarrillo
después de tanta nicotina para nada,
y la mano del mundo ordena sus tesoros
y todo está en su sitio formulando un temblor de sí rotundo
y la pregunta pierde sus garfios y las cosas
responden al unísono: Estar es suficiente.

El sol del mediodía santifica las cosas,
convierte lo que baña en um milagro,
pone coraza a la conciencia irresponsable
de ser eternos, hila un cuento antiguo
en el que se derriten las preguntas,
y en todos los espejos desafías
el frío de las cenas familiares,
futuros sórdidos domigos anchos,
tu voz no tuya poyectando ansiosa
a los espectros de la nada y los gigantes del pasado
que estoy haciendo aquí?

No anheles la respuesta:
Estar es suficiente.



- Juan Bonilla, Buzón Vacío, Valência: Pre-Textos, 2006

B de Biorritmo (LXXVI)

Ouviu-se hoje, a caminho de uma festa:

domingo, 17 de abril de 2011

E de Espinhas para um gato (V)

[Em Leiria]

sábado, 16 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXVI)

B de Biorritmo (LXXV)

S de Solidão (ou C de Comunidade) XVII

Se o rosto que é teu não sabe filtrar
o que és - as dores maiores, mais puras
e fatais - esquece-o, deita fora e esquece
e inventa outro, mais feliz, mais longe



Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado, 1989

[O manuscrito deste poema faz parte da exposição "Hand Made",
no Bartleby Bar]

sexta-feira, 15 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXV)


Um pormenor da exposição "Primitivos Portugueses (1450-1550)",

Museu Nacional de Arte Antiga.


B de Balbuceio

[...]
Mas quando o tempo se desliga do tempo
e se transforma em boca,
grandes molares negros
e garganta sem fundo,
queda animal num estômago
animal sempre vazio,
engano com canções selvagens a sua fome.
Face ao céu, equipado para o nada,
canto o canto do tempo.
No dia seguinte, nada me fica
destes gargarejos.
E digo-me: a hora não é de canções,
mas de balbuceios.
Deixa-me contar as minhas palavras,
uma a uma.
Arrancadas à insónia e à cegueira,
à cólera e ao nojo
- são tudo o que possuo,
tudo o que possuímos.

[...]


Octavio Paz
(trad. Mário Cesariny)

S de Solidão (ou C de Comunidade) c

La strada sgombra
non è una via, solo due mani, un volto,

quelle mani, quel volto, il gesto di una

vita che non è un’altra ma se stessa


Eugenio Montale




Lisboa, 14/04/11


[É bom quando os amigos nos dão a mão e alguns versos.]

quinta-feira, 14 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros - XXIXb


Campo de Ourique/2011


terça-feira, 12 de abril de 2011

B de Biorritmo (LXXIV)



[...]
Send in a cloud with a silver linin',
Take me to paradise.
Show me that river,
Take me across,
Wash all my troubles away
Like that lucky old sun give me nothing to do
But roll around heaven all day.

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (V)

14

Quantas palavras para completar o silêncio? Quantas folhas? Quantos cadernos? Quantos armários para os arrumar? Quantos aniversários? (o jantar no restaurante, o esforço de um sorriso a maquilhar a angústia, quantos anos tenho?, e contudo por dentro, o silêncio a doer, quantos anos faço?) Quantos verões? Quantos invernos? (os dias junto à janela onde a água escorre, os dias sucessivos, uma manhã um intervalo de sol, uma flor soerguida entre as ervas, sorri?, e saber que é outro verão que chega, outro inverno que nele se prepara) Quanto tempo?


- Jorge Roque, O chão serviu-lhe de céu (1999)

L de (A) Luz da Sombra (IV)

William Hammershoi (1864-1916), "Mulher lendo à janela"

C de Chocolate Jesus (III)

Dependendo dos dias, ainda melhor do que o Vigor Chocolate:

S de Solidão (ou C de Comunidade) XVI

HOMENAGEM A ALLEN GINSBERG



“Vi os melhores espíritos da minha geração destruídos
pela loucura, morrendo à fome histéricos nus”

uiva Allen Ginsberg, poeta americano de S. Francisco,
com os cabelos em desalinho
Eu vi a mesma coisa por cá, Allen,
e penso que acontece assim em toda a parte
Era um grupo, não pròpriamente um grupo, mas
um grupo que se sentava
sempre de costas, ou de lado, sob a chuva
torrencial que algumas palavras provocavam ao abrir-se
Bebia-se muito bagaço, cafés uma vez por outra,
o sangue podia beber-se à vontade:
bastava cortar as veias às mulheres que se aproximavam
Uns escreviam livros que rasgavam
devia ser numa praia para a maré levar as folhas
e de noite, sem lua, bem no alto do rochedo
Outros publicavam nos jornais, raramente
Havia, claro, o papa, os papas, já os escritores
com oficina montada para as bandas da Sé Velha
E os que não morreram, não enlouqueceram ou não se suicidaram
e os que não traíram
esses vão vivendo como podem
e são agora papas cardeais arcebispos
Alguns forçados a voto de pobreza
arrastando-se pela Europa como o meu amigo
Manuel de Castro
um dos melhores espíritos da minha geração, Allen Ginsberg,
que embora não acredites, ainda resiste,
árabe na linha do seu destino infalível
acendedor de palavras
visionário de técnicas amorosas, combativas, mágicas
Mas como ia dizendo, Allen, era um grupo, não pròpriamente
mas um grupo
cujos elementos talvez se odiassem
ou então era amor, sobretudo raiva
contra a cidade senil

Ninguém trabalhava
e os poucos que trabalhavam eram despedidos no dia seguinte
ameaçavam (murmurava-se) as famílias, as instituições,…
Eles
uma família azul que fumava cigarros baratos
que se embebedava com muitas prostitutas
e da qual, desregradamente, certos membros
praticavam a homossexualidade por esteticismo
Era um grupo, não pròpriamente, mas
um grupo, Allen Ginsberg,
de anjos caídos, trémulos, atrás duma nota de vinte
para jantar



- António Barahona, Impressões Digitais (1968)

F de Falar para as paredes (VII)

[Em Campo de Ourique]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

domingo, 10 de abril de 2011

A de "Ash Wednesday"*





[O poema belíssimo do post veio do sítio do costume. * O título do post veio de um poema belíssimo de T. S. Eliot.]

B de Biorritmo (LXXII)

T de "(um) torso dobrado pela música" (V)

Dinamarca, 2006

L de (A) Luz da Sombra (III)

Rui Miguel Ribeiro

"O jardim possível"

sábado, 9 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXIV)



[Obrigada, David - e prometo que vou tentar manter a minha obsessão por pássaros sob controlo...]

sexta-feira, 8 de abril de 2011

F de Fazer Fotografia (XLIV)


Ara Güler


[Gosto muito da luz, das sombras e, sobretudo, dessa outra espécie de sombra - o gatinho preto que dorme ao sol em segundo plano]

quinta-feira, 7 de abril de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXII)

– E era boa no que fazia? – perguntou Pinata.
– Excelente. Doce, compreensiva, de confiança. Oh, por vezes tinha tendência para se enervar e perder um pouco a cabeça em situações de emergência, mas nada de sério. E todos os miúdos a adoravam. Tinha jeito, como acontece com muitas mulheres sem filhos, para fazer com que os miúdos se sentissem muito importantes e especiais, em vez de algo que acontecera devido ao encontro casual de um espermatozóide e de um óvulo. Uma boa pessoa, a Sra. Harker. Tivemos pena de ficar sem ela.


Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo, Averno

V de Vista para um saguão



Com a tarde
cansaram-se as duas ou três cores do pátio.
Esta noite a luz, o claro círculo,
não domina o seu espaço.
Pátio, céu demarcado.
O pátio é o declive por onde se derrama o céu na casa.
Serena,
a eternidade espera na encruzilhada de estrelas.
Grato é viver na amizade escura
de um saguão, de uma latada e de uma cisterna.


- Jorge Luis Borges


[O saguão do poema é do sítio do costume. O saguão da fotografia é da casa do gato que gosta de olhar para o pássaro.]

quarta-feira, 6 de abril de 2011

B de Biorritmo (LXX)

Fazia parte da melhor "mixed tape" que me ofereceram:

terça-feira, 5 de abril de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XV

para Roberto Dossi


Regressa ao vento da poesia
que não há esperança
mas vive dia a dia
pisando os ossos dos velhos
e antigos profetas.
Regressa às montanhas ardentes
da solidão
que te queimarão o corpo
e a voz.
Regressa aos quotidianos tormentos
mas lembra-te que a solidão
é a única mulher que não te abandona.

Alda Merini
[trad. ID]

segunda-feira, 4 de abril de 2011

W de Women's Studies

"A mulher levou uma mão ao peito como se alguma coisa tivesse rebentado debaixo do vestido, o coração ou, se calhar, apenas uma alça do sutiã."


Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo, Averno

P de Prazeres (III)

[...]
And all I do is pour
Black coffee
Since the blues caught my eye
I'm hangin' out on Monday
My Sunday dreams to dry
[...]


domingo, 3 de abril de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XIV

The bats are in the belfry
The dew is on the moor
Where are the arms that held me
And pledged her love before
And pledged her love before

It's such a sad old feeling
The hills are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream

I made a golden promise
That we would never part
I gave my love a locket
And then I broke her heart
And then I broke her heart

And it's such a sad old feeling
The fields are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream
Innocent when you dream

Running through the graveyard
We laughed my friends and I
We swore we'd be together
Until the day we died
Until the day we died


And it's such a sad old feeling
The fields are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream, when you dream


TOM WAITS
(autor de uma epígrafe de José Miguel Silva)

B de Biorritmo (LXIX)



[...]
What are we coming to
No room for me, no fun for you
I think about a world to come
Where the books were found by the Golden Ones
Written in pain, written in awe
By a puzzled man who questioned
What we were here for
All the strangers came today
And it looks as though they're here to stay
[...]

sábado, 2 de abril de 2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

B de Biorritmo (LXVIII ou Págs. 167 e 168*)

Soft over the fountain,
Lingering falls the southern moon;

Far over the mountain,

Breaks the day too soon!

In thy dark eyes' splendor,

Where the warmlight loves to dwell,

Weary looks, yet tender,

Speak their fond farewell.


Nita!Juanita!

Ask thy soul if we should part!

Nita!Juanita!

Lean thou on my heart.


[...]



"Juanita" is a love song subtitled "A Spanish Ballad". It was first published in 1855 attributed to Mrs. Norton, with music arranged by T.G May. The opening four-bar phrase of the song is taken from Handel's aria "Lascia ch'io pianga" from the opera Rinaldo, although the subsequent melody differs from that of the aria.


* Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo, Lisboa: Averno, 26 de Março de 2011