sábado, 15 de dezembro de 2012

J de Janelas (V)


A CANÇÃO DE ORPHEU - O VAZIO PAGÃO


Negro sobre negro. Desce a faixa azul vibrate
fogo branco, vermelho cortado por lista branca "não
quero monumento nem catedrais, quero uma escala
humana para um grito humano" - cor de carne,
branco-sujo, leve cinza, "girassol desventrado para reter o
alimento", junto aos murais
públicos de Pompeia, um braço caído sobre a biblioteca
laurenciana, janelas cegas, opressiva atmosfera. Sentir

depois que estão presos
numa sala onde as portas foram tapadas com tijolo; resta
bater com a cabeça contra a parede

impensável mistura de cor: sangue-de-boi e negro; o largo
traço do quadrado, o rectângulo: cinza, azul, alvaiade.
Detritos da vida quotidiana: cebo, feltro, guerra, corpos
abatidos - madeira e bronze - finalidade e morte.


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012




[Lisboa, Fevereiro de 2012] 

Sem comentários: