segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

P de Paralelo W (II)


BICHOS


Lembro-me de todos os animais que tive. Tenho muitas saudades de todos. Quase todos tiveram mortes trágicas e eu isso não aceito, não há consolação para isso. Nos meus momentos mais felizes, penso, acredito que a ressurreição vai acontecer e que eu abro a porta de minha casa e todos os animais que tive vêm a subir a escada, estão vivos e vão entrar em casa e todos cabem na casa e a casa é eterna


- ADÍLIA LOPES

domingo, 23 de dezembro de 2018

P de Paralelo W





"We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars." 
- OSCAR WILDE

P de Pássaros Anónimos (VIII)




[Vista para um pátio, no Paralelo W | 2/05/012]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (VI)




Paulo Leminski
in Toda Poesia, São Paulo, Companhia das Letras, 2013

sábado, 1 de dezembro de 2018

C de Começar o dia com um livro novo (LIV)


aos pés dos pássaros
semear migalhas
sem explicação:

(oração pequenina)

fazer encontrar
grão último
sentido


Ricardo Tiago Moura, Cruzes,
com capa de Daniela Gomes, Lisboa, Alambique, 2018




[ID, Madrid, Agosto 015]



"Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas..."

JORGE DE SENA

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

U de Último dia de aulas (ou S de "Stôra, podemos sair mais cedo?")


L'instituteur_ Non, je ne sais pas, je ne sais rien... Qu'est-ce qui reste à votre avis Monsieur Ernesto...

Ernesto_ Tout à coup, l'inexplicable... la musique... par exemple...


Marguerite Duras
in La pluie d'été (pp.113/114)

domingo, 25 de novembro de 2018

D de Do outro lado do espelho (II)


DESEJO DE COISAS LIGEIRAS


Jucal leve louro
como um campo de espigas
junto ao lago celeste

e as casas de uma ilha distante
cor de vela
prontas a zarpar -

Desejo de coisas ligeiras
no coração que pesa
como uma pedra
dentro de um barco -

Mas chegará uma noite
a estas margens
a alma liberta:
sem vergar os juncos
sem agitar a água ou o ar
partirá - com as casas
da ilha distante,
para um alto recife
de estrelas -


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
sel. e trad. de Inês Dias, Lisboa, Averno, 2012




[ID | Lisboa, 2012]

D de "Do outro lado do rio" (II)


"[...] Os dias passam; por vezes, ouço a vida passar. E ainda não aconteceu nada; não há nada de real ainda, à minha volta; não páro de me dispersar, e de me perder em fios de água, quando eu desejava ter um só leito e fazer engrossar o meu caudal. Porque é assim que deve ser, não é verdade, Lou?: nós queremos ser como um rio, e não um sistema de canais para irrigar prados. Devemo-nos reunir e fazer soar o trovão, não é verdade? Um dia, quando formos muito velhos, lá para o fim, talvez nos assista o direito de ceder, e de nos espraiarmos num delta..."


Rainer Maria Rilke
in Querida Lou, trad. António Gonçalves, 
Sintra: Colares Editora, 1994




[ID, Portas do Ródão, 09/015]

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

P de (The) Privacy of Rain (XXXVIII)


PALAVRAS COM ÁGUA


A chuva gosta de escrever. Imprime as suas obras sobre o vidro das janelas, na carroçaria dos automóveis. E quando cai sobre um papel ouve-se o ruído de prazer com que o pisa. Sabe traçar uma fenda na superfície, como fazia a velha tipografia, depois arredonda-a. E, sobretudo, se houver algo de escrito, desbota-o até conseguir apagá-lo. O que a chuva escreve prevalece sobre qualquer tinta. E no dia seguinte, quando o papel tiver secado, ficam gravados os seus sinais, uma iconografia quase cuneiforme que é secreta e que é também para sempre. 


[Trad. ID]




[ID | Coimbra, 13/05/12]

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - XIX b


NUUR


                        para Patrícia Joana


    A pouca luz que tenho no rosto, provém do facto de ler, todas as madrugadas, um fragmento do Alcorão.
    Muito pouca luz, mas redonda.
    O meu corpo é anguloso, ossudo e imerso em trevas. Só quando caminho se acendem luzes, como o plâncton, à noite, nas margens do mar da Índia. Então, entre os meus passos, perpassam estrêlas.
    Se estou imóvel, porém, só o meu rosto se distingue. Nem eu próprio me vejo todo por fora, nem mesmo diante dum espelho, tal a profundidade dêste mergulho interior.
    Aqui respira-se melhor.
    Pode dizer-se o que se quiser.
    O rigor da poesia é ganhar esta Grande-Guerra-Santa com a nossa própria alma.

    Cada vez mais se me antolha evidente ser a vida uma preparação para a morte: lugar comum, onde todos nos sentamos.
    Há quem fique de pé, mas por pouco tempo.

                                                                     *

    A pouca luz que tenho no rosto, provém igualmente de um beijo teu.
    Um beijo muito núbil, cheio de castidade e desejo, num perfeito equilíbrio de suavidade religiosa.
    Um beijo inspirado por Deus.
    Agora, quando leio o Alcorão, de madrugada, a pequenina luz circular do meu rosto aumenta de diâmetro e ilumina o som do texto.
    Já não preciso do candeeiro aceso.


António Barahona, Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea,
Lisboa, Averno, 2011

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XIX)

PARIS AT NIGHT



Três fósforos acesos um a um durante a noite
O primeiro para ver o teu rosto inteiro
O segundo para ver os teus olhos
O último para ver a tua boca
E a escuridão inteira para recordar isso tudo
Enquando te aperto nos meus braços.


- JACQUES PRÉVERT

sábado, 13 de outubro de 2018

A de A propósito de melros *


VI



E todavia,
as risadas do melro na gaiola
fazem-me rasgões por dentro
como se em vez de riso fossem pranto.

Porque eu sou como ele:
alguém me reduziu o tamanho do quintal
até o quintal ficar isto que se vê
- e eu a defendê-lo a golpes de riso. 

Como o melro, tal e qual. 


A. M. Pires Cabral
in Telhados de Vidro n.º 11, 
Lisboa, Averno, Novembro de 2008


*


A ÚLTIMA NOITE DA TERRA


O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.


Roger Wolfe
in Criatura n.º5, trad. Luís Filipe Parrado,
Faculdade de Direito de Lisboa, 2010


*


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012


*


TREZE MANEIRAS DE OLHAR PARA UM MELRO


I

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.


II

Eu tinha três ideias em mente,
Tal como uma árvore
Em que estão três melros.


III

O melro rodopiava nos ventos de Outono.
Era uma ínfima parte da pantomina.


IV

Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.


V

Não sei se prefiro
A beleza das entoações
Ou a beleza dos subentendidos,
O melro a assobiar
Ou o instante depois.


VI

Os pingentes de gelo cobriam a longa janela
De vidro bárbaro.
A sombra do melro
Atravessava-a, de um lado para o outro.
O ambiente
Desenhava na sombra
Uma causa indecifrável.


VII

Ó homens magros de Haddam,
Porque é que imaginam pássaros de ouro?
Não vêem como o melro
Anda entre os pés
Das vossas mulheres?


VIII

Sei de tons nobres
E de ritmos lúcidos, irresistíveis;
Mas sei, também,
Que o melro faz parte
Daquilo que sei.


IX

Quando o melro desapareceu de vista
Marcou o limite
De um de muitos círculos.


X

Ao verem melros
A esvoaçar na luz verde,
Até as alcoviteiras da eufonia
Gritariam subitamente.


XI

Ele atravessava o Connecticut
Numa carruagem de vidro.
Um dia, o medo apoderou-se dele,
Ao confundir
A sombra dos seus cavalos
Com melros.


XII

O rio move-se.
O melro deve estar a voar.


XIII

Fez noite toda a tarde.
Estava a nevar.
E ia nevar.
O melro pousou
Nos ramos do cedro.


Wallace Stevens
[Trad. Inês Dias]


*


CANTO DA CHÁVENA DE CHÁ



Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.


Fiama Hasse Pais Brandão
in Cantos do Canto, Lisboa, Relógio D'Água, 1995


*


LEX VISIGOTHORUM



para o Manuel de Freitas


Mestre,


Este escrivão será breve nas palavras e demorado sob as estrelas, pois a vida extingue-se com um sôpro e o pavio da candeia arde e consome-se com a falta dele. A oliveira cresceu como um Poeta, benzida pelas estações, no render da Guarda Real: os Meses, o Sol e a Lua. As raízes são profundas e agarram-se à terra como os condenados. No nosso ofício, entre verbos e versos, transcrevi uma lei visigótica: coima de cinco soldos para quem arrancar oliveira alheia. Bárbaros somos nós, em Portucale: árvore alheia, coração próprio. Meu velho amigo, fora das muralhas está a belíssima civilização do Mundo: o gamo dorme à sombra da rama e o melro assobia com mel no bico. O gato faz o que quer e é feliz com tão pouco. Não há ponta de treva que cresça nesta saúde. Aqui, rente ao osso da matéria, a acidez é baixa e a lira canta alto. Termino, amadoramente, com um verso de outro tempo: é o músculo do peito que dá corda ao destino. Mestre, esta terra tem coroa: a família, frutos e um fio de ouro no lagar.


Ricardo Álvaro
in AAVV, De fio a pavio, Lisboa: Tea For One, 2012


*


Foi possível    sabes?
O dia foi breve menos do que os outros      possível
tão breve     a passagem dum melro     todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite      tão breve


Abel Neves
in Eis o amor      a fome e a morte, Lisboa, Cotovia, 1998


*


Quando no quarto branco da Charité
Acordei de manhã
E ouvi cantar o melro, entendi
Muitas coisas. Muito havia
Que a morte não temia por saber
Que nada mais me faltaria se
Eu próprio me faltava. Nesse instante
Cheguei a alegrar-me até
Com o canto dos melros após a minha morte.


Bertolt Brecht
in Poemas, sel. e trad. de Arnaldo Saraiva, 
Lisboa: Presença, s/d




[* Uma micro-antologia, começada a 4 de Outubro de 2016, para o Ricardo Álvaro.]

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXXVII)


FRAGMENTO (NARRATIVA)


ao Laureano, in memoriam


"A democracia manda-nos falar e eu murmuro
excita-nos a grito e silencio. Depois a tirania
obriga a segredar. Então eu falo.
Impõe-nos o silêncio. É quando grito".
Assim ele ia, neste lucubrações, em grande perigo
de estranhamento e dor sob o céu baixo
das nuvens suburbanas. "De mim sai o silêncio
como um grito".  E caminhava. Nomes bárbaros
de indústrias e comércios seguiam-lhe o andar
("são nomes de demónios?, de gigantes") e as fachadas
irradiavam luzes de obscuros interiores.
Assim ele ia atento, regressando, em grande perigo.

"Não falo a vossa língua, não pertenço a esse código
por todo o lado oculto, o Livro não escrito
de onde saem ordens e discursos criminais".
Assim ele ia em combate, contrapondo voz humana
a seduções difusas e palavras-talismã.
E entretanto Outono, o fim da tarde. "A inteligência
comove-se a olhar seu próprio tempo." Alteou-se-lhe
de súbito o esterno, um arco tenso
sobre a democracia. "Não seja nunca o sonho
a comandar a vida. Que a voz que em mim compõe
me seja dura." E apressando-se
assim ele ia orando, de regresso, em grande perigo.


Carlos Poças Falcão
in Telhados de Vidro n.º 11,
Lisboa: Averno, Novembro de 2008

L de (A) Luz da Sombra (LI)






Tens direito à luz que sobra de cada um dos teus dias. 
Não te servirá de nada, 
mas não deixa de ser um direito que tu tens.

Rui Caeiro, Deus e outros animais
Lisboa, Averno, 2015

domingo, 23 de setembro de 2018

P de Pássaros anónimos (XVIII)





recado


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto, Horto de Incêndio,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997





[ID, Santa Cruz,  2016-2018]

T de "The days grow short..."


MUDANÇA DE ESTAÇÃO


para te manteres vivo - todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio - uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes
que se enforcam com a corda dos noctilucos
estendida nesta mudança de estação


- AL BERTO

domingo, 16 de setembro de 2018

R de Rebeca - XX b


O DONO, SEGUNDO O SEU CÃO


Ainda que pareça tão jovem,
estou a envelhecer mais depressa do que ele,
sete para um
é a proporção que costumam dizer.

Seja qual for o número,
vou ultrapassá-lo um dia
e assumir a liderança
tal como faço nas nossas caminhadas no bosque.

E se isto alguma vez
lhe passar pela cabeça,
seria a mais doce
sombra que alguma vez lancei sobre a neve ou a erva.


Billy Collins, Amor Universal
trad. de Ricardo Marques, Lisboa, Averno, 2014




[A Kiki, no seu sítio preferido, a 8/09/019]

sábado, 15 de setembro de 2018

R de Rebeca (XX)


Era uma vez um homem que tinha um cão. Quando passeava no bosque o cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. Um dia o cão morreu. O homem comprou outro cão. Como o anterior o novo cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se do outro cão. Mas um dia também esse cão morreu. De novo o homem comprou outro cão. Como os anteriores também este trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se dos outros cães. Por fim não foi preciso comprar mais nenhum cão. Para onde fosse uma matilha seguia-o. Mais tarde nem era preciso já ir passear para o bosque.


Ana Hatherly, 463 Tisanas,
Lisboa, Quimera, 2006




terça-feira, 11 de setembro de 2018

L de Ler (VI)

outra maneira de ler, num dos meus jardins de sempre:



sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A de A poesia é o menos - III c



Suzuki Harunobu 
(1725 – 1770) 



Alvin Langdon Coburn, “Woman in a Kimono with Sunflower” 
(Autochrome), 1908

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A de A poesia é o menos - III b


SOMBRAS


Iluminar o mundo - com palavras.
velas, algum vinho.
Dito assim, quase parece simples.

Mas chovia muito e resguardou-se
cada um na sua tão pequena chama
ou numa cómoda e fria indiferença.

Talvez fosse de esperar. As velas,
porém, continuaram a arder.
Enquanto cinco rostos se reflectiam na parede

e a poesia era, de novo, a única luz.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014




Suzuki Harunobu 
(1725 – 1770)

terça-feira, 4 de setembro de 2018

T de Tratado de Pedagogia (LXIX)




Silvina Rodrigues Lopes
no posfácio a Manuel de Freitas, Sunny Bar,
com org. de Rui Pires Cabral, Lisboa, Alambique, 2015

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

T de "The days grow short" (XV)


ROSS, 1989


É uma fotografia de alguém
que vai morrer. Deus,
tanto quanto sei, nunca apreciou
o preto e branco de Bob
Mapplethorpe. É um homem,
portanto. Esconde-se
ou mostra-se na secura
quase oriental das flores. Biombos,
talvez biombos, imprimem
no seu corpo a luz fatídica de Setembro.
E nada disto tem, para já,
uma relação directa com a buganvília
que me sepultou a infância.

Mas toca - e como toca - o que
de mais sinuoso e vegetal
alguma vez compôs um ouvido
humano. "Floriram
por engano as rosas bravas"?

Voltam, desoladas, a florir.


Manuel de Freitas, Büchlein für Johann Sebastian Bach,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003




terça-feira, 28 de agosto de 2018

A de Amor (XXVIII)


[Para o M.]


PALERMO


Foi estúpido termos deixado o nosso quarto.
A praça vazia estava um caldo.
O relógio parecia prestes a derreter.

O calor era um taco batendo numa bola 
e arremessando-a para as urtigas do verão.
Mesmo as abelhas estavam desmaiadas perante tal dia. 

A única coisa que se deslocava além de nós
(e entretanto tínhamos parado sob um toldo)
era um esquilo que corria de um lado para o outro

como se estivesse com dúvidas
acerca de atravessar ou não a rua,
com a cabeça e a cauda contorcendo-se de indecisão. 

Tu olhavas para uma montra
mas eu reparava no esquilo
que agora se levantava sobre as patas traseiras,

e, depois de fazer uma pausa para olhar em todas as direcções,
começou a cantar com uma bonita voz
uma ária melancólica sobre a vida e a morte, 

as patas dianteiras apertadas contra o peito,
o rosto cheio de saudade e esperança,
à medida que o sol incidia

nos telhados e toldos da cidade,
e a terra continuava a girar
e a manter no sítio a lua

que apareceria mais tarde naquela noite
quando nos sentámos num café
e, incentivado pelo proprietário,

eu me pus de pé em cima da mesa
e cantei para ti e para os outros
a canção que o esquilo me ensinara a cantar.


Billy Collins, Amor Universal,
com trad. de Ricardo Marques, Lisboa, Averno, 2014

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

P de (The) Privacy of Rain (XXXV)


LITANIA


Tu és o pão e a faca,
a taça de cristal e o vinho...

- Jacques Crickillon


Tu és o pão e a faca,
a taça de cristal e o vinho.
Tu és o orvalho na erva matinal
e a roda ardente do sol.
Tu és o avental branco do padeiro,
e as aves do paul ao esvoaçarem repentinamente.

No entanto, tu não és o vento no pomar,
as ameixas na bancada,
ou o castelo de cartas.
E não és certamente o ar com odor a pinho.
Não há qualquer hipótese de seres o ar com odor a pinho.

É possível que sejas o peixe debaixo da ponte,
até mesmo o pombo na cabeça do general,
mas nem sequer estás próximo
de ser o campo de centáureas ao pôr-do-sol.

E uma breve mirada no espelho poderá mostrar-te
que nem és as botas ao canto
nem o barco descansando no ancoradouro.

Talvez te interesse saber,
já que falamos do enorme imaginário do mundo,
que eu sou o som da chuva sobre o telhado.

E que por acaso sou a estrela cadente.
o jornal da tarde a esvoaçar pela viela,
e o cesto de castanhas na mesa da cozinha.

Sou também a lua detrás das árvores
e a chávena de chá da mulher cega.
Mas não te preocupes, não sou o pão e a faca. 
Tu ainda és o pão e a faca.
Serás sempre o pão e a faca,
para não falar da taça de cristal e - por alguma razão - o vinho.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. de Ricardo Marques, Lisboa, Averno, 2014




[ID | São Miguel, Agosto 2012]

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

P de (As) Praias Obscuras


IRMÃO SIAMÊS


Aquela alga gotejando como um folho húmido
experimento em volta do meu braço
como uma manga de túnica ou uma renda de baile,
estou sentada numa rocha com os pés na espuma
e gozo sozinha esta beleza ocasional
sem estar preocupada com o sentido estético
de algum irmão siamês adstrito a mim, em nome
de algum afecto absorvente.

Este meu sentir a meias obsessivamente
tornou-me metade do corpo demasiado pesada
estou sozinha respirando sozinha
e sinto Verão nesta solidão,
(quem disse que a solidão é um ser de Inverno?)

Ó esta liberdade de não pensar o que outro irá pensar,
esta limpidez de uma só garganta,
esta infância do olhar e da boca,
este estado divino de me bastar às minhas sensações!

Quem disse que os amores e as partilhas são o sal da vida
não esteve nesta rocha
não encontrou esta alga
nem descobriu esta praia. 


Inês Lourenço, Um quarto com Cidades ao Fundo,
Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2000




Gustave Gain
[autochrome, 1921]

terça-feira, 14 de agosto de 2018

R de "Rua da Infância"


COVA DO LOBO


Para a bisavó Jaquelina e o tio Nunes,
que fazem parte da minha primeira memória


A um nome antigo,
com o sangue afiado pelo tempo, 
devemos pedir segredo,
ouvidos capazes de adivinharem 
a queda da primeira folha, 
promessas de uma noite 
mais escura, encrespada.

Mas aqui até as bocas de lobo são
um desengano em forma de flor,
não como esses lírios de Júlio César, 
a estaca no fundo à espera
da alma do último inimigo. 
À violência acossada e ciosa da lenda 
restou apenas o pescoço dos cães
no limite da humanidade,
o sacrifício da pedra que se abate
ritualmente sobre as amêndoas,
talvez um joelho esfolado em silêncio.

(Uma vida inteira na órbita
repetida de uma cadeira de balouço,
entre o Sol do tamanho de uma baga
poeirenta e a fonte cercada de mãos
que sabem prender sem amarrotar.)

Assim de frágil é a memória do presente.
O contrário da vida depois, 
lá fora, entre a alcateia. 
Nunca mais estaremos tão possuídos
pelo acaso, tão confortáveis junto ao mal,
como antes de o reconhecermos
e destruirmos as palavras que o diziam. 


Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
Lisboa, Averno, 2013



*





Manuel de Freitas, Sob o Olhar de Neptuno,
Porto, 50Kg, 2018

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

C de Começar o dia com um livro novo (XXVIII)


Perdi a caneta
de tinta eterna
no teu cabelo.

O Adamastor lá estava, no relvado,
onde mais duma vez nós conversámos
a contemplar o rio com desencanto.

A caneta perdida impedia-me de escrever
quanto te amo e odeio
como se ardesse a frio num incêndio.

A côr da friagem na minha barba hirsuta
toldada de brancura e nevoeiro:
é a velhice magra que me espreita, atenta
à caneta perdida em teu cabelo.


António Barahona, Pátria Minha,
Lisboa: Averno, 2014

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

S de Sol


UMA PALAVRA


Longe de mim querer corromper a juventude,
É um trabalho que sobreleva as
Minhas capacidades.
Antes cicuta.
Mas tenho que explicar o sentido
Da palavra “desesperança”.

É uma esperança negativa.
A gente senta-se num cais
E deixa o sol trabalhar.
O sol minúsculo, isto é, o calor na pele.
Chamo a isto a experiência mínima.

Feito isto:
Venha de lá então
Essa catástrofe.


Manuel Resende, Poesia Reunida,
Lisboa, Cotovia, 2018




[ID | Junho 018]

terça-feira, 24 de julho de 2018

quinta-feira, 12 de julho de 2018

P de "Pássaros de acaso" (VII)


RETRATO DE UMA SENHORA CAMINHANDO


No Norte os pássaros afagam um vento firme.
Ela é linda.
O Outono deposita gelo na casca dos limões.
O seu fazer vagaroso acompanha a mente sombria.
A geada confere ao lago uma frágil quietude.
No pequeno tufo de erva húmida e fresca
Os pássaros caem como uma chuva de vidro. 


Djuna Barnes (trad. Rui Caeiro)
in Telhados de Vidro n.º 8, Lisboa, Averno, Maio de 2007



sábado, 7 de julho de 2018

A de Amor (XXVII)


A PONTE


Se me dizem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejasdo outro lado e me esperes,
atravessarei a ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e atravessá-la-ei. 


Amalia Bautista, Coração Desabitado,
sel. e trad. de Inês Dias, desenhos de Débora Figueiredo
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2018




A de "A propósito de andorinhas" (VII)


SÉTIMO CAPÍTULO


Hoje contemplei Sujata a beber chá em frente do jardim
de Pangim com gestos de pomba escura e tão alva,
e a ossatura de platina fluorescente, a cabeleira
fulminada numa pose que o vento ventilava fulva

Sujata sorriu como de costume no romance por escrever
que eu jamais escreverei (a acção não se desenrola)
e o poema também não há: havia, há, haverá uma veia
cortada de onde emergem as linhas de uma etopeya em transe

Nesta polpa amarga me situo e o sumo do fruto escorre
aos cantos do luto, não dos lábios, aos cantos do palácio
andorinha fugitiva que ri com a bocca toda numa rosa

Voltavam as asas, voltavam, as inúmeras espécies de vôo
estudadas inculcavam o cubo: voltavam as aves, voltavam
com romãs no bico e cada uma com um verso, todas as manhãs


Naga Massjid/Curti, Monção de 1982



António Barahona, Aos Pés do Mestre (Sexto Tômo da Suma Poética),
Lisboa, Averno, 2018

terça-feira, 3 de julho de 2018

L de (A) Luz da Sombra (L)





"J'ai tendu des cordes de clocher à clocher; 
des guirlandes de fenêtre à fenêtre; 
des chaînes d'or d'étoile à étoile, 
et je danse."

- Arthur Rimbaud




[ID, Porto, 22/06/018]

domingo, 1 de julho de 2018

D de "Dust Motes Dancing in the Sunbeams" * - III





SOL NUM LUGAR VAZIO


A linguagem basta para dizer o que me cerca.
Mas o que me não cerca que palavras o dirá?
Ouvi cantar os locais donde o frio partia,
canas atravessadas de pequenas aves,
dos inquietos pirilampos e das relas.
O desejo é o limite da exclusão, uma janela.


Joaquim Manuel Magalhães, Os dias, pequenos charcos
Lisboa, Editorial Presença, 1981




[ID, 'à lenta declinação da luz', 05/015]



* O título é de um quadro de Vilhelm Hammershøi

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O de Oitavos de final


Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e demais fomentadores
de pestilência moral? Que valor pode ter
uma metáfora sem preço, por brilhante
que seja, neste mundo de sementes apagadas
em lameiros de cimento? Tu não vês
o telejornal, Musa? Nunca ouviste falar
da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais,
julgas-te capaz de competir com traficantes
de desejos, decibéis e abraços? És capaz
de fazer rir um desempregado, de excitar
um espírito impotente? Consegues marcar
golos geniais como o Ricardo Quaresma,
proteger do frio as andorinhas, ir buscar
as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo para te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.


José Miguel Silva, Últimos Poemas,
Lisboa, Averno, 2017

quinta-feira, 21 de junho de 2018

L de "Les yeux du chat" (III)


8 de Novembro de 1981


Morte de Branca. 
Mal posso estar, mal posso viver no silêncio que a morte de Branca produz; mal a deixo aproximar-se em imagem, só tenho lágrimas. Quem era o ser que evoluía pelos armazéns e pelos sítios escondidos, aparecendo e desaparecendo com absoluta confiança em nós? Lembro-me dela sobre o parapeito da janela da casa de Jodoigne, por detrás da forsythia; lembro-me dela em toda a parte, na sua imobilidade branca, a recuar e a avançar sobre os meus pés com os sorrisos diferentes dos seus olhos, pois um era verde e outro azul. Mas são só palavras para o nada, estas que eu escrevo agora e sempre. 
Com Branca havia outra realidade, e por detrás dela estava anunciada uma alegria que eu desconheço. Sua morte súbita tornou preciosos para mim todos os seres de Herbais, incluindo eu própria. Vejo-a sempre sorrir numa clarividência total, e não vou continuar agora porque, neste momento, já procuro a escrita. Só sei dizer que ela, escapando da altura inacessível de um telhado, veio para nós de forma espontânea. Se ela pudesse voltar a vir, se eu pudesse voltar a recebê-la, e tê-la a viver connosco no âmbito do jardim, dos armazéns, do espaço da casa. Mas acabou definitivamente com esta forma. 
Gostava de ter uma recordação palpável de Branca. Mas qual?
Branca não possuía nada. 
Tinha-a feito figura para um livro; hoje ela é uma sombra de alegria.

[...]




Maria Gabriela Llansol, Herbais foi de silêncio - Livro de Horas VI,
Porto, Assírio & Alvim, 2018

domingo, 17 de junho de 2018

P de "Pássaros de acaso" - VI b


OS PARAÍSOS ARTIFICIAIS


Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3.º andar e papagaios de 5.º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.


JORGE DE SENA




[Bruce Davidson]



MANHÃS


Pendurada numa corda da roupa de um sétimo andar,
atrás de um prédio enferrujado,

todas as suas varandas envidraçadas ou com grades,
ali, em cada manhã, está uma pequena gaiola quadrada.

Cativo nesta provocação contra o céu,
nesse intervalo reflexivo entre apelo e canção,

esse Vazio que as aves nos "ofereceram",
ali na perversidade fixa de uma vertigem,

o tentilhão debate-se esporadicamente, desarmado,
mudo. Não, freneticamente vocal, mas sem ser ouvido. 

Queremos que isto seja uma ode.


John Mateer
in Telhados de Vidro n.º 18, trad. de Inês Dias,
Lisboa: Averno, Maio de 2013

sábado, 16 de junho de 2018

sexta-feira, 15 de junho de 2018

F de Flor Suficiente (XXIII)


"[...]
Mas há dias encontrei, por acaso, um nenúfar branco, e a estação pela qual esperava chegou finalmente. É o símbolo da pureza. Nasce tão belo e puro perante os nossos olhos, e tão docemente perfumado, como se pretendesse mostrar-nos a pureza e doçura que podem brotar do lodo e do esterco da terra. [...]
A escravatura e o servilismo nunca produziram anualmente flores perfumadas para encantar os sentidos dos homens, pois não têm vida real: são apenas decadência e morte, desagradáveis para qualquer nariz saudável. Não nos queixamos de que estejam vivos, mas sim de que não sejam enterrados. Deixem que os vivos os enterrem até eles servem para estrume."


Henry David Thoreau, "A Escravatura no Massachusetts",
A Desobediênia Civil e Outros Ensaios, trad. de Inês Dias,
Lisboa, Relógio D'Água, 2017




[ID | Lisboa | Junho 018]

A de Amor (IX)


CONTRA REMEDIA AMORIS



Não sou desse género de mulheres
incapazes de amor e de ternura.
Odeio o sacrifício e repugna-me
a vaidade que nasce da violência,
mas sei o que é valor e o que é sangue.
Quero ser a mulher de um mercenário,
de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.
Porque sei olhar nos olhos dos homens.
Conheço quem merece a minha ternura.




Amalia Bautista, Coração Desabitado,
com sel. e trad. de Inês Dias, desenhos de Débora Figueiredo,
arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2018

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A de Amor


CONTA-MO OUTRA VEZ
                           
                               
Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me, uma vez mais, que o par
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que ele nem sequer
pensou em enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam cada noite a beijar-se.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço. 

        
Amalia Bautista, Coração Desabitado,
com sel. e trad. de Inês Dias, desenhos de Débora Figueiredo,
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2018





domingo, 10 de junho de 2018

S de "Semantics won't do"


segunda-feira, 4 de junho de 2018

N de "Nous deux encore" (VII)


FALÉSIAS


Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual o faço vir como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-me os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.


Luís Miguel Nava, Como alguém disse
com desenhos de Manuel Cargaleiro, Lisboa, Contexto, 1982

domingo, 27 de maio de 2018

L de "Les yeux du chat" (II)


Morreu Dom Fuas, gato meu sete anos,
pomposo, realengo, solene, quase inacessível,
na sua elegância desdenhosa de angorá gigante,
cendrado e branco, de opulento pêlo,
e cauda como pluma de elmo legendário.

Contudo, às suas horas, e quando acontecia
que parava em casa mais que por comer
ou visitar-nos condescendentemente como
a duquesa de Guermantes recebendo Swann,
tinha instantes de ternura toda abraços,
que logo interrompia retornando
aos seus paços de império, ao seu olhar ducal.

Nunca reconheceu nenhuma outra existência
de gato que não ele nesta casa. Os mais
todos se retiravam para que ele passasse
ou para que ele comesse, eles ficando
ao longe contemplando a majestade
que jamais miou para pedir que fosse.

Andava adoentado, encrenca sobre encrenca,
e via-se no corpo e no opulento pêlo,
como no ar da cabeça quanta humilhação
o sofrimento impunha a tanto orgulho imenso.
Por fim, foi internado americanamente,
no hospital do veterinário. E lá,
por notícia telefónica, sozinho, solitário,
como qualquer humano aqui, sabemos que morreu.

A única diferença, e é melhor assim,
em tão terror ambiente de ser-se o animal que morre,
foi não vê-lo mais. Porque ou nós morremos,
como dantes se morria em público,
a família toda, ou toda a corte à volta, ou
é melhor que se não veja no rosto de qualquer
– mesmo ou sobretudo no de um gato que era tão orgulhoso em vida –
não só a marca desse morrer sozinho de que se morre sempre
mesmo que o mundo inteiro faça companhia,
mas de outra solidão tecnocrata, higiénica
que nos suprime transformados em
amável voz profissional de uma secretária solícita.

Dom Fuas, tu morreste. Não direi
que a terra te seja leve, porque é mais que certo
não teres sequer ter tido o privilégio
de dormir para sempre na terra que escavavas
com arte cuidadosa para nela pôres
as fezes de existir que tão bem tapavas,
como gato educado e nobre natural.
Nestes anos de tanta morte à minha volta,
também a tua conta. Nenhum mais
terá teu nome como outros tantos gatos
antes de ti foram já Dom Fuas.


Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão,
Lisboa, Edições 70, 1989

sexta-feira, 25 de maio de 2018

L de (A) Luz da Sombra - XXVb


"[...]
Tinham as suas próprias palavras para as coisas, um jargão de origem obscura: por razões que até eles tinham esquecido, referiam-se à manteiga como queijo; chamavam inhos aos melros que pousavam nos cimos das árvores. Era um círculo que traçavam à sua volta como se fosse um abrigo. 'Não contes a ninguém de França', começava Mia, antes de lhe contar baixinho um segredo, e a resposta de Warren era invariavelmente: 'Nem uma girafa selvagem me conseguiria arrancá-lo.' 
E depois, aos onze anos - quase doze -, Mia descobrira a fotografia.
[...]"


Celeste Ng, Pequenos Fogos em Todo o Lado,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2018




Abelardo Morell, "Laura and Brady in the shadow of our house", 1994