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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
M de 'Memory of a bird' (III)
ROUXINOL
Só para te ouvir cantar
E foi doce e foi bom
E o amor estava ainda a despontar
Despeço‑me de ti, meu rouxinol
Foi há muito que te encontrei
Falha agora o teu belo canto
E a floresta fecha‑se à tua volta
O sol põe‑se a coberto de um véu
Era agora que me chamavas
Por isso descansa em paz, meu rouxinol
Sob o teu ramo de azevinho
Despeço‑me de ti, meu rouxinol
Vivia para estar ao teu lado
Continuas a cantar noutro sítio
Mas deixei de poder ouvir ‑te
Leonard Cohen, A Chama,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2019
[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 12/01/020]
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
C de Cicatriz (XI)
"[...]
devo sentir nostalgia? de quantas cicatrizes precisa a nostalgia?"
Pablo García Casado
[Fevereiro 013]
quarta-feira, 8 de janeiro de 2020
O de Outono (XI)
NÃO ME MOSTRES NENHUM NORTE
Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.
Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinhas rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.
Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.
A. M. Pires Cabral, Cobra-d'água,
Lisboa: Cotovia, 2011
Origami de Outono
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
domingo, 8 de dezembro de 2019
P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (III)
MORTE DE UMA ESTAÇÃO
Choveu toda a noite
sobre as memórias do verão.
Ao anoitecer saímos
no meio de um ribombar lúgubre de pedras
e, parados na margem, levantámos as lanternas
para explorar o perigo das pontes.
Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas
ensopadas e pousadas sobre os fios
à espreita de indícios secretos de partida -
e reflectiam-nas na terra
as fontes com os rostos desfeitos.
domingo, 22 de setembro de 2019
P de (The) Privacy of Rain - XXIX b
WORKING IN THE RAIN
My father loved more than anything to
work outside in wet weather. Beginning
at daylight he'd go out in dripping brush
to mow or pull weeds for hog and chickens.
First his shoulders got damp and the drops from
his hat ran down his back. When even his
armpits were soaked he came in to dry out
by the fire, making coffee, read a little.
But if the rain continued he'd soon be
restless, and go out to sharpen tools in
the shed or carry wood from the pile,
then open up a puddle to the drain,
working by steps back into the downpour.
I thought he sought the privacy of rain,
the one time no one was likely to be
out and he was left to the intimacy
of drops touching every leaf and tree in
the woods and the easy mutterings of
drip and runoff, the shine of pools behind
grass dams. He could not resist the long
ritual, the companionship and freedom
of falling weather, or even the cold
drenching, the heavy soak and chill of clothes
and sobbing of fingers and sacrifice
of shoes that earned a baking by the fire
and washed fatigue after the wandering
and loneliness in the country of rain.
Robert Morgan
[ID, Santa Cruz | 019]
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
segunda-feira, 22 de julho de 2019
S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXVIII
SOROR MARIANA - BEJA
Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor.
- Sophia de Mello Breyner Andresen
[ID, Beja, 12 de Agosto de 2013]
terça-feira, 16 de julho de 2019
V de Vista para um saguão (VII)
SEGREDO
Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.
Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...
MIGUEL TORGA
terça-feira, 9 de julho de 2019
M de Música para os meus olhos - XXXIII b
MENINA CALÇANDO A MEIA
[Estufa-Fria, 1966]
Não te mexas.
O futuro é perder o equilíbrio,
cair até bater no fundo
de uma insónia hora a hora
interrompida para respirar
à superfície da luz.
Não te mexas, ainda.
Não hesites, não assustes o sonho
pousado em teia sobre ti,
não agites as águas.
E talvez a vida se deixe
ficar à margem
com os seus dias armados de pedras.
Inês Dias, Da Capo,
Lisboa, Averno, 2014
[ID, "Menina calçando a meia", 11/017]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO,
da capo
quinta-feira, 13 de junho de 2019
quinta-feira, 23 de maio de 2019
C de "Celui qui regarde une fenêtre fermée" (V)
[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]
João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012
[ID, 20/01/017]
domingo, 5 de maio de 2019
D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI c
Manuel de Freitas
[Manuel de Freitas | Federica Gullotta, trad. de Roberto Maggiani,
Milão, Edb Edizioni, 2019]
quarta-feira, 1 de maio de 2019
S.T.T.L.
"[...]
Feitos que poovoam o espaço e que chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, a não ser que exista uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. Que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou inconsistente perderá o mundo? A voz de Macedonio Fernández, a imagem de um cavalo rubro no baldio de Serrano e de Charcas, uma barra de enxofre na gaveta de uma secretária de mogno?"
- JORGE LUIS BORGES,
(trad. de Fernando Pinto do Amaral)
[ID, Estrela, Maio de 2017]
sexta-feira, 12 de abril de 2019
I de Interseccionismo
12
Há sempre um rapaz triste
em frente a um barco
a água é sempre azul
e sempre fresca
Em que país encontraria
amor e compreensão
em que país
sentiriam
a sua vida e a sua morte
Não respondem as gaivotas
porque voam
Há sempre um rapaz triste
com lágrimas nos olhos
em frente a um barco
António Reis, Poemas Quotidianos,
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
domingo, 10 de março de 2019
L de Lar (V) - quase P de Primavera (XIV)
ÚLTIMO SONHO
A minha avó Isabel
ouvia em sonhos rebanhos de ovelhas
passando junto à janela.
Todas as noites, em plena cidade,
as ovelhas da sua infância visitavam-na.
Jurava que ouvia os suaves balidos,
o delicado tilintar dos chocalhos
misturando-se ao rumor de patas pisando o asfalto.
A minha avó Isabel
recebia a visita dos sons da sua meninice aos noventa anos.
Para ela, a cidade povoava-se de ovelhas invisíveis
pastando entre as recordações da sua infância na aldeia
sem electricidade, sem água corrente, sem automóveis.
Quando um som, um cheiro, uma imagem ou uma voz
encontram o seu caminho de regresso até nós,
não há nada mais verdadeiro do que essa presença
vívida, intensa, verdadeira.
Talvez no final da nossa vida
nos permitam recordar o essencial,
o mais belo que tenhamos vivido.
Se é verdade que a nossa memória
nos concede um último desejo antes dessa viagem
em forma de ilusão com aspecto de realidade,
de alucinação esplêndida como um céu de verão,
com que som adormecerá cada um de nós?
María Paz Moreno
[Trad. ID]
[08/12/2010]
domingo, 17 de fevereiro de 2019
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
L de Lunário
II
Não esperava, trinta anos depois, reconhecer
a Nazaré. Igual a si mesma, fintou o progresso
no desmando da morte e no cheiro seco
dos carapaus jacentes (só um gato preto, sem
jeito para o negócio, foi poupado ao extermínio).
Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente 'pardonner'.
Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.
Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente 'pardonner'.
Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.
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