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domingo, 27 de setembro de 2026

M de Mesa de Amigos (II)


Era uma vez uma tarde cheia de sol. Não havia um gesto a mais. Nem palavras. Estava alguém num café. Ao sol. Eram pequeninas coisas a ligarem-se umas às outras: desde um copo de água aos teus ombros. […] E o sol a bater em cheio na mesa. E nas mãos. 

[…] E pronto. É assim que se faz a História. Sem palavras a mais. 

[...]

Eduardo Guerra Carneiro, É assim que se faz a história,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1973





Ontem, no Espaço Llansol, para o lançamento de A Forma Quimérica do Mundo, 
de João Barrento (Alambique, 2026)

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A de Abrigo


ABRIGO DOS CÉUS


Eu tenho desejado ir
Onde as primaveras não falham,
Aos campos onde moscas, atrevidas e astutas, não habitam,
E alguns lírios nascem.

E tenho pedido para estar
Onde nenhuma tempestade há-de chegar,
Onde a corrente verde está abrigada e muda,
E fora da oscilação do mar.


- Gerard Manley Hopkins
in Piolho n.º 11, trad. Ricardo Marques,
Edições Mortas / Black Sun Editores, Agosto 2013


*


"[...]
Desiguais abismos, maneiras de se
se estar só, encontram aqui um abrigo
temporário, senão a própria rasura do tempo.

[...]"


- Manuel de Freitas, Juros de Demora, 
Lisboa, Assírio & Alvim, 2007


*


"[...]
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

[...]"


- Renata Correia Botelho, Small Song,
2.ª ed., Lisboa: Alambique, 2015


*


"[...] estar ao abrigo do fim do amor, é a isso que eu chamo felicidade."


- MARGUERITE DURAS





[ID, 5 de Setembro de 2017]

sábado, 18 de abril de 2026

P de (Po)ética - XLIX e







Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017

segunda-feira, 13 de abril de 2026

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

T de "The days grow short" (XI)


6.


Mas possa eu, Senhor, não perder nunca
os olhos com que ao frio me enamoro
das folhas que se movem casuais
ao vento outonal das alamedas.


in Telhados de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004




[Coimbra, Janeiro 014]

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

P de "Photographing Fairies" (II)

 


[ID, Caneiras, 17/08/013]



[ID, Raposa, 23/08/025]

sábado, 16 de agosto de 2025

P de Poética (LXIII)

 

And if you missed a day, there was always the next

- LOUISE GLÜCK -


*


Tous les matins du monde sont sans retour.

- PASCAL QUIGNARD


sexta-feira, 8 de agosto de 2025

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (V)


24.

e se o demónio voltar - enquanto persegues a aranha pelas paredes da noite e do dia - e disser que a possibilidade de regresso não é uma teoria física nem moral apenas estética? enfrentarás com a mesma impaciência os meses que se erguem com espuma, se suspendem e aceleram em ondas pesadas e regulares como a respiração de um gigante? escrevo esta carta no início do verão, uma mão litoral no cabelo enquanto hesito. o automóvel está estacionado à porta de casa, o resto a caminho do sul. no final hão-de restar apenas as estrias de sal sobre o dorso, a interpretação desses mapas.


Tiago Araújo, Livre Arbítrio,
Lisboa, Averno, 2009




[ID | Santarém, 04/2013]

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

L de (A) Luz da Sombra (L)

 

"Quando o médico lhe tirou as ligaduras e a levou ao jardim, a menina que já não era cega viu 'a árvore que tem luzes'. Foi essa árvore que procurei entre os pomares de pessegueiros do Verão, nos bosques do Outono e ao longo de todo o Inverno e toda a Primavera, durante anos. Até que um dia estava a passear ao lado do rio Tinker, não pensando em coisa nenhuma, e vi a árvore que tem luzes. Vi o cedro das traseiras, em que as rolas-carpideiras se empoleiravam durante a noite, tenso e transfigurado, cada uma das suas células zumbindo com ardor. [...] Não era tanto ver, mas ser vista pela primeira vez, deixada sem fôlego por um olhar poderoso. A torrente de fogo esmoreceu, mas continuo a usar a sua energia. Aos poucos, as luzes apagaram-se no cedro, as cores morreram, as células extinguiram-se e desapareceram. Eu continuava a ressoar. Fui um sino toda a minha vida, mas nunca o soube até esse momento em que me vi erguida e tocada." 

- Annie Dillard, Peregrinação em Tinker Creek, trad. Inês Dias
(Antígona, 2025)





[ID | 'Pelos caminhos da manhã', 025]


terça-feira, 5 de agosto de 2025

A de Anomalia Poética (VIII)

 




[ID, Santarém-Lisboa, 2014-2021]

sexta-feira, 25 de julho de 2025

sábado, 28 de junho de 2025

C de Começar o dia com um livro novo (LVI)


SOL MAIOR


Mataram, deitaram abaixo o meu mestre de poesia. Era um telhado com muitos gatos que apareciam e desapareciam através de buracos.

Eu via-os, da varanda em frente, e aprendia a esvair a tristeza nos movimentos elegantes.


- JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA
(Manuel de Freitas / João-Paulo Esteves da Silva, Prelúdios, 
Lisboa, Alambique, 2020)




[ID, 'Confinamento', 03/020]

segunda-feira, 23 de junho de 2025

S de São João


FOGUEIRAS DE SÃO JOÃO


Labaredas na noite do meu nome
sinto arderem à margem
de um mar escuro -
e ao longo dos portos acenderem-se piras
de coisas velhas,
de algas e barcos
naufragados.

E em mim nada que possa
ser queimado,
mas cada hora da minha vida
ainda - com o seu peso indestrutível
presente -
no coração extinto da noite
me segue.


Antonia Pozzi, Morte de uma Estação, 2.ª ed., 
com sel. e trad. de Inês Dias, prefácio de José Carlos Soares e desenhos de Débora Figueiredo,
Lisboa, Averno, 2019




[ID, Porto | 018]

sábado, 21 de junho de 2025

I de Infância (V)

 

"[...]
Olhamos para o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória."


Louise Glück, Meadowlands, 
trad. de Inês Dias [Relógio D'Água, 2022]




I de Infância (IV)

 

"[...]
Olhamos para o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória."

Louise Glück, Meadowlands,
trad. de Inês Dias [Relógio D'Água, 2022]





[ID, 30/06/022]

quinta-feira, 1 de maio de 2025

P de Poética (LI)


"O poema é solitário. É solitário e vai a caminho."

Paul Celan



[Moinho Grande, Agosto 013]

sábado, 15 de março de 2025

N de "Na casa de Julho e Agosto" (IV)


NESTE SILÊNCIO

         
Neste silêncio oculto onde as tuas mãos se deslumbram a cada movimento, subsistimos com o peso do crepúsculo e a miséria da guerra.

Inútil a nossa vida, inútil a vida dos outros, quando o amor é um pássaro dentro duma gaiola no deserto. Inútil toda a simbologia funcional das imagens, porque ao homem é dado o sonho com o sentido das coisas.

De bruços sobre a areia, descanso as pálpebras no mar. A minha ociosidade é um peixe de prata adormecido nas ondas, um barco sem dono ancorado na doca. E hei-de morrer assim contigo, companheira ou ilusão do meu cansaço, porque a verdade que trouxemos é um trapézio vasio num circo em ruínas, uma flor no trapézio e muitos gatos a assistir até ao dia nunca mais do horizonte livre.
 
       
António Barahona da Fonseca, Poemas e Pedras,
Lisboa: edição do autor, 1962






[ID, Nazaré / Agosto 013]