domingo, 15 de maio de 2022

E de Efeito borboleta


BORBOLETAS


No centro dos nossos pratos de papas de aveia
Havia uma borboleta azul pintada
E todas as manhãs víamos quem conseguia chegar primeiro à borboleta.
Depois a Avó dizia: «Não comam a pobre borboleta.»
Isso fazia-nos rir.
Ela dizia-o sempre e começávamos sempre a rir.
Parecia uma brincadeirazinha tão terna.
Eu tinha a certeza de que uma bela manhã
As borboletas sairiam a voar dos nossos pratos
Rindo com o mais diminuto riso do mundo
E pousariam na touca da Avó.


- "Três poemas Katherine Mansfield traduzidos por Inês Dias 
com um desenho de Daniela Gomes", in TELHADOS DE VIDRO n.º 21, 
Lisboa, Averno, 2016




[ID | 07/010]

sábado, 14 de maio de 2022

terça-feira, 10 de maio de 2022

C de "(O) começo de um livro..." (IV)


1

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo perseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ___ linha, confiança, crédito, tecido.

2

Renunciei a que alguém, um dia, me chame: "Avó Gabriela".
No entanto, tive um devaneio a noite passada. Eu ouvia planger,
De facto e auditivamente, em texto, o latido surdo
De um cão ruivo pronunciando: "Avó Gabriela". Feliz, Trova
Dava-me a pata e eu dei-lhe para a mão o próprio texto
Ainda no seu estado sonoro cénico.
Com a pata sobre o texto, parecia o ícone do quinto evangelista.

3

Ela tinha sempre um olhar __ deixara de se temer a si própria. O anel
Que trazia no caule era mais amplo ainda; o que olhava, de somenos
Importância. Era uma planta de folhas claras. O ruído da cidade
Entrava pela janela. Viera pôr a sua luz à secretária.
Por que viera assustá-la?
Não sei.
Não compreendendo por que luz e ruído se associavam, dia após dia,
"cabra de luz", lhe chamava. Respirar era-lhe evidente difícil.


Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003

sábado, 7 de maio de 2022

M de Museu Imaginário (XXVI)



[Abbas Kiarostami, Cópia Certificada, 2010]



"[...]

Existe-se na arte. Existe-se com a obra de arte. Cada um a seu modo; e segundo o ritmo do mundo que para a obra de arte saberá transportar. Pertence-lhe uma decisão de sentidos que se joga no momento exacto em que "aparece" e em que, com ela, se estabelece confronto. De um modo mais próximo: avançamos para o "objecto" de arte e dele só "tiramos", como resultado momentaneamente final, aquilo que lhe atribuímos, o que nele vimos e o que sobre ele pensámos. Quase sempre, senão sempre, o que para essa obra canalizámos de desdobramento de nós próprios - seus visitantes -, em grau de conhecimento (e também de ignorância) e de uma escala muito ampla de sensibilidade.

[...]"


 João Miguel Fernandes Jorge, "Canovaccio", 
in Telhado de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004




[Antoni Tapiès, "Gran Sábana", 1968]



[Fotograma de Jim Jarmusch, Os Limites do Controlo, 2009]

sexta-feira, 6 de maio de 2022

L de Lar (III)


DE VITA BEATA


En un viejo país ineficiente,
algo así como España entre dos guerras
civiles, en un pueblo junto al mar,
poseer una casa y poca hacienda
y memoria ninguna. No leer,
no sufrir, no escribir, no pagar cuentas,
y vivir como un noble arruinado
entre las ruinas de mi inteligencia.


JAIME GIL DE BIEDMA





[ID, Vale, Abril de 2013]

sexta-feira, 29 de abril de 2022

D de Dansa


B.LEZA, 2000


Pergunto-me, sem razão,
que diferença existe
entre ausência e voz
- um lamento que não previa.
Ou não já. Não assim, pelo menos.

Só me lembro que dançávamos
(é a minha única definição
de felicidade) e que não voltaremos
a dançar. Assim.
Os táxis, no Conde Barão, fingiam não ver
- mas olhavam todos o moído
esplendor do baile, o vestido negro
que inutilmente te cingia.
Despediam-se, como nós, na
ressaca dum tempo ingrato,

no fulgor da última manhã.
Não ligues ao tchoro, à voz soterrada
por tão ásperos carris. Não ligues
- coração e deserto rimam
numa língua que desconhecemos.


Manuel de Freitas, Teacher Was Here (2009)




[ID, 'Para a Mariana', 05/015]

segunda-feira, 25 de abril de 2022

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXIII)



ID, Entrecampos | 2000
[era antes do Digital]




ID, Rossio | 2012
[era depois dos Telemóveis]

segunda-feira, 21 de março de 2022

     [...]
     Eis o papel da poesia. Ela desvela, no sentido pleno do termo. Ela mostra nuas, sob uma luz que afasta o torpor, as coisas surpreendentes que nos rodeiam e que os nossos sentidos registavam maquinalmente.
     É inútil ir muito longe à procura de objectos e sentimentos bizarros para surpreender o sonhador acordado. É esse o sistema do mau poeta e o que nos acontece com o exotismo.
     Trata-se, sim, de lhe mostrar aquilo sobre o qual o seu coração e os seus olhos deslizam todos os dias, mas sob um ângulo e a uma tal velocidade que lhe pareça vê-lo e comover-se com isso pela primeira vez.
     Eis a única criação permitida à criatura.
     Pois, se é verdade que a multiplicidade de olhares deixa sobre as estátuas uma pátina, os lugares comuns, obras-primas eternas, estão cobertos por uma espessa camada que os torna invisíveis e que esconde a sua beleza.
     Se pegarem num lugar comum, o limparem, o esfregarem, o iluminarem de maneira a que ele recupere a força da juventude e da frescura que tinha na origem, farão o ofício de poeta.
     Tudo o mais é literatura.   

     [...]




Jean Cocteau, Le Secret Professionnel, 1922
[Trad. e fotografia: Inês Dias]

domingo, 20 de março de 2022

I de Infância


LEMBRANÇA DA RIA DE FARO


Dunas atrás da casa
gafanhotos cor de
madeira cardos cor de areia
ao fim da tarde,
barcos na água rósea
onde a cidade, em frente à casa, cai
De madeira caidada a
casa está
sobre a areia, que escurece quando
a maré devagar desce na praia


- GASTÃO CRUZ

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

E de Europa

 


[ID, 'Teacher was here', 07/021]

sábado, 29 de janeiro de 2022

A de Amor (XXVII)


A PONTE


Se me dizem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e me esperes,
atravessarei a ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e atravessá-la-ei. 


Amalia Bautista, Trevo,
trad. de Inês Dias, capa de Luís Henriques 
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2018




sábado, 8 de janeiro de 2022

O de "Onde se lê 'gato'..." (XIV)


"[...]
Uma gata sai com a sua ninhada de um canal da levada. Ela é um centro e os seus pequenos gatos irradiam para a luz. Vi um paralelismo com o desenvolvimento das pétalas e sépalas das malvas e sardinheiras de 'Sombras à volta de um centro' (2003, Serralves). O cone de cor vermelho vivo e o seu reverso de sombra e luminosidade, em aura, como que se desatam, na distância, na mobilidade que de um centro (que é o negro de onde sai a gata com a ninhada e que é também a própria gata) se espalha por entre as ervas altas do Verão. E sucede-se um molho de espigas secas, o terreiro que restou limpo, o chilreio dos pássaros, as lagartixas sobre as pedras.
[...] A sua linguagem e verdade - de Lourdes Castro - é a de descer nesse buraco negro que é um centro (tão idêntico àquele de onde emerge a gata) para dele sair para o movimento circular dos céus -, e trazer consigo, de um corpo, a sua sombra, para a desenhar. Para desenhar, mentalmente, a sombra de um corpo, de um objecto - a sua sombra invisível.

[...]"


João Miguel Fernandes Jorge, 
in Longe do Pintor da Linha Rubra, Patavina, 2017

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022