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quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

I de "I want to ride my bike" (XI)


BICICLETAS


à memória de Joana Dinis


Pedalar - e, se isto vos parecer retórico, faço questão de vos enviar ramos de jacintos, rosas de Santa Teresinha, essas coisas - é, por vezes, a única solução. Desenganados, fomos ver cegonhas, um falcão menos tímido, papoilas cujo rubor nenhum Monet fixou. Havia sobretudo vento, nêsperas ainda verdes, e pessoas que tão próximas ou distantes vão morrendo.

Pedalar contra o vento não é fácil.


Manuel de Freitas, 769118
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos, 
Lisboa, Averno, 2020




domingo, 26 de abril de 2020

Q de Quarentena (V)


INSTRUÇÕES PARA DAR CORDA AO RELÓGIO


     Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
     Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada. 


Julio Cortázar, Histórias de cronópios e famas,
trad. de Alfacinha da Silva,
Lisboa, Estampa, 1973