"Ajoelhada no relvado húmido e perfumado do parque da aldeia, Clara Morrow escondeu cuidadosamente o ovo de Páscoa e pensou em ressuscitar os mortos, o que tencionava fazer logo após o jantar. [...]"
trad. Inês Dias, Lisboa: Averno, 2011

And if you missed a day, there was always the next
- LOUISE GLÜCK -
*
Tous les matins du monde sont sans retour.
- PASCAL QUIGNARD
[ID | 'Pelos caminhos da manhã', 025]
"[...]
Olhamos para o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória."
Louise Glück, Meadowlands,
trad. de Inês Dias [Relógio D'Água, 2022]
"[...]
Olhamos para o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória."
Louise Glück, Meadowlands,
trad. de Inês Dias [Relógio D'Água, 2022]
[ID, 30/06/022]
para a Inês
Manuel de Freitas, Terra Sem Coroa (Teatro de Vila Real, 2007)
"[...]
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença."
- ADÍLIA LOPES (1960-2024)