quinta-feira, 13 de junho de 2019

A de Altar (VI)



[Santo António, 2019]

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - VII b


O trabalho é um dom. O mais das vezes representa uma pena, pois não há nenhum mérito em trabalhar se o trabalho tiver como finalidade servir uma cadeia de lucro. O trabalho, em si mesmo, degrada; não aperfeiçoa o homem. É uma abjecção presumida e um estorvo para a paz. No entanto, o trabalho é um dom. Quando constitui uma glória recatada, uma ciência paciente; quando não significa humilhação, mas sim identidade.


Agustina Bessa-Luís, Crónica da Manhã,
Lisboa, Guimarães Editores, 2015

quinta-feira, 23 de maio de 2019

C de "Celui qui regarde une fenêtre fermée" (V)


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012





[ID, 20/01/017]

domingo, 5 de maio de 2019

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI c




Manuel de Freitas
[Manuel de Freitas | Federica Gullotta, trad. de Roberto Maggiani,
Milão, Edb Edizioni, 2019]

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI b


GRANDES ARMAZÉNS


Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de chuva,
em tempo de flores,
nas Galerias Lafayette ou Galerias Barbès:
"Mamã, compra-me, por favor, um poema."
Ela era doce, ela era demasiado prática
e comprava-me romances,
os Jules Verne,
os Maupassant e os Dickens.
Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de amor,
em tempo de medo,
no Monoprix ou na Félix Potin:
"Mamã, compra-me, por favor, o invisível."
Ela era boa, ela era previdente
e comprava-me coisas:
camisolas, trotinetes,
kodaks, bicicletas.
Acabei por me calar e por escrever poemas.
Há muito tempo que a minha mãe morreu,
Jules Verne envelheceu
e as minhas bicicletas já não têm rodas.
Em tempo de cansaço,
em tempo de raiva,
vou ao Supermercado,
beber um conhaque sem gosto.
Quando, mais tarde, for uma criança
num mundo melhor,
direi à minha mãe:
"Mamã, compra-me, por favor, o silêncio."


ALAIN BOSQUET
[Trad. ID]

quarta-feira, 1 de maio de 2019

m, de memória (III)


RUA DOS CAVALEIROS DA ESPORA DOURADA

Para a Ginja


Imagino-os sempre
de olhos cegos,
de quem correu o mar
e aprendeu outra cor
para o mesmo sangue
– gridelém.

Não se apressam.
O coração mais fielmente negro
parou entretanto de bater,
deixando-lhes o peso
do seu embalo nas mãos vazias;
e trazem colada ao corpo
a cal da memória
– raparigas com cabelo de linho,
olhos de esmalte.

Chamam cada onda
pelo seu nome,
agora que todas elas são cinza
de lume familiar.
Tornaram-se veladores,
guiados pelo desatar invisível
da água nessa longa noite
– mortos ainda à procura
do calor de um gato.


Inês Dias
in AA.VV., Sete, volta d' mar, 2018




[Inês Dias, Ponto-Sombra, São Paulo, Corsário-Satã, 2018]

S.T.T.L.


"[...]
Feitos que poovoam o espaço e que chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, a não ser que exista uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. Que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou inconsistente perderá o mundo? A voz de Macedonio Fernández, a imagem de um cavalo rubro no baldio de Serrano e de Charcas, uma barra de enxofre na gaveta de uma secretária de mogno?"


- JORGE LUIS BORGES,
 (trad. de Fernando Pinto do Amaral)




[ID, Estrela, Maio de 2017]

domingo, 14 de abril de 2019

P de (Po)ética



sexta-feira, 12 de abril de 2019

I de Interseccionismo


12


Há sempre um rapaz triste
em frente a um barco

a água é sempre azul
e sempre fresca

Em que país encontraria
amor e compreensão

em que país
sentiriam
a sua vida e a sua morte

Não respondem as gaivotas
porque voam

Há sempre um rapaz triste
com lágrimas nos olhos
em frente a um barco


António Reis, Poemas Quotidianos,
Lisboa: Portugália, 1967





sábado, 23 de março de 2019

V de Vida (VII)


DESTINO


E para te orientares neste
labirinto dispões do mapa de uma
cidade onde ainda não estiveste,
uma bússola que indica a direcção que
sem ela tomarias, duas chaves que parecem 
iguais, um relógio que se atrasa vinte e cinco 
horas por dia, a propriedade
associativa, provisões que dão
fome, a religião que escolheres,
um resumo dos teus próximos sonhos,
visões que dão sede, a saída ali 
em frente, um recorte de
jornal que conta como
não pudeste sair. 


Mariano Peyrou, O Discurso Opcional Obrigatório,
trad. Manuel de Freitas, Lisboa: Averno, 2009





[ID, 'O discurso opcional obrigatório', 05/015]

domingo, 10 de março de 2019

L de Lar (V) - quase P de Primavera (XIV)





ÚLTIMO SONHO


A minha avó Isabel
ouvia em sonhos rebanhos de ovelhas
passando junto à janela.

Todas as noites, em plena cidade,
as ovelhas da sua infância visitavam-na.
Jurava que ouvia os suaves balidos,
o delicado tilintar dos chocalhos
misturando-se ao rumor de patas pisando o asfalto.

A minha avó Isabel
recebia a visita dos sons da sua meninice aos noventa anos.
Para ela, a cidade povoava-se de ovelhas invisíveis
pastando entre as recordações da sua infância na aldeia
sem electricidade, sem água corrente, sem automóveis.

Quando um som, um cheiro, uma imagem ou uma voz
encontram o seu caminho de regresso até nós,
não há nada mais verdadeiro do que essa presença
vívida, intensa, verdadeira.

Talvez no final da nossa vida
nos permitam recordar o essencial,
o mais belo que tenhamos vivido.

Se é verdade que a nossa memória
nos concede um último desejo antes dessa viagem
em forma de ilusão com aspecto de realidade,
de alucinação esplêndida como um céu de verão,
com que som adormecerá cada um de nós?


María Paz Moreno
[Trad. ID]




[08/12/2010]

domingo, 17 de fevereiro de 2019

F de Fazer Fotografia (LI)




Realização: Theodoros Angelopoulos
Música: Eleni Karaindrou

sábado, 9 de fevereiro de 2019

C de Começar o dia com um livro novo (LV)


BARREIRINHA


De repente, pai, entre
o silêncio de duas ondas
ouvimos a única pergunta:

quantas vezes
ainda nadaremos juntos?


Manuel de Freitas, Boal,
com capa de Luís Henriques e desenhos de Luis Manuel Gaspar,
Lisboa, Alambique, 2019



[ID, Barreirinha, 2008]

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

N de "Nous deux encore" (II)


A DOIS PASSOS


Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais 
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós 
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso - esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que 
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno - estava-se bem. 


Rui Caeiro, "Do inferno - cinco aproximações"
in Telhados de Vidro n.12,
Lisboa: Averno, Maio 2009

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

H de Humanidade (V)


[...]
Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.


Albert Camus, O Mito de Sísifo,
trad. Urbano Tavares Rodrigues,
Lisboa: Livros do Brasil, s/d




[Emile Savitry, "Alberto Giacometti dans son atelier", c.1946]

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

L de Lunário


II

Não esperava, trinta anos depois, reconhecer
a Nazaré. Igual a si mesma, fintou o progresso
no desmando da morte e no cheiro seco
dos carapaus jacentes (só um gato preto, sem
jeito para o negócio, foi poupado ao extermínio).

Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente 'pardonner'.

Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.


Manuel de Freitas, Pedacinhos de ossos,
Lisboa: Averno, 2012




[ID | 21/01/019]

P de Prazeres


A TIA JEANNETTE


Ela lia a borra do café
e dava o dinheiro aos cegos.
O resplendor da janela
atravessava-lhe a escassa cabeleira
até alcançar a demi-tasse que a mão segurava.

"Vejo tormenta", disse um dia.
Não sei se falava de mim.

A minha mãe encerrava a dor nos livros. E Jeannette,
que trazia no nome a sua sina, preferia a leitura do café.

Todas as tardes na sua casa a fila de mentes desesperadas:
que uma viagem, que a amante, que a morte,
um encontro, qualquer coisa
que tornasse extraordinária a sua vida simples.

Ela, Jeannette, era a essência imperfeita do amor,
cega entre cegos velava a tormenta. 

"Escreve tudo", disse-lhe, "escreve tudo o que vês."
Nunca me ouviu, ausente,
sob o esfumado da lua. 


Jeannette Lozano
in Los momentos del agua, Barcelona: Ediciones Polígrafa, 2006
[Trad. ID]






[Henri Fantin-Latour]

sábado, 19 de janeiro de 2019

S de Sense of Snow (XV)


"[...]
The glass of the window was covered with mist, and I started writing words. Moor. Heather. Snowdrop. I needed those words to feel safe.
[...]"

Ana Teresa Pereira, Fugue States,
London, Vanguard Editions, 2018



 


[ID, Vale | 01/019]

Começar o dia com um livro novo (XLV)


A CADA DIA


A cada dia a sua descoberta: a luz
acesa pra se ver a côr dos sons.

[...]

A cada dia o seu poema de viver:
ver o Anjo da morte e não morrer.


António Barahona, Ocarina (Terceiro Tômo da Suma Poética),
com capa de Andrea Martha (Mumtazz) e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2016





[ID, 'Aubade', 2013]

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

P de Paralelo W (II)


BICHOS


Lembro-me de todos os animais que tive. Tenho muitas saudades de todos. Quase todos tiveram mortes trágicas e eu isso não aceito, não há consolação para isso. Nos meus momentos mais felizes, penso, acredito que a ressurreição vai acontecer e que eu abro a porta de minha casa e todos os animais que tive vêm a subir a escada, estão vivos e vão entrar em casa e todos cabem na casa e a casa é eterna


- ADÍLIA LOPES

domingo, 23 de dezembro de 2018

P de Paralelo W





"We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars." 
- OSCAR WILDE

P de Pássaros Anónimos (VIII)




[Vista para um pátio, no Paralelo W | 2/05/012]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (VI)




Paulo Leminski
in Toda Poesia, São Paulo, Companhia das Letras, 2013

sábado, 1 de dezembro de 2018

C de Começar o dia com um livro novo (LIV)


aos pés dos pássaros
semear migalhas
sem explicação:

(oração pequenina)

fazer encontrar
grão último
sentido


Ricardo Tiago Moura, Cruzes,
com capa de Daniela Gomes, Lisboa, Alambique, 2018




[ID, Madrid, Agosto 015]



"Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas..."

JORGE DE SENA

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

U de Último dia de aulas (ou S de "Stôra, podemos sair mais cedo?")


L'instituteur_ Non, je ne sais pas, je ne sais rien... Qu'est-ce qui reste à votre avis Monsieur Ernesto...

Ernesto_ Tout à coup, l'inexplicable... la musique... par exemple...


Marguerite Duras
in La pluie d'été (pp.113/114)

domingo, 25 de novembro de 2018

D de Do outro lado do espelho (II)


DESEJO DE COISAS LIGEIRAS


Jucal leve louro
como um campo de espigas
junto ao lago celeste

e as casas de uma ilha distante
cor de vela
prontas a zarpar -

Desejo de coisas ligeiras
no coração que pesa
como uma pedra
dentro de um barco -

Mas chegará uma noite
a estas margens
a alma liberta:
sem vergar os juncos
sem agitar a água ou o ar
partirá - com as casas
da ilha distante,
para um alto recife
de estrelas -


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
sel. e trad. de Inês Dias, Lisboa, Averno, 2012




[ID | Lisboa, 2012]

D de "Do outro lado do rio" (II)


"[...] Os dias passam; por vezes, ouço a vida passar. E ainda não aconteceu nada; não há nada de real ainda, à minha volta; não páro de me dispersar, e de me perder em fios de água, quando eu desejava ter um só leito e fazer engrossar o meu caudal. Porque é assim que deve ser, não é verdade, Lou?: nós queremos ser como um rio, e não um sistema de canais para irrigar prados. Devemo-nos reunir e fazer soar o trovão, não é verdade? Um dia, quando formos muito velhos, lá para o fim, talvez nos assista o direito de ceder, e de nos espraiarmos num delta..."


Rainer Maria Rilke
in Querida Lou, trad. António Gonçalves, 
Sintra: Colares Editora, 1994




[ID, Portas do Ródão, 09/015]

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

P de (The) Privacy of Rain (XXXVIII)


PALAVRAS COM ÁGUA


A chuva gosta de escrever. Imprime as suas obras sobre o vidro das janelas, na carroçaria dos automóveis. E quando cai sobre um papel ouve-se o ruído de prazer com que o pisa. Sabe traçar uma fenda na superfície, como fazia a velha tipografia, depois arredonda-a. E, sobretudo, se houver algo de escrito, desbota-o até conseguir apagá-lo. O que a chuva escreve prevalece sobre qualquer tinta. E no dia seguinte, quando o papel tiver secado, ficam gravados os seus sinais, uma iconografia quase cuneiforme que é secreta e que é também para sempre. 


[Trad. ID]




[ID | Coimbra, 13/05/12]

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - XIX b


NUUR


                        para Patrícia Joana


    A pouca luz que tenho no rosto, provém do facto de ler, todas as madrugadas, um fragmento do Alcorão.
    Muito pouca luz, mas redonda.
    O meu corpo é anguloso, ossudo e imerso em trevas. Só quando caminho se acendem luzes, como o plâncton, à noite, nas margens do mar da Índia. Então, entre os meus passos, perpassam estrêlas.
    Se estou imóvel, porém, só o meu rosto se distingue. Nem eu próprio me vejo todo por fora, nem mesmo diante dum espelho, tal a profundidade dêste mergulho interior.
    Aqui respira-se melhor.
    Pode dizer-se o que se quiser.
    O rigor da poesia é ganhar esta Grande-Guerra-Santa com a nossa própria alma.

    Cada vez mais se me antolha evidente ser a vida uma preparação para a morte: lugar comum, onde todos nos sentamos.
    Há quem fique de pé, mas por pouco tempo.

                                                                     *

    A pouca luz que tenho no rosto, provém igualmente de um beijo teu.
    Um beijo muito núbil, cheio de castidade e desejo, num perfeito equilíbrio de suavidade religiosa.
    Um beijo inspirado por Deus.
    Agora, quando leio o Alcorão, de madrugada, a pequenina luz circular do meu rosto aumenta de diâmetro e ilumina o som do texto.
    Já não preciso do candeeiro aceso.


António Barahona, Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea,
Lisboa, Averno, 2011

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XIX)

PARIS AT NIGHT



Três fósforos acesos um a um durante a noite
O primeiro para ver o teu rosto inteiro
O segundo para ver os teus olhos
O último para ver a tua boca
E a escuridão inteira para recordar isso tudo
Enquando te aperto nos meus braços.


- JACQUES PRÉVERT

sábado, 13 de outubro de 2018

A de A propósito de melros *


VI



E todavia,
as risadas do melro na gaiola
fazem-me rasgões por dentro
como se em vez de riso fossem pranto.

Porque eu sou como ele:
alguém me reduziu o tamanho do quintal
até o quintal ficar isto que se vê
- e eu a defendê-lo a golpes de riso. 

Como o melro, tal e qual. 


A. M. Pires Cabral
in Telhados de Vidro n.º 11, 
Lisboa, Averno, Novembro de 2008


*


A ÚLTIMA NOITE DA TERRA


O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.


Roger Wolfe
in Criatura n.º5, trad. Luís Filipe Parrado,
Faculdade de Direito de Lisboa, 2010


*


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012


*


TREZE MANEIRAS DE OLHAR PARA UM MELRO


I

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.


II

Eu tinha três ideias em mente,
Tal como uma árvore
Em que estão três melros.


III

O melro rodopiava nos ventos de Outono.
Era uma ínfima parte da pantomina.


IV

Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.


V

Não sei se prefiro
A beleza das entoações
Ou a beleza dos subentendidos,
O melro a assobiar
Ou o instante depois.


VI

Os pingentes de gelo cobriam a longa janela
De vidro bárbaro.
A sombra do melro
Atravessava-a, de um lado para o outro.
O ambiente
Desenhava na sombra
Uma causa indecifrável.


VII

Ó homens magros de Haddam,
Porque é que imaginam pássaros de ouro?
Não vêem como o melro
Anda entre os pés
Das vossas mulheres?


VIII

Sei de tons nobres
E de ritmos lúcidos, irresistíveis;
Mas sei, também,
Que o melro faz parte
Daquilo que sei.


IX

Quando o melro desapareceu de vista
Marcou o limite
De um de muitos círculos.


X

Ao verem melros
A esvoaçar na luz verde,
Até as alcoviteiras da eufonia
Gritariam subitamente.


XI

Ele atravessava o Connecticut
Numa carruagem de vidro.
Um dia, o medo apoderou-se dele,
Ao confundir
A sombra dos seus cavalos
Com melros.


XII

O rio move-se.
O melro deve estar a voar.


XIII

Fez noite toda a tarde.
Estava a nevar.
E ia nevar.
O melro pousou
Nos ramos do cedro.


Wallace Stevens
[Trad. Inês Dias]


*


CANTO DA CHÁVENA DE CHÁ



Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.


Fiama Hasse Pais Brandão
in Cantos do Canto, Lisboa, Relógio D'Água, 1995


*


LEX VISIGOTHORUM



para o Manuel de Freitas


Mestre,


Este escrivão será breve nas palavras e demorado sob as estrelas, pois a vida extingue-se com um sôpro e o pavio da candeia arde e consome-se com a falta dele. A oliveira cresceu como um Poeta, benzida pelas estações, no render da Guarda Real: os Meses, o Sol e a Lua. As raízes são profundas e agarram-se à terra como os condenados. No nosso ofício, entre verbos e versos, transcrevi uma lei visigótica: coima de cinco soldos para quem arrancar oliveira alheia. Bárbaros somos nós, em Portucale: árvore alheia, coração próprio. Meu velho amigo, fora das muralhas está a belíssima civilização do Mundo: o gamo dorme à sombra da rama e o melro assobia com mel no bico. O gato faz o que quer e é feliz com tão pouco. Não há ponta de treva que cresça nesta saúde. Aqui, rente ao osso da matéria, a acidez é baixa e a lira canta alto. Termino, amadoramente, com um verso de outro tempo: é o músculo do peito que dá corda ao destino. Mestre, esta terra tem coroa: a família, frutos e um fio de ouro no lagar.


Ricardo Álvaro
in AAVV, De fio a pavio, Lisboa: Tea For One, 2012


*


Foi possível    sabes?
O dia foi breve menos do que os outros      possível
tão breve     a passagem dum melro     todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite      tão breve


Abel Neves
in Eis o amor      a fome e a morte, Lisboa, Cotovia, 1998


*


Quando no quarto branco da Charité
Acordei de manhã
E ouvi cantar o melro, entendi
Muitas coisas. Muito havia
Que a morte não temia por saber
Que nada mais me faltaria se
Eu próprio me faltava. Nesse instante
Cheguei a alegrar-me até
Com o canto dos melros após a minha morte.


Bertolt Brecht
in Poemas, sel. e trad. de Arnaldo Saraiva, 
Lisboa: Presença, s/d




[* Uma micro-antologia, começada a 4 de Outubro de 2016, para o Ricardo Álvaro.]