sexta-feira, 1 de julho de 2022

I de Infância (IV)

 

"[...]
Olhamos para o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória."

Louise Glück, Meadowlands,
trad. de Inês Dias [Relógio D'Água, 2022]





[ID, 30/06/022]

sábado, 25 de junho de 2022

I de "I'm building a still to slow down the time" (III)

 



Fátima Maldonado, Sem Rasto - poesia reunida
[Averno, 2021]

segunda-feira, 20 de junho de 2022

quinta-feira, 16 de junho de 2022

C de Carrosséis (XVII)


Não foi absolver, foi perdoar,
mas é a mesma coisa. As intenções
do mundo, as condescendências,
tudo concentrado ali, no corpo
aberto. No corpo que me saúda
num dia de festa, que nesse dia
vai à feira comigo, come farturas
e anda comigo de carrossel, me aperta
contra si e depois se arrepende, não
vá eu querer festa todos os dias.


Helder Moura Pereira
in Telhados de Vidro n.º 20, Lisboa, Averno, Setembro de 2015





[ID. 'Modo(s) de voo', 21/12/014]

segunda-feira, 13 de junho de 2022

sexta-feira, 20 de maio de 2022

R de Revisão de texto (ou E de Errata)



[ID | Coimbra, 18/12/011]


*



[ID | Lisboa, 09/01/012]


*



[ID | Mafra, 13/04/022]

domingo, 15 de maio de 2022

E de Efeito borboleta


BORBOLETAS


No centro dos nossos pratos de papas de aveia
Havia uma borboleta azul pintada
E todas as manhãs víamos quem conseguia chegar primeiro à borboleta.
Depois a Avó dizia: «Não comam a pobre borboleta.»
Isso fazia-nos rir.
Ela dizia-o sempre e começávamos sempre a rir.
Parecia uma brincadeirazinha tão terna.
Eu tinha a certeza de que uma bela manhã
As borboletas sairiam a voar dos nossos pratos
Rindo com o mais diminuto riso do mundo
E pousariam na touca da Avó.


- "Três poemas Katherine Mansfield traduzidos por Inês Dias 
com um desenho de Daniela Gomes", in TELHADOS DE VIDRO n.º 21, 
Lisboa, Averno, 2016




[ID | 07/010]

sábado, 14 de maio de 2022

terça-feira, 10 de maio de 2022

C de "(O) começo de um livro..." (IV)


1

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo perseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ___ linha, confiança, crédito, tecido.

2

Renunciei a que alguém, um dia, me chame: "Avó Gabriela".
No entanto, tive um devaneio a noite passada. Eu ouvia planger,
De facto e auditivamente, em texto, o latido surdo
De um cão ruivo pronunciando: "Avó Gabriela". Feliz, Trova
Dava-me a pata e eu dei-lhe para a mão o próprio texto
Ainda no seu estado sonoro cénico.
Com a pata sobre o texto, parecia o ícone do quinto evangelista.

3

Ela tinha sempre um olhar __ deixara de se temer a si própria. O anel
Que trazia no caule era mais amplo ainda; o que olhava, de somenos
Importância. Era uma planta de folhas claras. O ruído da cidade
Entrava pela janela. Viera pôr a sua luz à secretária.
Por que viera assustá-la?
Não sei.
Não compreendendo por que luz e ruído se associavam, dia após dia,
"cabra de luz", lhe chamava. Respirar era-lhe evidente difícil.


Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003

sábado, 7 de maio de 2022

M de Museu Imaginário (XXVI)



[Abbas Kiarostami, Cópia Certificada, 2010]



"[...]

Existe-se na arte. Existe-se com a obra de arte. Cada um a seu modo; e segundo o ritmo do mundo que para a obra de arte saberá transportar. Pertence-lhe uma decisão de sentidos que se joga no momento exacto em que "aparece" e em que, com ela, se estabelece confronto. De um modo mais próximo: avançamos para o "objecto" de arte e dele só "tiramos", como resultado momentaneamente final, aquilo que lhe atribuímos, o que nele vimos e o que sobre ele pensámos. Quase sempre, senão sempre, o que para essa obra canalizámos de desdobramento de nós próprios - seus visitantes -, em grau de conhecimento (e também de ignorância) e de uma escala muito ampla de sensibilidade.

[...]"


 João Miguel Fernandes Jorge, "Canovaccio", 
in Telhado de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004




[Antoni Tapiès, "Gran Sábana", 1968]



[Fotograma de Jim Jarmusch, Os Limites do Controlo, 2009]

sexta-feira, 6 de maio de 2022

L de Lar (III)


DE VITA BEATA


En un viejo país ineficiente,
algo así como España entre dos guerras
civiles, en un pueblo junto al mar,
poseer una casa y poca hacienda
y memoria ninguna. No leer,
no sufrir, no escribir, no pagar cuentas,
y vivir como un noble arruinado
entre las ruinas de mi inteligencia.


JAIME GIL DE BIEDMA





[ID, Vale, Abril de 2013]

sexta-feira, 29 de abril de 2022

D de Dansa


B.LEZA, 2000


Pergunto-me, sem razão,
que diferença existe
entre ausência e voz
- um lamento que não previa.
Ou não já. Não assim, pelo menos.

Só me lembro que dançávamos
(é a minha única definição
de felicidade) e que não voltaremos
a dançar. Assim.
Os táxis, no Conde Barão, fingiam não ver
- mas olhavam todos o moído
esplendor do baile, o vestido negro
que inutilmente te cingia.
Despediam-se, como nós, na
ressaca dum tempo ingrato,

no fulgor da última manhã.
Não ligues ao tchoro, à voz soterrada
por tão ásperos carris. Não ligues
- coração e deserto rimam
numa língua que desconhecemos.


Manuel de Freitas, Teacher Was Here (2009)




[ID, 'Para a Mariana', 05/015]

segunda-feira, 25 de abril de 2022

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXIII)



ID, Entrecampos | 2000
[era antes do Digital]




ID, Rossio | 2012
[era depois dos Telemóveis]

segunda-feira, 21 de março de 2022

     [...]
     Eis o papel da poesia. Ela desvela, no sentido pleno do termo. Ela mostra nuas, sob uma luz que afasta o torpor, as coisas surpreendentes que nos rodeiam e que os nossos sentidos registavam maquinalmente.
     É inútil ir muito longe à procura de objectos e sentimentos bizarros para surpreender o sonhador acordado. É esse o sistema do mau poeta e o que nos acontece com o exotismo.
     Trata-se, sim, de lhe mostrar aquilo sobre o qual o seu coração e os seus olhos deslizam todos os dias, mas sob um ângulo e a uma tal velocidade que lhe pareça vê-lo e comover-se com isso pela primeira vez.
     Eis a única criação permitida à criatura.
     Pois, se é verdade que a multiplicidade de olhares deixa sobre as estátuas uma pátina, os lugares comuns, obras-primas eternas, estão cobertos por uma espessa camada que os torna invisíveis e que esconde a sua beleza.
     Se pegarem num lugar comum, o limparem, o esfregarem, o iluminarem de maneira a que ele recupere a força da juventude e da frescura que tinha na origem, farão o ofício de poeta.
     Tudo o mais é literatura.   

     [...]




Jean Cocteau, Le Secret Professionnel, 1922
[Trad. e fotografia: Inês Dias]

domingo, 20 de março de 2022

I de Infância


LEMBRANÇA DA RIA DE FARO


Dunas atrás da casa
gafanhotos cor de
madeira cardos cor de areia
ao fim da tarde,
barcos na água rósea
onde a cidade, em frente à casa, cai
De madeira caidada a
casa está
sobre a areia, que escurece quando
a maré devagar desce na praia


- GASTÃO CRUZ

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

E de Europa

 


[ID, 'Teacher was here', 07/021]

sábado, 29 de janeiro de 2022

A de Amor (XXVII)


A PONTE


Se me dizem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e me esperes,
atravessarei a ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e atravessá-la-ei. 


Amalia Bautista, Trevo,
trad. de Inês Dias, capa de Luís Henriques 
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2018




sábado, 8 de janeiro de 2022

O de "Onde se lê 'gato'..." (XIV)


"[...]
Uma gata sai com a sua ninhada de um canal da levada. Ela é um centro e os seus pequenos gatos irradiam para a luz. Vi um paralelismo com o desenvolvimento das pétalas e sépalas das malvas e sardinheiras de 'Sombras à volta de um centro' (2003, Serralves). O cone de cor vermelho vivo e o seu reverso de sombra e luminosidade, em aura, como que se desatam, na distância, na mobilidade que de um centro (que é o negro de onde sai a gata com a ninhada e que é também a própria gata) se espalha por entre as ervas altas do Verão. E sucede-se um molho de espigas secas, o terreiro que restou limpo, o chilreio dos pássaros, as lagartixas sobre as pedras.
[...] A sua linguagem e verdade - de Lourdes Castro - é a de descer nesse buraco negro que é um centro (tão idêntico àquele de onde emerge a gata) para dele sair para o movimento circular dos céus -, e trazer consigo, de um corpo, a sua sombra, para a desenhar. Para desenhar, mentalmente, a sombra de um corpo, de um objecto - a sua sombra invisível.

[...]"


João Miguel Fernandes Jorge, 
in Longe do Pintor da Linha Rubra, Patavina, 2017

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

I de "I want to ride my bike" (VIII)




[Sabine Weiss, 1957]

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXIV


É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


EUGÉNIO DE ANDRADE


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (V)


Quando o Inverno começa nas mãos
quentes e sujas um cheiro a laranjas
arde no ar como coisa que chora
ao sol calmo da festa.


- SANDRO PENNA
[Trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo]


*


EPISTROPHÉ


O cheiro a laranja nas gotas de frio,
sob o sol do inverno.

O sabor da terra ao levantar-me.


- ABRAHAM GRAGERA

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

M de "My house, I say" (X)

 

A CASA DA NEBLINA


Entraram para a casa da neblina.
Os seus olhos foram-se acostumando
aos contornos indefinidos. Tudo
era impreciso, tudo era difuso.
Também se iam vendo um ao outro
sem contrastes, os rostos não mudavam,
as expressões eram sempre as mesmas,
sempre veladas pela mesma bruma.
Esqueceram-se ambos do mundo lá fora,
e da luz e da dor e da alegria,
da mentira, da emoção, dos beijos,
da amizade e do amor. Negaram
qualquer verdade ou perfil que os ferisse.
E ficou-lhes ambíguo o coração.



Amalia Bautista, Estou Ausente,
trad. e capa de Inês Dias,
Lisboa, Averno, 2013