sábado, 8 de janeiro de 2022

O de "Onde se lê 'gato'..." (XIV)


"[...]
Uma gata sai com a sua ninhada de um canal da levada. Ela é um centro e os seus pequenos gatos irradiam para a luz. Vi um paralelismo com o desenvolvimento das pétalas e sépalas das malvas e sardinheiras de 'Sombras à volta de um centro' (2003, Serralves). O cone de cor vermelho vivo e o seu reverso de sombra e luminosidade, em aura, como que se desatam, na distância, na mobilidade que de um centro (que é o negro de onde sai a gata com a ninhada e que é também a própria gata) se espalha por entre as ervas altas do Verão. E sucede-se um molho de espigas secas, o terreiro que restou limpo, o chilreio dos pássaros, as lagartixas sobre as pedras.
[...] A sua linguagem e verdade - de Lourdes Castro - é a de descer nesse buraco negro que é um centro (tão idêntico àquele de onde emerge a gata) para dele sair para o movimento circular dos céus -, e trazer consigo, de um corpo, a sua sombra, para a desenhar. Para desenhar, mentalmente, a sombra de um corpo, de um objecto - a sua sombra invisível.

[...]"


João Miguel Fernandes Jorge, 
in Longe do Pintor da Linha Rubra, Patavina, 2017

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

I de "I want to ride my bike" (VIII)




[Sabine Weiss, 1957]

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXIV


É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


EUGÉNIO DE ANDRADE


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (V)


Quando o Inverno começa nas mãos
quentes e sujas um cheiro a laranjas
arde no ar como coisa que chora
ao sol calmo da festa.


- SANDRO PENNA
[Trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo]


*


EPISTROPHÉ


O cheiro a laranja nas gotas de frio,
sob o sol do inverno.

O sabor da terra ao levantar-me.


- ABRAHAM GRAGERA

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

M de "My house, I say" (X)

 

A CASA DA NEBLINA


Entraram para a casa da neblina.
Os seus olhos foram-se acostumando
aos contornos indefinidos. Tudo
era impreciso, tudo era difuso.
Também se iam vendo um ao outro
sem contrastes, os rostos não mudavam,
as expressões eram sempre as mesmas,
sempre veladas pela mesma bruma.
Esqueceram-se ambos do mundo lá fora,
e da luz e da dor e da alegria,
da mentira, da emoção, dos beijos,
da amizade e do amor. Negaram
qualquer verdade ou perfil que os ferisse.
E ficou-lhes ambíguo o coração.



Amalia Bautista, Estou Ausente,
trad. e capa de Inês Dias,
Lisboa, Averno, 2013



domingo, 15 de agosto de 2021

M de "My house, I say" (IX)

 



Iris Murdoch by Billy Brandt
[1963]

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (II)


É necessário que eu hoje regresse a Rilke, à filtragem da vida exterior. Sinto-me um pouco como um convalescente, um pouco fraca, um pouco triste. Estabeleço laço com um novo canto, o chão próximo da arca e da vela. Penso em Jasmim que me deixou, na sua voz rara e desconhecida. Na Quinta de Jacob está a ter lugar uma reunião sobre perspectivas de futuro, as novas casas, a Quinta, os novos laços e o êxodo. O êxodo é um desejo que eu acrescentei em pensamento e de longe à ordem da reunião, para que se quebrem os meus limites.
Percorro os nostálgicos contos de Rilke – os seus títulos “Frère et Soeur”, “Unis”, “Vieillards”, “Les derniers”, “La fête de famille”. Sinto que o seu espírito/a sua presença me faz companhia e que o meu sofrimento se torna menor.
Um arco singular é quebrado. Pressinto o seu ruído de matéria indeterminada. Continuo a ler e a escrever à luz da vela porque não quero acender a luz, adormeço de olhos abertos com um ritmo fatigado: “nessa noite, assim que a criada acendeu o candeeiro”…
Em Rilke, não consigo ler os contos que têm nomes próprios por títulos: “Le roi Bohusch”, “Ewald Tragy”.
Subitamente penso num bastardo, em alguém que quebrou a monótona árvore genealógica da minha família que era terra a terra. Quem? Onde? Em que momento? Devia ter existido. “Porque ele vive uma dupla vida. Uma no seu futuro e outra no seu passado longínquo.”
Apago a vela, acendo a luz eléctrica.


Maria Gabriela Llansol, UM ARCO SINGULAR – Livro de Horas II,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p.25


*


Li por crises. Algumas duraram dois anos. Nesses casos, era obrigada a ler de dia nas grandes bibliotecas universitárias de Paris. É caso para perguntar por que aberração as grandes bibliotecas públicas estão fechadas de noite. Raramente li em praias e jardins. Não se pode ler com duas luzes simultâneas, a do dia e a do livro. Lê-se à luz eléctrica, com o quarto na penumbra, apenas a página iluminada.


Marguerite Duras, O Mundo Exterior
trad. Clarisse Tavares, Lisboa, Livros do Brasil, 1995

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

P de "Paradise Parking"


ESTRANHA FORMA DE VIDA


Sob a bigorna de fogo
que o sol de agosto acende
no muro caiado, derretem-se as pétalas 
de uma sedenta buganvília grená.

Que estranha esta beleza moribunda,
esta desaforada desnudez grandiosa,
esta sílaba breve do milagre.


CARLOS MARZAL
[Trad. ID]





[ID, Santarém, Agosto de 2012]

terça-feira, 27 de julho de 2021

P de Paralelo W (II)


BICHOS


Lembro-me de todos os animais que tive. Tenho muitas saudades de todos. Quase todos tiveram mortes trágicas e eu isso não aceito, não há consolação para isso. Nos meus momentos mais felizes, penso, acredito que a ressurreição vai acontecer e que eu abro a porta de minha casa e todos os animais que tive vêm a subir a escada, estão vivos e vão entrar em casa e todos cabem na casa e a casa é eterna


- ADÍLIA LOPES

sexta-feira, 23 de julho de 2021

C de Começar o dia com um livro novo (LIX)

 



Fátima Maldonado, Sem Rasto (Poesia Reunida),
com capa de Sérgio Eloy,
Lisboa: Averno, 2021

sexta-feira, 16 de julho de 2021

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (M.G.L.) - XV

 



Doris Lessing by Ada Kar, late 1950s
(National Portrait Gallery)

sexta-feira, 9 de julho de 2021

D de Donas gatas


[...]

Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. Mas encontrar um gato: é extraordinário! Porque este gato, o leitor estará certamente de acordo, não entra completamente na nossa vida, como aconteceria, por exemplo, com um brinquedo qualquer; mesmo pertencendo-vos agora, permanece um pouco de fora, e isso faz sempre:

                               a vida + um gato

o que dá, asseguro-vos, uma soma enorme.

[...]


- in Mitsou, quarenta desenhos de Balthus com um prefácio de Rainer Maria Rilke, 
Lisboa, Relógio D'Água, 2002





terça-feira, 29 de junho de 2021

O de Oitavos de final


Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e demais fomentadores
de pestilência moral? Que valor pode ter
uma metáfora sem preço, por brilhante
que seja, neste mundo de sementes apagadas
em lameiros de cimento? Tu não vês
o telejornal, Musa? Nunca ouviste falar
da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais,
julgas-te capaz de competir com traficantes
de desejos, decibéis e abraços? És capaz
de fazer rir um desempregado, de excitar
um espírito impotente? Consegues marcar
golos geniais como o Ricardo Quaresma,
proteger do frio as andorinhas, ir buscar
as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo para te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.


José Miguel Silva, Últimos Poemas,
Lisboa, Averno, 2017

domingo, 27 de junho de 2021

quinta-feira, 24 de junho de 2021

E de Encontro (II)


5.


Nunca separei um sorriso do amor.

Circula essa jornada confusa,
um afã não dito,
um amargo que muda


em ternura.

                    Tranquila vibração,
recôndita fugacidade, solta
o gemido que vai da língua à garganta,
semente de uma ave.

Enleia num alento o outro enleio.

O silêncio não precisa de provocar
o que não ouve, lá fora, na madressilva.

A glicínia a magnólia o cacilheiro
cada margem.

Um sorriso.

Joaquim Manuel Magalhães, "Homossexualidade",
in Telhados de Vidro n.º 4, Lisboa, Averno, Maio de 2005




[ID, Maio 016]




domingo, 30 de maio de 2021

P de (Um Ano de) Pássaros (II)

Disseram-me outro dia que o nível de civilização de uma cidade (até de um povo?) também se pode medir pelo grau de confiança dos pardais em relação às pessoas. A julgar pelos pardais da Gulbenkian, Lisboa já pode competir com Copenhaga.



[ID | 11/009]

terça-feira, 4 de maio de 2021

P de Poética (XXXIX)


Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo. 
"Olha-os e não os mates."



Maria Gabriela LLansol, O raio sobre o lápis,
com desenhos de Julião Sarmento (1948-2021),
Lisboa: Europália, 1991

domingo, 25 de abril de 2021

sexta-feira, 23 de abril de 2021

C de Começar o dia com um livro novo (LVIII)

 

TURECK, 1956


Lentidão. Ou quase,
para quem sabe o veludo
de sofrer. Lembrar o amor
é agora apenas isso:
uma folha de amoreira
que te vi pousar no ombro.
Eu falava, escrevia até,
sobre Gould e Ross,
como se houvesse um sítio
permeável à paixão.

Procura-se
ainda
jovem canadiano.
Costumava ler poemas
em frente ao Museu Vieira da Silva. 
Por volta das seis da tarde.

Hoje, que chove tanto,
denuncio as perfídias do Outono,
esqueço em cada verso
os lentos, os velozes dedos:
Allemande, escurecendo.


Manuel de Freitas, Büchlein Für Johann Sebastian Bach, 2.ª ed. rev., 
com capa e arranjo gráfico de Luís Henriques,
Lisboa: Alambique, 2021




[ID, 11/013]

sexta-feira, 16 de abril de 2021

T de Tratado de Pedagogia (LXXI)

 



Remedios Varo, L'école buissonnière

terça-feira, 13 de abril de 2021

A de Anomalia Poética (VIII)

 




[ID, Santarém-Lisboa, 2014-2021]

sexta-feira, 2 de abril de 2021

P de Páscoa Feliz (VIII)

 



Paul Gauguin, Le Christ jaune (1889)



terça-feira, 30 de março de 2021

P de Pandemia




Wim Wenders, Paris Texas, 1984