Mostrar mensagens com a etiqueta "A luz da sombra". Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta "A luz da sombra". Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

I de "I want to ride my bike" (XI)


BICICLETAS


à memória de Joana Dinis


Pedalar - e, se isto vos parecer retórico, faço questão de vos enviar ramos de jacintos, rosas de Santa Teresinha, essas coisas - é, por vezes, a única solução. Desenganados, fomos ver cegonhas, um falcão menos tímido, papoilas cujo rubor nenhum Monet fixou. Havia sobretudo vento, nêsperas ainda verdes, e pessoas que tão próximas ou distantes vão morrendo.

Pedalar contra o vento não é fácil.


Manuel de Freitas, 769118
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos, 
Lisboa, Averno, 2020




terça-feira, 20 de junho de 2023

T de (Uma) teoria de pássaros (XI)

CONQUISTA

III

Os pássaros conhecem-me.
Eu não os conheço:
conhecer pássaros é um destino diferente.

Ao secar,
indicarei caminhos com os meus ramos bruscos.


Jorge de Sena, Coroa da Terra,
Porto: Lello & Irmão, 1946

terça-feira, 22 de novembro de 2022

O de "Onde se lê gato"


[17/10/10]


Pela manhã o gato estende-se
vagaroso nesse impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.


Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam.
Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.


Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.


Manuel de Freitas, Todos contentes e eu também,
Porto: Campo das Letras, 2000

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

A de Amor (XXVII)


A PONTE


Se me dizem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e me esperes,
atravessarei a ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e atravessá-la-ei. 


Amalia Bautista, Trevo,
trad. de Inês Dias, capa de Luís Henriques 
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2021




sexta-feira, 6 de maio de 2022

L de Lar (III)


DE VITA BEATA


En un viejo país ineficiente,
algo así como España entre dos guerras
civiles, en un pueblo junto al mar,
poseer una casa y poca hacienda
y memoria ninguna. No leer,
no sufrir, no escribir, no pagar cuentas,
y vivir como un noble arruinado
entre las ruinas de mi inteligencia.


JAIME GIL DE BIEDMA





[ID, Vale, Abril de 2013]

sábado, 8 de janeiro de 2022

O de "Onde se lê 'gato'..." (XIV)


"[...]
Uma gata sai com a sua ninhada de um canal da levada. Ela é um centro e os seus pequenos gatos irradiam para a luz. Vi um paralelismo com o desenvolvimento das pétalas e sépalas das malvas e sardinheiras de 'Sombras à volta de um centro' (2003, Serralves). O cone de cor vermelho vivo e o seu reverso de sombra e luminosidade, em aura, como que se desatam, na distância, na mobilidade que de um centro (que é o negro de onde sai a gata com a ninhada e que é também a própria gata) se espalha por entre as ervas altas do Verão. E sucede-se um molho de espigas secas, o terreiro que restou limpo, o chilreio dos pássaros, as lagartixas sobre as pedras.
[...] A sua linguagem e verdade - de Lourdes Castro - é a de descer nesse buraco negro que é um centro (tão idêntico àquele de onde emerge a gata) para dele sair para o movimento circular dos céus -, e trazer consigo, de um corpo, a sua sombra, para a desenhar. Para desenhar, mentalmente, a sombra de um corpo, de um objecto - a sua sombra invisível.

[...]"


João Miguel Fernandes Jorge, 
in Longe do Pintor da Linha Rubra, Patavina, 2017

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (II)


É necessário que eu hoje regresse a Rilke, à filtragem da vida exterior. Sinto-me um pouco como um convalescente, um pouco fraca, um pouco triste. Estabeleço laço com um novo canto, o chão próximo da arca e da vela. Penso em Jasmim que me deixou, na sua voz rara e desconhecida. Na Quinta de Jacob está a ter lugar uma reunião sobre perspectivas de futuro, as novas casas, a Quinta, os novos laços e o êxodo. O êxodo é um desejo que eu acrescentei em pensamento e de longe à ordem da reunião, para que se quebrem os meus limites.
Percorro os nostálgicos contos de Rilke – os seus títulos “Frère et Soeur”, “Unis”, “Vieillards”, “Les derniers”, “La fête de famille”. Sinto que o seu espírito/a sua presença me faz companhia e que o meu sofrimento se torna menor.
Um arco singular é quebrado. Pressinto o seu ruído de matéria indeterminada. Continuo a ler e a escrever à luz da vela porque não quero acender a luz, adormeço de olhos abertos com um ritmo fatigado: “nessa noite, assim que a criada acendeu o candeeiro”…
Em Rilke, não consigo ler os contos que têm nomes próprios por títulos: “Le roi Bohusch”, “Ewald Tragy”.
Subitamente penso num bastardo, em alguém que quebrou a monótona árvore genealógica da minha família que era terra a terra. Quem? Onde? Em que momento? Devia ter existido. “Porque ele vive uma dupla vida. Uma no seu futuro e outra no seu passado longínquo.”
Apago a vela, acendo a luz eléctrica.


Maria Gabriela Llansol, UM ARCO SINGULAR – Livro de Horas II,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p.25


*


Li por crises. Algumas duraram dois anos. Nesses casos, era obrigada a ler de dia nas grandes bibliotecas universitárias de Paris. É caso para perguntar por que aberração as grandes bibliotecas públicas estão fechadas de noite. Raramente li em praias e jardins. Não se pode ler com duas luzes simultâneas, a do dia e a do livro. Lê-se à luz eléctrica, com o quarto na penumbra, apenas a página iluminada.


Marguerite Duras, O Mundo Exterior
trad. Clarisse Tavares, Lisboa, Livros do Brasil, 1995

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

C de Começar o dia com um livro novo (XXXI)





VERSOS DO DESCONSOLO


para Stig Dagerman


fiquei com pouco tempo
para dar à claridade
e as abelhas já não vêm
pôr mel dentro das rosas.

às vezes, a minha sombra
é um pedaço de risco,
qualquer coisa desavinda
a que o Sol quer dar sustento.

quem disse que a memória
é sempre muito antiga?

quem falou de uma aranha
para tecer a eternidade?


Emanuel Jorge Botelho, Fecho a cortina, e espero,
com capa de Luis Manuel Gaspar e um desenho de Urbano, 
Lisboa: Averno, 11 de Agosto de 2014





[Lou, 01/015]

quinta-feira, 26 de março de 2020

L de (A) Luz da Sombra (XLIII)


REMEMBER


Abri o rádio de pilhas pirilampos 
a música da feira de Paço d'Arcos
mudámos entre duas cervejas com
açorda de marisco atrás da camioneta
os móveis empilhados torre de Pisa
que havia no escritório do meu pai
na estrada marginal às gargalhadas
A casa era muito dividida
com perspectivas dúbias com djinns
que corriam atrás dos cães
pilhas de pirilampos empilhados
os móveis quase a cair para
o mar iluminado pelos teus dentes
onde nascia o Sol quando te beijava


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015




[ID, 'Memória da luz das 7h30', 05/012]

sábado, 7 de março de 2020

m, de memória (II)


ARTE POÉTICA


Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.


- ANTÓNIO RAMOS ROSA




[Andrei Tarkovsky, O Espelho, 1975]

quinta-feira, 23 de maio de 2019

C de "Celui qui regarde une fenêtre fermée" (V)


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012





[ID, 20/01/017]

quarta-feira, 1 de maio de 2019

m, de memória (III)


RUA DOS CAVALEIROS DA ESPORA DOURADA

Para a Ginja


Imagino-os sempre
de olhos cegos,
de quem correu o mar
e aprendeu outra cor
para o mesmo sangue
– gridelém.

Não se apressam.
O coração mais fielmente negro
parou entretanto de bater,
deixando-lhes o peso
do seu embalo nas mãos vazias;
e trazem colada ao corpo
a cal da memória
– raparigas com cabelo de linho,
olhos de esmalte.

Chamam cada onda
pelo seu nome,
agora que todas elas são cinza
de lume familiar.
Tornaram-se veladores,
guiados pelo desatar invisível
da água nessa longa noite
– mortos ainda à procura
do calor de um gato.


Inês Dias
in AA.VV., Sete, volta d' mar, 2018




[Inês Dias, Ponto-Sombra, São Paulo, Corsário-Satã, 2018]

domingo, 17 de fevereiro de 2019

F de Fazer Fotografia (LI)




Realização: Theodoros Angelopoulos
Música: Eleni Karaindrou

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

L de Lunário


II

Não esperava, trinta anos depois, reconhecer
a Nazaré. Igual a si mesma, fintou o progresso
no desmando da morte e no cheiro seco
dos carapaus jacentes (só um gato preto, sem
jeito para o negócio, foi poupado ao extermínio).

Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente 'pardonner'.

Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.


Manuel de Freitas, Pedacinhos de ossos,
Lisboa: Averno, 2012




[ID | 21/01/019]

sábado, 19 de janeiro de 2019

Começar o dia com um livro novo (XLV)


A CADA DIA


A cada dia a sua descoberta: a luz
acesa pra se ver a côr dos sons.

[...]

A cada dia o seu poema de viver:
ver o Anjo da morte e não morrer.


António Barahona, Ocarina (Terceiro Tômo da Suma Poética),
com capa de Andrea Martha (Mumtazz) e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2016





[ID, 'Aubade', 2013]

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - XIX b


NUUR


                        para Patrícia Joana


    A pouca luz que tenho no rosto, provém do facto de ler, todas as madrugadas, um fragmento do Alcorão.
    Muito pouca luz, mas redonda.
    O meu corpo é anguloso, ossudo e imerso em trevas. Só quando caminho se acendem luzes, como o plâncton, à noite, nas margens do mar da Índia. Então, entre os meus passos, perpassam estrêlas.
    Se estou imóvel, porém, só o meu rosto se distingue. Nem eu próprio me vejo todo por fora, nem mesmo diante dum espelho, tal a profundidade dêste mergulho interior.
    Aqui respira-se melhor.
    Pode dizer-se o que se quiser.
    O rigor da poesia é ganhar esta Grande-Guerra-Santa com a nossa própria alma.

    Cada vez mais se me antolha evidente ser a vida uma preparação para a morte: lugar comum, onde todos nos sentamos.
    Há quem fique de pé, mas por pouco tempo.

                                                                     *

    A pouca luz que tenho no rosto, provém igualmente de um beijo teu.
    Um beijo muito núbil, cheio de castidade e desejo, num perfeito equilíbrio de suavidade religiosa.
    Um beijo inspirado por Deus.
    Agora, quando leio o Alcorão, de madrugada, a pequenina luz circular do meu rosto aumenta de diâmetro e ilumina o som do texto.
    Já não preciso do candeeiro aceso.


António Barahona, Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea,
Lisboa, Averno, 2011