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sábado, 4 de abril de 2026

P de Páscoa Feliz (II)


"Ajoelhada no relvado húmido e perfumado do parque da aldeia, Clara Morrow escondeu cuidadosamente o ovo de Páscoa e pensou em ressuscitar os mortos, o que tencionava fazer logo após o jantar. [...]"


Louise Penny, O mais cruel dos meses,
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2016






"Várias colunas dóricas, entrelaçadas por uma trepadeira de madressilva, davam um aspecto de velha mansão sulista à fachada da casa de Fondero. A impressão era dissipada pelo enorme carro funerário preto estacionado ao lado. Atrás do carro funerário, havia um pequeno carro desportivo vermelho. A incongruência entre os dois veículos divertiu Pinata. A morte e a ressurreição, pensou ele. Se calhar é assim que os americanos de hoje imaginam a ressurreição, como um carro desportivo vermelho, levando-os por uma estrada de espuma sintética em direcção a um nirvana de nylon."


Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo,
trad. Inês Dias, Lisboa: Averno, 2011

domingo, 2 de novembro de 2025

L de Lost in translation


A MORTE E A DONZELA



AMY LOWELL (E.U.A., 1874-1925)


GROTESCO


Porque é que os lírios me deitam a língua de fora
Quando os corto;
E se torcem e contorcem
E se estrangulam entre os meus dedos, 
Ao ponto de mal conseguir tecer esta grinalda 
Para o teu cabelo? 
Porque é que gritam o teu nome 
E me cospem 
Quando os tento juntar?
Terei de os matar 
Para que fiquem quietos, 
E enviar-te uma coroa de cadáveres suspensos 
Que murchem e apodreçam 
Na tua testa  
Enquanto dansas?


*


ANTONIA POZZI (Itália, 1912-1938)


NOVEMBRO


E depois – quando eu partir
restará alguma coisa
de mim
no meu mundo –
restará um fino rasto de silêncio
no meio das vozes –
um ténue sopro de branco
no coração do azul –

E numa noite de Novembro
uma menina frágil
à esquina de uma rua
venderá braçadas de crisântemos
e lá estarão as estrelas
gélidas verdes distantes –
Alguém chorará
em algum lugar – em algum lugar –
Alguém irá procurar crisântemos
para mim
no mundo
quando sem regresso
eu tiver de partir.


*


ALEJANDRA PIZARNIK (Argentina, 1936-1972)


CAPÍTULOS PRINCIPAIS


Chega a morte com o seu rebanho de ossos
sorrio submissa a uma menina idiota
que implora em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro trabalho senão odiar
No final todos se casam:
o mar e as ondas,
a noite e o escuro,
o copo e o vinho,
o anel e o dedo,
a morte e o cadáver.



Poemas escolhidos/traduzidos por Inês Dias,
 aqui compostos/impressos por Luís Henriques e Manuel Diogo 
para A Faca Romba, Lisboa: Oficina do Cego, 2012




quarta-feira, 24 de setembro de 2025

T de "The days grow short" (XI)


6.


Mas possa eu, Senhor, não perder nunca
os olhos com que ao frio me enamoro
das folhas que se movem casuais
ao vento outonal das alamedas.


in Telhados de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004




[Coimbra, Janeiro 014]

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (V)


24.

e se o demónio voltar - enquanto persegues a aranha pelas paredes da noite e do dia - e disser que a possibilidade de regresso não é uma teoria física nem moral apenas estética? enfrentarás com a mesma impaciência os meses que se erguem com espuma, se suspendem e aceleram em ondas pesadas e regulares como a respiração de um gigante? escrevo esta carta no início do verão, uma mão litoral no cabelo enquanto hesito. o automóvel está estacionado à porta de casa, o resto a caminho do sul. no final hão-de restar apenas as estrias de sal sobre o dorso, a interpretação desses mapas.


Tiago Araújo, Livre Arbítrio,
Lisboa, Averno, 2009




[ID | Santarém, 04/2013]

segunda-feira, 23 de junho de 2025

S de São João


FOGUEIRAS DE SÃO JOÃO


Labaredas na noite do meu nome
sinto arderem à margem
de um mar escuro -
e ao longo dos portos acenderem-se piras
de coisas velhas,
de algas e barcos
naufragados.

E em mim nada que possa
ser queimado,
mas cada hora da minha vida
ainda - com o seu peso indestrutível
presente -
no coração extinto da noite
me segue.


Antonia Pozzi, Morte de uma Estação, 2.ª ed., 
com sel. e trad. de Inês Dias, prefácio de José Carlos Soares e desenhos de Débora Figueiredo,
Lisboa, Averno, 2019




[ID, Porto | 018]

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

A de Amor


CONTA-MO OUTRA VEZ
                           
                               
Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me, uma vez mais, que o par
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que ele nem sequer
pensou em enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam cada noite a beijar-se.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço. 

        
Amalia Bautista, Coração Desabitado,
com sel. e trad. de Inês Dias, desenhos de Débora Figueiredo,
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2018





domingo, 29 de setembro de 2024

P de "(As) Praias Obscuras"




«[...] "Quero a alegria de um barco voltando" é dos melhores versos que conheço. 
Corrijam-me, se estiver errado.»

Manuel de Freitas, Ubi Sunt
(Averno, 2014)

terça-feira, 5 de março de 2024

F de Flor Suficiente (XI)



[ID, Lx, 10/011]



"[...]
olha     traz-me um ramo de qualquer coisa
qualquer coisa que venha amaciar o seco das palavras
deitadas a este relento entre ninhos de raposa
e um sonho de groselhas 
é que deixam secura e mais nada     não deixam mais nada
os sabugueiros ao menos deitam flores e bagas
tudo pérolas     traz-me um ramo de azul tuaregue
e nem é preciso que vás ao deserto
entra por esta noite     pode ser apenas esta
não dês alerta aos bichos dos varandins
às gatas e aos gatos com cio     aos homens com sabre
sossega as gazelas     vai à fonte e traz o azul 
eu estarei à tua espera sem o falcão
sem o rei na barriga nem a gataria à espreita
[...]


Abel Neves, Úsnea,
Lisboa: Averno, 2015







[ID, Lx, 02/015]

sábado, 13 de janeiro de 2024

C de Começar o dia com um livro novo (XLII)





X


     E se o vento varrer as fôlhas sêcas sem deixar nenhuma?
     Este Outomno ela não guardará fôlhas dentro dos livros
     e ele não escreverá mais poemas a falar da sua morte
     e ambos serão obrigados a não sair do Verão, mesmo no Inverno, à chuva, atrás dos vidros


António Barahona, Noite do Meu Inverno (Segundo Tômo da Suma Poética),
com capa de Inês Dias, fotografia de Teresa Santos e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Averno, 2016





[ID, Nazaré, 02/013]

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

I de "I want to ride my bike" (XI)


BICICLETAS


à memória de Joana Dinis


Pedalar - e, se isto vos parecer retórico, faço questão de vos enviar ramos de jacintos, rosas de Santa Teresinha, essas coisas - é, por vezes, a única solução. Desenganados, fomos ver cegonhas, um falcão menos tímido, papoilas cujo rubor nenhum Monet fixou. Havia sobretudo vento, nêsperas ainda verdes, e pessoas que tão próximas ou distantes vão morrendo.

Pedalar contra o vento não é fácil.


Manuel de Freitas, 769118, 
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos, 
Lisboa, Averno, 2020




sábado, 23 de setembro de 2023

P de "Paredes frias" (III)


E a tua ferida, onde está?
Pergunto onde fica, em que lugar se oculta a ferida secreta para onde foge todo o homem à procura de refúgio se lhe tocam no orgulho, se lho ferem? Esta ferida - que fica assim transformada em foro íntimo - é que ele vai dilatar, vai preencher. Sabe encontrá-la, todo o homem, ao ponto de ele próprio ser a ferida, uma espécie de secreto e doloroso coração.
Se observarmos o homem ou a mulher que passam com olhar rápido e voraz - e também o cão, o pássaro, uma panela - a velocidade do olhar é que nos mostra, ela própria e com rigor máximo, que ambos são a ferida onde se escondem mal sentem o perigo. O quê? Já lá estão, já os conquistou - deu-lhes a sua forma - e para ela a solidão: lá estão inteiros no retesar de ombros em que passam a concentrar-se, com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca, e contra a qual nada podem nem querem, pois dela é que sabem esta solidão absoluta, incomunicável - este castelo da alma - para serem a própria solidão.


Jean Genet, O Funâmbulo,
trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Hiena Editora, 1984





[Lisboa, 17/05/013]




O CIRCO


Venham ver, venham,
a minha oculta ferida.
Tem rebordo roxo
e paixão ao meio. 

É bonita e quero-lhe muito.
É flor de passiflora à botoeira
da pele que subpulsa,
que repulsa,
meus audiovisuais que aguentam tudo:
minha náusea, meu coração-culpa.

Brinco enquanto finjo um outro assunto.
Rif-raf é um brinquedo de criança
ou nada quer dizer
senão imagem onomatopaica.
Diagrama, indica infecção
palustre de água-viva e memória
tão secreta que não mata.

Vê-se e não se vê
a minha oculta ferida.
Mas tem cruzes e espinhos.
No centro uma gota brilha
rocio
ou som murmurado
que se transmite sem pedir palavra.

A minha ferida sangra 
como que entornada.
Venham ver, entrem,
que não se paga nada. 


Ruy Cinatti, 75 Poemas,
org. Manuel de Freitas, Lisboa: Averno, 2014

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

A de Amor (XIV)


21 - DA SUBLIMIDADE DO AMOR


É recorrente, nos programas de televisão vespertinos e entre amigos dados às chamadas "conversas moles", debater, pela enésima vez, as diferenças entre paixão e amor. E, contudo, creio que não existem. Não acredito em amores desapaixonados, ainda que o preço a pagar por este entendimento seja, o mais das vezes, a confrontação com a finitude dos amores. O que não convem a quem pretende vender ao mundo uma imagem estável ou viver na comodidade perguiçosa do conhecido, por oposição aos trabalhos a que os recomeços, as reinvenções, obrigam. Não há - nos amores de natureza erótica, de raiz erótica, de fundação erótica - grandes espaços para fraternidades, filiações, amizades que não estejam subordinadas ao erotismo (como na poesia não há espaço para mensagens que não estejam subordinadas ao "dizer poético", que acaba por ser, ele próprio, a sua mensagem mais abrangente e perene).
     Mas o que não há, também, é uma obrigatoriedade de amar. Nesse plano, há muitos estádios intermédios que podem até, dependendo das circunstâncias, convir mais a cada qual. Até porque o amor não é uma questão de opção - é irracional, involuntário e altamente improvável. Pressupõe quadros, psicológicos e vivenciais, culturais e físicos, adequados e propícios. O amor é o menos democrático dos sentimentos, o mais elitista (só que, cá está, este elitismo é do seu foro interno - não de qualquer outro). E, sem que isso contradiga o que disse de início, o amor é eterno: quando um amor termina é sinal de que uma das pessoas em causa, ou ambas, morreram, ainda que a morte seja metamorfose ou renascimento ou morte-viva.
     E pode, eventualmente, nestes casos, o amor permanecer eternamente vivo no outro, como se votado a um morto ou como amor sem objecto que não o próprio amor, tornando-se, assim, ainda mais substantivo.
     Este tipo de amor, estou em crer, só é permitido aos poetas.


Miguel Martins, Lérias,
Lisboa: Averno, 2011

terça-feira, 12 de setembro de 2023

P de "(As) Praias Obscuras" (IV)

 



Margaret Millar fotografada pelo marido.


*




Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo,
trad. de Inês Dias, Lisboa: Averno, 2011


terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XII)


A ÁRVORE DAS RAÍZES


a minha infância tem uma árvore
assombrosa. é uma bela história de amor
entre as nossas mãos pequeninas
e aqueles seus braços enormes, bravos e
loucos como o riso das mães,
que faziam abrandar o medo e a tarde.

oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros
pelo labirinto de grutas cavado nas raízes,
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

ao parar, há dias, na Deslocação do Labirinto,
imaginei que talvez Vieira da Silva
tivesse sonhado a minha árvore.
ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento
engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo:

azuis e verdes com riscos ferozes
onde a vista se afunda para depois
nos libertar. assim é, entre o céu da memória
e a erva húmida destes dias,
a árvore da minha infância.


Renata Correia Botelho, Small Song,
2.ª ed., Lisboa: Alambique, 2015

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

E de Espera (XL)





PARDAL DE NATAL


A primeira coisa que ouvi esta manhã
foi um rápido bater de asas, suave, insistente -

asas contra vidro, como se percebeu depois,
lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro
agitando-se na moldura de uma janela alta,
tentando lançar-se através do
enigma de vidro até à ampla luz.

E então um ruído na garganta do gato
que estava pregado ao tapete
contou-me como o pássaro ficara lá dentro,
transportado na noite fria
através da portinhola na porta da cave,
e posteriormente solto do aperto suave dos dentes.

De pé numa cadeira, prendi as suas pulsações
numa camisa e levei-o para a porta,
tão leve que parecia
ter desaparecido no ninho de tecido.

Mas cá fora, quando abri as mãos,
ele saiu disparado para o seu elemento,
mergulhando sobre o jardim adormecido
num espasmo de bater de asas
e desaparecendo sobre um renque alto de acácias.

Durante o resto do dia,
senti o seu vibrar selvagem
contra a palma das mãos, sempre que pensava
nas horas que a ave deve ter passado
presa nas sombras da sala,
escondida nos ramos pontiagudos
da nossa árvore decorada, onde respirou
entre anjos metálicos,  maçãs de loiça, estrelas de verga,
os seus olhos abertos, como os meus, deitado aqui esta noite,
imaginando este pardal sortudo e raro
aconchegado agora num arbusto de azevinho,
com a neve caindo através da escuridão, sem uma aragem.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014



[ID, 02/05/012]

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

E de Espera (XXXVII)


REBANHO


'Calcula-se que para cada exemplar da Bíblia 
de Gutenberg... foram necessárias as peles de 300 ovelhas.'
 - de um artigo sobre imprensa


Parece que as estou a ver apertadas no curral
por trás do edifício de pedra
onde a prensa funciona,

todas elas se ajeitando
para encontrar um pouco de espaço
e tão parecidas umas com as outras

que seria quase impossível
contá-las,
e não há forma de dizer

qual delas irá levar a notícia
de que o Senhor é um pastor,
uma das poucas coisas que elas já sabem.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014




domingo, 11 de dezembro de 2022

E de Espera (XLII) - 3.º Domingo de Advento





"Tenho recordações de que não me lembro: são as mais belas."

- MARIA GABRIELA LLANSOL





[ID, Londres, 11/015]

domingo, 20 de novembro de 2022

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXV




Diferença


Não te afastes. Não me finjas outro que sabes não sou. Escuta a dor da minha diferença, escuta a ferida que nela lateja. Para me veres nos meus olhos nus, não podes ter medo do meu rosto verdadeiro. Escuta, sou eu quem te fala (desdobro-me em palavras para chegar a ti, desdobro-me em gestos que nunca te alcançam.) Custa esta violência surda, de nada, de ninguém, de mim e ti, todos nós, custa sobretudo porque sem palavras (por isso, repara, calo cada vez mais). Custa estar tão só nesta diferença que só pode ser um corpo, neste silêncio que é a forma da tua boca fechada, morte que avança e tem o teu olhar (é esse mesmo que vejo no espelho). Custa esse teu grito, último gesto, sei-o bem, último apelo, desencontrar-me, seguir para lá de mim, extinguir-se ninguém. Mas ainda assim não te afastes. Escuto a tua ferida, nela corre sangue igual ao meu. Estás só, por isso estás comigo.


Jorge Roque
in Broto Sofro, com pinturas de Guilherme Faria
e arranjo gráfico de Inês Mateus, Lisboa, Averno, 2008

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

V de Vida (VII)


DESTINO


E para te orientares neste
labirinto dispões do mapa de uma
cidade onde ainda não estiveste,
uma bússola que indica a direcção que
sem ela tomarias, duas chaves que parecem 
iguais, um relógio que se atrasa vinte e cinco 
horas por dia, a propriedade
associativa, provisões que dão
fome, a religião que escolheres,
um resumo dos teus próximos sonhos,
visões que dão sede, a saída ali 
em frente, um recorte de
jornal que conta como
não pudeste sair. 


Mariano Peyrou, O Discurso Opcional Obrigatório,
trad. Manuel de Freitas, Lisboa: Averno, 2009





[ID, 'O discurso opcional obrigatório', 05/015]

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

S de Solidão (ou C de Comunidade ) XLIX



[ID, Santa Cruz, Setembro 012]



ANUNCIAÇÃO


Não tenho palavras, nem entendo
formas visíveis.
Elas vêm concretas como aragem
a que dou nome.

Tenho-me, eis tudo. Acontece.
Há uma folha que desce,
que sobrenada, que desce,
que submerge no ar e depois desce
longe de mim no ar fundo.

Nós não somos deste mundo.

Fresca e limpa como a chuva,
ouço a tua voz cantada
descer do céu ao silêncio
que vem da terra molhada.

Nós não somos deste mundo.

Ouso dizer-te o meu nome
como quem se atreve a dar-te
a minha imagem.

Nós não somos deste mundo.

O que não vejo, entendo.
Pelos rios do meu sangue,
atrevo-me.

Anoitecendo, a vida recomeça.

Dou-me em palavras
que ressuscitam.
Algures no céu amanhece.

Só, intranquilo, pela vereda, desce
o nómada meu amigo.


Ruy Cinatti, 75 Poemas,
org. de Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno, 12 de Outubro de 2014