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domingo, 19 de janeiro de 2020

M de "Me, Myself and I" (II)



Hans Holbein the Younger, 'A lady with a squirrel and a starling', 1526-28 
[National Gallery, London]



[...]
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das núvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

[...]


Herberto Helder, O Amor em Visita,
Lisboa: Contraponto, 1958




Frida Khalo

domingo, 8 de dezembro de 2019

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (III)


MORTE DE UMA ESTAÇÃO


Choveu toda a noite
sobre as memórias do verão.

Ao anoitecer saímos
no meio de um ribombar lúgubre de pedras
e, parados na margem, levantámos as lanternas
para explorar o perigo das pontes.

Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas
ensopadas e pousadas sobre os fios
à espreita de indícios secretos de partida -

e reflectiam-nas na terra
as fontes com os rostos desfeitos.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
2.ª ed. rev. e aumentada,
sel. e trad. de Inês Dias, desenhos de Débora Figueiredo,
e prefácio de José Carlos Soares, Lisboa, Averno, 2019




[ID, Santa Cruz, 12/019]

sábado, 9 de novembro de 2019

A de Amor (XXIX)


CONFIAR


Tenho tanta fé em ti. Sinto
que saberei esperar a tua voz
em silêncio, durante séculos
de escuridão.

Tu sabes todos os segredos,
como o sol:
poderias fazer despontar
os gerânios e a flor de laranjeira
no fundo das pedreiras,
das prisões
lendárias.

Tenho tanta fé em ti.  Estou tranquila
como o árabe, que
envolto no seu manto branco
escuta Deus amadurecer-lhe
a cevada à volta da casa.


Antonia Pozzi, Morte de uma Estação,
2.ª ed. rev. e aumentada, sel. e trad. de Inês Dias,
desenhos de Débora Figueiredo, prefácio de José Carlos Soares
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2019



terça-feira, 16 de julho de 2019

V de Vista para um saguão (VII)


SEGREDO


Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


                  MIGUEL TORGA

quarta-feira, 1 de maio de 2019

m, de memória (III)


RUA DOS CAVALEIROS DA ESPORA DOURADA

Para a Ginja


Imagino-os sempre
de olhos cegos,
de quem correu o mar
e aprendeu outra cor
para o mesmo sangue
– gridelém.

Não se apressam.
O coração mais fielmente negro
parou entretanto de bater,
deixando-lhes o peso
do seu embalo nas mãos vazias;
e trazem colada ao corpo
a cal da memória
– raparigas com cabelo de linho,
olhos de esmalte.

Chamam cada onda
pelo seu nome,
agora que todas elas são cinza
de lume familiar.
Tornaram-se veladores,
guiados pelo desatar invisível
da água nessa longa noite
– mortos ainda à procura
do calor de um gato.


Inês Dias
in AA.VV., Sete, volta d' mar, 2018




[Inês Dias, Ponto-Sombra, São Paulo, Corsário-Satã, 2018]

S.T.T.L.


"[...]
Feitos que poovoam o espaço e que chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, a não ser que exista uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. Que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou inconsistente perderá o mundo? A voz de Macedonio Fernández, a imagem de um cavalo rubro no baldio de Serrano e de Charcas, uma barra de enxofre na gaveta de uma secretária de mogno?"


- JORGE LUIS BORGES,
 (trad. de Fernando Pinto do Amaral)




[ID, Estrela, Maio de 2017]

terça-feira, 15 de maio de 2018

A de "A propósito de andorinhas" (VI)


Uma epígrafe / poética:




[Inês Lourenço, A disfunção lírica,
Lisboa, &etc, 2007]

terça-feira, 17 de abril de 2018

sexta-feira, 3 de março de 2017

V de Vista para um saguão (VI)


"MARÇO

O primeiro cuco e as primeiras brisas primaveris. Agora, nas ilhas mais ao sul,  as primeiras cigarras começam a saudar a luz do Sol e as andorinhas a construir os ninhos nos beirais. (Destrói o ninho da andorinha e vais ficar com sardas, diz a lenda popular. Outra superstição diz que haverá uma morte na casa.) No primeiro dia do mês, os rapazes fazem uma andorinha de madeira, enfeitam-na com flores e vão de casa em casa, pedindo moedas e cantando uma pequena canção que varia de lugar para lugar na Grécia. Este costume vem da mais remota Antiguidade e é mencionado por autores gregos antigos.
Em algumas ilhas do Mar Egeu, os camponeses acham que dá azar lavar ou plantar vegetais durante os três primeiros dias de março. Se se plantar árvores, estas murcham. O sol de março queima a pele; e um fio vermelho e branco no pulso não deixa que os nossos filhos tenham queimaduras solares.
[...]"


Lawrence Durrel, As Ilhas Gregas,
trad. de Carlos Leite, Lisboa, Relógio D'Água, 2016




[ID, Abril 2016]

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A de "A propósito de andorinhas"


A CONTRAPROVA


É preciso guardar
o recibo das andorinhas
quando reencontram,
tumultuosas,
o ninho.


António Osório, Décima Aurora,
Lisboa: Na Regra do Jogo, 1982





[ID, 'Vista para um saguão', Maio 2016]

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXVIII)


AS ANDORINHAS


I

     Dão-me a minha lição de cada dia.
     Pontuam o ar de pequenos gritos.
     Traçam uma linha recta, põem uma vírgula no fim, e, bruscamente, mudam de linha.
     Colocam entre loucos parênteses a casa onde moro.
     Ascendem da cave até às águas-furtadas, demasiado velozes para que no tanque do meu quintal fique uma cópia do seu voo.
     Com uma pluma de asa ligeira, dão forma a inimitáveis rubricas.
     Depois, aos pares, abraçadas, juntam-se, misturam-se, e são um borrão de tinta sobre o azul do céu.
     No entanto, só um olhar amigo pode segui-las, e se o leitor sabe grego e latim, eu sei ler o hebreu que no ar escrevem as andorinhas-das-chaminés.

[...]


Jules Renard, Histórias Naturais,
com tradução de Carlos Pombo e ilustração de Maria João Worm,
Lisboa, Quarto de Jade, 2015



[Tiragem: 50 exemplares numerados]

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A de "A propósito de andorinhas" (III)


Ontem, o concerto do grupo Hirundo Maris começou assim:




Anima nostra, 
sicut passer, 
erepta est 
de laqueo 
venantium

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

P de (Dois Anos de) Pássaros - mais andorinha, menos andorinha... - XXVIII b


[...]

que idade tinhas
quando a primeira árvore
te disse para subires?


- Emanuel Jorge Botelho




[André Kertész, 1979]

*

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

L de Levantar a cabeça (IX)


LUXÚRIA


Caí no hábito 
de ir às matinas. Hoje
descobri que estão a reparar
a igreja. As janelas laterais
foram retiradas. Fiquei chocado
com o som das andorinhas. Com o sol
e o cheiro da manhã.
Percebi que tem havido um engano. 


JACK GILBERT
[Trad. Inês Dias]


quarta-feira, 20 de março de 2013

Y de "You must believe in spring" (IV)


AS ANDORINHAS



As andorinhas giram miram viram, piam piadas, microfilmam a nuvem, sobrevoam casos, sobrevoam casa, quebram fios, quebram copos, falam mal de mim, falam mal de mim. Não existe mam, não existe mem, não existe mom, não existe mum. Portanto elas falam mal de mim. Giram, miram, piram.

As an-dorinhas: na minha infância houve uma Dorinha quase sem peitos, mas cheirava bem. Quebrava sempre copos. 

O céu é adorável, andorinhável, andorável, acoplável com a terra, inquebrantável.

Ditado pisano: "per l'Annunziata la rondine è arrivata; e se non è arrivata per strada o è malata."


Murilo Mendes




[Hoje, no regresso da Primavera e da família de andorinhas que mora no saguão.]

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O de Out of focus


NA ILHA DE CALIPSO



De súbito, parecia
que nada nos faltava:
andorinhas, oliveiras, hortelã.

A brisa no meu rosto é a brisa
no teu rosto. A 110 à hora,
quem se lembra 
de uma vinha destruída?

São 3 e 25
e nenhuma autoridade nos daria 
mais de 15 anos.


José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui,
Lisboa: &etc, 2002

sábado, 12 de janeiro de 2013

EM SOCIEDADE



     Não me arrependo - mas só porque o arrependimento não é uma forma suficiente de desespero - do tempo em que era desconfiado, em que ainda esperava encontrar algum inimigo para vencer, alguma brecha a talhar na natureza humana, algum esconderijo sagrado. A desconfiança representava ainda uma pausa, a constatação aprazível do concluído. Um fio puxado por uma andorinha que, de asas abertas, imita a ponta da flecha engana tanto a aparência do homem como a sua realidade. O vento não vai aonde o homem o quer levar. Felizmente. Eis as fronteiras do erro, eis os cegos que se recusam a pousar o pé no degrau em falta, eis os mudos que pensam com palavras, eis os surdos que silenciam os ruídos do mundo.

     Os membros cansados, palavra de honra, não se separam facilmente. O seu desconhecimento da solidão não os impede de se entregarem a dissimuladas experiências pessoais de física divertida, migalhas do grande repouso, tantas gargalhadas minúsculas das glicínias e das acácias do cenário.  
     A fonte das virtudes não secou. Ainda há olhos belos e grandes, bem abertos para contemplar as mãos laboriosas que nunca praticaram o mal e que se aborrecem e que aborrecem toda a gente. O cálculo mais rasteiro faz com que se fechem quotidianamente estes olhos. Mas eles só privilegiam o sono para poderem mergulhar depois na contemplação das mãos laboriosas que nunca praticaram o mal e que se aborrecem e que aborrecem toda a gente. O odioso tráfico.

     Tudo isso está vivo: esse corpo paciente de insecto, esse corpo apaixonado de pássaro, esse corpo fiel de mamífero e esse corpo magro e vaidoso do monstro da minha infância, tudo isso está vivo. Só a cabeça morreu. Tive de a matar. O meu rosto já não me compreende. E não tenho outro.


Paul Eluard,  Les dessous d'une vie ou La Pyramide humaine, 1926
[Trad. ID]

terça-feira, 8 de maio de 2012

F de Feira do Livro

De André Breton / Paul Éluard
in "O Juízo Original":

[...]
  •  Faz para ti sem franzir as sobrancelhas uma ideia possível das andorinhas.
[...]
  • Corrige os teus pais.
[...]

  • Imagina que esta mulher está contida em três palavras e que esta colina é um abismo.
[...]
  • A tua liberdade com a qual me fazes chorar a rir é a tua liberdade.
[...]
  • Não deixes de dizer ao revólver: Muito lisonjeado mas parece-me tê-lo já encontrado em qualquer lado.
[...]
  • Nada tens para fazer antes de morrer.
[...]
  • Nunca esperes por ti.
[...]
  • Não anules os raios vermelhos do Sol.
[...]

domingo, 8 de abril de 2012

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Se um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.



Mário de Andrade