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segunda-feira, 13 de abril de 2026

sexta-feira, 25 de julho de 2025

sábado, 28 de junho de 2025

C de Começar o dia com um livro novo (LVI)


SOL MAIOR


Mataram, deitaram abaixo o meu mestre de poesia. Era um telhado com muitos gatos que apareciam e desapareciam através de buracos.

Eu via-os, da varanda em frente, e aprendia a esvair a tristeza nos movimentos elegantes.


- JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA
(Manuel de Freitas / João-Paulo Esteves da Silva, Prelúdios, 
Lisboa, Alambique, 2020)




[ID, 'Confinamento', 03/020]

domingo, 23 de junho de 2024

P de Paralelo W (II)



"[...]

Muitas coisas aconteceram no Paralelo W: exposições, festas, as leituras em scat do Nuno Moura, em allegro assai do Diogo Dória ou con tenerezza do João Paulo Esteves da Silva. Ocasionalmente, vendíamos livros. Mais importante do que a literatura e quem lá anda (às vezes pelos piores motivos) foi termos recolhido duas gatas - a Ginja e a Mia - que nos deram a magia e o consolo de que poucos humanos são capazes. O Joaquim ainda conheceu uma delas e teve uma frase indelével, ao saber do fecho do Paralelo W: 'Nunca mais nos vamos poder encontrar por acaso'. Na internet, para onde vamos agora de malas aviadas e coração devoluto, uma marradinha não é bem uma marradinha - e os corações são ali apenas sinais gráfico mais ou menos insinceros. É tão difícil, Zé, abrir uma garrafa de vinho branco online. 

[...]"





- Manuel de Freitas (texto) e Luís Henriques (ilustração),
Cão Celeste n.º 13, Lisboa, 2019

terça-feira, 22 de novembro de 2022

O de "Onde se lê gato"


[17/10/10]


Pela manhã o gato estende-se
vagaroso nesse impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.


Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam.
Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.


Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.


Manuel de Freitas, Todos contentes e eu também,
Porto: Campo das Letras, 2000

domingo, 20 de novembro de 2022

O de "Onde se lê gato" (II)

Lisboa, 20/11/10

C de Começar o dia com um livro novo (XXVII) *




Beatriz Hierro Lopes, É Quase Noite,
Lisboa: Averno, 2013


* e com muitas saudades deste gato
que nos deixava chamar-lhe Barnabé. 

sábado, 8 de janeiro de 2022

O de "Onde se lê 'gato'..." (XIV)


"[...]
Uma gata sai com a sua ninhada de um canal da levada. Ela é um centro e os seus pequenos gatos irradiam para a luz. Vi um paralelismo com o desenvolvimento das pétalas e sépalas das malvas e sardinheiras de 'Sombras à volta de um centro' (2003, Serralves). O cone de cor vermelho vivo e o seu reverso de sombra e luminosidade, em aura, como que se desatam, na distância, na mobilidade que de um centro (que é o negro de onde sai a gata com a ninhada e que é também a própria gata) se espalha por entre as ervas altas do Verão. E sucede-se um molho de espigas secas, o terreiro que restou limpo, o chilreio dos pássaros, as lagartixas sobre as pedras.
[...] A sua linguagem e verdade - de Lourdes Castro - é a de descer nesse buraco negro que é um centro (tão idêntico àquele de onde emerge a gata) para dele sair para o movimento circular dos céus -, e trazer consigo, de um corpo, a sua sombra, para a desenhar. Para desenhar, mentalmente, a sombra de um corpo, de um objecto - a sua sombra invisível.

[...]"


João Miguel Fernandes Jorge, 
in Longe do Pintor da Linha Rubra, Patavina, 2017

terça-feira, 27 de julho de 2021

P de Paralelo W (II)


BICHOS


Lembro-me de todos os animais que tive. Tenho muitas saudades de todos. Quase todos tiveram mortes trágicas e eu isso não aceito, não há consolação para isso. Nos meus momentos mais felizes, penso, acredito que a ressurreição vai acontecer e que eu abro a porta de minha casa e todos os animais que tive vêm a subir a escada, estão vivos e vão entrar em casa e todos cabem na casa e a casa é eterna. 


- ADÍLIA LOPES

sexta-feira, 9 de julho de 2021

D de Donas gatas


[...]

Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. Mas encontrar um gato: é extraordinário! Porque este gato, o leitor estará certamente de acordo, não entra completamente na nossa vida, como aconteceria, por exemplo, com um brinquedo qualquer; mesmo pertencendo-vos agora, permanece um pouco de fora, e isso faz sempre:

                               a vida + um gato

o que dá, asseguro-vos, uma soma enorme.

[...]


- in Mitsou, quarenta desenhos de Balthus com um prefácio de Rainer Maria Rilke, 
Lisboa, Relógio D'Água, 2002





quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

C de Começar o dia com um livro novo (XXXI)





VERSOS DO DESCONSOLO


para Stig Dagerman


fiquei com pouco tempo
para dar à claridade
e as abelhas já não vêm
pôr mel dentro das rosas.

às vezes, a minha sombra
é um pedaço de risco,
qualquer coisa desavinda
a que o Sol quer dar sustento.

quem disse que a memória
é sempre muito antiga?

quem falou de uma aranha
para tecer a eternidade?


Emanuel Jorge Botelho, Fecho a cortina, e espero,
com capa de Luis Manuel Gaspar e um desenho de Urbano, 
Lisboa: Averno, 11 de Agosto de 2014





[Lou, 01/015]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A de Afinidades electivas (II)

 



Dois corações selvagens: a Clarice e o Barnabé.

[ID | 012]


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

E de Espinhas para um gato (XV)


LA CATHÉDRALE ENGLOUTIE


Deste lado da vida
são sete horas (vestidas
de preto, vermelho e medo)
da manhã de outro dia.
Mas a janela fechada dá
para a noite ancorada
de leve sobre as esperanças
azedas da cidade.

Conto um rio preso num poço,
dois comboios afogados na pressa,
meia dúzia de faróis
acesos em prédios
cuja felicidade parece sempre
proporcional à distância.

O vinil negro continua a rodar,
atiça os seus pássaros enferrujados
contra a lua atada 
a uma das chaminés.
E a luz que nunca chega
traz as últimas notícias da guerrilha,
expõe o plástico roto nas armas
dos nossos heróis de ontem.

Abandono as saudades 
pelos telhados, com
as patas embaciadas, os olhos
magros. Saio.
Recomeço a fazer horas
para novos sonhos. 


Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
Lisboa, Averno, 2013
[Fotografia: ID | 013]





segunda-feira, 17 de agosto de 2020

D de "deve ser/ com certeza um sítio muito triste" (II)


ADEUS


Envio-te o meu gato negro com um colar de violetas 
- Último gesto deste dia de Inverno. 

Não perturbar os pequenos barcos ao longe 
- Meu ir conventual pensar de flores. 

Não perturbar o fumo do cigarro 
- Pousado no silêncio.

 
Manuel de Castro, Paralelo W
(edição do autor, 1958)

sábado, 25 de julho de 2020

P de Paralelo W (III)




É esse o nome desta gata, que passou cinco meses na rua e vive agora numa espécie de livraria. A mão trémula de um amigo procurou hoje tocar-lhe o focinho - negro, como quase tudo nela. A Ginja aceitou o afago, e eu não fugiria muito à verdade se afirmasse que se encontraram, nesse preciso momento, os dois melhores críticos literários portugueses. Na Rua dos Correeiros, ao entardecer.




- MANUEL DE FREITAS - texto
DÉBORA FIGUEIREDO - desenhos

[Manuel de Freitas / João Paulo Esteves da Silva, Prelúdios,
Lisboa, Alambique, 2020]

domingo, 12 de julho de 2020

L de "Les yeux du chat" (IV)




EUGÉNIO DE ANDRADE

domingo, 21 de junho de 2020

L de "Les yeux du chat" (III)


8 de Novembro de 1981


Morte de Branca. 
Mal posso estar, mal posso viver no silêncio que a morte de Branca produz; mal a deixo aproximar-se em imagem, só tenho lágrimas. Quem era o ser que evoluía pelos armazéns e pelos sítios escondidos, aparecendo e desaparecendo com absoluta confiança em nós? Lembro-me dela sobre o parapeito da janela da casa de Jodoigne, por detrás da forsythia; lembro-me dela em toda a parte, na sua imobilidade branca, a recuar e a avançar sobre os meus pés com os sorrisos diferentes dos seus olhos, pois um era verde e outro azul. Mas são só palavras para o nada, estas que eu escrevo agora e sempre. 
Com Branca havia outra realidade, e por detrás dela estava anunciada uma alegria que eu desconheço. Sua morte súbita tornou preciosos para mim todos os seres de Herbais, incluindo eu própria. Vejo-a sempre sorrir numa clarividência total, e não vou continuar agora porque, neste momento, já procuro a escrita. Só sei dizer que ela, escapando da altura inacessível de um telhado, veio para nós de forma espontânea. Se ela pudesse voltar a vir, se eu pudesse voltar a recebê-la, e tê-la a viver connosco no âmbito do jardim, dos armazéns, do espaço da casa. Mas acabou definitivamente com esta forma. 
Gostava de ter uma recordação palpável de Branca. Mas qual?
Branca não possuía nada. 
Tinha-a feito figura para um livro; hoje ela é uma sombra de alegria.

[...]




Maria Gabriela Llansol, Herbais foi de silêncio - Livro de Horas VI,
Porto, Assírio & Alvim, 2018

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Q de Quarentena (VII)




Edouard Boubat
[1978]

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O de "Onde se lê 'gato'..." (XVI)


Diário de um Barnabé...

domingo, 19 de janeiro de 2020

M de "Me, Myself and I" (II)



Hans Holbein the Younger, 'A lady with a squirrel and a starling', 1526-28 
[National Gallery, London]



[...]
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das núvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

[...]


Herberto Helder, O Amor em Visita,
Lisboa: Contraponto, 1958




Frida Khalo