domingo, 11 de outubro de 2020

D de "Do outro lado do rio" (II)


"[...] Os dias passam; por vezes, ouço a vida passar. E ainda não aconteceu nada; não há nada de real ainda, à minha volta; não páro de me dispersar, e de me perder em fios de água, quando eu desejava ter um só leito e fazer engrossar o meu caudal. Porque é assim que deve ser, não é verdade, Lou?: nós queremos ser como um rio, e não um sistema de canais para irrigar prados. Devemo-nos reunir e fazer soar o trovão, não é verdade? Um dia, quando formos muito velhos, lá para o fim, talvez nos assista o direito de ceder, e de nos espraiarmos num delta..."


Rainer Maria Rilke
in Querida Lou, trad. António Gonçalves, 
Sintra: Colares Editora, 1994




[ID, Portas do Ródão, 09/015]

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O de "Oh! qu'ils sont chers, les trains manqués/ Où j'ai passé ma vie à faillir m'embarquer!..." - d


MAIS ALÉM



Mais além,
o bosque é um biombo:
Não consigo ver o que oculta.

O vento assobia o nome das árvores.
Ouve-se passar um comboio. 
                                              Reconheço-me 
na peça que une as duas carruagens.

E a maior é sempre a da morte. 


Josep M. Rodríguez
in Telhados de Vidro n.º14, trad. Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno, Setembro de 2010




[Nascer do sol entre Vigo e Porto, Março de 2011]

domingo, 4 de outubro de 2020

P de Postais - V b



ESTÁTICA


A tempestade sacode as suas bátegas
contra a janela anoitecida:
o vidro estremece sob o granizo lançado.
Desengonçada, a televisão perde o controlo,
esvai-se em preto e branco,
depois em silêncio, enquanto as linhas descem.
Os postais dela agitam-se na prateleira, caem;
as luzes de Calais apagam-se uma por uma.

Ele não lhe pode contar
que os gansos regressam ao crepúsculo,
que o farol passeia a sua luz
por entre as trincheiras do mar.
Ele não lhe pode contar que a vasta noite
desliza como uma porta sem ela,
que ele é a fechadura
e ela é a chave.



Robin Robertson, A Painted Field
Londres: Picador, 1997
[Trad. Inês Dias]



[Inês Dias, Nazaré 013]


Estar não faz mal nem bem. Ser chave e fechadura,
ser aquele que se perdeu no atalho dos dias. Depois,
é só fazer de conta que tudo vai bem. Depois,
é só acreditar no pior.



Rui Baião, Rude,

Lisboa: Averno, 2012




[ID | Nazaré, 08/10/11]


sábado, 3 de outubro de 2020

S de "Semantics won't do" (XXIX)

 



GOTTFRIED BENN
[Trad. de Vasco Graça Moura]

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

E de Espinhas para um gato (XV)


LA CATHÉDRALE ENGLOUTIE


Deste lado da vida
são sete horas (vestidas
de preto, vermelho e medo)
da manhã de outro dia.
Mas a janela fechada dá
para a noite ancorada
de leve sobre as esperanças
azedas da cidade.

Conto um rio preso num poço,
dois comboios afogados na pressa,
meia dúzia de faróis
acesos em prédios
cuja felicidade parece sempre
proporcional à distância.

O vinil negro continua a rodar,
atiça os seus pássaros enferrujados
contra a lua atada 
a uma das chaminés.
E a luz que nunca chega
traz as últimas notícias da guerrilha,
expõe o plástico roto nas armas
dos nossos heróis de ontem.

Abandono as saudades 
pelos telhados, com
as patas embaciadas, os olhos
magros. Saio.
Recomeço a fazer horas
para novos sonhos. 


Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
Lisboa, Averno, 2013
[Fotografia: ID | 013]