sábado, 18 de abril de 2026

P de (Po)ética - XLIX e







Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017

segunda-feira, 13 de abril de 2026

sábado, 4 de abril de 2026

P de Páscoa Feliz (II)


"Ajoelhada no relvado húmido e perfumado do parque da aldeia, Clara Morrow escondeu cuidadosamente o ovo de Páscoa e pensou em ressuscitar os mortos, o que tencionava fazer logo após o jantar. [...]"


Louise Penny, O mais cruel dos meses,
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2016






"Várias colunas dóricas, entrelaçadas por uma trepadeira de madressilva, davam um aspecto de velha mansão sulista à fachada da casa de Fondero. A impressão era dissipada pelo enorme carro funerário preto estacionado ao lado. Atrás do carro funerário, havia um pequeno carro desportivo vermelho. A incongruência entre os dois veículos divertiu Pinata. A morte e a ressurreição, pensou ele. Se calhar é assim que os americanos de hoje imaginam a ressurreição, como um carro desportivo vermelho, levando-os por uma estrada de espuma sintética em direcção a um nirvana de nylon."


Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo,
trad. Inês Dias, Lisboa: Averno, 2011

P de Páscoa Feliz



Ferdinand Hodler, Cerisier en fleurs (c.1905)

sábado, 3 de janeiro de 2026

P de "Pássaros de acaso" (II)

 
JACINTOS
 
 
 
Os teus jacintos ainda estão vivos
E o sopro da morte
é um voo de pombas no céu de janeiro.
 
 
André Pieyre de Mandiargues

V de Viagens (III)

Porque um Ano Novo também é uma viagem - e apetece-me sempre estrear um caderno/livro/diário/bloco/folha no dia 1 de Janeiro:

Os meus blocos estão atafulhados de apontamentos desordenados: lugares, nomes, cheiros, horários, citações, títulos de livros ou autores que não encontrei, direcções, números de telefone para onde não liguei ou liguei e não atenderam, tarefas que me propunha fazer e afinal consistiam no prazer de estrear a quadrícula das folhas em branco.
Raramente começo uma viagem sem um bloco novo. Procuro-os nas pequenas papelarias, preferencialmente de província, onde me anima acreditar que sou esperado por um bloco de folhas imaculadamente pardas, dimensão consentânea com o bolso da camisa, do blusão, sem que a espiral metálica entre em conflito com a lapiseira e o cachimbo.
Essa ronda é apenas um dos muitos subterfúgios a que recorro para ritualizar a viagem da escrita em viagem (...).
Jorge Fallorca, A Cicatriz do Ar,
Lisboa: Edição de autor, 2009