segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A de Abrigo


ABRIGO DOS CÉUS


Eu tenho desejado ir
Onde as primaveras não falham,
Aos campos onde moscas, atrevidas e astutas, não habitam,
E alguns lírios nascem.

E tenho pedido para estar
Onde nenhuma tempestade há-de chegar,
Onde a corrente verde está abrigada e muda,
E fora da oscilação do mar.


- Gerard Manley Hopkins
in Piolho n.º 11, trad. Ricardo Marques,
Edições Mortas / Black Sun Editores, Agosto 2013


*


"[...]
Desiguais abismos, maneiras de se
se estar só, encontram aqui um abrigo
temporário, senão a própria rasura do tempo.

[...]"


- Manuel de Freitas, Juros de Demora
Lisboa, Assírio & Alvim, 2007


*


"[...]
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

[...]"


- Renata Correia Botelho, Small Song,
2.ª ed., Lisboa: Alambique, 2015


*


"[...] estar ao abrigo do fim do amor, é a isso que eu chamo felicidade."


- MARGUERITE DURAS





[ID, 5 de Setembro de 2017]

sexta-feira, 31 de julho de 2026

m, de memória


    Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
    Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
    Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Troia,
    assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
    Um dia, o Diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
    Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
    Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
    Rimbaud se mandou para África,
Hemingway de miragens.
    Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
    Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.


Paulo Leminski, Toda Poesia,
São Paulo, Companhia das Letras, 2013

quinta-feira, 30 de julho de 2026

R de Regresso ao trabalho (V)

"Doenças do trabalho. Um problema político de primeira importância. Hoje em dia, uma grande percentagem dos empregos faz mal às pessoas."

W. H. Auden, O Prolífico e o Devorador, Lisboa: &etc, 2010

quarta-feira, 22 de julho de 2026

F de Falar para as paredes (III)

[Em Santa Catarina também]

F de Falar para as paredes (IV)

[No Marquês de Pombal]

domingo, 14 de junho de 2026

A de Amor (II)




sábado, 2 de maio de 2026

A de "A propósito de andorinhas" (III)


A 4 de outubro de 2015, na Gulbenkian, o concerto do grupo Hirundo Maris começou assim:




Anima nostra, 
sicut passer, 
erepta est 
de laqueo 
venantium

quinta-feira, 30 de abril de 2026

T de Tratado de Pedagogia (XLII)







[Duas fotografias de ARTHUR TRESS]

sábado, 18 de abril de 2026

P de (Po)ética - XLIX e







Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017

segunda-feira, 13 de abril de 2026

sábado, 4 de abril de 2026

P de Páscoa Feliz (II)


"Ajoelhada no relvado húmido e perfumado do parque da aldeia, Clara Morrow escondeu cuidadosamente o ovo de Páscoa e pensou em ressuscitar os mortos, o que tencionava fazer logo após o jantar. [...]"


Louise Penny, O mais cruel dos meses,
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2016






"Várias colunas dóricas, entrelaçadas por uma trepadeira de madressilva, davam um aspecto de velha mansão sulista à fachada da casa de Fondero. A impressão era dissipada pelo enorme carro funerário preto estacionado ao lado. Atrás do carro funerário, havia um pequeno carro desportivo vermelho. A incongruência entre os dois veículos divertiu Pinata. A morte e a ressurreição, pensou ele. Se calhar é assim que os americanos de hoje imaginam a ressurreição, como um carro desportivo vermelho, levando-os por uma estrada de espuma sintética em direcção a um nirvana de nylon."


Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo,
trad. Inês Dias, Lisboa: Averno, 2011

P de Páscoa Feliz



Ferdinand Hodler, Cerisier en fleurs (c.1905)

sábado, 3 de janeiro de 2026

P de "Pássaros de acaso" (II)

 
JACINTOS
 
 
 
Os teus jacintos ainda estão vivos
E o sopro da morte
é um voo de pombas no céu de janeiro.
 
 
André Pieyre de Mandiargues

V de Viagens (III)

Porque um Ano Novo também é uma viagem - e apetece-me sempre estrear um caderno/livro/diário/bloco/folha no dia 1 de Janeiro:

Os meus blocos estão atafulhados de apontamentos desordenados: lugares, nomes, cheiros, horários, citações, títulos de livros ou autores que não encontrei, direcções, números de telefone para onde não liguei ou liguei e não atenderam, tarefas que me propunha fazer e afinal consistiam no prazer de estrear a quadrícula das folhas em branco.
Raramente começo uma viagem sem um bloco novo. Procuro-os nas pequenas papelarias, preferencialmente de província, onde me anima acreditar que sou esperado por um bloco de folhas imaculadamente pardas, dimensão consentânea com o bolso da camisa, do blusão, sem que a espiral metálica entre em conflito com a lapiseira e o cachimbo.
Essa ronda é apenas um dos muitos subterfúgios a que recorro para ritualizar a viagem da escrita em viagem (...).
Jorge Fallorca, A Cicatriz do Ar,
Lisboa: Edição de autor, 2009