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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

M de 'Memory of a bird' (III)


ROUXINOL


Fiz a minha casa perto do bosque
Só para te ouvir cantar
E foi doce e foi bom
E o amor estava ainda a despontar

Despeço‑me de ti, meu rouxinol
Foi há muito que te encontrei
Falha agora o teu belo canto
E a floresta fecha‑se à tua volta

O sol põe‑se a coberto de um véu
Era agora que me chamavas
Por isso descansa em paz, meu rouxinol
Sob o teu ramo de azevinho

Despeço‑me de ti, meu rouxinol
Vivia para estar ao teu lado
Continuas a cantar noutro sítio
Mas deixei de poder ouvir ‑te


Leonard Cohen, A Chama,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2019




[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 12/01/020]

domingo, 19 de janeiro de 2020

M de "Me, Myself and I" (II)



Hans Holbein the Younger, 'A lady with a squirrel and a starling', 1526-28 
[National Gallery, London]



[...]
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das núvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

[...]


Herberto Helder, O Amor em Visita,
Lisboa: Contraponto, 1958




Frida Khalo

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

F de Frequências (III)





[ID, 'Conference of the birds', 019
*
Jean Renoir]

domingo, 5 de maio de 2019

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI c




Manuel de Freitas
[Manuel de Freitas | Federica Gullotta, trad. de Roberto Maggiani,
Milão, Edb Edizioni, 2019]

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

domingo, 23 de dezembro de 2018

P de Pássaros Anónimos (VIII)




[Vista para um pátio, no Paralelo W | 2/05/012]

sábado, 1 de dezembro de 2018

C de Começar o dia com um livro novo (LIV)


aos pés dos pássaros
semear migalhas
sem explicação:

(oração pequenina)

fazer encontrar
grão último
sentido


Ricardo Tiago Moura, Cruzes,
com capa de Daniela Gomes, Lisboa, Alambique, 2018




[ID, Madrid, Agosto 015]



"Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas..."

JORGE DE SENA

sábado, 13 de outubro de 2018

A de A propósito de melros *


VI



E todavia,
as risadas do melro na gaiola
fazem-me rasgões por dentro
como se em vez de riso fossem pranto.

Porque eu sou como ele:
alguém me reduziu o tamanho do quintal
até o quintal ficar isto que se vê
- e eu a defendê-lo a golpes de riso. 

Como o melro, tal e qual. 


A. M. Pires Cabral
in Telhados de Vidro n.º 11, 
Lisboa, Averno, Novembro de 2008


*


A ÚLTIMA NOITE DA TERRA


O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.


Roger Wolfe
in Criatura n.º5, trad. Luís Filipe Parrado,
Faculdade de Direito de Lisboa, 2010


*


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012


*


TREZE MANEIRAS DE OLHAR PARA UM MELRO


I

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.


II

Eu tinha três ideias em mente,
Tal como uma árvore
Em que estão três melros.


III

O melro rodopiava nos ventos de Outono.
Era uma ínfima parte da pantomina.


IV

Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.


V

Não sei se prefiro
A beleza das entoações
Ou a beleza dos subentendidos,
O melro a assobiar
Ou o instante depois.


VI

Os pingentes de gelo cobriam a longa janela
De vidro bárbaro.
A sombra do melro
Atravessava-a, de um lado para o outro.
O ambiente
Desenhava na sombra
Uma causa indecifrável.


VII

Ó homens magros de Haddam,
Porque é que imaginam pássaros de ouro?
Não vêem como o melro
Anda entre os pés
Das vossas mulheres?


VIII

Sei de tons nobres
E de ritmos lúcidos, irresistíveis;
Mas sei, também,
Que o melro faz parte
Daquilo que sei.


IX

Quando o melro desapareceu de vista
Marcou o limite
De um de muitos círculos.


X

Ao verem melros
A esvoaçar na luz verde,
Até as alcoviteiras da eufonia
Gritariam subitamente.


XI

Ele atravessava o Connecticut
Numa carruagem de vidro.
Um dia, o medo apoderou-se dele,
Ao confundir
A sombra dos seus cavalos
Com melros.


XII

O rio move-se.
O melro deve estar a voar.


XIII

Fez noite toda a tarde.
Estava a nevar.
E ia nevar.
O melro pousou
Nos ramos do cedro.


Wallace Stevens
[Trad. Inês Dias]


*


CANTO DA CHÁVENA DE CHÁ



Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.


Fiama Hasse Pais Brandão
in Cantos do Canto, Lisboa, Relógio D'Água, 1995


*


LEX VISIGOTHORUM



para o Manuel de Freitas


Mestre,


Este escrivão será breve nas palavras e demorado sob as estrelas, pois a vida extingue-se com um sôpro e o pavio da candeia arde e consome-se com a falta dele. A oliveira cresceu como um Poeta, benzida pelas estações, no render da Guarda Real: os Meses, o Sol e a Lua. As raízes são profundas e agarram-se à terra como os condenados. No nosso ofício, entre verbos e versos, transcrevi uma lei visigótica: coima de cinco soldos para quem arrancar oliveira alheia. Bárbaros somos nós, em Portucale: árvore alheia, coração próprio. Meu velho amigo, fora das muralhas está a belíssima civilização do Mundo: o gamo dorme à sombra da rama e o melro assobia com mel no bico. O gato faz o que quer e é feliz com tão pouco. Não há ponta de treva que cresça nesta saúde. Aqui, rente ao osso da matéria, a acidez é baixa e a lira canta alto. Termino, amadoramente, com um verso de outro tempo: é o músculo do peito que dá corda ao destino. Mestre, esta terra tem coroa: a família, frutos e um fio de ouro no lagar.


Ricardo Álvaro
in AAVV, De fio a pavio, Lisboa: Tea For One, 2012


*


Foi possível    sabes?
O dia foi breve menos do que os outros      possível
tão breve     a passagem dum melro     todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite      tão breve


Abel Neves
in Eis o amor      a fome e a morte, Lisboa, Cotovia, 1998


*


Quando no quarto branco da Charité
Acordei de manhã
E ouvi cantar o melro, entendi
Muitas coisas. Muito havia
Que a morte não temia por saber
Que nada mais me faltaria se
Eu próprio me faltava. Nesse instante
Cheguei a alegrar-me até
Com o canto dos melros após a minha morte.


Bertolt Brecht
in Poemas, sel. e trad. de Arnaldo Saraiva, 
Lisboa: Presença, s/d




[* Uma micro-antologia, começada a 4 de Outubro de 2016, para o Ricardo Álvaro.]

domingo, 23 de setembro de 2018

P de Pássaros anónimos (XVIII)





recado


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto, Horto de Incêndio,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997





[ID, Santa Cruz,  2016-2018]

terça-feira, 24 de julho de 2018

sábado, 7 de julho de 2018

A de "A propósito de andorinhas" (VII)


SÉTIMO CAPÍTULO


Hoje contemplei Sujata a beber chá em frente do jardim
de Pangim com gestos de pomba escura e tão alva,
e a ossatura de platina fluorescente, a cabeleira
fulminada numa pose que o vento ventilava fulva

Sujata sorriu como de costume no romance por escrever
que eu jamais escreverei (a acção não se desenrola)
e o poema também não há: havia, há, haverá uma veia
cortada de onde emergem as linhas de uma etopeya em transe

Nesta polpa amarga me situo e o sumo do fruto escorre
aos cantos do luto, não dos lábios, aos cantos do palácio
andorinha fugitiva que ri com a bocca toda numa rosa

Voltavam as asas, voltavam, as inúmeras espécies de vôo
estudadas inculcavam o cubo: voltavam as aves, voltavam
com romãs no bico e cada uma com um verso, todas as manhãs


Naga Massjid/Curti, Monção de 1982



António Barahona, Aos Pés do Mestre (Sexto Tômo da Suma Poética),
Lisboa, Averno, 2018

terça-feira, 21 de novembro de 2017

L de Liberdade condicional





O HOMEM DA PERNA DE PAU


Havia um homem que vivia muito perto de nós
Tinha uma perna de pau e um pintassilgo numa gaiola verde
Chamava-se Farkey Anderson
E tinha estado numa guerra para arranjar aquela perna.
Sentíamos muita pena dele
Pois tinha um sorriso tão bonito
E era um homem tão grande a viver numa casa mesmo pequenina
Quando ele andava na rua a sua perna não fazia grande diferença
Mas quando andava na sua casa pequenina
Fazia um barulho horrível.
O Irmãozinho dizia que o pintassilgo dele cantava mais alto do que todos os outros pássaros
Para o homem não ter de ouvir a sua pobre perna
E ficar demasiado triste com isso.


KATHERINE MANSFIELD
[Trad. Inês Dias
- aqui]





[Inês Dias, Lisboa-Guimarães | 011-013]

terça-feira, 19 de setembro de 2017

M de Moeda única (ou T de Tempo)




Manuel de Freitas, Jukebox 2,
com capa de Inês Dias, Teatro de Vila Real, 2008





Inês Dias, Café Estádio, 2013

terça-feira, 4 de julho de 2017

domingo, 2 de julho de 2017

T de (Uma) teoria de pássaros (XXXIV)




Lawrence Ferlinghetti, A poesia como arte insurgente,
trad. de Inês Dias,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016

terça-feira, 18 de abril de 2017

A de Aniversário (VI)


A BIRTHDAY


My heart is like a singing bird
Whose nest is in a water'd shoot;
My heart is like an apple-tree
Whose boughs are bent with thick-set fruit;
My heart is like a rainbow shell
That paddles in a halcyon sea;
My heart is gladder than all these,
Because my love is come to me.

Raise me a daïs of silk and down;
Hang it with vair and purple dyes;
Carve it in doves and pomegranates,
And peacocks with a hundred eyes;
Work it in gold and silver grapes,
In leaves and silver fleurs-de-lys;
Because the birthday of my life
Is come, my love is come to me


- Christina Rossetti (1861)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

P de Poética (LX)


"A poesia é tudo o que nasceu com asas a cantar."


Lawrence Ferlinghetti, A poesia como arte insurgente,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D' Água, 2016


terça-feira, 28 de março de 2017

P de (Po)ética - XLIX d


À BEIRA DE UM MAR PARECIDO


Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017



sexta-feira, 3 de março de 2017

V de Vista para um saguão (VI)


"MARÇO

O primeiro cuco e as primeiras brisas primaveris. Agora, nas ilhas mais ao sul,  as primeiras cigarras começam a saudar a luz do Sol e as andorinhas a construir os ninhos nos beirais. (Destrói o ninho da andorinha e vais ficar com sardas, diz a lenda popular. Outra superstição diz que haverá uma morte na casa.) No primeiro dia do mês, os rapazes fazem uma andorinha de madeira, enfeitam-na com flores e vão de casa em casa, pedindo moedas e cantando uma pequena canção que varia de lugar para lugar na Grécia. Este costume vem da mais remota Antiguidade e é mencionado por autores gregos antigos.
Em algumas ilhas do Mar Egeu, os camponeses acham que dá azar lavar ou plantar vegetais durante os três primeiros dias de março. Se se plantar árvores, estas murcham. O sol de março queima a pele; e um fio vermelho e branco no pulso não deixa que os nossos filhos tenham queimaduras solares.
[...]"


Lawrence Durrel, As Ilhas Gregas,
trad. de Carlos Leite, Lisboa, Relógio D'Água, 2016




[ID, Abril 2016]