quarta-feira, 18 de maio de 2011

F de Fazer Fotografia (L)


Elizabeth Taylor (1932-2011) com James Dean (1931-1955), em 1955.


B de Biorritmo (LXXXVI)



I knew a man Bojangles
And he danced for you
In worn out shoes
With silver hair, a ragged shirt
And baggy pants, the old soft shoe
He jumped so high, he jumped so high
Then he lightly touched down


I met him in a cell in New Orleans
I was down and out
He looked at me to be the eyes of age
As he spoke right out
He talked of life, he talked of life
He laughed, and slapped his leg a step


Mr. Bojangles, Mr. Bojangles
Mr. Bojangles, dance!


He said his name, Bojangles
then he danced a lick across the cell
He grabbed his pants
A better stance
Oh, he jumped up high
He clicked his heels
He let go a laugh, he let go a laugh
Shook back his clothes all around


He danced for those
At minstrel shows and county fairs
Throughout the south
He spoke with tears of 15 years
How his dog and he traveled about
His dog up and died, he up and died
After 20 years he still grieves

Mr. Bojangles, Mr. Bojangles
Mr. Bojangles, dance!


He said I dance now
At every chance in honky tonks
For drinks and tips
But most of the time
I spend behind these county bars
He said I drinks a bit


He shook his head
And as he shook his head
I heard someone respectfully ask
Please


Mr. Bojangles, Mr. Bojangles
Mr. Bojangles, dance!

terça-feira, 17 de maio de 2011

F de Fazer Fotografia (XLIX)



Jean Moral
"Femme à la cigarette" (c.1930)
"La femme et l'oiseau" (1931)


[Mais uma descoberta via a place in the Sun]

H de «He loved beauty that looked kind of destroyed.»


[Vale, Dezembro 09]

R de Revolução *

mira para el cielo y busca la estrella polar resístete a la parva administración de los hombres y busca la estrella polar rígete por el aliento de las estrellas obstaculiza la administración y menosprecia el arte de redactar reglamentos no entres en su esfera pero no atentes tampoco contra el reglamento ése no es tu papel tú limitate a ignorarlo cuando tu actitud se generalice y por el mundo entero revienten las señales de que tu actitud se generaliza la administración caerá por sí sola y entre las carcajadas de los contribuyentes leprosos que roban para poder pagar los impuestos y lloran cuando se detiene el tren de los esclavos lejos de la estación en el campo por onde pasó el devastador incendio


- Camilo José Cela, Oficio de tinieblas 5 (1989)


* Já foi L de Levantar a cabeça. E podia ser R de Regresso ao Trabalho.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

F de Fluttered Wings (III)


Príncipe Real, 15/05/11

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXII

A arte diz respeito ao mundo da diferença, mas procura a semelhança. Por meios transversais. Não é possível apertar a mão ou explicar um desacerto. É como olhar nos olhos o outro para encontrar a brancura sem pupila, um corpo-a-corpo sem ninguém.
A arte procura uma semelhança: estar só, frente a um papel ou a uma pedra, um bocado de madeira, a braços com uma excitação sem nome, irrepresentável, e procurar-lhe um corpo para a envolver, como um fantasma perdido. Manter a frieza mesmo com a alma em fogo, tal é a experiência da ausência e é unicamente sobre ela, sobre o não poder estar entre iguais, que a arte se realiza, porque esse abandono, abandono único e irremediável, é a verdadeira terra do artista, apátrida entre os seus. É nesse abandono que a arte procura uma semelhança. Recolher, recolher-se aos sentidos.


- Maria Filomena Molder, Jorge Martins, Lisboa: INCM, 1984

 

P de Poesia (V)...


... e A de Acordo Ortográfico.

domingo, 15 de maio de 2011

F de Fazer Fotografia (XLVII)

O CAÇADOR DE IMAGENS



Salta da cama de manhã cedo, e só sai se tiver o espírito limpo, o coração puro, o corpo leve como roupa de Verão. Não leva quaisquer provisões. Bebe o ar fresco do caminho e aspira os seus aromas saudáveis. Deixa as armas em casa e contenta-se em abrir os olhos. Os olhos servem de redes em que as imagens ficam presas.
A primeira que ele captura é a do caminho que mostra os seus ossos, seixos polidos, e os seus trilhos, veias rebentadas, entre duas sebes carregadas de abrunhos e amoras.
A seguir apanha a imagem do rio, que empalidece em cada curva e adormece sob a carícia dos salgueiros. Quando um peixe mostra a sua barriga, o rio brilha como se lhe tivessem atirado uma moeda de prata e, sempre que cai uma chuva mais fina, fica com pele de galinha.
O caçador leva consigo a imagem das searas ondulantes, dos campos de luzerna apetecíveis e das pradarias debruadas de regatos. Pelo meio, ainda surpreende uma cotovia ou um pintassilgo em pleno voo.
Entra então no bosque. Não imaginava ter os sentidos tão delicados. Impregnado rapidamente de perfumes, não perde nenhum rumor, por mais abafado que seja, e, para conseguir comunicar com as árvores, os seus nervos ligam-se às nervuras das folhas.
Pouco depois, vibrando até à náusea, começa a sentir demais, agita-se, tem medo, deixa o bosque e observa ao longe os camponeses que regressam à aldeia vindos da fundição.
Ainda fixa por instantes, até os olhos não aguentarem mais, o sol que se põe e que pousa no horizonte as suas roupas luminosas, deixando as nuvens desarrumadas.
Por fim, quando regressa a casa de cabeça cheia, apaga a luz e, antes de adormecer, entretém-se longamente a contar as suas imagens.
Estas respondem obedientemente ao chamamento da memória. Umas despertam as outras, e o seu bando fosforescente vai acolhendo as recém-chegadas, tal como as perdizes, perseguidas e separadas durante o dia, cantam à noite, ao abrigo do perigo, e se juntam no recôndito dos campos.


- Jules Renard, Histórias Naturais
[trad. ID]

T de Tratado de Pedagogia (XXX)*



* Mas é também A de Alegria e Amor; C de Comunidade; e E de Estar. Se fosse, H de Humanidade, o mundo seria um sítio muito melhor.

sábado, 14 de maio de 2011

B de Biorritmo (LXXXV)




Oh, the good life, full of fun seems to be the ideal
Yes, the good life lets you hide all the sadness you feel
You won't really fall in love for you can't take the chance
So be honest with yourself, don't try to fake romance


It's the good life to be free and explore the unknown
Like the heartaches when you learn you must face them alone
Please remember I still want you, and in case you wonder why
Well, just wake up, kiss the good life goodbye

F de Fluttered Wings (II)


O título de um poema de Christina Rossetti e uma mesa de amigos.

E de Espinhas para um gato (VI)

O GATO


O meu não come ratos; não gosta disso. Só apanha um de vez em quando por brincadeira.
Quando já brincou o suficiente, poupa-lhe a vida e, inocentemente, vai sonhar para outro lado, sentado sobre o caracol da cauda, a cabeça insondável como um punho fechado.
Mas, por causa das suas garras, o rato morreu.


- Jules Renard, Histórias Naturais
[trad. ID]

R de Rebeca (X)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLVI)


Lisboa, 10/05/11

F de Fluttered Wings*


* Título de um poema de Christina Rossetti

terça-feira, 10 de maio de 2011

A de Amor (XV)

it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another’s, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another’s face your sweet heart lay
in such a silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be, i say if this should be—
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face, and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.



e.e. cummings
[retirado daqui,
com um grande beijo para partilhar um pouco a saudade]

R de Regresso ao trabalho (XIII)


Hoje, às 7h30:
"You can never hold back spring"


P de (Dois Anos de) Pássaros (XLIV)


Heinrich Vogeler, "Fruehling", 1897

segunda-feira, 9 de maio de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLIII)

O PRIOLO



No quarto, sobre uma cómoda,
o priolo embalsamado.
Penas de branco sujo e creme, tons de
castanho queimado. Protege-o
o vidro de uma redoma. Mesmo na morte,
um frouxel.

Tudo se avista deste quarto -
santos e pagelas por detrás das portas
do oratório - quando a noite e a ilha se
estreitam na cama desamada.
Vem um cheiro a maresia, a porões e os
passos de quem percorre, erradio, o

embarcadouro
sem saber a hora da partida
a hora de quem prometeu chegar. E
o pássaro na obediência da morte
fixado nas trevas que lhe povoam o canto,

na fronteira do lá fora
membros, ossos, vísceras, os meus erros,

o verso meu dentro do quarto. Sob a asa do
priolo, prata e luz a esvoaçar ao redor do
candeeiro entre os actos da vida.



- João Miguel Fernandes Jorge, Antologia Açoriana, com desenhos de Urbano, Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, Abril 2011

T de "(um) torso dobrado pela música" (VII)

POESIA


Os dias e as noites
percutem
nestes meus nervos
de harpa

vivo desta alegria
enferma de universo
e sofro
por não saber
acendê-la
nas minhas
palavras



GIUSEPPE UNGARETTI
in Dez Poetas Italianos Comtemporâneos, sel. e trad. de Albano Martins, Lisboa: Publicações D. Quixote, 1992

domingo, 8 de maio de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXIX)


O final do Canto LXXXI, de Ezra Pound:



What thou lovest well remains,
                               the rest is dross
What thou lov'st well shall not be reft from thee
What thou lov'st well is thy true heritage

Whose world, or mine or theirs
                         or is it of none?
First came the seen, then thus the palpable
     Elysium
, though it were in the halls of hell,
What thou lovest well is thy true heritage
What thou lov'st well shall not be reft from thee


The ant's a centaur in his dragon world.
Pull down thy vanity, it is not man
Made courage, or made order, or made grace,
      Pull down thy vanity, I say pull down.
Learn of the green world what can be thy place
In scaled invention or true artistry,
Pull down thy vanity,
                 
Paquin pull down!
The green casque has outdone your elegance.


"Master thyself, then others shall thee beare"
     Pull down thy vanity
Thou art a beaten dog beneath the hail,
A swollen magpie in a fitful sun,
Half black half white
Nor knowst'ou wing from tail
Pull down thy vanity
               How mean thy hates
Fostered in falsity,
                Pull down thy vanity,

Rathe to destroy, niggard in charity,
Pull down thy vanity,
               I say pull down.


But to have done instead of not doing
               This is not vanity
To have, with decency, knocked
That a
Blunt
should open
          To have gathered from the air a live tradition
or from a fine old eye the unconquered flame
this is not vanity.
     Here error is all in the not done,
all in the diffidence that faltered ...

sábado, 7 de maio de 2011

A de Amor (XIII)




Altar das Almas / Macedo de Cavaleiros, Agosto 2010



T de Tratado de Pedagogia (XXVIII)


Maria João Worm, Os animais domésticos (Quarto de Jade)

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXI

ACORDAR TARDE


todas as flores murchas que alguém ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de sal tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia


- Al Berto, O Medo

sexta-feira, 6 de maio de 2011

B de Biorritmo (LXXXIV)





If today was not an endless highway,
If tonight was not a crooked trail,
If tomorrow wasn’t such a long time,
Then lonesome would mean nothing to you at all.

Yes, and only if my own true love was waitin’,
Yes, and if I could hear her heart a-softly poundin’,
Only if she was lyin’ by me,
Then I’d lie in my bed once again.

I can’t see my reflection in the waters,
I can’t speak the sounds that show no pain,
I can’t hear the echo of my footsteps,
Or can’t remember the sound of my own name.

Yes, and only if my own true love was waitin’,
Yes, and if I could hear her heart a-softly poundin’,
Only if she was lyin’ by me,
Then I’d lie in my bed once again.

There’s beauty in the silver, singin’ river,
There’s beauty in the sunrise in the sky,
But none of these and nothing else can touch the beauty
That I remember in my true love’s eyes.

Yes, and only if my own true love was waitin’,
Yes, and if I could hear her heart a-softly poundin’,
Only if she was lyin’ by me,
Then I’d lie in my bed once again.


- Bob Dylan

L de Ler - IVb

Reli ontem, a desoras, e nunca me canso destes versos:


[...]
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha,
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

[...]
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses

(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
[...]


Álvaro de Campos, Tabacaria, Lisboa: Ática/Babel, 2011
[Obrigada, Ricardo]

quinta-feira, 5 de maio de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXVII)


"Teacher going home" 
Robert William Vonnoh
(1858 – 1933)

R de Rebeca (IX)


Clarence H. White, "Warren and Bonnie"

F de Fazer Fotografia (XLVI)

Zoom


Desenhos do vagar, a erva
rente, um lamento de folhas
enlaçadas. Precipício

de sombras, a tarde inteira
em pedacinhos,
tocando a dor, um verso quase
insuportável. Assim posando

envolves a frescura, o labirinto
de sedas escondidas,
o consolo do lápis
quando escreves. Exílio apenas

ou desastre
estarmos assim sabendo
esta passagem, o traçado
da morte, essa leveza.


- José Carlos Soares, Este perder-se, 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XX

To Abiah Root


After the sudden death, at the age of twenty-seven, of Leonard Humphrey, a favourite teacher.
Amherst, January 2, 1851

I write A. to-night, because it’s cool and quiet, and I can forget the toil and care of the feverish day, and then I am selfish too, because I am feeling lonely; some of my friends are gone, and some of my friends are sleeping – sleeping the churchyard sleep – the hour of evening is sad – it was once my study hour – my master has gone to rest, and the open leaf of the book, and the scholar at school alone, make the tears come, and I cannot brush them away; I would not if I could, for they are the only tribute I can pay the departed Humphrey.
You have stood by the grave before; I have walked there sweet summer evenings and read the names on the stones, and wondered who would come and give me the same memorial; but I never have laid my friends there, and forgot that they too must die; this is my first affliction, and indeed ‘tis hard to bear it. To those bereaved so often that home is no more here, and whose communion with friends is had only in prayers, there must be much to hope for, but when the unreconciled spirit has nothing left but God, that spirit is lone indeed. I don’t think there will be any sunshine, or any singing-birds in the spring that’s coming… I will try not to say any more – my rebellious thoughts are many, and the friend I love and trust in has much now to forgive. I wish I were somebody else […].

E.


Emily Dickinson, Letters, Everyman’s Library, 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

B de Biorritmo (LXXXIII)

B de Biorritmo (LXXXII)

A palavra tem o seu terrível limite. Além desse limite é o caos orgânico. Depois do final da palavra começa o grande uivo eterno. Mas para algumas pessoas escolhidas pelo acaso - depois da possibilidade da palavra vem a voz de uma música, a música que diz o que eu simplesmente não posso aguentar.

CLARICE LISPECTOR

[Obrigada, Jorge]

L de Levantar a cabeça (V)

Na Feira do Livro / 1º de Maio


T de Tratado de Pedagogia (XXVI)

Que antepassado fala em mim?
Eu não posso viver simultaneamente
na minha cabeça e no meu corpo.
Por isso não consigo ser uma única pessoa.
Posso sentir-me uma infinidade de coisas ao mesmo tempo.
O verdadeiro mal do nosso tempo é já não existirem grandes mestres.
O caminho do nosso coração está coberto de sombra.
É necessário escutar as vozes que parecem inúteis.
É necessário que nos cérebros ocupados pelos longos tubos de esgotos, pelas paredes das escolas, pelo asfalto e pelas práticas assistenciais
entre o zumbido dos insectos.
É necessário encher os ouvidos e os olhos de todos nós,
de coisas que estejam no início de um grande sonho.
Alguém deve gritar que iremos construir as pirâmides.
Não importa se não as construirmos, é necessário alimentar o desejo.
Devemos esticar alma de todos os lados como se fosse um lençol dilatável ao infinito.
Se quiserem que o mundo evolua, temos de estar de mãos dadas,
devemos misturar-nos, os que se definem saudáveis e os doentes.
Vocês sãos! o que significa a vossa saúde?
Todos os olhos da humanidade estão a olhar para o precipício, para o qual nos estamos todos a dirigir.
A liberdade não serve, se não têm a coragem de nos olhar nos olhos,
de comer connosco, de beber connosco, de dormir connosco.
São os chamados saudáveis que têm levado o mundo à beira da catástrofe.
Homem, escuta!
Em ti água, fogo e depois cinza e os ossos dentro da cinza.
Os ossos e a cinza!
Onde estou, quando não estou nem na realidade?
E nem na minha imaginação?
Faço um novo pacto com o mundo:
Que haja sol de noite e neve em Agosto.
As coisas grandes acabam, são as pequenas que duram.
A sociedade deve voltar a ser unida e não tão fragmentada.
Seria suficiente observar a natureza, para perceber que a vida é simples
e que é necessário regressar ao ponto anterior onde enveredamos pelo caminho errado!
É necessário voltar às bases fundamentais da vida, sem sujar a água.
Que raio de mundo é este, se é um louco que vos diz, que devem ter vergonha.
Oh, Mãe!
Oh, Mãe!
O ar é algo de leve que anda à roda da cabeça
e torna-se mais clara quando ris.




- Discurso de Domenico (Erland Josephson), personagem do filme Nostalghia (1983), de Andrei Tarkovski, com argumento de Tonino Guerra


segunda-feira, 2 de maio de 2011

S de Sentir

MARLBOROUGH DRIVE


Se pudermos estar felizes não será mais bela
a voz do trompetista de Oklahoma? Oh, there’s
a lull in my life. Sim, o amor é triste e o mundo
é árduo e nunca nos serviu como convinha. Mas
nas cercanias da vila, no Volkswagen em segunda
mão, vê como resplandecem os vidros de Marlborough
Drive ao entardecer! Uma ambição sentimental

à nossa pequena escala, prados entre castanheiros,
duas onças de tabaco de enrolar. Que importa
que tudo rode para um fim e que a nossa verdadeira
condição seja morrer um pouco mais a cada instante?
A pele reconhece estas canções, sabe que é Junho,
conhece a estrada que devemos escolher. A pele
é sábia. Por uma vez, que valha a pena morrer.


- Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia (Averno)

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLII)



Pablo Picasso, "Chat saisissant un oiseau", 1939

domingo, 1 de maio de 2011

T de "(um) torso dobrado pela música" (VI)

Para o Miguel:







Edward Lear (1812-1888)




B de Biorritmo (LXXXI)

sábado, 30 de abril de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXV)

O que sei de belo, de grande ou de útil, aprendi-o nesse tempo: o que sei das árvores, da ternura, da dor, e do assombro, tudo me vem desse tempo... depois não aprendi coisa que valha. Confusão, balbúrdia e mais nada. Vacuidade e mais nada. Figuras equívocas, ou, com raras excepções, sentimentos baços. Amargor e mais nada. Nunca mais... Nunca Londres ou a floresta americana me incutiram mistério que valesse o dos quatro palmos do meu quintal. Nunca caça às feras no canavial indiano foi mais fértil em emoção e aventura, que a armadilha aos pássaros na poça do Monte, com o Manuel Barbeiro. Uma nora, dois choupos, a água empapada, e, entre as ervas gordas como bichos, pegadas de bois cheias de tinta azul, reflectindo o céu implacável de Agosto. Os pássaros com as suas asas abertas desconfiam e hesitam: a sede aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam na armadilha agarramo-los com ferocidade. Chiu!... Uma andorinha descreve lá no alto um círculo perfeito, e vem, no voo desferido, arripiar com o bico a água estagnada. Toca numa palheira de visco - é nossa! Já tiveste nas mãos uma andorinha? É penas e vida frenética. E essa vida pertence-te!... Só ao fim da tarde regressava a casa com os bolsos cheios de rãs e os olhos deslumbrados.


Raul Brandão, Se tivesse de recomeçar a vida


S de Solidão (ou C de Comunidade) XIX

Entre os 11 minutos e os 13 minutos e 37 segundos, a minha cena preferida:

sexta-feira, 29 de abril de 2011

F de Fazer Fotografia (XLV)

polaroides


Frementes campaínhas
enredam-se na cancela
de madeira de buxo

O velho regador vermelho
esquecido junto
aos frios jarros

Uma pêra de inverno
apodrecida entre
caixotes demantelados

No meio da vereda
o lutuoso pássaro
animal melancólico

As verdes gavinhas
brilham de tanto
orvalho depositado

As janelas da casa
escancaradas
o vento nas cortinas

Uma chuva fina
de agulhas ponteia
os lençóis da tarde


- Luís Pignatelli, Obra Poética (& etc)

B de Biorritmo (LXXX)

C de (A) Comunidade

15 - Dos meus, aqui e agora

---------------------------- : a vida, intermitente.


Caído do chão, rindo duma piada sobre a Pietà e o Outão;

o vazio;


tocando ao lado de uma musa;

o vazio;


sendo o paciente português de uma francesa paciente;

o vazio;


ouvindo os comentários ao pugilato Bergman vs. Spielberg;

o vazio;


escalpelizando azulejos, noite cerrada, ao lado do poeta;

o vazio;


lendo um autógrafo sobre ilhas e arquipélagos;

o vazio;


apreciando pés na madrugada;

o vazio;


editando a alegria de um primeiro livro;

o vazio;


ouvindo: "Eh!, tanta carne!", estando eu de tronco nu;

o vazio;


aprendendo a raiz quadrada de um número negativo;

o vazio;


dando com as coordenadas de um poema e falhando as de umas moelas;

o vazio;


amando os miradouros da cidade;

o vazio.


Concluo: os meus vazios estão cheios.





MIGUEL MARTINS

quinta-feira, 28 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLI)


József Rippl-Rónai, "Mulher com gaiola", c. 1900

S de Solidão (ou C de Comunidade) XVIII

[Espero sinceramente que hoje, quando contar quantos somos, a matemática dos afectos continue a bater certo e a dar o mesmo total de ontem e de anteontem. É das poucas ciências em que preciso de confiar para estar viva. ]




CONTRA MUNDUM



This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.


T.S. Eliot



Hoje quantos somos? Quantos ainda
sentem o gosto, esse cheiro
escapando, estranho
como a nossa juventude.
Adiados vezes suficientes, mais
atrevidos ainda, num país que preferia
não, que gosta muito de chamar
à parte, de dizer que isto não é próprio,
não se faz, ou
explicar as suas razões e,
no fim, pedir uma atençãozinha.

Tenho o sono,
há dias, semanas já, sem funcionar.
Não me larga a ideia de que
endoideço
. A boca cheia de asas,
um rígido tremor, e quando a abro

nada. E então levo-me por aí, a pé,
a sentar-me pelos cafés, só, a dissolver-me
nuns versos. A chuva perde o juízo,
cai de todos os lados e cansa
a manhã, com as suas cores frágeis,
arrastadas, e aromas pútridos.
Mesmo a sombra
cheira a deus
nestes jardins de vento.
Fico a olhar umas flores afogadas
nesse charco de onde bebo
um último verso antes de ir-me.

Decoro detalhes, variações
mínimas neste
entardecer alucinado. Vou pela hora
em que a loucura se torna doce,
monologando como os velhos, a desfiar-me
pelos bairros, afogado em sonho.
Da boca cariada das ruas de Lisboa,
oiço e aproveito restos de frases esquecidas
de sentido, vozes já sem ninguém,
um inventário de coisas
que a música
sorve. Todas estas canções que ainda
nos procuram no sangue
um coração antigo. Quase nada
resta.

Sonho, enfim, a escuridão
dentro de uns cabelos
, lábios rombos de
amor, mesmo um assim, tão rasteiro. Uns
olhos verdes, quietos. Beleza dessa,
roçando a insolência.
Depois só a sombra parada nestas mãos,
de um corpo que se afastou e deixa
todo o seu peso num nome,
florindo minuciosamente,
num odor agudo, vago, tardio.

A cama baixa ao nível cruel
das recordações, desfeita por mulheres
dessas de dar à corda. O ébrio galope
de uma raça que já sabe
como tudo acaba
e continua a ter pressa.

Mas hoje quis, como
só poucos,
cortar ambas as mãos, deixá-las
sobre a pedra de uma igreja em ruínas,
rezando
, alimentando
as religiões do ritmo. Sons
agarrando a vida para escorchá-la,
fazê-la nascer de novo
e a uma ânsia nova, de olhos rasgando
em perseguição, que fareje e busque,
embosque e faça presas, morda e mate
com a sua boca incrível.

Quantos? Poucos, decerto, mas
em nenhuma época foram precisos
muitos.



- Diogo Vaz Pinto, Nervo, Lisboa: Averno, 2011

A de Amor (XI)

Um poema de amor que ninguém
tivesse feito e só um merecesse
e só o outro entendesse

E aí estaria ele o amor
em estado de pura nudez
litográfica à século das luzes



- Rui Caeiro, O Quarto Azul e outros poemas, Lisboa: Letra Livre, 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XL)



ah, tivesse eu asas de andorinha
e estes campos não eram o que me definha.


R. C.





A de Anjos Caídos

T de Tratado de Pedagogia (XXIV)

Se não fosse o Rui, não achava piada nenhuma a isto :)




R de Regresso ao Trabalho (XII)



[...]
Punctuated birds on the power line
In a Studebaker with the Birdie Joe Joaks
I'm diggin all the way to China
With a silver spoon
While the hangman fumbles with the noose, boys
The hangman fumbles with the noose

Got to get behind the Mule
In the morning and plow


Pin your ear to the wisdom post
Pin your eye to the line
Never let the weeds get higher
Than the garden
Always keep a sapphire in your mind
Always keep a diamond in your mind
[...]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

F de Falar para as paredes (VII)

Para o Barnabé e para o Miguel
(a caminho da Rua do Século):

R de Regresso ao Trabalho (XI)

"Choose life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television. Choose washing machines, cars, compact disc players, and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol and dental insurance. Choose fixed- interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisure wear and matching luggage. Choose a three piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing sprit- crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pishing you last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats you have spawned to replace yourself. Choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that?"

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXIX)

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXVIII)



"If you could only stop your heart beat for one heart beat"

[Obrigada, Patrícia]

A de Abril

NÃO POSSO



Nasce
em torpes corações a Primavera.
Tempo, astros, alegria nunca escolhem
sobre quem derramar-se.
Para exemplo deste imponderável
Goering amava os animais
e vem a Lisboa David Oistrakh
tocar para estudantes e rameiras.

Quando colho uma flor, sei
que ela mudará as minhas noites.
Mas é também conhecido
que a certas horas os carcereiros
despem a farda
e vão às Mercês e à Rinchoa
comprar cestos à beira da estrada
com morangos ou cravos. Não posso
com tanta ironia.



Fernando Assis Pacheco
in Cuidar dos Vivos (1963)

domingo, 24 de abril de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXIII)

L de (A) Luz da Sombra (VI)

M de (O) Magnetismo das palavras

At this unique distance from isolation
It becomes still more difficult to find
Words at once true and kind
Or not untrue and not unkind.


PHILIP LARKIN



Ainda nem tive coragem para desarranjar estas palavras e estrear as minhas :)


E de Estar (III)

Se é culpa, o conceber; nascer, tormento;
guerra, viver; a morte, fim humano;
se depois de homem, terra e vil gusano,
e, depois de gusano, pó e vento;

se vento, nada, e nada o fundamento;
flor, a beleza; a ambição, tirano;
a glória e fama, pensamento insano,
e vão, em quanto pensa, o pensamento,

- quem anda neste mar para afogar-se?
De que serve em quimeras consumir-se,
ou pensar noutra coisa que salvar-se?

De que serve estimar-se e preferir-se,
recordar algo tendo de olvidar-se,
e edificar, para depois ter de ir-se?


Lope de Vega
[Trad. José Bento]

B de Biorritmo (LXXIX)

sábado, 23 de abril de 2011

L de (A) Luz da Sombra (V)


A de Amizade (II) :

Receber um mail com o assunto "Porque sim". Encontrar lá dentro uma imagem que ajude a respirar. Não poder deixar de partilhar o "Porque sim", para que se perceba como foi importante recebê-lo. Querer guardar a imagem só para mim, pelo menos mais um bocadinho, para que se perceba como foi importante recebê-la. Acrescentar - com as maiores maiúsculas que conseguir - OBRIGADA.

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXVII)

Faz bom tempo. O ar está lavado, claro. Ao sol, as casas surgem nítidas, separadas. Agora, sempre que faz bom tempo, a angústia torna-me. Sinto uma espécie de impossível e débil reconhecimento em relação não sei a quê. Tudo parece longínquo, fora do meu alcance. Muito altas no céu, nuvens e um pouco de bruma. Tenho medo e confiança ao mesmo tempo. Preciso de respirar. Andorinhas. Um avião. Queria partir para qualquer lado. Perto ou longe. Para um sítio onde estivesse só e me sentisse bem, pudesse dormir de olhos abertos, sentir o ar fresco nas mãos, no rosto. Uma pausa na inquietação. A paz.



Ernesto Sampaio, Fernanda (Fenda)

W de Women’s Studies (II)

«Amada pastora minha,
teus repentes me maltratam,
os teus desdéns atormentam-me,
teus desatinos me matam.

À noitinha tu detestas-me
e queres-me de manhã;
insulto-te ao meio-dia,
e durante a tarde chamas-me;

agora dizes que queres,
e depois que só troçavas,
ris de minhas fracas obras,
choras por minhas palavras.

Quando sofres por ciúmes
estás mais contente e cantas;
e quando estou mais tranquilo
parece que te desgraças.

Criticas-me ao meu amigo
e ao meu inimigo gabas-me;
se não te vejo, procuras-me,
e, se te procuro, zangas-te.

Parti uma vez de ti,
choraste minha ausência grande,
e agora que estou contigo
com a tua me ameaças.

Sem mar nem montes no meio,
sem ter perigo nem guardas,
mar, montes e guardas tens
com uma palavra zangada.

As paredes de tua choça
parecem-me de montanha,
um mar o chegar a vê-las,
mil graças tuas desgraças.

Como tens num só momento
o amor e a mudança;
porém, pintam-no menino,
pouca vista e muitas asas.

Se Filis te fez ciúmes,
o tempo te desengana,
que como ela quer a alguém,
posso por outra deixá-la.

Se a aldeia toda o murmura,
a gente sempre se engana,
e é melhor que tu me queiras,
ainda que ela tenha a fama.

Com tudo isto amedrontas-me,
disfarças e ameaças-me;
se choras, - como detestas?
e se troças, - como amas?»

Isto dizia Belardo
a falar com uma carta,
à sombra de uma oliveira
que o dourado Tejo banha.



Lope de Vega, Antologia Poética, trad. José Bento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011

R de Rebeca (VIII)

Lipnitzki/Roger Viollet/Getty Images


Louis-Ferdinand Céline avec ses chiens, à Meudon, c. 1955

sexta-feira, 22 de abril de 2011

quinta-feira, 21 de abril de 2011

B de Brincar com ossinhos (III)


















"La danse macabre des femmes"

Paris/1491


E de Estar (II)

“Je sens une difficulté d’être.” C’est ce que répond Fontenelle, centenaire, lorsqu’il va mourir et que son médecin lui demande : “Monsieur Fontenelle, que sentez-vous ?” Seulement la sienne est de la dernière heure. La mienne date de toujours. Ce doit être un rêve que de vivre à l’aise dans sa peau. J’ai, de naissance, une cargaison mal arrimée. Je n’ai jamais été d’aplomb. Voilà mon bilan si je me prospecte. Et, dans cet état lamentable, au lieu de garder la chambre, j’ai bourlingué partout. Depuis l’âge de quinze ans, je n’ai pas arrêté une minute. Il m’arrive de rencontrer telle ou telle personne qui me tutoie, que je ne peux reconnaître jusqu’à ce qu’une poigne profonde arrache de l’ombre, à l’improviste, tout le décor d’un drame où elle tenait son rôle, où je tenais le mien, et que j’avais complètement oublié.



Jean Cocteau, La difficulté d’être (1947)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

E de Espera (XIV)





[Esta espera, sim, tem hiperligação. A outra continua...]

B de Biorritmo (LXXVII)

I used to write
I used to write letters
I used to sign my name
I used to sleep at night
Before the flashing lights settled deep in my brain

But by the time we met
By the time we met the times had already changed

So I never wrote a letter
I never took my true heart
I never wrote it down
So when the lights cut out
I was left standing in the wilderness downtown

Now our lives are changing fast
Now our lives are changing fast
Hope that something pure can last
Hope that something pure can last

It seems strange
How we used to wait for letters to arrive
But what's stranger still
Is how something so small can keep you alive

We used to wait
We used to waste hours just walking around
We used to wait
All those wasted lives in the wilderness downtown

[...]

I'm gonna write a letter to my true love
I'm gonna sign my name
Like a patient on a table
I wanna walk again gonna move through the pain

[...]




- ARCADE FIRE

E de Espera (XIII)

AQUI

P de "Portugal não é um país pequeno" (VI)



E de Estar

Termina assim um poema de Juan Bonilla intitulado “El combate del siglo” – e podia ter terminado assim uma conversa:

Nuestra única tarea es conseguir
que cuando la campana anuncie
el final del combate,
el árbitro levante el brazo vencedor de la alegría.
Porque después vendrá la nada:
esa escuadrilla
de limpiadoras
que dejará el pabellón
como si nunca se hubiera celebrado tu combate.

terça-feira, 19 de abril de 2011

B de Brincar com ossinhos

Quand le monde sera réduit en un seul bois noir pour nos quatre yeux étonnés, - en une plage pour deux enfants fidèles, - en une maison musicale pour notre claire sympathie, - je vous trouverai.
Qu'il n'y ait ici-bas qu'un vieillard seul, calme et beau, entouré d'un "luxe inouï", - et je suis à vos genoux.
Que j'aie réalisé tous vos souvenirs,- que je sois celle qui sait vous garrotter, - je vous étoufferai.

*

Quando o mundo estiver reduzido a um só bosque negro para os nossos olhos espantados - a uma praia para duas crianças sinceras, - a uma casa musical para a nossa clara simpatia - encontrar-vos-ei.
Quando aqui só haja um velho, belo e calmo, rodeado de um "luxo inaudito" - ajoelhar-me-ei.
Quando for eu toda a vossa memória - seja aquela que sabe garrotar-vos - estrangular-vos-ei.



Jean-Arthur Rimbaud, Illuminations
[Trad. Mário Cesariny]

S de Satisfação (II)

Termina assim uma das cartas de Emily Dickinson:

No Rose, yet felt myself a'bloom,
No Bird - yet rode in Ether.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

B de Biorritmo - LXXVI b

A de Amor (X)

RÊVE OUBLIÉ



Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.



- António Maria Lisboa

H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (IX)

Para o Miguel, claro, de quem nos lembrámos logo que nos sentámos à mesa:

S de Segunda-feira

ESTAR



En cenas familiares y anchos domingos sórdidos,
en aulas medio llenas donde mi voz no es mía,
en la consulta del doctor sonriente
que firma unas recetas,
sobre el cuerpo desnudo en el que me demoro
para salir de mí transformado en temblor,
en los ojos de un niño en los que nado
hacia una costa ilusa donde el tiempo es mentira,
en las cafeterías donde los ceniceros atestados
medieron otra vez la victoria del tedio,
en álbumes de fotos que historian las huidas
que me condenan hacia el mismo punto
donde empeza a huir,
fulge constante una pregunta, cada letra
un colmillo ensagrentado:
qué estoy haciendo aquí?

Y cuando en la mañana me repito en el espejo
con cara de superviviente único de un accidente aéreo,
y cuando me reflejo en los escaparates
camino de una noche poblada de relámpagos,
y cuando la memoria me nubla el paladar
con el sabor de una boa ya muerta,
brotando de mi piel como uma picadura
otra vez la pregunta que no anhela respuestas:
qué estoy haciendo aquí?

Pero luego una voz dice mi nombre
y yo me reconozco, o sé vivir en los amplios salones
de una canción o sabe bien un cigarrillo
después de tanta nicotina para nada,
y la mano del mundo ordena sus tesoros
y todo está en su sitio formulando un temblor de sí rotundo
y la pregunta pierde sus garfios y las cosas
responden al unísono: Estar es suficiente.

El sol del mediodía santifica las cosas,
convierte lo que baña en um milagro,
pone coraza a la conciencia irresponsable
de ser eternos, hila un cuento antiguo
en el que se derriten las preguntas,
y en todos los espejos desafías
el frío de las cenas familiares,
futuros sórdidos domigos anchos,
tu voz no tuya poyectando ansiosa
a los espectros de la nada y los gigantes del pasado
que estoy haciendo aquí?

No anheles la respuesta:
Estar es suficiente.



- Juan Bonilla, Buzón Vacío, Valência: Pre-Textos, 2006

domingo, 17 de abril de 2011

E de Espinhas para um gato (V)

[Em Leiria]

sábado, 16 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXVI)

B de Biorritmo (LXXV)

S de Solidão (ou C de Comunidade) XVII

Se o rosto que é teu não sabe filtrar
o que és - as dores maiores, mais puras
e fatais - esquece-o, deita fora e esquece
e inventa outro, mais feliz, mais longe



Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado, 1989

[O manuscrito deste poema faz parte da exposição "Hand Made",
no Bartleby Bar]

sexta-feira, 15 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXV)


Um pormenor da exposição "Primitivos Portugueses (1450-1550)",

Museu Nacional de Arte Antiga.


B de Balbuceio

[...]
Mas quando o tempo se desliga do tempo
e se transforma em boca,
grandes molares negros
e garganta sem fundo,
queda animal num estômago
animal sempre vazio,
engano com canções selvagens a sua fome.
Face ao céu, equipado para o nada,
canto o canto do tempo.
No dia seguinte, nada me fica
destes gargarejos.
E digo-me: a hora não é de canções,
mas de balbuceios.
Deixa-me contar as minhas palavras,
uma a uma.
Arrancadas à insónia e à cegueira,
à cólera e ao nojo
- são tudo o que possuo,
tudo o que possuímos.

[...]


Octavio Paz
(trad. Mário Cesariny)

S de Solidão (ou C de Comunidade) c

La strada sgombra
non è una via, solo due mani, un volto,

quelle mani, quel volto, il gesto di una

vita che non è un’altra ma se stessa


Eugenio Montale




Lisboa, 14/04/11


[É bom quando os amigos nos dão a mão e alguns versos.]

quinta-feira, 14 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros - XXIXb


Campo de Ourique/2011


terça-feira, 12 de abril de 2011

B de Biorritmo (LXXIV)



[...]
Send in a cloud with a silver linin',
Take me to paradise.
Show me that river,
Take me across,
Wash all my troubles away
Like that lucky old sun give me nothing to do
But roll around heaven all day.

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (V)

14

Quantas palavras para completar o silêncio? Quantas folhas? Quantos cadernos? Quantos armários para os arrumar? Quantos aniversários? (o jantar no restaurante, o esforço de um sorriso a maquilhar a angústia, quantos anos tenho?, e contudo por dentro, o silêncio a doer, quantos anos faço?) Quantos verões? Quantos invernos? (os dias junto à janela onde a água escorre, os dias sucessivos, uma manhã um intervalo de sol, uma flor soerguida entre as ervas, sorri?, e saber que é outro verão que chega, outro inverno que nele se prepara) Quanto tempo?


- Jorge Roque, O chão serviu-lhe de céu (1999)

L de (A) Luz da Sombra (IV)

William Hammershoi (1864-1916), "Mulher lendo à janela"

C de Chocolate Jesus (III)

Dependendo dos dias, ainda melhor do que o Vigor Chocolate:

S de Solidão (ou C de Comunidade) XVI

HOMENAGEM A ALLEN GINSBERG



“Vi os melhores espíritos da minha geração destruídos
pela loucura, morrendo à fome histéricos nus”

uiva Allen Ginsberg, poeta americano de S. Francisco,
com os cabelos em desalinho
Eu vi a mesma coisa por cá, Allen,
e penso que acontece assim em toda a parte
Era um grupo, não pròpriamente um grupo, mas
um grupo que se sentava
sempre de costas, ou de lado, sob a chuva
torrencial que algumas palavras provocavam ao abrir-se
Bebia-se muito bagaço, cafés uma vez por outra,
o sangue podia beber-se à vontade:
bastava cortar as veias às mulheres que se aproximavam
Uns escreviam livros que rasgavam
devia ser numa praia para a maré levar as folhas
e de noite, sem lua, bem no alto do rochedo
Outros publicavam nos jornais, raramente
Havia, claro, o papa, os papas, já os escritores
com oficina montada para as bandas da Sé Velha
E os que não morreram, não enlouqueceram ou não se suicidaram
e os que não traíram
esses vão vivendo como podem
e são agora papas cardeais arcebispos
Alguns forçados a voto de pobreza
arrastando-se pela Europa como o meu amigo
Manuel de Castro
um dos melhores espíritos da minha geração, Allen Ginsberg,
que embora não acredites, ainda resiste,
árabe na linha do seu destino infalível
acendedor de palavras
visionário de técnicas amorosas, combativas, mágicas
Mas como ia dizendo, Allen, era um grupo, não pròpriamente
mas um grupo
cujos elementos talvez se odiassem
ou então era amor, sobretudo raiva
contra a cidade senil

Ninguém trabalhava
e os poucos que trabalhavam eram despedidos no dia seguinte
ameaçavam (murmurava-se) as famílias, as instituições,…
Eles
uma família azul que fumava cigarros baratos
que se embebedava com muitas prostitutas
e da qual, desregradamente, certos membros
praticavam a homossexualidade por esteticismo
Era um grupo, não pròpriamente, mas
um grupo, Allen Ginsberg,
de anjos caídos, trémulos, atrás duma nota de vinte
para jantar



- António Barahona, Impressões Digitais (1968)

F de Falar para as paredes (VII)

[Em Campo de Ourique]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

domingo, 10 de abril de 2011

A de "Ash Wednesday"*





[O poema belíssimo do post veio do sítio do costume. * O título do post veio de um poema belíssimo de T. S. Eliot.]

B de Biorritmo (LXXII)

T de "(um) torso dobrado pela música" (V)

Dinamarca, 2006