quinta-feira, 3 de novembro de 2011

B de Biorritmo (XCIV)




Dear darkness
Dear darkness
Won't you cover, cover
Me again?


Dear darkness
Dear
I've been your friend
For many years


Won't you do this for me?
Dearest darkness
And cover me from the sun


And the words tightening
The words are tightening
Around my throat


And, and...

Around the throat of the one I love
Tightening, tightening, tightening
Around the throat of the one I love
Tightening, tightening, tightening


Dear darkness
Dear darkness
Now it's your time to look after us
'Cause we kept you clothed
We kept in business
When everyone else was having good luck


So now it's your time
Time to pay
To pay me and the one I love
With the worldly goods you've stashed away
With all the things you
Took from us

F de Flor Suficiente (XIII)

NASCEMOS PARA O SONO


Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.


Herberto Helder
in Poesia Toda I, Lisboa: Plátano Editora, 1973

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

P de (The) Privacy of Rain (XVI)

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (IV)

ENTREVISTA



Poesia modo de conhecimento ou meio de expressão?

Poesia é sobretudo, e antes de mais nada, forma de conhecimento. Mas não pode deixar de ser, também, expressão. Conhecimento de nós, dos outros, do mundo, enfim. Conhecimento do homem como microcosmos, entenda-se. Logo, conhecimento sempre revolucionário. Escrevi uma vez: a revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos. É evidente que este revolucionário só pode ser o poeta. Porque o poeta, sendo um visionário, é também uma visão: através dele todos podem ver. Ver criticamente, livremente - afinal única maneira de ver. Expressão desse conhecimento pode ser a palavra escrita, e é apenas neste sentido que digo que a poesia é também expressão.


Nós encontrávamo-nos nos cafés. Hoje os cafés perderam-se. Que mais achas tu que se perdeu (ou ganhou) - além da vida? 

Sim, encontrávamo-nos nos cafés. [...] Será melhor dizer: a nossa presença nos cafés era uma constante afirmação contra a morte. [...]  No Café Gelo encontrei a poesia na sua primeira forma bárbara, que é a forma do início de tudo. Os cafés perderam-se, foram assassinados. Perdeu-se, isto é, eu acho que perdi sobretudo o que me roubaram. Ganhei tudo o que tive talento e força para ganhar. Estou vivo.

[...]


Entrevistador - Ernesto Sampaio / Entrevistado - António José Forte
in Corpo de Ninguém, Lisboa: Hiena Editora, 1989

terça-feira, 1 de novembro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (XII)

Lá estava o pássaro imóvel - vulto furioso e sombrio, de grandes asas, um pequeno mundo feito de ferozes desesperos, de sonhos e da lembrança de ter flutuado lá no alto, acima do Popocatepelt, em voos de quilómetros e quilómetros, para depois baixar sobre a floresta e poisar, em atitude de observação, nos topos fantasmagóricos das desoladas árvores da montanha! Com mãos rápidas mas trementes, Yvone começou a abrir a gaiola. A ave saiu esvoaçando. Poisando-lhe aos pés, hesitou; depois, voou para o telhado de El Petate; em seguida, precipitou-se no espaço através da obscuridade, não para poisar na árvore mais próxima, como seria de crer, mas para subir, subir, no que tinha razão, pois se reconhecia livre - a grande altitude, com um súbito esgaçar de rémiges, no céu límpido, de um azul profundo, no qual, nesse momento, surgia a primeira estrela. Yvonne não sentia qualquer espécie de remorso, mas apenas uma inexplicável e secreta sensação de triunfo e de alívio: nunca ninguém viria a saber do seu acto. Por fim, apoderou-se dela uma sensação de total desgosto e desânimo.

Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão, p.333

B de Biorritmo (XCIII)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (XI)

T de Tratado de Pedagogia (XXXIX)


"Queixa das almas jovens censuradas" *




* Natália Correia

domingo, 30 de outubro de 2011

W de Wild is the Wind (III)

F de Flor Suficiente (XII)



Auto-retrato em forma de árvore
[Lisboa/Outubro 2011]


E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (III)

sábado, 29 de outubro de 2011

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (II)

À ESPERA DOS BÁRBAROS


O que esperamos nós em multidão no Forum?

     Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

     É que os Bárbaros chegam hoje.
     Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
     Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

     Porque os Bárbaros chegam hoje.
     E o Imperador está à espera do seu Chefe
     para recebê-lo. E até já preparou
     um discurso de boas-vindas, em que pôs,
     dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

     Porque os Bárbaros chegam hoje,
     e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

     Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
     e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

     Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
     E umas pessoas que chegaram da fronteira
    dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.


Constantino Cavafy
(trad. Jorge de Sena)


E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." *




[Expresso, 29/10/11]



* Eduardo Guerra Carneiro

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

R de Regresso ao Trabalho (XXVI)

Trabalhar para viver: eis a escravidão mais conformada.
Viver para trabalhar: eis a liberdade mais exigente.


António Barahona, Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea,
Lisboa: Averno, 2011

R de Realizar (VIII)

F de Flor Suficiente (X)

[Fotografia de Jorge Marques]

B de Biorritmo (XCII)

Ouviu-se ontem:

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

C de Cicatriz(ação) VII

Descascam-se batatas toda a noite
até aos dedos densos de frieiras
demanda da alma com cicatrizes
imprecisão dos golpes, incisões
perdidas, devaneios como gume
por onde ascende em gretas outro dia
janela, cascas nacaradas, rio e ouro

*

As borboletas desdobram as asas
assim se abrem os olhos pesados
fios soltos da luz, e há barrelas
vozes de realejos e vapores
na encadeada nitidez do ar
eis as talhas douradas pelo sol
e haveria um dia de luz iluminada


José Manuel Teixeira da Silva, Anima, introdução e ilustrações de Ana Abreu,
Lisboa: Língua Morta, Outubro de 2011

B de Biografia (IV)

Whenever I think of you, you are dancing lightly in a whirl of disheveled cinnamon, oh lingering scent, aerial disorder, but memory is hasty, blood is hasty inside, and before I think, I shake, and then I shake, through the core the dread of a transcendent beauty grows, the heart runs through rapid illuminations, it’s a sequential child on the music scores, thus I write a simultaneous nation, your dress vanishes in the breath, meanwhile revelation is heralded through fear, you bend like the villages devoured by the moon, later whenever I think of you, you are holding a scripted kerchief in both your hands, and your haste relents close to the mirrors, you expand, thus, in slow engraving, you are a forest of visible silence, whenever I think I think always in reverse from the end, you stand more and more at your self-beginning, then I see that in this place sits my eternal birth, when you dance, there’s a body encircling the encircled whiteness or yet again something criminal between carefulness and space, along the pure lines of loneliness the brain burns as burns the wind, behind you night’s murderous images rise – the stars: subversion of the night, whenever I think of you I dance till the resurrection of time.

 
Herberto Helder
 in Vocação Animal
[Translated by Ana Hudson, 2011]


* Lembro-me de ter dezassete anos, o professor ler este texto na 1ª aula de uma escola nova, entre rostos novos e medos antigos, e de só conseguir pensar em como era maravilhosa a expressão "num clima de canela despenteada". Essa beatitude dura até hoje.

R de Regresso ao trabalho (XXV)

Sé prudente en la noche de la victoria

Que los años de penuria y desolácion
no enturbien tu entendimiento

Sé también magnánimo en el día siguiente
cuando el vértigo de la sangre derramada
vele tus ojos recuerda quién eres

Sé siempre digno de tus maestros
y de la ciudad que te envía

Mas por encima de todo
procura que la lucidez desenfrenada del alcohol
no te impida percibir la belleza
de una Civilización que tus manos
han ayudado a destruir


LUIS MARÍA MARINA
in Lo que los Dioses Aman, Ediciones El Tucan de Virginia


M de "My house, I say"

CASA DE HÓSPEDES


Estás próximo e és uma saudade.
Tudo neste estranho lugar
se desdobra próprio, para quem reflecte
a razão da sua serenidade
em música, quase inexistente, quase familiar.

Em cada parede há uma pausa. Retratos
íntimos. Livros de folhas soltas.
A tua alegria é um gesto calmo, conveniente.
Na suavidade ambiente
chovem pétalas envoltas
de desejos simples.
Mornos nos meus ombros acaricio dois gatos.

Avisei que levassem estas flores.
É perigoso dormir com rosas.
Corram os estores.


Manuel de Castro, Paralelo W

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

W de Wild is the wind (II)



O vento na Nazaré, ontem:
"Sometimes there's so much beauty in the world..."
(para a Mariana, que faz hoje anos e sabe tanto de beleza).

M de Museu Imaginário (XXIV)


Gertrude Abercrombie, "The Stroll"

[Via Joana Jacinto]

R de Regresso ao trabalho (XXIV)

O POETA EM LISBOA



Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha – numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.


António José Forte

domingo, 23 de outubro de 2011

P de (The) Privacy of Rain (XV)


Tibor Honty, "Child with balloons in the rain", 1963

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXXVIII)

CAFÉ DE SUBÚRBIO


1.

O café bebe leite, coca-cola
E sumos de laranja e de limão.
A adolescência, quando sai da Escola,
Invade-o de alegria e confusão.

Eu, com a minha idade e uma cerveja,
Escondo-me nas folhas do jornal,
Pra que ninguém me veja
Sem me achar natural.

E sei que lá por dentro também envelheci.
E tudo quanto me destrói, agora,
É o desejo de ficar aqui,
Envergonhado de não ir embora.


António Manuel Couto Viana

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

T de "(um) torso dobrado pela música" (X)



Violeta Parra
 "La niña y el arpa" (papier maché), 1959

T de (Uma) teoria de pássaros (X)


L de "Les uns et les autres"

Talvez o poema de que me lembro mais vezes ao longo das semanas:



“Are others happier?”


para a Helena Gaspar


Quando se sentam a ler
nos grandes átrios da noite
entre mil luzes, jogos de água,
escadas que rolam ainda
sob cúpulas de betão –
             são mais felizes?

Quando saem do trabalho
acossados pelo vento
de meados de Fevereiro
e é sempre segunda-feira
nas paragens do eléctrico –
             são mais felizes?

Quando se cruzam connosco
no remanso dos jardins
e encontram outro caminho
de mistério, de desejo
na nossa imaginação –
            são mais felizes?


Quando os vemos mais
pequenos, muito ao longe,
nas esplanadas sobre o mar
e por momentos nos lembram
que tudo se há-de perder –
              são mais felizes?


Rui Pires Cabral
in Oráculos de Cabeceira (Averno)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

F de Falar para as paredes (X)


Nazaré [08/10/11]

terça-feira, 18 de outubro de 2011

P de Poética (XI)

ESCREVO-TE DE UM PAÍS QUE PESA


Tão bela como a mão da amada
sobre o mar.
Tão sozinha.

Escrevo para ti. A dor é uma concha. Nela se ouve o coração
perlar.
Escrevo para ti no limiar do idílio, para a planta das folhas
de água, dos espinhos de chamas, para a rosa de amor.
Escrevo para nada, para as palavras luzentes que a minha morte
traça, para o instante de vida eternamente devido.

Tão bela como a mão da amada
sobre o sinal.
Tão sozinha.

Escrevo para todos. Escrevo-te de um país que pesa como os
passos do forçado, de uma cidade igual às outras onde os gri-
tos camuflados se torcem nas montras; de um quarto onde as
pestanas a pouco e pouco destruíram o silêncio.
Tu és, predestinada destinadora, a minha razão de escrever;
alegre inspiradora do dia e da noite.
Tu és o colo de cisne sedento de azul.

Tão bela como a mão da amada
sobre os olhos.
Tão doce.

[...]


Edmond Jabès
[Trad. Pedro Tamen]

E de Em carne viva (IV)

Stefano Maderno, "O Martírio de Santa Cecília"

[Santa Cecilia in Trastevere/Roma]






T de (Uma) teoria de pássaros (IX)

R de Regresso ao Trabalho (XXIII)

domingo, 16 de outubro de 2011

V de (O) Vermelho e o Negro (II)

SONETO


La otra noche, después de la movida,
en la mesa de siempre me encontraste
y, sin mediar palabra, me quitaste
no sé si la cartera o si la vida.

Recuerdo la emoción de tu venida
y, luego, nada más. Dulce contraste,
recordar el amor que me dejaste
y olvidar el tamaño de la herida!

Muerto o vivo, si quieres más dinero,
date une vuelta por la lencería
y salpica tu piel de seda oscura.

Que voy a regalarte el mundo entero
si me asaltas de negro, vida mía,
y me invaden tu noche y tu locura.


Luis Alberto de Cuenca


A de "Ali estamos todos inteiros." (IV)



[...]
For if we don't find
The next whiskey bar
I tell you we must die
[...]

T de (Uma) teoria de pássaros (VIII)

sábado, 15 de outubro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros - VI c


 Pieter Brueghel, "Paisagem com Queda de Ícaro", 1558
[Musée des Beaux Arts/Bruxelas]

T de (Uma) teoria de pássaros - VI b

MUSÉE DES BEAUX ARTS


About suffering they were never wrong,
The Old Masters; how well, they understood
Its human position; how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.
In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water; and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
had somewhere to get to and sailed calmly on.


W. H. AUDEN

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (VII)


Agnolo Bronzino, "Retrato de Giovanni de Medici em criança", c. 1545
[Galleria degli Uffizi/Florença]


R de Rebeca (XI)


Witold Gombrowicz
[Foto de Sophie Bassouls]

H de Heart of Darkness


A ler a Piolho 006.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

P de Poética (X)




Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.


Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.

1-10-1927

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011

P de Poética (IX)


A epígrafe de um Livro.


F de Fazer Fotografia (LIV)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

domingo, 9 de outubro de 2011

D de Davam grandes passeios ao domingo (III)

DOMINGO À TARDE


Enlaçavam-se os domínios arqueados de uma aurora
cinzenta, num país cinzento, sem paixão, tímido.

Enlaçavam-se os céus implacáveis, os mares
proibidos, as terras estéreis.

Enlaçavam-se os galopes incansáveis de cavalos
magros, as ruas onde já não passavam os carros,
os cães e os atos moribundos.

Aureolavam-se de encantadora palidez as mulheres,
as crianças de sentidos límpidos.

Aureolavam-se as aparências, os dias infindáveis,
dias sem luz, as noites absurdas.

Aureolava-se a esperança de uma neve definitiva,
marcando na fronte o ódio.

Adensavam-se os astros, adelgavam-se os lábios,
alargavam-se as frontes como mesas inúteis.

Curvavam-se os cumes acessíveis, adoçavam-se os
mais insípidos tormentos, comprazia-se a natureza
numa única função.

Respondiam-se os mudos, escutavam-se os surdos,
olhavam-se os cegos.

Nestes domínios confundidos onde até as lágrimas
só se miravam em espelhos lamacentos, neste país
eterno que reunia os países futuros, neste país onde
o sol ia sacudir as suas cinzas.


Paul Éluard, Algumas das Palavras,
trad. António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, 2ªed,
Lisboa: Publicações D. Quixote, 1977

sábado, 8 de outubro de 2011

K de Kissing the sun (V)



De Lisboa à Nazaré

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXX

A CABEÇA CONTRA AS PAREDES
(fragmento)


Eram apenas uns poucos
Em toda a terra
Cada um se julgava só
Cantavam, tinham razão
Para cantar
Mas cantavam como quem saqueia
Como quem se mata

Noite húmida surrada
Iremos nos suportar-te
Mais tempo ainda?
Não vamos nós sacudir
Tua evidência de cloaca?
Não esperaremos por uma manhã
Feita à medida
Queríamos ver claro nos olhos dos outros
As suas noites de amor esgotadas
Eles não sonham senão em morrer
As suas belas carnes abandonam-se
Pavanas a rodar no coração
Abelhas colhidas no seu mel
Eles ignoram a vida
E a nós tudo nos dói.


Paul Éluard, Algumas das Palavras,
trad. António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge,
2ªed., Lisboa: Publicações D. Quixote, 1977

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

I de "I have measured out my life with coffee spoons"


S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.


Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question...
Oh, do not ask, "What is it?"
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair--
(They will say: "How his hair is growing thin!")
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin--
(They will say: "But how his arms and legs are thin!")
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all --
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?

And I have known the eyes already, known them all--
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?

And I have known the arms already, known them all--
Arms that are braceleted and white and bare
(But in the lamplight, downed with light brown hair!)
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?

. . . . .

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows?...

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.

. . . . .

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep... tired... or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head [grown slightly bald] brought in upon a platter,
I am no prophet--and here's no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead
Come back to tell you all, I shall tell you all"--
If one, settling a pillow by her head,
Should say: "That is not what I meant at all.
That is not it, at all."

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor--
And this, and so much more?--
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
"That is not it at all,
That is not what I meant, at all."

. . . . .

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse
At times, indeed, almost ridiculous--
Almost, at times, the Fool.

I grow old... I grow old...
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.

Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think that they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.

We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.

 

R de Realizar (VII)

Uma das grandes vantagens de fazer uma lista de poesia traduzida é poder reler os livros:


PASTORAL


Quando era mais jovem
tinha a certeza
que devia fazer algo da minha vida.
Agora, mais velho,
caminho por vielas
admirando as casas
dos muito pobres:
telhados desengonçados
pátios cheios de
velho arame de capoeira, cinzas,
móveis desconjuntados;
as cercas e os anexos
construídos com aduelas
e tábuas de caixotes, todos,
com alguma sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja pátina
me agrada mais
que qualquer cor.

                          Ninguém
acreditará que isto
seja tão importante para a nação.


William Carlos Williams, Antologia Breve,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1995

T de (Uma) teoria de pássaros (VI)

PAISAGEM COM QUEDA DE ÍCARO


De acordo com Brueghel
quando Ícaro caiu
era primavera

um lavrador arava
os seus campos
todo o esplendor

do ano
formigava ali
à

beira do mar
consigo mesmo
preocupado

suando ao sol
que derretia
a cera das asas

perto
da costa
houve

uma pancada quase imperceptível
era Ícaro
que se afogava


William Carlos Williams



A sombra de Ícaro
[Ribeira de Santarém, Junho 2011]

(A) Luz da Sombra (XV)


Ontem, a caminho da minha livraria preferida.
A seguir, apeteceu-me rever Michel Ocelot.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

B de Biorritmo (CXI)



I must have brought the bad weather with me
the sky's the colour of lead
all you've left me was a feather
on an unmade bed

It's always me whenever there's trouble
the world does nothing but turn
the ring it fell off my finger
I guess I'll never learn


It's over it's over it's over
I'm getting dressed in the dark
our story ends before it begins
I always confess to everyone's sins
the nail gets hammered down
it's over let it go


So don't go and make a big deal out of nothing
it's just a storm on a dime
I've always found there's nothing
that money can not buy
I've already gone to the place that I'm going
there's no place left to fall
there's something to be said
about saying nothing at all


'Cause baby then it's over and it's over
it's done forgotten and through
story ends before it begins
I always confess to everyone's sins
the nail gets hammered down
it's over let it go

You got to let me go
I wanna let it go

K de Kissing the sun (IV)

Curvou-se o perfil da cidade
e como num aquário
tudo parece lento
silencioso;
os gestos menos gestos
a pressa mais serena
a pena menos triste
os homens-peixe
mulheres-peixe
tudo o que acontece deforma-se
submerso nos olhos de um sol líquido e branco.


Gracia Iglesias

L de (A) Luz da Sombra (XIV)

Um pássaro e a sua sombra são dois pássaros
e uma só existência dividida.


Um deles prisioneiro da luz
frágil fumo seguro por grilhões de ouro;
o outro desligado da terra
soberano do ar
livre
como uma alma sem corpo.




R de Regresso ao Trabalho (XXII)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A de "Ali estamos todos inteiros." (III)

De noche
hay sanatorios
que licuan
nuestra soledad
para beberla
en compañia,
y hay pedacitos
de ti y de mi;
esparcidos por los bares
de esta ciudad.


Leyla Ouf
in Terreno Fértil - Un ámbito poético (Córdoba, 1994-2009),
Sevilha: Cangrejo Pistolero Ediciones, 2010

E de Em carne viva (III)


Gwen John, "The convalescent", c.1923-4

domingo, 2 de outubro de 2011

C de Closure


B de Biorritmo (CX)

E de Em carne viva (II)

LOVE AND THE FEVER


My soul has taken ill today
I can't even look a crow in the face
          she will burn from this moment on
          in the cold bronze sickroom
          with a translucent rose fire
Truly... yet, my little sister
I like you am too low now too
To reach willow flowers


Kenji Miyazawa


sábado, 1 de outubro de 2011

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

B de Biorritmo (CIX)



E na banda sonora de um filme de há demasiados anos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

M de Memória


Hoje, a caminho do trabalho.


F de Fazer Fotografia - XIII c ou XXXV b

[...] porque é que fotografamos: o que é que queremos apreender?
O que é que tentamos salvar? O que é que nos foge
ou, em última análise, não é fotografável? [...]


AQUI

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (V)

SAPPORO CITY


I transformed my seething sadness
Into blue shreds of myth
In the distant sloping ashen light
And the trembling of the goods train
I scattered them with all my might
By the elms on Pioneer Memorial Square
But the little birds didn't pick at them


Kenji Miyazawa

A de Altar (III)


Lisboa / Setembro 2011

terça-feira, 27 de setembro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (IV)

BATTEMENT

Pas d'aile, pas d'oiseau, pas de vent, mais la nuit,
Rien que le battement d'une absence de bruit.


- Eugène Guillevic

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

domingo, 25 de setembro de 2011

A de Amor (XVII)

D de Davam grandes passeios aos domingos (II)

DOMINGO


Acordámos com o céu encostado
no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam
o domingo, a partir do alto das montanhas.
E aqui continuamos, agarrados a nós próprios,
como dois miúdos que não têm para onde ir.
Estamos presos ao sofá unicamente porque sim,
nem tristes nem alegres, metidos no roupão
e nos chinelos, pequenos cadeados de trazer
por casa. O mundo, esse, vem buscar-nos
amanhã. Bate-nos à porta, à hora do costume,
palitando os dentes com a ponta da navalha.


Vítor Nogueira
in Piolho 006

sábado, 24 de setembro de 2011

P de (Uma) teoria de pássaros (III)


Charles Courtney Curran, "In the Luxembourg (Garden)", 1889

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

B de Biorritmo (CVII)



The boy with the thorn in his side
Behind the hatred there lies
A murderous desire for love
How can they look into my eyes
And still they don't believe me ?
How can they hear me say those words
Still they don't believe me ?
And if they don't believe me now
Will they ever believe me ?
And if they don't believe me now
Will they ever, they ever, believe me ?

The boy with the thorn in his side
Behind the hatred there lies
A plundering desire for love
How can they see the Love in our eyes
And still they don't believe us ?
And after all this time
They don't want to believe us
And if they don't believe us now
Will they ever believe us ?
And when you want to Live
How do you start ?
Where do you go ?
Who do you need to know ?

A de "até que os fios do coração" (IV)

MY HEART NOW


My heart now
Is a warm sad saline lake
A pitch black lepidodendron forest stretching
Nearly five hundred miles along its shore
Must I then
Be made to sleep
Without so much as stirring
Till the reptile takes on the form of a bird?


Kenji Miyazawa, Strong in the rain
(Bloodaxe Books)

E de Espinhas para um gato - X b


António Carneiro, "Menina com Gato (Maria)", 1900

[Obrigada, Luis]

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

E de Espinhas para um gato (X)


Gwen John, "Girl with cat", 1918

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

R de Regresso ao Trabalho (XXI)



Todo dia ela faz
Tudo sempre igual
Me sacode
Às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca
De hortelã...

Todo dia ela diz
Que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz
Toda mulher
Diz que está me esperando
Pr'o jantar
E me beija com a boca
De café...


Todo dia eu só penso
Em poder parar
Meio-dia eu só penso
Em dizer não
Depois penso na vida
Prá levar
E me calo com a boca
De feijão...


Seis da tarde
Como era de se esperar
Ela pega
E me espera no portão
Diz que está muito louca
Prá beijar
E me beija com a boca
De paixão...


Toda noite ela diz
Pr'eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

M de Museu Imaginário (XXIII)


Antonello da Messina, "Virgem da Anunciação", 1475

P de "Portugal não é um país pequeno" (VIII)

IX



no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno

e o país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história do amor só até ao pescoço

e o país no país que engraçado no país
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora aí está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)

diz que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora há muito não é de outra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato


Mário Cesariny, "Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano"
in Manual de Prestidigitação, Lisboa: Assírio & Alvim, 1981

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

domingo, 18 de setembro de 2011

M de Medo (V)


Os pavões do Castelo de S. Jorge / 1954

P de Poética (VIII)

Não fugir. Suster o peso da hora
Sem palavras minhas e sem os sonhos,
Fáceis, e sem as outras falsidades.
Numa espécie de morte mais terrível
Ser de mim todo despojado, ser
Abandonado aos pés como um vestido.
Sem pressa atravessar a asfixia.
Não vergar. Suster o peso da hora
Até soltar sua canção intacta.

CRISTOVAM PAVIA

A de "Ali estamos todos inteiros." (II)

Relembrou-se ontem, baixinho,
mesmo a quem nunca teve um pássaro amigo entre as mãos:


O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

- Eugénio de Andrade


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

T de Tempo Sem Tempo (IV)


São Miguel / Agosto 2011

P de Poética (VII)

4

Músculos tensos, grito parado, a inquirição prossegue por entre camadas de angústica cerrada. Fura, brita, escava, alonga túneis por onde avança o corpo cercado. Por vezes tem a espessura de montanhas, muros sobre muros que não acabam. Outras abre-se inesperadamente em naves onde o eco é mais largo e o som ampliado vibra a ilusão da interminável viagem. Uma a uma, as palavras emergem da pedra informe, brilham contra o aço quente das brocas. Agarra-as com as mãos feridas, confunde-as com o tacto, mistura-as com o sangue, enquanto a tinta regista a negro o seu traçado. Há quem lhe chame poesia. Eu só lhe posso chamar combate. *


Jorge Roque in Telhados de Vidro n.º15,
Lisboa: Averno, Junho 2011

* V de Vida

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

E de Espera (XVII)

O QUE PEÇO AO DIA


O que peço ao dia já não é
que se cumpram os sonhos, que me entregue
cumpridos os desejos de outros dias,
porque enfim aprendi que os sonhos
são como as asas de um insecto,
quando lhes tocamos desfazem-se;
quando um sonho se realiza torna-se outra coisa
que não ajuda a voar.
O que peço ao dia começa a ser, aliás,
mais difícil ainda de alcançar
que sonhos realizados, porque exige
a antiga fé nos sonhos.
O que peço ao dia é simplesmente
um pouco de esperança, essa forma modesta
de felicidade.


Vicente Gallego
in El sueño verdadero, Visor

[Como sempre, retirado daqui]

T de Tratado de Pedagogia (XXXVII)

Ensinar/Aprender o contrário:


[Fotografia de Marta Chaves]

R de Regresso ao Trabalho (XX)




Get up in the morning take the covers from my bed
There's sunlight in my eyes playing tricks with my head
Work like a dog on the job every day
Trying to earn some money so I can go and play


In the night time
I said night time
It's the night time
Oh that's the right time
I want to be with you in the night time

I come home from work now I'm tired and I'm beat
Trying to make some supper but I can't have any heat
I jump in the shower wash the world off my back
I'm going to get my baby that's a natural fact


[...]

Move a little closer let me whisper in your ear
Just turn your radio up and you'll hear what I'm saying
Half a million people with nothing to say
Running round in circles they're just living their days
Stick with me baby, I'll show you how to fly
We'll make some real music, watch the world go by

[...]

terça-feira, 13 de setembro de 2011

B de (A) Barreira Invisível

David Teles Pereira,
in Jornal de Notícias, 09/09/11
(conversa editada por Susana Moreira Marques)