quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
M de Música para os meus olhos - XXI b
They sentenced me to twenty years of boredom
For trying to change the system from within
I'm coming now, I'm coming to reward them
First we take Manhattan, then we take Berlin
I'm guided by a signal in the heavens
I'm guided by this birthmark on my skin
I'm guided by the beauty of our weapons
First we take Manhattan, then we take Berlin
I'd really like to live beside you, baby
I love your body and your spirit and your clothes
But you see that line there moving through the station?
I told you, I told you, told you, I was one of those
Ah you loved me as a loser, but now you're worried that I just might win
You know the way to stop me, but you don't have the discipline
How many nights I prayed for this, to let my work begin
First we take Manhattan, then we take Berlin
I don't like your fashion business mister
And I don't like these drugs that keep you thin
I don't like what happened to my sister
First we take Manhattan, then we take Berlin
[...]
And I thank you for those items that you sent me
The monkey and the plywood violin
I've practiced every night, now I'm ready
First we take Manhattan, then we take Berlin
[...]
Ah remember me, I used to live for music
Remember me, I brought your groceries in
Well it's Father's Day and everybody's wounded
First we take Manhattan, then we take Berlin
T de (Uma) Teoria de pássaros (XIX)
Ouviu-se ontem,
com sonhos realizados sob as mãos e amigos em volta:
F de Fazer Fotografia (LVII)
o gato à janela
a gaivota no telhado
a cidade na cidade
a rapariga no sofá, lendo e
pressentindo sexo
até à décima quinta linha
quem sabe a penúltima vírgula
daquela página daquele livro
daquele dia daquela vida e
todos em coro celebrando
mais um dia dos mortos
a gaivota no telhado
a cidade na cidade
a rapariga no sofá, lendo e
pressentindo sexo
até à décima quinta linha
quem sabe a penúltima vírgula
daquela página daquele livro
daquele dia daquela vida e
todos em coro celebrando
mais um dia dos mortos
Bénédicte Houart, Vida: Variações II (2011)
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
J de (O) Jardim e a casa (XII)
GARDEN
I
You are clear
O rose, cut in rock,
hard as the descent of hail.
I could scrape the colour
from the petals
like spilt dye from a rock.
If I could break you
I could break a tree.
If I could stir
I could break a tree—
I could break you.
II
O wind, rend open the heat,
cut apart the heat,
rend it to tatters.
Fruit cannot drop
through this thick air—
fruit cannot fall into heat
that presses up and blunts
the points of pears
and rounds the grapes.
Cut the heat—
plough through it,
turning it on either side
of your path.
H. D. (1886-1961)
[Paris, 2008]
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - II b
nós, os inconsoláveis que
perdemos a fala ainda antes de
ganharmos direito à palavra, que
sentimos tão demasiado que
ficámos para sempre calados, que
haveremos de escrever, agora
que alcançámos o direito
a morrer sem pedir desculpa, e
mortos, embora, constituiremos
a maioria que à superfície da terra
sem trégua vos derrotará
perdemos a fala ainda antes de
ganharmos direito à palavra, que
sentimos tão demasiado que
ficámos para sempre calados, que
haveremos de escrever, agora
que alcançámos o direito
a morrer sem pedir desculpa, e
mortos, embora, constituiremos
a maioria que à superfície da terra
sem trégua vos derrotará
Bénédicte Houart, Vida: Variações II (2011)
M de Medo (VI)
o que eu queria da vida
aproxima-se tanto da morte
que por vezes é aterrador
valha-me um pavão e
outras coisas assim com asas
e bicos e muitas penas por colorir
valha-me um corpo tremendo
reanimando-me as mãos
uma overdose de coisa nenhuma
que me ponha de nariz no chão
aproxima-se tanto da morte
que por vezes é aterrador
valha-me um pavão e
outras coisas assim com asas
e bicos e muitas penas por colorir
valha-me um corpo tremendo
reanimando-me as mãos
uma overdose de coisa nenhuma
que me ponha de nariz no chão
Bénédicte Houart, Vida: Variações II,
Lisboa: Cotovia, 2011
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
P de (The) Privacy of Rain (XVIII)
Em primeiro lugar - XXII
A fronte colada aos vidros como quem vela de mágoa
Céu da noite que já ultrapassei
Planícies minúsculas nas minhas mãos abertas
No seu duplo horizonte inerte indiferente
A fronte colada aos vidros como quem vela de mágoa
Procuro-te para além da espera
Para além de mim mesmo
E já não sei de tanto que te amo
Qual de nós está ausente.
Paul Éluard
in Luiza Neto Jorge, Poesia Traduzida,
Porto: Modo de Ler/Edições Afrontamento, 2011
sábado, 10 de dezembro de 2011
S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXIII
MEMÓRIA
Para o Olímpio,
com demasiados anos de atraso e de saudade
Dizemos órfão. Viúvo. Mas
não há palavra suficiente para
o amigo que sobrevive ao amigo
e não se reconhece mais
na composição dos dias.
Em redor da tua ausência,
banco de pedra irreparável,
cresceram as grossas raízes
do mundo: sem margens generosas
nem cintilações íntimas entre as linhas,
natureza morta com estrelas frias.
Há perdas assim,
que não se deixam fechar.
Apenas uma espécie de solidão
com vista para outras solidões
e o nevoeiro sempre entre nós.
ID
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
A de Amor (XIX)
Não há amor ilegítimo.
Não há amores malditos
Há poder leis hábitos
erro espanto astúcia
impotências normas mentira
angústia domesticação comércio
cobardia e calamidade
Não há amores malditos
Vicente Huidobro, Mágica,
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Língua Morta, 2011
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Língua Morta, 2011
*
PARÁBOLA
Não há amores malditos
Há poder leis hábitos
erro espanto astúcia
impotências normas mentira
angústia domesticação comércio
cobardia e calamidade
Não há amores malditos
Félix Grande, Biografía (1958-2010),
Barcelona: Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 2011
[Trad. ID]
Barcelona: Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 2011
[Trad. ID]
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
S de Solidão (ou C de Comunidade) - XXXII b
Walk in silence,
Don't walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,
Endless talking,
Life rebuilding,
Don't walk away.
Walk in silence,
Don't turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,
Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Don't walk away.
People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Don't walk away in silence,
Don't walk away.
S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXII
GIFT
You tell me that silence
is nearer to peace than poems
but if for my gift
I brought you silence
(for I know silence)
you would say
This is not silence
this is another poem
and you would hand it back to me.
Leonard Cohen
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Y de "You must believe in spring" *
Flores corajosas e promessas de flores
no caminho do trabalho, ontem.
* Música antiga. Máquina fotográfica nova.
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
F de Fazer Fotografia (LV)
UM OLHAR PARA ABATER OS ALBATROZES
Um olhar
para abater os albatrozes
Dois olhares
para suster a paisagem
à beira do rio
Três olhares
para transformar a criança
em acrobata
Quatro olhares
para forçar o comboio
a cair no abismo
Cinco olhares
para voltar a acender estrelas
apagadas por um furacão
Seis olhares
para impedir o nascimento
da criança aquática
Sete olhares
para prolongar a vida
da noiva
Oito olhares
para transformar o mar
em céu
Nove olhares
para fazer bailar as
árvores do bosque
Dez olhares
para ver a beleza que se apresenta
entre um sonho e uma catástrofe
Vicente Huidobro
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
T de (Uma) teoria de pássaros (XVII) - Finais Felizes
Obrigada, David.
Mas o que eu gostava mesmo era de, um dia, comer
"cailles en sarcophage avec sauce perigourdine",
sábado, 3 de dezembro de 2011
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
T de Teologia (II)
Estamos no final do século XX, nunca a ciência e a filosofia chegaram tão longe.
Tanto que é perfeitamente concebível escrever sobre omeletas um tratado de teologia,
da mesma maneira que sobre Deus um compêndio de culinária. *
Tanto que é perfeitamente concebível escrever sobre omeletas um tratado de teologia,
da mesma maneira que sobre Deus um compêndio de culinária. *
Rui Caeiro, Sobre deus, sobre a magna questão da existência de deus, Lisboa: Ed. do autor, 1988
[* Já foi escrito e está na minha biblioteca.]
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
terça-feira, 29 de novembro de 2011
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
T de (Uma) teoria de pássaros (XV)
Today my bird flew away
gone to find her big blue jay
Starlight before she took flight
I sung a lullaby of bird land everynight
I sang a lullaby every night
sang for my Ava every night.
Ava was the morning, now she's gone
she's reborn like Sarah Vaughan
In the sanctuary she has found
birds surround her sweet sound
and Ava flies in paradise
and Ava flies in paradise
With dread I woke in my bed
to shooting pains up in my head
Lovebird, my beautiful bird
Spoken 'til one day she couldn't be heard
She spoke until one day she coudlnt be heard
she just stopped singing
Ava was the morning, now she's gone
she's reborn like Sarah Vaughan
In the sanctuary she has found
birds surround her sweet sound
and Ava flies in paradise [x3]
domingo, 27 de novembro de 2011
J de (O) Jardim e a Casa - VI c
PARTES DE UM TODO
Esta tarde, sentado num banco do jardim,
tentava ler um livro difícil
enquanto esperava por ti.
O livro tornava mais dura, mais penosa, a espera.
Então levantei os olhos das páginas,
pousei o livro, vi um homem novo
aproximar-se e passar à minha frente
com um saco de plástico
com maçãs vermelhas numa das mãos
e uma caixa de cartão, com ovos, na outra.
O saco de plástico era transparente
e revelava nitidamente o esplendor e a forma
perfeita das maçãs, todas muito juntas
como partes de um todo.
Não consegui deixar de as olhar,
e tu chegaste logo de seguida.
Só agora, depois do jantar
e da loiça lavada, me lembrei do livro
que ficou no banco do jardim.
in Criatura nº6, Novembro de 2011
Q de "Que sorte que temos. É tão bom coincidirmos assim." *
* A frase e a canção ouviram-se ontem,
no final de uma noite em que a morte se sentou, cansada, e nos deixou dansar a vida:
sábado, 26 de novembro de 2011
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (VIII)
[…]
Nas actuais “democracias”, que tendem a limitar-se à promoção de um sistema económico assente na competitividade, a arte – que desde sempre atesta o humano do homem, a sua capacidade de criar enquanto capacidade de ser singular e de viver em comum – é posta em perigo por um conjunto de mecanismos, os mesmos que são usados para forçar o consumo de qualquer tipo de mercadorias, nomeadamente, os da indiferenciação entre informação, propaganda e publicidade, sendo que estas últimas tendem a ser simples técnicas impositivas de comportamentos, criando elas próprias o ambiente propício para se tornarem cada vez mais poderosas. É assim que proliferam os chamados criativos e as “indústrias criativas”, que os nomes de artistas se convertem em marcas comerciais, ou que um grupo de produtores, “agentes artísticos”, “cria” os próprios artistas, como um bom agente de publicidade pode “criar” o produto a consumir. O controlo dos indivíduos por um Estado “democrático”, através do qual o capital exerce o seu poder, não decorre de meios directos de controlo mas da cumplicidade entre a gestão centralizada de certos recursos e serviços e o poder do marketing detido pelos média, que são o principal veículo do entretenimento […]. O controlo é permanente: a formação de “públicos”, contínua e vinda de todos os lados, abole o silêncio e o espanto pela saturação do quotidiano por músicas, imagens, “notícias” e jogos que não só produzem identificações automáticas como introduzem compulsões ao exercício do poder, correspondentes a um tudo-é-possível-e-tudo-se-equivale. Estão em perigo o sentir e o pensar, motivo pelo qual a resposta singular que a arte convoca é rasurada pelas instituições que pretendem fazê-la render, moldá-la às circunstâncias, que se resumem ao lucro.
[…]
Silvina Rodrigues Lopes, "Precedências desajustadas"
in Persistência da Obra - Arte e Política,
org. Tomás Maia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011
A de "até que os fios do coração" (V)
UNA SEMANA
En la primera ecografía no
tenía corazón.
Una semana amando
tres centímetros sin corazón.
Y lo más parecido
a la pequeña mancha
negra era un pequeño
ataúd. Un nudo del tamaño
de un huesito de pollo
en la garganta.
Y lo más parecido a amanecer
velando tu respiración:
el jadeo del mar bajo un cielo de estaño.
Recordé a un poeta
cantor de la familia
tardocapitalista
y te hizo grazia.
Una semana después
la libertad.
Carlos Pardo
in Para los años diez (7 poetas españoles),
org. Juan Carlos Reche, Montevideo: Casa Editorial Hum, 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
R de Regresso ao Trabalho (XXVIII)
FEAR
Your fear is powerful
metaphysical
mine a junior clerk
with a briefcase
with a file
and a questionnaire
when was I born
what means of support
what haven't I done
what don't I believe in
what am I doing here
when will I stop pretending
where will I go
next
Tadeus Rózewicz, They Came to See a Poet,
3ª ed. ampliada, Londres: Anvil Press Poetry, 2011
3ª ed. ampliada, Londres: Anvil Press Poetry, 2011
B de Biorritmo (CII)
Ouvia-se ontem, longe do mundo - ou seja, entre Amigos:
[...]
There's a patched up dream for a winter rose
There's a soft touch finally come to blows
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
domingo, 20 de novembro de 2011
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (VI)
Em que é que acredita hoje?
Acredito em literatura, acredito em arte. Não acredito em burrice, não acredito em lugares comuns. Acredito nas coisas que me comovem.
Entrevista de Alexandra Carita a Eduardo Batarda
in "Revista Única", Expresso, 19/11/2011
sábado, 19 de novembro de 2011
T de "The days grow short..." (IV)
Tengo el pelo color noviembre.
Mi alma muda las hojas con la llegada del otoño.
Mi alma muda las hojas con la llegada del otoño.
María González
in Terreno Fértil - Un ámbito poético (Córdoba, 1994-2009),
Sevilha: Cangrejo Pistolero Ediciones, 2010
Sevilha: Cangrejo Pistolero Ediciones, 2010
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
C de (A) Comunidade (III)
THEY SHED THE LOAD
He comes to you
and says
you are not responsible
either for the world or the end of the world
the load has been lifted off your shoulders
you are like children and birds
go, play
and they play
they forget
that contemporary poetry
means struggle for breath
Tadeusz Rózewicz
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
E de Em carne viva (V)
ENTRE CÉU E TERRA
Quando não estou a sofrer, encontrando-me entre dois períodos de sofrimento, vivo como se não vivesse. Em vez de ser um indivíduo cheio de ossos, músculos, carne, órgãos, memória, desejos, vejo-me facilmente, de tal modo o meu sentimento de vida é fraco e indeterminado, como um ser unicelular microscópico, preso por um fio e vogando à deriva entre céu e terra, num espaço incircunscrito, empurrado pelos ventos, e nem isso claramente.
Henri Michaux
in La vie dans les plis (1949)
P de "Para realizar um fantasma entrevisto" (II)
Para a minha irmã, que faz hoje anos.
O son(h)o começou assim, durante muitos anos, para nós:
O son(h)o começou assim, durante muitos anos, para nós:
terça-feira, 15 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
domingo, 13 de novembro de 2011
sábado, 12 de novembro de 2011
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
S de "Sleeping is the only love" (II)
DECISÕES GRAVES
Rasgar fotografias
com desgosto
ritual, meticuloso na destruição
como Antero de Quental.
Escrever, por não querer dizer,
ansioso de calar-me, de
caiar-me uma noite
iluminado luto,
canção da ponte admirável
quando eu era um rio a correr
ao teu encontro.
A realidade não dá descanso a ninguém
acordado; e muito menos ao poeta
que dorme bem desperto, a sono preso
ao sonho e para além do sonho
adensado em tumulto de mistério.
Desligar as estrofes, experimentar ignorar
com consciência: sair para poder entrar
por outra porta. Há uma infinidade de portas.
Muito poucas estão abertas.
António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea (Averno)
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea (Averno)
E de "essa forma modesta de felicidade"
Photographer unknown, "Blackbird’s nest in the folded hands of a statue on a graveyard",
Berlin, 1932
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
S de "Sleeping is the only love"
BOAS NOITES
Boas noites.
Que o sonho te distinga
com a sua brilhante escuridão. Que o tempo
se detenha umas horas e te ofereça
a possibilidade de não morreres
pelo processo de estar morta.
Que não venha o turvo pesadelo
do doutor Freud comentar os teus sonhos,
semeando de fantasmas o teu repouso.
Que uns anjos loiros pousem
nas quatro esquinas da tua cama
e degolem os maus pensamentos
com a sua espada de luz, e não te deixem
sozinha até que amanheça.
Boas noites.
Luis Alberto de Cuenca
in Sin miedo ni esperanza
[Trad. ID]
[Trad. ID]
terça-feira, 8 de novembro de 2011
R de Regresso ao Trabalho - XXVII (turno da tarde)
"[...] Fazer o que a gente não gosta é o pior desemprego do mundo. Se pegar esse aparelho aqui, que pisca, que ri, que chora, e botar ele para trabalhar numa coisa que ele não gosta, é um desserviço para o espírito."
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
A de Antes de amanhecer
NÃO VALE A PENA
Não vale a pena viver tanto
e tão heroicamente como ontem à noite.
Foi o vazio (e a sua mãe, a ansiedade)
quem marcou as fronteiras que tivémos
de atravessar, os tórridos caminhos
por onde fomos a lado nenhum,
achando-nos os reis da festa.
Não vale a pena que as luzes
da manhã doam e não salvem.
Luis Alberto de Cuenca, Sin medo ni esperanza,
Madrid: Visor, 2002
[Trad. ID]
domingo, 6 de novembro de 2011
B de Biorritmo (XCV)
[...]
Esta noche, amiga mia,
con alcohol nos embriagamos;
que me importa que se rian
y nos llamen los mareados.
Cada cual tiene sus penas
y nosotros las tenemos.
[...]
sábado, 5 de novembro de 2011
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (V)
Ainda há pouco, num gesto lânguido, sob a lassidão que o mau tempo traz, desesperando as tardes uma após a outra, deixei cair, sem sombra de curiosidade e com a sensação de já ter lido tudo há vinte anos, a cortina de pérolas multicolores que vela a chuva, ainda, contra a fulgência inconstante das brochuras na biblioteca. Muitas obras, sob os fios de vidrilhos, alinharão agora as suas próprias cintilações: apraz-me, como no céu pejado, junto ao vidro, seguir os clarões da tempestade.
A nossa época, recente, se não termina, suspende-se ou talvez ganhe consciência: certa atenção liberta a vontade criadora e relativamente segura de si.
Mesmo a imprensa, cuja informação costuma requerer uns vinte anos, trata do assunto, de repente, no próprio dia.
A literatura sofre aqui uma preciosa crise, fundamental.
[...]
Stéphane Mallarmé, entre 1886 e 1896
in Crise de Versos, trad. e notas de Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo,
Porto: Deriva Editores, 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
T de Tempo Sem Tempo (V)
Porque às vezes apetece tentar uma revolução mansa contra o Tempo: deixar o negro avançar dentro de nós sem o cortar, saltar um dia, não levantar os olhos para nenhuma beleza que nos salve. Mas há sempre um fio que nos puxa de volta ao mundo. Uma palavra - ou várias, com um gato adormecido nas entrelinhas. A respiração dos amigos a dar-nos novo fôlego.
AQUI
L de (A) Luz da Sombra (XVI)
Não te lembres de mim, ao nevoeiro
que encerra os barcos negros no abrigo,
para que o olhar da gárgula arguta
roube às goteiras um golo de luz.
Mas a vida secou. A árvore de ouro
de que viste a sombra ferida no muro,
na parede da casa à meia-noite,
de súbito enlaçada ao candeeiro,
morreu. E tu partiste sob a chuva
de outro mundo, sem saberes que fazer
da carruagem com olhos de lobo,
da porta onde o teu corpo se gravou.
Voltarás ao caminho devorado,
das trevas iludido o céu diurno.
que encerra os barcos negros no abrigo,
para que o olhar da gárgula arguta
roube às goteiras um golo de luz.
Mas a vida secou. A árvore de ouro
de que viste a sombra ferida no muro,
na parede da casa à meia-noite,
de súbito enlaçada ao candeeiro,
morreu. E tu partiste sob a chuva
de outro mundo, sem saberes que fazer
da carruagem com olhos de lobo,
da porta onde o teu corpo se gravou.
Voltarás ao caminho devorado,
das trevas iludido o céu diurno.
Luis Manuel Gaspar
in A Sombra do Farol (1995)
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais" - IV b
Quando surgiu o "Primeiro Manifesto do Surrealismo", "transformar o mundo" (Marx), "mudar a vida" (Rimbaud) eram mais do que um belo sonho. Hoje, o que são?
Transformar o mundo, mudar a vida, será sempre mais do que um belo sonho. Não é outro o tema da poesia de todos os tempos.
Em 1924, ano da publicação do "Primeiro Manifesto do Surrealismo", ainda eu não era nascido, e hoje, 1988, quando estou vivo desta maneira - sempre mais do que um belo sonho. Não vos inquieteis, é a realidade que se engana, está escrito num muro da Avenida de Berna. Não me inquieto.
Entrevistador - Ernesto Sampaio / Entrevistado - António José Forte
in Corpo de Ninguém, Lisboa: Hiena Editora, 1989
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