quinta-feira, 30 de junho de 2011

A de Aniversário (V)

HOROSCOPES FOR THE DEAD


Every morning since you disappeared for good,
I read about you in the daily paper
along with the boxscores, the weather and all the bad news.

Some days I am reminded that today
will not be a wildly romantic time for you,
nor will you be challenged by educational goals,
nor will you need to be circumspect at the workplace.

Another day, I learn that you should not miss
an opportunity to travel and make new friends
though you never cared much about either.

I can't imagine you ever facing a new problem
with a positive attitude, but you will definitely not
be doing that, or anything like that, on this weekday in March.
And the same goes for the fun
you might have gotten from group activities,
a likelihood attributed to everyone under your sign.

A dramatic rise in income may be a reason
to treat yourself, but that would apply
more to all the Pisces who are still alive,
still swimming up and down the stream of life
or suspended in a pool in the shade of an overhanging tree.

But you will be relieved to learn
that you no longer need to reflect carefully before acting,
nor do you have to think more of others,
and never again will creative work take a back seat
to the business responsibilities that you never really had.

And don't worry today or any day
about problems caused by your unwillingness
to interact rationally with your many associates.
No more goals for you, no more romance,
no more money or children, jobs or important tasks,
but then again, you were never thus encumbered.

So leave it up to me now
to plan carefully for success and the wealth it may bring,
to value the dear ones close to my heart,
and to welcome any intellectual stimulation that comes my way
though that sounds like a lot to get done on a Tuesday.

I am better off closing the newspaper,
putting on the clothes I wore yesterday
(when I read that your financial prospects were looking up)
then pushing off on my copper colored bicycle
and pedaling along the shore road by the bay.

And you stay just as you are,
lying there in your beautiful blue suit,
your hands crossed on your chest
like the wings of a bird who has flown
in its strange migration not north or south
but straight up from earth
and pierced the enormous circle of the zodiac.

 
- Billy Collins
(2011)


B de Biorritmo (XCVII)

Sonhou-se hoje:




[...]
Si more cantando,
si more sonando
la Cetra, o Sampogna,
morire bisogna.
Si muore danzando,
bevendo, mangiando;
con quella carogna
morire bisogna.
[...]

quarta-feira, 29 de junho de 2011

T de Tratado de Pedagogia - II b

INTRODUÇÃO À POESIA


Peço-lhes que peguem num poema
E que o segurem contra a luz
Como um slide de cores

Ou que encostem o ouvido ao seu formigueiro.
Eu digo-lhes para lançar sobre ele um rato
E contemplá-lo, enquanto encontra uma saída,

Ou que entrem dentro do seu quarto
e tacteiem as paredes na procura do interruptor.

Quero que façam ski
Sobre a superfície do poema
Saudando o nome do autor na margem

Mas tudo o que querem fazer
É atar o poema a uma cadeira
E tentar arrancar-lhe uma confissão.

Começam por bater-lhe com uma mangueira
Para perceber o que realmente quer dizer.


- Billy Collins
[Trad. Ricardo Marques]

T de Tratado de Pedagogia (XXXV)

If you have to teach poetry, strike your blackboard with the chalk of light.

Lawrence Ferlinghetti, Poetry as insurgent art
[Válido, mesmo quando os quadros já são brancos, o giz foi substituído por marcadores e passamos quase mais tempo a escrever relatórios do que a ver a luz nascer.]

terça-feira, 28 de junho de 2011

F de "(Une) Famille d'Arbres (II)

RELATÓRIO DE AUTO-AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO


Para Abel de Freitas


Faz hoje um ano que o vi pela última vez vivo. Vivo… sem mexer praticamente o corpo, alimentado à força, de olhos teimosamente fechados e rito de dor. Mas procurou-me a mão, apertou-a, com a força possível, e há algo de dolorosamente consolador em saber ainda de cor esta data, como se lembrá-lo me protegesse, por sua vez, do esquecimento dos outros.
Durante uma semana, aprendemos os horários dos comboios, qual o lado da sombra – que nem sempre coincidia com o do rio –, as horas das visitas, os corredores mais suaves. Nem era tanto esperança, apenas a liberdade que vinha de estarmos por enquanto entre a vida e a morte, entre uma cidade e outra, entre a resistência e a aceitação – a tal viagem libertadora entre a cadeia e o tribunal onde se ouvirá a sentença, que repeti tantas vezes nas minhas viagens e citei nos meus textos.
E, tirando a camisa escura que comprei na manhã seguinte para o funeral e que nunca mais consegui usar por me lembrar uma mortalha, as imagens dessa semana são inesperadamente luminosas. O primeiro pássaro que fotografei a voar. A caixa de música à entrada do hospital. A coragem de esperar. O azul das últimas flores que ele olhara. O descer as escadas ao fim da noite mais comprida e ter alguém à espera para procurar comigo os ciprestes perdidos na cidade.
Claro que o buraco no coração aumenta. É mais um que faltará doravante à chamada e já passou um ano inteiro de ausência. Um ano de gatos que nasceram e desapareceram, de árvores que caíram, de casas vendidas e ilhas cada vez mais distantes. Um ano que não bastou para lhe descobrir ondas suficientemente belas para a eternidade. E escrevem-se relatórios que nunca poderão levar selo branco, nem caber em poemas, mas que nos ajudam a ganhar balanço para mais um ano em que todos os cães nos lembram o pelo morno da Rebeca já morta, em que nadaremos sempre mais sozinhos, em que teremos medo pelo que ainda nos resta perder. Os pais nunca nos deveriam morrer, insiste o meu coração egoísta. Se lhes sobreviver, quem estará ao meu lado quando ficar doente outra vez? Quem se sentirá tão mortal e sozinho como eu? Quem parará de viver comigo, em vez de me relembrar que o mundo continua lá fora, sem mim? Quem me exigirá que seja melhor, mesmo que esse melhor se resuma a sobreviver?
Mas um gato de olhos verdes vigia-nos a solidão, nunca nos deixando ficar demasiado tempo do lado oposto da casa. Os amigos vão chegando e tentando preencher o buraco no nosso coração. Não nos deixam descansar enquanto não o pusermos de novo a funcionar, por muito que doa ao princípio respirar e tudo pareça sal sobre uma ferida aberta sobre outra ferida ainda. Aprende-se, aos poucos, a brincar com a crosta da ferida, a utilizar o espaço vazio para acolher mais pessoas, mais sentidos. Crescemos, mesmo com o nosso coração esburacado, como Michaux nos explicou. E, entre todos, talvez consigamos reconstruir um coração inteiro, partilhável, que ajude a sobreviver ao ritmo certo. A noite fica para trás; é tão precioso ver a manhã a nascer ao fundo da estrada e ir ao seu encontro, sem ter verdadeiramente pressa de chegar.


Período em avaliação: 28 de Junho de 2010 a 28 de Junho de 2011
A avaliada: ID

G de Golpe d'asa

If you call yourself a poet, don't just sit there. Poetry is not a sedentary occupation, not a "take your seat" practice. Stand up and let them have it.

- Lawrence Ferlinghetti, Poetry as insurgent art

segunda-feira, 27 de junho de 2011

R de Regresso ao Trabalho (XV)





domingo, 26 de junho de 2011

sábado, 25 de junho de 2011

P de Poética (II)

[...]

  • A rigidez dos carteiros não poderia ser desfeita pela técnica. Fazer versos, contar histórias, inventar a cura para todas as doenças e a arma infalível em qualquer guerra: modalidades de um viver exterior em que se perde a solidão, a compaixão que fica nuns passos para cá e para lá, no escuro da noite, junto ao mar, acompanhando o grito antiquíssimo, todos os gritos elididos na caixa branca e no seu destino certo - a Quinta do Anjo. Atravessar o deserto em direcção a um gesto simples e sem remédio - lançar-se no destino, cumprimentar o sol, era esse o modo como o poeta fazia estremecer a vida fossilizada. Preferiram esquecê-lo. Preferem sempre trasladar os ossos, contar a história.

  • Querem que sejamos razoáveis.

  • Querem-nos mortos.

[...]


- Silvina Rodrigues Lopes, "Nada a declarar"
in Telhados de Vidro n.º 3 (Averno)

R de Realizar? (V)

Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo

A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães


- Ernesto Sampaio

sexta-feira, 24 de junho de 2011

D de Don't look down


A insustentável leveza do ser, este mês, em Lisboa.

T de (Uma) teoria de pássaros

LARES


I keep going back to that bird, snagged
by a halter or skein of fibre or yarn
and strung from the gutter of the opposite house
where it quartered the wind, each bead of its spine
and the dead-drop of its skull
lit up against the breeze-block wall,
claws pushed out as if skidding to a halt
while its beak transmitted code.

I say a prayer to you, small ghost,
small noosed spirit of the eaves,
dangling from the prow of the house
singing all four winds, the spindle and pin
and needle and thorn of your hollow bones
riding you on air that is redolent with spores
after the fact of your scavenged heart,
the stolen tissues of your wings.


Fiona Benson
in Faber New Poets 1

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XVI)

LÍRICA DE PARDILHÓ


Então acordo e sinto a meu lado
o esplendor tranquilo
da amada que respira
adormecida deitada sobre o flanco
vertendo a prata dum sorriso

nas ravinas da noite
esferas cantam a alegria
é um sítio de grama rociada

e passam horas
durante as que da rua
ouvindo vozes turvas
eu ficarei teimando
na claridade a todo o preço

de que me falam as aves


- Fernando Assis Pacheco

L de Ler (V)

Ouve-se na página 43 deste livro:
Christian Charrière, Dites-le avec des fleurs, Paris: Fayard, 1969

L de (A) Luz da Sombra (IX)



Ontem, a caminho da minha livraria preferida.

 



P de (Os) Pássaros em Volta (VIII)

Hoje contemplei Sujata a beber chá em frente do jardim
de Pangim com gestos de pomba escura até à alva
e a ossatura de platina fluorescente, a cabeleira
fulminada numa pose que o vento ventilava fulva

Sujata sorriu como de costume no romance por escrever
que eu jamais escreverei (a acção não se desenrola)
e o poema nu também não há: havia, há, haverá uma veia
aberta de onde emergem as linhas de uma epopeia em transe

Nessa polpa amarga me situo e o sumo do fruto escorre
aos cantos do luto, não dos lábios, aos cantos do palácio
andorinha fugitiva que ri com a boca toda numa rosa

Voltavam as asas, voltavam, as inúmeras espécies de voo
estudadas inculcavam o cubo: voltavam as aves, voltavam
com romãs no bico e cada uma com um verso, todas as manhãs


Naga Masjid/Curti
Monção de 1982


- António Barahona
in Livros da Índia, Imprensa Nacional

[Encontrado aqui, como sempre]

quarta-feira, 22 de junho de 2011

P de (Os) Pássaros em Volta (VII)



[Obrigada, Ana.
É bom quando os arquivos das pessoas se cruzam]

T de Tratado de Pedagogia (XXXIV)

Em dia de exame nacional de Matemática:


MATHS


To commemorate the grand bazaar
the king is given a prize goat (x)
that is one and a half metres high.
Given that a prize goat eats
ten square yards of grass a day,
how long should the leash (y)
be tied so the prize goat can roam free
and feed until the next grand bazaar?

To the man who can give an answer
in yards and show his working,
goes the talcum hand of the virgin princess
who is also one and a half metres high.

Men come. One brings a ball of string
and a cauliflower to show he is both wise
and humble, another swings a bag of seeds,
two brothers flex their matching red braces.

So the suitors measure, scribble, compare
their feats of mind, strenght and faith.
Bunting feathers the eaves, a local man
juggles numbers through the streets
dressed in the fleece and horns of a buck.
The princess bites her lip, her hair plaited
with ribbons the colours of her country.
Meanwhile the goat goes hungry.


Jack Underwood

terça-feira, 21 de junho de 2011

B de Biorritmo (XCVI)


[Obrigada, Rui]

P de (Os) Pássaros em Volta (VI)



[Obrigada, Inês]