domingo, 17 de junho de 2018

P de "Pássaros de acaso" - VI b


OS PARAÍSOS ARTIFICIAIS


Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3.º andar e papagaios de 5.º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.


JORGE DE SENA




[Bruce Davidson]



MANHÃS


Pendurada numa corda da roupa de um sétimo andar,
atrás de um prédio enferrujado,

todas as suas varandas envidraçadas ou com grades,
ali, em cada manhã, está uma pequena gaiola quadrada.

Cativo nesta provocação contra o céu,
nesse intervalo reflexivo entre apelo e canção,

esse Vazio que as aves nos "ofereceram",
ali na perversidade fixa de uma vertigem,

o tentilhão debate-se esporadicamente, desarmado,
mudo. Não, freneticamente vocal, mas sem ser ouvido. 

Queremos que isto seja uma ode.


John Mateer
in Telhados de Vidro n.º 18, trad. de Inês Dias,
Lisboa: Averno, Maio de 2013

sábado, 16 de junho de 2018

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A de Amor (IX)


CONTRA REMEDIA AMORIS



Não sou desse género de mulheres
incapazes de amor e de ternura.
Odeio o sacrifício e repugna-me
a vaidade que nasce da violência,
mas sei o que é valor e o que é sangue.
Quero ser a mulher de um mercenário,
de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.
Porque sei olhar nos olhos dos homens.
Conheço quem merece a minha ternura.




Amalia Bautista, Coração Desabitado,
com sel. e trad. de Inês Dias, desenhos de Débora Figueiredo,
arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2018

domingo, 10 de junho de 2018

S de "Semantics won't do"


domingo, 27 de maio de 2018

L de "Les yeux du chat" (II)


Morreu Dom Fuas, gato meu sete anos,
pomposo, realengo, solene, quase inacessível,
na sua elegância desdenhosa de angorá gigante,
cendrado e branco, de opulento pêlo,
e cauda como pluma de elmo legendário.

Contudo, às suas horas, e quando acontecia
que parava em casa mais que por comer
ou visitar-nos condescendentemente como
a duquesa de Guermantes recebendo Swann,
tinha instantes de ternura toda abraços,
que logo interrompia retornando
aos seus paços de império, ao seu olhar ducal.

Nunca reconheceu nenhuma outra existência
de gato que não ele nesta casa. Os mais
todos se retiravam para que ele passasse
ou para que ele comesse, eles ficando
ao longe contemplando a majestade
que jamais miou para pedir que fosse.

Andava adoentado, encrenca sobre encrenca,
e via-se no corpo e no opulento pêlo,
como no ar da cabeça quanta humilhação
o sofrimento impunha a tanto orgulho imenso.
Por fim, foi internado americanamente,
no hospital do veterinário. E lá,
por notícia telefónica, sozinho, solitário,
como qualquer humano aqui, sabemos que morreu.

A única diferença, e é melhor assim,
em tão terror ambiente de ser-se o animal que morre,
foi não vê-lo mais. Porque ou nós morremos,
como dantes se morria em público,
a família toda, ou toda a corte à volta, ou
é melhor que se não veja no rosto de qualquer
– mesmo ou sobretudo no de um gato que era tão orgulhoso em vida –
não só a marca desse morrer sozinho de que se morre sempre
mesmo que o mundo inteiro faça companhia,
mas de outra solidão tecnocrata, higiénica
que nos suprime transformados em
amável voz profissional de uma secretária solícita.

Dom Fuas, tu morreste. Não direi
que a terra te seja leve, porque é mais que certo
não teres sequer ter tido o privilégio
de dormir para sempre na terra que escavavas
com arte cuidadosa para nela pôres
as fezes de existir que tão bem tapavas,
como gato educado e nobre natural.
Nestes anos de tanta morte à minha volta,
também a tua conta. Nenhum mais
terá teu nome como outros tantos gatos
antes de ti foram já Dom Fuas.


Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão,
Lisboa, Edições 70, 1989

terça-feira, 15 de maio de 2018

A de "A propósito de andorinhas" (VI)


Uma epígrafe / poética:




[Inês Lourenço, A disfunção lírica,
Lisboa, &etc, 2007]

quinta-feira, 10 de maio de 2018

R de Rezar na era da técnica (XX)


I

Chego à Achadinha e poiso o corpo sobre o chão quente. Deixo que a realidade, vivaz e rasa, tome conta de mim, da minha respiração, das sombras que me povoam. Que se vá instalando com doçura em cada pedaço de pele. Nisto vão chegando os gatos, um a um, em passadas cautelosas. Percebo nos seus olhos a ternura do reencontro, mesmo naqueles que nunca consigo afagar, porque a sua liberdade e a sua bravura não consentem as minhas mãos temerosas. Nunca, como eles, fui capaz de atravessar destemidamente o escuro. Nunca, como eles, apontei as garras ao medo, riscando de coragem a noite funda. Alguns não me perdoam essa fraqueza, esse meu ser excessivamente gente, e têm toda a razão. A esses apenas peço, em surdina, que me emprestem, assim de viés, um raspão da sua presença.

Deito-lhes bocadinhos de comida e água fresca. Pelo chão, pelas escadas, pelo alpendre. Vêm e vão, num silêncio-poema, fitando, serenos, a minha ansiedade.


Renata Correia Botelho, "Os donos da alvorada",
in Cão Celeste n.º 5, Lisboa, Maio de 2014




[ID, Achadinha, Junho de 2015]

sábado, 5 de maio de 2018

D de Dansa (VIII)




ANTÓNIO RAMOS ROSA


*




Pablo Fidalgo Lareo, traduzido por Manuel de Freitas,
in Telhados de Vidro n.º 17, Lisboa, Averno, Novembro de 2012

domingo, 29 de abril de 2018

S.T.T.L.


HOTEL ASTÓRIA, QUARTO 229


                        in memoriam


Há uma roda gigante que não pára, do outro lado do rio. Também a música ao vivo teima em continuar pela noite dentro, poluindo os arredores de Santa Clara e os lençóis inquietos onde já encontraste o sono.

*

Mas já só consigo pensar na roda pequena da vida, que ontem se deteve no corpo de um gato escuro, violentamente terno. Há ausências assim, impronunciáveis. Saber que a dor se irá tornando tolerável, que continuaremos a cumprir a breve sucessão dos dias, é tudo menos um consolo. Será, quando muito, um acréscimo de humilhação, o modo baixo como a vida nos obriga a aceitar o inaceitável. 

*

Toquei ontem, pela última vez, na cauda fria de um gato. Chamava-se, neste mundo, Barnabé.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014

terça-feira, 24 de abril de 2018

F de Flor Suficiente (XXII)



[ID, Figueira da Foz, 20/04/018]



Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa.
Hoje, abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal.
Olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo.


Ana Paula Inácio
in Poetas Sem Qualidades, Lisboa: Averno, 2002

terça-feira, 17 de abril de 2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

M de Mesa de Amigos - V c


RETRATO


Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem


Rui Caeiro, Livro de Afectos,
Lisboa, edição de autor, 1992

domingo, 8 de abril de 2018

H de História de amor - c



[João César Monteiro, Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, 1970]



Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ũa pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; ũa brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento;

Esta foi a celeste fermosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.


LUÍS DE CAMÕES





[João César Monteiro, A Comédia de Deus, 1995]

domingo, 1 de abril de 2018

P de Páscoa Feliz (VII)


A FLECHA NEGRA


Não digas que escrevo
para o teu desconsolo - se o dia
não serve e a noite que chega
não me traz mais nada. Já foram
mais fáceis os meses e o sono,
os livros dilectos, a luz
sobre a cama -
e as vistas
da tarde por detrás da casa: hortas
de Macedo, olivais da Páscoa.
Mas não digas que escrevo
para o teu desconsolo. Escrevo
contra o nosso, escrevo
como posso.


Rui Pires Cabral, Morada,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2015

P de Páscoa Feliz (III)


segunda-feira, 5 de março de 2018

P de Poética (LVI)




*



Miguel de Carvalho, Neste estabelecimento não há lugares sentados, 
Lisboa, Alambique, 2016

[Fotografia de ID, Coimbra, 15/05/016]


*




Adriana Molder
[edição com texto e imagem de Adriana Molder, 
integrada na exposição TODAS AS FOTOGRAFIAS DO FORD, Travessa da Ermida, 2018]

domingo, 11 de fevereiro de 2018

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXVII


[...] No veo por qué escribir tiene que traer aparejado el hablar en público. Más bien son actividades contrarias, se escribe en soledad y en muchos casos para huir del mundo. [...]


- ENRIQUE VILLA-MATAS

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

S de Sítio (III)


NADA MAIS - RIEN NE VA PLUS


Na alienação que é o pensamento
as coisas escorrem pelos dedos abaixo
a matéria, a «phisis»
tudo nos escorre pelos dedos abaixo
na alienação que é o pensamento
Dominam-se as coisas até onde o céu
pode ser aberto
e a geometria uma realidade nossa
para limitar o espaço
A cabeça em limites
onde um limite um ser
uma coisa
e tudo cá dentro cá dentro cá dentro
até onde um limite
ainda torna possível a existência
dum outro por abrir
Hoje o céu é novo é diferente
é dormir e acordar de novo para as coisas
o céu os pássaros
a fantasia dos pássaros
Hoje é o céu novo o céu novo
hoje é a Grécia de ontem
foi ontem a Grécia
mas a Grécia ainda é hoje
é hoje porque é dormir e acordar de novo para as coisas
achá-las vê-las
cumprimentar as coisas com bons dias ao Sol
bom dia meu irmão
ressuscitar um morto
dizer aqui S. Francisco de Assis
aqui a cabeça cheia de vento
a graça as flores
o vento na cabeça
a cabeça a janela
aberta aberta
de S. Francisco de Assis
Hoje é dizer fui ontem mas ainda sou amanhã
amanhã amanhã
amanhã até onde o céu for aberto
e até onde a Estrela Polar distante distante
Hoje é dormir cantar
dormir com uma canção na cabeça
dizer boa noite meu amor meus astros minha esfera
amanhã outra vez amanhã de novo te conheço
ressuscito para as coisas
e assim o sono a existência o momento que passa
e nada mais
porque nada mais meu bom Sartre na verdade
nada mais que o momento
conta senão para nós.


António Gancho, O ar da manhã, 
Lisboa: Assírio & Alvim, 1995

domingo, 4 de fevereiro de 2018

S de Sítio (II) - ou "Amitié"




[Vincent Van Gogh]