sábado, 29 de fevereiro de 2020

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (VIII)


ESTRELA


Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.


CARLOS DE OLIVEIRA




[Fotograma de In the Mood for Love, de Wong Kar-Wai]

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

I de Intimidade - c




Leonard Cohen, Poemas e Canções II,
com tradução de Inês Dias,
Lisboa: Relógio D'Água, 2019

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

S de Santa Cruz - XI c




[Uma poética - ID / 2011]

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLV)




[A epígrafe de um livro de George Steiner.]

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O de "Onde se lê 'gato'..." (XVI)


Diário de um Barnabé...

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

S de "Sei de um rio" (II)




[ID, 'Sei de um rio', Julho de 2016]

C de Coração arquivista (III)


CABEÇA, CORAÇÃO


O coração chora.
A cabeça tenta ajudar o coração.
A cabeça diz ao coração como são as coisas, outra vez:
Vais perder quem amas. Todos se irão. Até a Terra se irá, algum dia.
O coração sente-se melhor, então.
Mas as palavras de cabeça não duram muito nos ouvidos do coração.
É tudo muito novo para o coração.
Eu quero-os de volta, diz o coração.
A cabeça é tudo o que o coração tem.
Ajuda, cabeça. Ajuda o coração.


in Contos Completos, trad. Manuel Resende, Lisboa: Relógio D'Água, 2012

domingo, 19 de janeiro de 2020

M de "Me, Myself and I" (II)



Hans Holbein the Younger, 'A lady with a squirrel and a starling', 1526-28 
[National Gallery, London]



[...]
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das núvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

[...]


Herberto Helder, O Amor em Visita,
Lisboa: Contraponto, 1958




Frida Khalo

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

C de Cicatriz (XI)


"[...]
devo sentir nostalgia? de quantas cicatrizes precisa a nostalgia?"

Pablo García Casado




[Fevereiro 013]

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O de Outono (XI)


NÃO ME MOSTRES NENHUM NORTE


Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinhas rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.


A. M. Pires Cabral, Cobra-d'água,
Lisboa: Cotovia, 2011




Origami de Outono
Vila Real / 2012

domingo, 5 de janeiro de 2020

F de "(Une) Famille d'Arbres" (VI)






E LUCEVAN LE STELLE


Para o meu avô,

os verdes na banca eram o real,
sem regresso ou poesia,
e a expansão acabara de novo
ali, no Cais da Ribeira,
quando a amada partira,
levando-lhe no nome a liberdade.

A tristeza tinha horas tão marcadas
que lhe tingiam os dedos,
portões que só se abriam
para as estrelas sempre acordadas
da mesma música: e nunca amei tanto
a vida, chorava em repetição.

Enquanto a felicidade boiava na praia,
à distância de um dia de verão
e de uma corda segura 
por quem não sabia sequer nadar.


Inês Dias, In Situ,
Lisboa: Língua Morta, 2012

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

M de Mesa de Amigos - X b




Paul Klee
"Fairy Tales" (1920) | "Paul Klee, "Nächtliches Fest" (1921)




segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

R de Regresso ao Real - VIII b


CONSOANTES ÁTONAS


Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência

tá[c]til do beijo. Eu não nasci
nos Trópicos: preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.


- Inês Lourenço, Coisas que nunca,
Lisboa: & etc, 2010




[ID, Funchal | 12/019]

R de Regresso ao real (VIII)


Gosto da brisa gelada
e do vapor que fala no Inverno:
Eu sou eu. A realidade é a realidade.

Um rapazinho, vermelho como um tomate,
dono e senhor do seu trenó,
lança-se encosta abaixo.

E eu, em desacordo com o mundo, com a liberdade,
aceito o contágio do trenó,
dos seus estriados braços de prata.

O século poderia ser mais leve que um esquilo,
mais leve que um esquilo no doce arroio.
Metade do céu é usar botas de inverno.


Ossip Mandelstam
in Um ateu no campo, versões de João Rodrigues,
Lisboa, edições pirata, 2000

domingo, 8 de dezembro de 2019

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (III)


MORTE DE UMA ESTAÇÃO


Choveu toda a noite
sobre as memórias do verão.

Ao anoitecer saímos
no meio de um ribombar lúgubre de pedras
e, parados na margem, levantámos as lanternas
para explorar o perigo das pontes.

Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas
ensopadas e pousadas sobre os fios
à espreita de indícios secretos de partida -

e reflectiam-nas na terra
as fontes com os rostos desfeitos.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
2.ª ed. rev. e aumentada,
sel. e trad. de Inês Dias, desenhos de Débora Figueiredo,
e prefácio de José Carlos Soares, Lisboa, Averno, 2019




[ID, Santa Cruz, 12/019]

sábado, 23 de novembro de 2019

B de Biografia - IV b *


Sempre que penso em ti estás a dançar levemente num clima de canela despenteada, ó aroma vagaroso, desordem aérea, mas a memória tem pressa, o sangue tem pressa interna, e antes de pensar tremo, e depois tremo, pelo meio desenvolve-se o pavor de uma beleza maiúscula, o coração corre entre iluminuras rápidas, é uma criança sucessiva nas pautas da musica, assim escrevo uma nação simultânea, desapareces na respiração do teu vestido, entretanto a revelação anuncia-se pelo medo, curvas-te como as aldeias devoradas pela lua, mais tarde sempre que penso em ti estás com um lenço escrito nas duas mãos, e a tua velocidade abranda junto aos espelhos, expandes-te assim lentamente gravada, és uma floresta de silêncios visíveis, sempre que penso penso sempre ao contrário do fim, estás cada vez mais no princípio de ti mesma, então vejo que nesse lugar é o meu começo eterno, quando danças é um corpo rodeando a brancura rodeada ou de novo qualquer coisa criminal entre o cuidado e o espaço, nas linhas puras da solidão arde a cabeça, arde o vento, atrás de ti as imagens assassinas da noite - estrelas: subversão da noite, sempre que penso em ti danço até à ressurreição do tempo.


Herberto Helder, Vocação Animal,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1971

*

sábado, 16 de novembro de 2019

sábado, 9 de novembro de 2019

A de Amor (XXIX)


CONFIAR


Tenho tanta fé em ti. Sinto
que saberei esperar a tua voz
em silêncio, durante séculos
de escuridão.

Tu sabes todos os segredos,
como o sol:
poderias fazer despontar
os gerânios e a flor de laranjeira
no fundo das pedreiras,
das prisões
lendárias.

Tenho tanta fé em ti.  Estou tranquila
como o árabe, que
envolto no seu manto branco
escuta Deus amadurecer-lhe
a cevada à volta da casa.


Antonia Pozzi, Morte de uma Estação,
2.ª ed. rev. e aumentada, sel. e trad. de Inês Dias,
desenhos de Débora Figueiredo, prefácio de José Carlos Soares
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2019



sexta-feira, 1 de novembro de 2019

R de Revisões da matéria dada - VII




BLANCHE - [...] Il ne restait rien, sauf...

LA MEXICAINE - Flores...

BLANCHE - Sauf la mort... J'étais assise et la mort assise en face, où vous êtes. On n'osait même pas nier sa présence...

LA MEXICAINE - Flores para los muertos... Flores...

BLANCHE - La mort d'un côté, le désir de l'autre.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

T de Tratado de Pedagogia (LXX)




João Miguel Fernandes Jorge, Sob Sobre Voz / Porto Batel,
2.ª ed., Lisboa: Presença, 1987