segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Merry Christmas (III)


PRELÚDIO DE NATAL 


Tudo principiava 
pela cúmplice neblina 
que vinha perfumada 
de lenha e tangerinas 

 Só depois se rasgava 
a primeira cortina 
E dispersa e dourada 
no palco das vitrinas 

 a festa começava 
entre odor a resina 
e gosto a noz-moscada 
e vozes femininas 

 A cidade ficava 
sob a luz vespertina 
pelas montras cercada 
de paisagens alpinas

E a multidão passava
E a chuva era tão fina
que parecia filtrada
de taças clandestinas

Finalmente chegava
triunfal     em surdina
a noite convocada
em todas as esquinas

Mas não se derramava
como tinta-da-china
Na cidade acordada
já se ouviam matinas


DAVID MOURÃO-FERREIRA
[Obrigada, Maria Manuel]

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

P de (Po)ética (LXII)

 



Louise Glück, Averno,
trad. de Inês Dias
[Relógio D'Água, 2020]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A de Afinidades electivas (II)

 



Dois corações selvagens: a Clarice e o Barnabé.

[ID | 012]


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

P de (The) Privacy of Rain - XLIX



Inês Dias, Paris, 2008


*



Manuel de Freitas, Inês Dias, 
Lisboa: Nigredo, 2014

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

M de 'Mourned by the wind'


 "[...]

Este texto não existiria se eu não tivesse visto ontem, no claustro da Sé de Lisboa, uma grade românica do século XIII. Há oito séculos que estes pássaros não cantam, que estas cobras não deslizam pela relva húmida, que estas osgas não sobem paredes esboroadas. Ninguém sabe, aliás, que mãos lhes deram forma, que nome atribuir à beleza leve e robusta desta grade. Sabemos apenas, como diria Rui Chafes, que ali o ferro se fez vento - e que o vento chegou até nós, incólume e cantante. Estes pássaros, estas cobras, estão muito mais vivos do que nós, indiferentes a modas, balanços e ao Juízo Final. Não têm tempo, porque são o próprio tempo, traduzido em ferro por mãos feitas de nada e de ossos breves."


- Manuel de Freitas, 769118,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa, Averno, 2020



[ID, Lisboa | 019]

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

P de (Dois Anos de) Pássaros - mais andorinha, menos andorinha... - XXVIII b


[...]

que idade tinhas
quando a primeira árvore
te disse para subires?


- Emanuel Jorge Botelho




[André Kertész, 1979]

*

domingo, 1 de novembro de 2020

D de Dia de los Muertos (VI)

ESTA NOITE



     A primeira vez que vi Charles Chaplin e Paulette Goddard  mimarem os TEMPOS MODERNOS foi na véspera da minha Volta ao Mundo. Mostraram-me o filme numa sessão privada. Acabara de fazer as malas e tinha a certeza de que ia encontrar Charlie e Paulette nos mares da China, que nos íamos dar bem, que terminaríamos junto a nossa viagem, partilhando os inúmeros amigos que os seus filmes lhe traziam e os poucos corações dedicados que os livros me oferecem. 
    Os nossos amigos distantes cruzam-se muitas vezes, porque Chaplin é poeta. A sua poesia não precisa de ser traduzida mas, no fundo, a minha também não, no sentido em que a poesia é uma língua à parte que se se serve apenas de um idioma, e as pessoas que compreendem esta língua não são afastadas pelo idioma em que o poeta se exprime, tal como não são afastadas pelos costumes europeus dos filmes de Charlot.
     Os cartazes de MODERN TIMES acolhiam-nos em cada escala. Infelizmente, viajávamos demasiado depressa para revermos juntos o filme.
     Esta noite, em Montargis, numa garagem convertida em cinema, garagem essa que se deve parecer com o hotel de Bourgogne, revi essa obra, digna das farsas de Molière e das aberturas de Mozart.
     Os meus amigos iniciam nele uma segunda morte, e eu vejo-os, de boa aberta como na lanterna mágica, exprimir sentimentos complexos com o à vontade dos antigos coreógrafos quando descreviam a beleza com um gesto redondo em volta do rosto, e o amor juntando as mãos sobre o coração.
     Esta solidão, esta tristeza de lied que lança sobre Chaplin uma penumbra cuja causa deve ser o facto de ele se ter tornado rico a incarnar um pobre e a fortuna não trazer nada de novo a almas de tamanha elegância, são reforçadas ainda pelo meu cinema de província quase vazio.
     A última vez que nos despedimos foi ao telefone, em Hollywood. A sua voz e a de Pauline chegavam até mim, separadas das suas imagens, tal como esta noite as suas imagens chegam até mim separadas das suas vozes.
     Nunca desejei tanto um fenómeno que permitisse aos meus amigos ganharem relevo e cor, deixarem o ecrã, trocarem as estátuas finas de uma miúda e do ilustre vagabundo pela jovem resplandecente, e pelo dramaturgo de rosto vermelho e caracóis brancos.
     O meu sonho trazia-os até França, a esta data, nesta sala onde MODERN TIMES continua sem eles, onde falaríamos de uma época de máquinas, de armas e de cansaço. Época difícil, que precede uma ainda mais difícil. Sempre que repousamos, sempre que passeamos, o destino ameaça-nos, de dedo apontado, pálido e terrível como o director da fábrica na parede da casa de banho.


Jean Cocteau
[Trad. ID]

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O de "Oh! qu'ils sont chers, les trains manqués/ Où j'ai passé ma vie à faillir m'embarquer!..." - d


MAIS ALÉM



Mais além,
o bosque é um biombo:
Não consigo ver o que oculta.

O vento assobia o nome das árvores.
Ouve-se passar um comboio. 
                                              Reconheço-me 
na peça que une as duas carruagens.

E a maior é sempre a da morte. 


Josep M. Rodríguez
in Telhados de Vidro n.º14, trad. Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno, Setembro de 2010




[Nascer do sol entre Vigo e Porto, Março de 2011]

domingo, 4 de outubro de 2020

P de Postais - V b



ESTÁTICA


A tempestade sacode as suas bátegas
contra a janela anoitecida:
o vidro estremece sob o granizo lançado.
Desengonçada, a televisão perde o controlo,
esvai-se em preto e branco,
depois em silêncio, enquanto as linhas descem.
Os postais dela agitam-se na prateleira, caem;
as luzes de Calais apagam-se uma por uma.

Ele não lhe pode contar
que os gansos regressam ao crepúsculo,
que o farol passeia a sua luz
por entre as trincheiras do mar.
Ele não lhe pode contar que a vasta noite
desliza como uma porta sem ela,
que ele é a fechadura
e ela é a chave.



Robin Robertson, A Painted Field
Londres: Picador, 1997
[Trad. Inês Dias]



[Inês Dias, Nazaré 013]


Estar não faz mal nem bem. Ser chave e fechadura,
ser aquele que se perdeu no atalho dos dias. Depois,
é só fazer de conta que tudo vai bem. Depois,
é só acreditar no pior.



Rui Baião, Rude,

Lisboa: Averno, 2012




[ID | Nazaré, 08/10/11]


sábado, 3 de outubro de 2020

S de "Semantics won't do" (XXIX)

 



GOTTFRIED BENN
[Trad. de Vasco Graça Moura]

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

E de Espinhas para um gato (XV)


LA CATHÉDRALE ENGLOUTIE


Deste lado da vida
são sete horas (vestidas
de preto, vermelho e medo)
da manhã de outro dia.
Mas a janela fechada dá
para a noite ancorada
de leve sobre as esperanças
azedas da cidade.

Conto um rio preso num poço,
dois comboios afogados na pressa,
meia dúzia de faróis
acesos em prédios
cuja felicidade parece sempre
proporcional à distância.

O vinil negro continua a rodar,
atiça os seus pássaros enferrujados
contra a lua atada 
a uma das chaminés.
E a luz que nunca chega
traz as últimas notícias da guerrilha,
expõe o plástico roto nas armas
dos nossos heróis de ontem.

Abandono as saudades 
pelos telhados, com
as patas embaciadas, os olhos
magros. Saio.
Recomeço a fazer horas
para novos sonhos. 


Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
Lisboa, Averno, 2013
[Fotografia: ID | 013]





terça-feira, 29 de setembro de 2020

I de Intimidade (IV)

 



René Magritte, Les Amants (1928)





Paul Delvaux, La Joie de vivre, 1937

sábado, 19 de setembro de 2020

S de Sense of Snow (XI)


BALLADEN OM JENNY LIND


E é de novo sexta-feira, na mesma cidade.
As sirenes respondem pontualmente
aos corpos e bicicletas que se perdem
noite dentro. Nada que possa incomodar
o sono altivo dos mendigos da Stroget,
enrolados em mantas e garrafas já sem cor.

Decidimos tomar o último copo
no café Monten. Ao balcão, os homens
dos barcos falavam de todos os países
que viram ou não viram, sob nuvens de fumo
que escondiam mal um inglês de circunstância.

Na parede junto à nossa mesa (recorte
da época) Jenny Lind morria - e eu
ficava a saber, em sueco, que "Rökning
dödar", o que não parecia incomodar
nenhum dos presentes. No Nyhavn,
porém, anoitecia muito depressa. Teremos
de esperar pela neve, agora que passou a chuva.


Manuel de Freitas, Brynt Kobolt,
Lisboa: Averno, 2008




sexta-feira, 18 de setembro de 2020

E de Espera (XXI)

CONTRA-TEMPO



Ainda mais alguns dias até ao acontecimento. Passa-se do outro lado da rua por causa disso - da espera. Toda a gente (alguns) dizem: "é para hoje" e fazem rapidamente as malas. Enchem-nas de chaves iale e parafusos, fusos horários e rocas peadas. "É para já" dizem. São os que anulam muito bem a coisa de que entre cada dia e cada dia há uma noite inteira para comover-se e pousar. Tomam a pose solar e iludem a chuva e todas as faces da água - provando pois que o espaço pode ser impermeável e a vida dois dias - o que esperaram no susto de antes do antes de ser este dia aplacado que fazem - o dia placa - e este. É a gente do já. Faut les aimer, faut les aimer, dizem as avezinhas de frança nos dias úteis. Mas essas não são o acontecimento, nem sequer seu anúncio.


[...]


Maria Velho da Costa, Desescritas, 1973

terça-feira, 15 de setembro de 2020

A de Aniversário (VI)


A BIRTHDAY


My heart is like a singing bird
Whose nest is in a water'd shoot;
My heart is like an apple-tree
Whose boughs are bent with thick-set fruit;
My heart is like a rainbow shell
That paddles in a halcyon sea;
My heart is gladder than all these,
Because my love is come to me.

Raise me a daïs of silk and down;
Hang it with vair and purple dyes;
Carve it in doves and pomegranates,
And peacocks with a hundred eyes;
Work it in gold and silver grapes,
In leaves and silver fleurs-de-lys;
Because the birthday of my life
Is come, my love is come to me


- Christina Rossetti (1861)

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

N de Nefelibata





SETE PRESENTES


I


Já as conheces
de certo modo são como as pessoas
querem muito encontrar-se:
as nuvens, as palavras.

Por isso agora
após o relâmpago
quando as nuvens lutam por criar raízes
as palavras juntam-se para descobrir

onde se encontram
os que desaparecem.

E os silêncios mudam de lugar.
E a vida é
quase mais estranha ainda
menos nossa

do que supúnhamos.

                                 Já nos conheces.


Abraham Gragera, Adiós a la época de los grandes caracteres
Valência: Pre-Textos, 2005
[Trad. ID]

terça-feira, 8 de setembro de 2020

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXX)


Dizem que em cavidades de alguns poços,
nas fissuras, por onde cresce o musgo,
faz seu ninho por vezes certo pássaro
e solta desde aí seu canto incerto.

Duvidas e cantas: é o teu credo.
Salvar um pouco desse instante único
que chega a ti como um deslumbramento,
como uma convulsão que desfaz
e dilui fronteiras, coutos, limites.
Porque também o tempo, quando quer
e se detém a meio de dois números,
é um peso que eleva, é como um bálsamo
que alivia a dor de viver sem rumo,
de estar perdido onde nada é nada
e tudo muda de essência e forma.

Vive e alegra-te. E morde a fruta
que é ser e respirar ainda hoje
embora ao comê-la o sabor amargue.
Entra sem medo num lugar mais fundo:
não há sendas que saiam deste bosque.

Voa a teu lado o corvo e sentes frio.
Tuas mãos tocam uma porta, um muro.
Ao longe escuta-se um rumor de água.
Cercam-te vozes, passos de outra vida.
Aqui a tua casa: esta névoa.


José Mateos, A Névoa
trad. e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães, 
Lisboa: Averno, 2006







[ID, São Miguel / Agosto 012]

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

P de (Po)ética (LXI)

 



Joaquim Manuel Magalhães, Para comigo,
Lisboa, Relógio D'Água, 2018


terça-feira, 25 de agosto de 2020

N de "Nous deux encore" (III)




João Almeida, As Condições Locais,
Guimarães, Opera Omnia, 2014