sexta-feira, 2 de junho de 2017

V de Vida (IX)




Como falava ele ao pequeno-almoço,
quando abria o verso
sobre a onda que nunca rebentava?
Riscava o coração com aparos
de prata
e num êxtase diário subia ao sótão das palavras
a perguntar por Deus?

Qual a distância entre a criatura
e esse muro indiscreto de suor e sonhos
esse labor de mãos sujas de tinta
essa estrada de nada
e de madeira
esse quadro infantil retido na sanita
esse cuco soturno que afinal é um logro
esses passos perdidos na flanela do tempo
a pequena sílaba que descia do queixo
num líquido sabor a maresia
esses gestos de enfado e paciência
que ajudam a memória a subir ao palco
esse pulso cortado pela lâmina de barba
por fazer e é preciso chegar cedo ao concerto?

O gato dorme no colo.
O cão sabe de cor um soneto de Antero.
A rodilha das mãos espremida
em desespero de causa.
A carne sempre à espera de um talho mais discreto
nos sons, no sangue, na exposição das entranhas.
Chegou o intervalo e a história não acaba.
Acabou o poema e a vida ainda não chega.


Armando Silva Carvalho, Lisboas,
Lisboa: Quetzal, 2000

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