sábado, 23 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXVII)

Faz bom tempo. O ar está lavado, claro. Ao sol, as casas surgem nítidas, separadas. Agora, sempre que faz bom tempo, a angústia torna-me. Sinto uma espécie de impossível e débil reconhecimento em relação não sei a quê. Tudo parece longínquo, fora do meu alcance. Muito altas no céu, nuvens e um pouco de bruma. Tenho medo e confiança ao mesmo tempo. Preciso de respirar. Andorinhas. Um avião. Queria partir para qualquer lado. Perto ou longe. Para um sítio onde estivesse só e me sentisse bem, pudesse dormir de olhos abertos, sentir o ar fresco nas mãos, no rosto. Uma pausa na inquietação. A paz.



Ernesto Sampaio, Fernanda (Fenda)

W de Women’s Studies (II)

«Amada pastora minha,
teus repentes me maltratam,
os teus desdéns atormentam-me,
teus desatinos me matam.

À noitinha tu detestas-me
e queres-me de manhã;
insulto-te ao meio-dia,
e durante a tarde chamas-me;

agora dizes que queres,
e depois que só troçavas,
ris de minhas fracas obras,
choras por minhas palavras.

Quando sofres por ciúmes
estás mais contente e cantas;
e quando estou mais tranquilo
parece que te desgraças.

Criticas-me ao meu amigo
e ao meu inimigo gabas-me;
se não te vejo, procuras-me,
e, se te procuro, zangas-te.

Parti uma vez de ti,
choraste minha ausência grande,
e agora que estou contigo
com a tua me ameaças.

Sem mar nem montes no meio,
sem ter perigo nem guardas,
mar, montes e guardas tens
com uma palavra zangada.

As paredes de tua choça
parecem-me de montanha,
um mar o chegar a vê-las,
mil graças tuas desgraças.

Como tens num só momento
o amor e a mudança;
porém, pintam-no menino,
pouca vista e muitas asas.

Se Filis te fez ciúmes,
o tempo te desengana,
que como ela quer a alguém,
posso por outra deixá-la.

Se a aldeia toda o murmura,
a gente sempre se engana,
e é melhor que tu me queiras,
ainda que ela tenha a fama.

Com tudo isto amedrontas-me,
disfarças e ameaças-me;
se choras, - como detestas?
e se troças, - como amas?»

Isto dizia Belardo
a falar com uma carta,
à sombra de uma oliveira
que o dourado Tejo banha.



Lope de Vega, Antologia Poética, trad. José Bento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011

R de Rebeca (VIII)

Lipnitzki/Roger Viollet/Getty Images


Louis-Ferdinand Céline avec ses chiens, à Meudon, c. 1955

sexta-feira, 22 de abril de 2011

quinta-feira, 21 de abril de 2011

B de Brincar com ossinhos (III)


















"La danse macabre des femmes"

Paris/1491


E de Estar (II)

“Je sens une difficulté d’être.” C’est ce que répond Fontenelle, centenaire, lorsqu’il va mourir et que son médecin lui demande : “Monsieur Fontenelle, que sentez-vous ?” Seulement la sienne est de la dernière heure. La mienne date de toujours. Ce doit être un rêve que de vivre à l’aise dans sa peau. J’ai, de naissance, une cargaison mal arrimée. Je n’ai jamais été d’aplomb. Voilà mon bilan si je me prospecte. Et, dans cet état lamentable, au lieu de garder la chambre, j’ai bourlingué partout. Depuis l’âge de quinze ans, je n’ai pas arrêté une minute. Il m’arrive de rencontrer telle ou telle personne qui me tutoie, que je ne peux reconnaître jusqu’à ce qu’une poigne profonde arrache de l’ombre, à l’improviste, tout le décor d’un drame où elle tenait son rôle, où je tenais le mien, et que j’avais complètement oublié.



Jean Cocteau, La difficulté d’être (1947)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

E de Espera (XIV)





[Esta espera, sim, tem hiperligação. A outra continua...]

B de Biorritmo (LXXVII)

I used to write
I used to write letters
I used to sign my name
I used to sleep at night
Before the flashing lights settled deep in my brain

But by the time we met
By the time we met the times had already changed

So I never wrote a letter
I never took my true heart
I never wrote it down
So when the lights cut out
I was left standing in the wilderness downtown

Now our lives are changing fast
Now our lives are changing fast
Hope that something pure can last
Hope that something pure can last

It seems strange
How we used to wait for letters to arrive
But what's stranger still
Is how something so small can keep you alive

We used to wait
We used to waste hours just walking around
We used to wait
All those wasted lives in the wilderness downtown

[...]

I'm gonna write a letter to my true love
I'm gonna sign my name
Like a patient on a table
I wanna walk again gonna move through the pain

[...]




- ARCADE FIRE

E de Espera (XIII)

AQUI

P de "Portugal não é um país pequeno" (VI)



E de Estar

Termina assim um poema de Juan Bonilla intitulado “El combate del siglo” – e podia ter terminado assim uma conversa:

Nuestra única tarea es conseguir
que cuando la campana anuncie
el final del combate,
el árbitro levante el brazo vencedor de la alegría.
Porque después vendrá la nada:
esa escuadrilla
de limpiadoras
que dejará el pabellón
como si nunca se hubiera celebrado tu combate.

terça-feira, 19 de abril de 2011

B de Brincar com ossinhos

Quand le monde sera réduit en un seul bois noir pour nos quatre yeux étonnés, - en une plage pour deux enfants fidèles, - en une maison musicale pour notre claire sympathie, - je vous trouverai.
Qu'il n'y ait ici-bas qu'un vieillard seul, calme et beau, entouré d'un "luxe inouï", - et je suis à vos genoux.
Que j'aie réalisé tous vos souvenirs,- que je sois celle qui sait vous garrotter, - je vous étoufferai.

*

Quando o mundo estiver reduzido a um só bosque negro para os nossos olhos espantados - a uma praia para duas crianças sinceras, - a uma casa musical para a nossa clara simpatia - encontrar-vos-ei.
Quando aqui só haja um velho, belo e calmo, rodeado de um "luxo inaudito" - ajoelhar-me-ei.
Quando for eu toda a vossa memória - seja aquela que sabe garrotar-vos - estrangular-vos-ei.



Jean-Arthur Rimbaud, Illuminations
[Trad. Mário Cesariny]

S de Satisfação (II)

Termina assim uma das cartas de Emily Dickinson:

No Rose, yet felt myself a'bloom,
No Bird - yet rode in Ether.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

B de Biorritmo - LXXVI b

A de Amor (X)

RÊVE OUBLIÉ



Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.



- António Maria Lisboa

H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (IX)

Para o Miguel, claro, de quem nos lembrámos logo que nos sentámos à mesa:

S de Segunda-feira

ESTAR



En cenas familiares y anchos domingos sórdidos,
en aulas medio llenas donde mi voz no es mía,
en la consulta del doctor sonriente
que firma unas recetas,
sobre el cuerpo desnudo en el que me demoro
para salir de mí transformado en temblor,
en los ojos de un niño en los que nado
hacia una costa ilusa donde el tiempo es mentira,
en las cafeterías donde los ceniceros atestados
medieron otra vez la victoria del tedio,
en álbumes de fotos que historian las huidas
que me condenan hacia el mismo punto
donde empeza a huir,
fulge constante una pregunta, cada letra
un colmillo ensagrentado:
qué estoy haciendo aquí?

Y cuando en la mañana me repito en el espejo
con cara de superviviente único de un accidente aéreo,
y cuando me reflejo en los escaparates
camino de una noche poblada de relámpagos,
y cuando la memoria me nubla el paladar
con el sabor de una boa ya muerta,
brotando de mi piel como uma picadura
otra vez la pregunta que no anhela respuestas:
qué estoy haciendo aquí?

Pero luego una voz dice mi nombre
y yo me reconozco, o sé vivir en los amplios salones
de una canción o sabe bien un cigarrillo
después de tanta nicotina para nada,
y la mano del mundo ordena sus tesoros
y todo está en su sitio formulando un temblor de sí rotundo
y la pregunta pierde sus garfios y las cosas
responden al unísono: Estar es suficiente.

El sol del mediodía santifica las cosas,
convierte lo que baña en um milagro,
pone coraza a la conciencia irresponsable
de ser eternos, hila un cuento antiguo
en el que se derriten las preguntas,
y en todos los espejos desafías
el frío de las cenas familiares,
futuros sórdidos domigos anchos,
tu voz no tuya poyectando ansiosa
a los espectros de la nada y los gigantes del pasado
que estoy haciendo aquí?

No anheles la respuesta:
Estar es suficiente.



- Juan Bonilla, Buzón Vacío, Valência: Pre-Textos, 2006

domingo, 17 de abril de 2011

E de Espinhas para um gato (V)

[Em Leiria]

sábado, 16 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXVI)

B de Biorritmo (LXXV)

S de Solidão (ou C de Comunidade) XVII

Se o rosto que é teu não sabe filtrar
o que és - as dores maiores, mais puras
e fatais - esquece-o, deita fora e esquece
e inventa outro, mais feliz, mais longe



Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado, 1989

[O manuscrito deste poema faz parte da exposição "Hand Made",
no Bartleby Bar]

sexta-feira, 15 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXV)


Um pormenor da exposição "Primitivos Portugueses (1450-1550)",

Museu Nacional de Arte Antiga.


B de Balbuceio

[...]
Mas quando o tempo se desliga do tempo
e se transforma em boca,
grandes molares negros
e garganta sem fundo,
queda animal num estômago
animal sempre vazio,
engano com canções selvagens a sua fome.
Face ao céu, equipado para o nada,
canto o canto do tempo.
No dia seguinte, nada me fica
destes gargarejos.
E digo-me: a hora não é de canções,
mas de balbuceios.
Deixa-me contar as minhas palavras,
uma a uma.
Arrancadas à insónia e à cegueira,
à cólera e ao nojo
- são tudo o que possuo,
tudo o que possuímos.

[...]


Octavio Paz
(trad. Mário Cesariny)

S de Solidão (ou C de Comunidade) c

La strada sgombra
non è una via, solo due mani, un volto,

quelle mani, quel volto, il gesto di una

vita che non è un’altra ma se stessa


Eugenio Montale




Lisboa, 14/04/11


[É bom quando os amigos nos dão a mão e alguns versos.]

quinta-feira, 14 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros - XXIXb


Campo de Ourique/2011


terça-feira, 12 de abril de 2011

B de Biorritmo (LXXIV)



[...]
Send in a cloud with a silver linin',
Take me to paradise.
Show me that river,
Take me across,
Wash all my troubles away
Like that lucky old sun give me nothing to do
But roll around heaven all day.

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (V)

14

Quantas palavras para completar o silêncio? Quantas folhas? Quantos cadernos? Quantos armários para os arrumar? Quantos aniversários? (o jantar no restaurante, o esforço de um sorriso a maquilhar a angústia, quantos anos tenho?, e contudo por dentro, o silêncio a doer, quantos anos faço?) Quantos verões? Quantos invernos? (os dias junto à janela onde a água escorre, os dias sucessivos, uma manhã um intervalo de sol, uma flor soerguida entre as ervas, sorri?, e saber que é outro verão que chega, outro inverno que nele se prepara) Quanto tempo?


- Jorge Roque, O chão serviu-lhe de céu (1999)

L de (A) Luz da Sombra (IV)

William Hammershoi (1864-1916), "Mulher lendo à janela"

C de Chocolate Jesus (III)

Dependendo dos dias, ainda melhor do que o Vigor Chocolate:

S de Solidão (ou C de Comunidade) XVI

HOMENAGEM A ALLEN GINSBERG



“Vi os melhores espíritos da minha geração destruídos
pela loucura, morrendo à fome histéricos nus”

uiva Allen Ginsberg, poeta americano de S. Francisco,
com os cabelos em desalinho
Eu vi a mesma coisa por cá, Allen,
e penso que acontece assim em toda a parte
Era um grupo, não pròpriamente um grupo, mas
um grupo que se sentava
sempre de costas, ou de lado, sob a chuva
torrencial que algumas palavras provocavam ao abrir-se
Bebia-se muito bagaço, cafés uma vez por outra,
o sangue podia beber-se à vontade:
bastava cortar as veias às mulheres que se aproximavam
Uns escreviam livros que rasgavam
devia ser numa praia para a maré levar as folhas
e de noite, sem lua, bem no alto do rochedo
Outros publicavam nos jornais, raramente
Havia, claro, o papa, os papas, já os escritores
com oficina montada para as bandas da Sé Velha
E os que não morreram, não enlouqueceram ou não se suicidaram
e os que não traíram
esses vão vivendo como podem
e são agora papas cardeais arcebispos
Alguns forçados a voto de pobreza
arrastando-se pela Europa como o meu amigo
Manuel de Castro
um dos melhores espíritos da minha geração, Allen Ginsberg,
que embora não acredites, ainda resiste,
árabe na linha do seu destino infalível
acendedor de palavras
visionário de técnicas amorosas, combativas, mágicas
Mas como ia dizendo, Allen, era um grupo, não pròpriamente
mas um grupo
cujos elementos talvez se odiassem
ou então era amor, sobretudo raiva
contra a cidade senil

Ninguém trabalhava
e os poucos que trabalhavam eram despedidos no dia seguinte
ameaçavam (murmurava-se) as famílias, as instituições,…
Eles
uma família azul que fumava cigarros baratos
que se embebedava com muitas prostitutas
e da qual, desregradamente, certos membros
praticavam a homossexualidade por esteticismo
Era um grupo, não pròpriamente, mas
um grupo, Allen Ginsberg,
de anjos caídos, trémulos, atrás duma nota de vinte
para jantar



- António Barahona, Impressões Digitais (1968)

F de Falar para as paredes (VII)

[Em Campo de Ourique]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

domingo, 10 de abril de 2011

A de "Ash Wednesday"*





[O poema belíssimo do post veio do sítio do costume. * O título do post veio de um poema belíssimo de T. S. Eliot.]

B de Biorritmo (LXXII)

T de "(um) torso dobrado pela música" (V)

Dinamarca, 2006

L de (A) Luz da Sombra (III)

Rui Miguel Ribeiro

"O jardim possível"

sábado, 9 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXIV)



[Obrigada, David - e prometo que vou tentar manter a minha obsessão por pássaros sob controlo...]

sexta-feira, 8 de abril de 2011

F de Fazer Fotografia (XLIV)


Ara Güler


[Gosto muito da luz, das sombras e, sobretudo, dessa outra espécie de sombra - o gatinho preto que dorme ao sol em segundo plano]

quinta-feira, 7 de abril de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXII)

– E era boa no que fazia? – perguntou Pinata.
– Excelente. Doce, compreensiva, de confiança. Oh, por vezes tinha tendência para se enervar e perder um pouco a cabeça em situações de emergência, mas nada de sério. E todos os miúdos a adoravam. Tinha jeito, como acontece com muitas mulheres sem filhos, para fazer com que os miúdos se sentissem muito importantes e especiais, em vez de algo que acontecera devido ao encontro casual de um espermatozóide e de um óvulo. Uma boa pessoa, a Sra. Harker. Tivemos pena de ficar sem ela.


Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo, Averno

V de Vista para um saguão



Com a tarde
cansaram-se as duas ou três cores do pátio.
Esta noite a luz, o claro círculo,
não domina o seu espaço.
Pátio, céu demarcado.
O pátio é o declive por onde se derrama o céu na casa.
Serena,
a eternidade espera na encruzilhada de estrelas.
Grato é viver na amizade escura
de um saguão, de uma latada e de uma cisterna.


- Jorge Luis Borges


[O saguão do poema é do sítio do costume. O saguão da fotografia é da casa do gato que gosta de olhar para o pássaro.]

quarta-feira, 6 de abril de 2011

B de Biorritmo (LXX)

Fazia parte da melhor "mixed tape" que me ofereceram:

segunda-feira, 4 de abril de 2011

W de Women's Studies

"A mulher levou uma mão ao peito como se alguma coisa tivesse rebentado debaixo do vestido, o coração ou, se calhar, apenas uma alça do sutiã."


Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo, Averno

P de Prazeres (III)

[...]
And all I do is pour
Black coffee
Since the blues caught my eye
I'm hangin' out on Monday
My Sunday dreams to dry
[...]


domingo, 3 de abril de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XIV

The bats are in the belfry
The dew is on the moor
Where are the arms that held me
And pledged her love before
And pledged her love before

It's such a sad old feeling
The hills are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream

I made a golden promise
That we would never part
I gave my love a locket
And then I broke her heart
And then I broke her heart

And it's such a sad old feeling
The fields are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream
Innocent when you dream

Running through the graveyard
We laughed my friends and I
We swore we'd be together
Until the day we died
Until the day we died


And it's such a sad old feeling
The fields are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream, when you dream


TOM WAITS
(autor de uma epígrafe de José Miguel Silva)

B de Biorritmo (LXIX)



[...]
What are we coming to
No room for me, no fun for you
I think about a world to come
Where the books were found by the Golden Ones
Written in pain, written in awe
By a puzzled man who questioned
What we were here for
All the strangers came today
And it looks as though they're here to stay
[...]

sábado, 2 de abril de 2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

B de Biorritmo (LXVIII ou Págs. 167 e 168*)

Soft over the fountain,
Lingering falls the southern moon;

Far over the mountain,

Breaks the day too soon!

In thy dark eyes' splendor,

Where the warmlight loves to dwell,

Weary looks, yet tender,

Speak their fond farewell.


Nita!Juanita!

Ask thy soul if we should part!

Nita!Juanita!

Lean thou on my heart.


[...]



"Juanita" is a love song subtitled "A Spanish Ballad". It was first published in 1855 attributed to Mrs. Norton, with music arranged by T.G May. The opening four-bar phrase of the song is taken from Handel's aria "Lascia ch'io pianga" from the opera Rinaldo, although the subsequent melody differs from that of the aria.


* Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo, Lisboa: Averno, 26 de Março de 2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

R de Rebeca (VII)

C de Culinária Mediterrânea

EMENTA 27.03.11


Parábola da culinária mediterrânea
A poesia é como as ovas de ouriço-do-mar
sabe melhor com um pouco de acidez

David Teles Pereira


Entrada [Obrigada, Rui]:
Cogumelos com manteiga de ervas aromáticas e amêndoas
Espargos com molho de iogurte

Acompanha: Lenz Moser Prestige, 2007



Foto de RMR


Prato Principal [Obrigada, Maria Antónia]:
As melhores francesinhas do mundo

Acompanha: Koeher-Ruprecht, Riesling, 2007



Sobremesa [Obrigada, Miguel]:
Tarte de pêra

Acompanha: Averna e digestivos. E uma roda de amigos, e um gato de sono tranquilo, e muitas rosas amarelas.


Foto de Rui Miguel Ribeiro


B de Biorritmo (LXVII)

S de Solidão (ou C de Comunidade) XIII

AMIGO


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta,
que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O’Neill,

in No Reino da Dinamarca

quarta-feira, 30 de março de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XII

P de (Dois Anos de) Pássaros - XXXIIb



[Continua a ser a minha versão preferida.]

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXIII)

PÁJARO


Escúchale, ya que no puedes verle
en la pineda oscura.
Lleva cantando un siglo
y ninguna palabra de las suyas
ha sido pronunciada
más alta que la otra. Así su música
el camino te enseñe hacia la sombra
que en la sombra tú buscas.


Andrés Trapiello, Habla y otros poemas,
col. "A Quien conmigo va", Sevilha: Renacimiento, 2003
(300 exs)

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXII)

terça-feira, 29 de março de 2011

R de Rebeca (VI)

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXI)

René Magritte, "Jeune fille mangeant un oiseau (Le Plaisir)", 1927

segunda-feira, 28 de março de 2011

B de Biorritmo (LXVI)



What power art thou,
Who from below,
Hast made me rise,
Unwillingly and slow,
From beds of everlasting snow!

See'st thou not how stiff,
And wondrous old,
Far unfit to bear the bitter cold.

I can scarcely move,
Or draw my breath,
I can scarcely move,
Or draw my breath.

Let me, let me,
Let me, let me,
Freeze again...
Let me, let me,
Freeze again to death!


[Música de Henry Purcell / Letra de John Dryden]

B de Biografia (III)



[Obrigada, Mariana]

T de "(um) torso dobrado pela música" (IV)

domingo, 27 de março de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXX)

Linhas no caminho para o lançamento de Linhas de Hartmann, ontem:




[Agradecemos que não atirem pedras às andorinhas; só à fotógrafa.]

F de Fazer Fotografia (XLIII)


[Ou várias razões para eu deixar a fotografia para quem sabe]

T de Tratado de Pedagogia (XXI)

Era a partir desta morna que eu costumava explicar a lírica camoniana aos meus alunos:



Oh camponesa formosa

De olhos gentis de matar

Vem clarear-me a tristeza

Vem clarear-me a tristeza

Com a luz do teu olhar


Mostra-me o trilho florido

Que ao teu afecto conduz

Dá-me o teu braço amorável

Dá-me o teu braço amorável

Sou um ceguinho sem luz


Tu que descalça e risonha

Percorres montes e vales

Deixa que eu siga os teus passos

Deixa que eu siga os teus passos

Deixa que esqueça os meus males


Leva-me assim pela mão

Lá pelos romances da serra

Tira-me tudo, a cidade

Tira-me tudo, a cidade

Que me entristece a terra


Quero ser para ti
como Jacob a Raquel
Quero morrer a teus pés

Quero morrer a teus pés

Como teu cão mais fiel

sábado, 26 de março de 2011

V de (O) Vermelho e o Negro

Venus anatomique, se détachant en 40 parties,
19e siècle,
Montpellier, musée de la faculté des Sciences

A de Aniversário (IV)

Some people become so expert at reading between the lines they don’t read the lines.
MARGARET MILLAR
(5 de Fevereiro de 1915 - 26 de Março de 1994)

B de Biorritmo (LXV)

S de Santa Cruz

VIDA SOCIAL

Idealizavas uma solidão
de música e leitura,
de passeios de Inverno junto ao mar.
Mas a solidão
é a chuva que mancha os vidros
deste comboio dos anos.
A solidão é a palavra dura
do mau humor acre da família.
É a lei do acaso, obscura, injusta.
É não ter dinheiro. É ter medo.
É o sexo, uma estranha pista falsa
que leva até ao mais cruel dos espelhos.
É não ter desculpa pelo que não se viveu
nem esperança no que não se viverá.

Joan Margerit, Aguafuertes,
Sevilla: Renacimiento, 1998
[trad. ID]

sexta-feira, 25 de março de 2011

S de Sete rosas mais tarde (IV)

S de Solidão (ou C de Comunidade) X

MEMÓRIA DE JEAN COCTEAU


O amor está tão perto de ser ódio.
Não dispenso a cratera dos boémios,
onde se encontram místicos e génios
unidos ao distúrbio.

O ódio está tão perto do amor.
Não dispenso a cratera d'homens santos,
onde se encontram bons boémios bentos
bem unidos à dor.

Os extremos não se tocam: fundem--
-se até se tornarem num só traço,
muito cingido, em truculento abraço
d'infinita vertigem.

Dificuldade de ser: não mentir,
não escrever mais poemas, não falar;
apenas, ao de leve, expirar
e morrer a sorrir.


António Barahona, O Som do Sôpro,
Lisboa: Poesia Incompleta, 2011

B de Biorritmo (LXIV)

quinta-feira, 24 de março de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXIX)

Uma pomba
alanceando a luz
isenta-se da terra;

sem prendê-la, sustém
a sombra que despiu
e voa livre sob ela.



José Bento, Sítios,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2011



[Primeiro ensaio de fotografar a sombra de um pássaro a voar]

P de (The) Privacy of Rain (XI)

Em jeito de resposta, lá fora começa a chover tão de repente que os pássaros ainda não se abrigaram, nem a luz decidiu retirar-se.

B de Biorritmo (LXIII)



"Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura"

quarta-feira, 23 de março de 2011

F de Flor Suficiente (V)

[Lisboa, Março 2011]

terça-feira, 22 de março de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XX) - No fundo, é isto:


ADENDA


Para a Inês e à memória
de quantas andorinhas matei


Como a fotografia que tiras, a pedra
que vos lancei desde essa primavera
da minha infância
tinha (se me perdoares a franqueza)
a mesma intenção: capturar o momento.
Mas um jeito rude, cretino, o desejo
quando só sabe ser grosseiro, antes
de ganhar bons modos, mais artísticos.
Em vez de «para sempre»
ou apenas «para mais tarde recordar»,
ali mesmo se precipitava, atropelando
a realidade nesse seu golpe possessivo.
Não sabendo reproduzir, criar igual,
vai destruir – para ter pelo menos
mão na coisa, um papel qualquer
ainda que seja o de vilão.

Não espero que o entendas. Por sorte,
eu entendo-te. E o que nos separou
talvez recorde aos dois o nosso papel.
Chama-se educação, professora.


Diogo Vaz Pinto
in AAVV, A propósito de andorinhas,
Lisboa, 18 de Abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros - mais andorinha, menos andorinha... (XXVIII)


"Les vrais enfants sont ceux qui ont passé leur enfance dans les arbres à dénicher des nids, et perdu leur vie."

segunda-feira, 21 de março de 2011

B de Biorritmo (LXII)

Para o Rui, uma recordação de Vigo:

P de "Portugal não é um país pequeno" (V)

Lisboa, 20/03/11

domingo, 20 de março de 2011

A de "até que os fios do coração" (II)

T de Toponímia Poética (IV)


[Foto de Marta Chaves]

B de Biorritmo (LXI)



"[...]
Parsem nem mar, nem lua cheia
Nem sol brilhante, nem noit' serena
[...]"

sábado, 19 de março de 2011

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XIII)

M de Música para os meus olhos (XI)

E para os meus dedos:

Giovanni Girolamo Kapsberger: "Libro Primo d'Intavolatura di Lauto"

(onde se lê alaúde, leia-se agora harpa)

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XII)

NOCHE


Qué imposible la noche que no venía contigo
ni llegaba por ti. Qué imposible,
y que lentos
sus dedos de cuchillo arañando mi espalda,
destrozando mi espalda,
que no supo más noche que la luz de tus dedos.


Ángel Mendoza, Cercanías,
Valência: Editorial Pre-Textos, 2002

sexta-feira, 18 de março de 2011

C de "Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." (II)

[Começaram por ser 12 e ficaram só 10.]

N de "Notre Dame des Gargouilles" (II)


Barcelona, 2007

P de Poesia (III)

B de Biorritmo (LX)

quinta-feira, 17 de março de 2011

F de Fazer Fotografia (XLII)

P de "Portugal não é um país pequeno" (IV)

Porto, 08/03/11

Q de Quem te avisa teu amigo é

Mais do que o filme que acabei de rever,
há momentos/dias que deviam chegar com um aviso destes:

quarta-feira, 16 de março de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XIX)

HABLANDO EX CATHEDRA


Es la classe. Y explico a mis alumnos, seriamente,
cosas creíbles en que yo no creo.
Que el hombre del Barroco, por ejemplo,
es distinto y distante de aquel de la Edad Media.
Que algo cambia
si unos hombres deciden ser vanguardia
o publicar un manifiesto.

Que la vida se afecta si el hormigón desplaza al arquitrabe.
Ellos toman apuntes y parecen creerlo.
Pero, como explicarles, contra toda evidencia,
que el tiempo nunca pasa?
Como decirles eso? Contra toda evidencia,
que aqui estaremos sempre. Y que seremos
no más de lo que hoy somos y ayer fuimos.

Y continúo monótono y cansino,
hablándoles de cambios y rupturas.
Porque al mirar sus rostros com acne y maquillaje,
su soñolienta piel elástica, sus piercings,
sus cuadernos apenas comenzados,
no acabo de atreverme
a decirles que el tiempo nos entierra
capa tras capa sobre el mismo sitio
,
que somos substitutos del soldado que cae,
e del actor que enferma,
que jugamos una misma comédia com arreglos,
que Edad Media, Barroco, Ilustración, Romanticismoson tan sólo migajas
del pavor en el bosque del tiempo
y continúo
dictándoles apuntes,
explicándoles crisis, y cortes, y rupturas,
y finalmente
no, no me decido
– no sé si es compasión o es puro miedo,
Y no sé si por ellos o por mí
– a romper los esquemas,
a salirme ni un pelo del programa.


Enrique BaltanásIn Isla de Siltolá – Revista de Poesía, I, Sevilla, 2010

P de Poesia (II)

Isto, sim, é um filme sobre poesia:

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXVII)

Home is a place
To get a letter
If they can find you
I have heard
Because you can't
Send a letter
To a bird
You can't send a letter
To a bird.


Tom Waits, Seeds on Hard Ground (2011)

terça-feira, 15 de março de 2011

N de "Notre Dame des Gargouilles"

O Rei da Catalunha - IV


para a Inês


Sombra de ninguém, gémeo
do Unicórnio que há séculos desafia
um céu feito de injúrias e promessas.

Sobreviverás, de pé, à última noite
do mundo?


Manuel de Freitas


[Para o Ricardo, a minha gárgula preferida, na Catedral de Barcelona.]


P de Poesia


[No Lucca, sessão das 21h30, 9/10]

B de Biorritmo (LIX)

EL PASO DE LA SIGUIRIYA

Entre mariposas negras
va una muchacha morena
junto a una blanca serpiente
de niebla.

Tierra de luz,
cielo de tierra.

Va encadenada al temblor
de un ritmo que nunca llega;
tiene el corazón de plata
y un puñal en la diestra.

¿Adónde vas, siguiriya,
con un ritmo sin cabeza?
¿Qué luna recogerá
tu dolor de cal y adelfa?

Tierra de luz,
cielo de tierra.

Federico García Llorca

segunda-feira, 14 de março de 2011

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (IV)


[Via Miguel Pires Cabral]

domingo, 13 de março de 2011

B de Biorritmo (LVIII)



[Ao vivo é tão mágico que saí hoje do concerto a achar que conseguia dançar.]

F de Fazer Fotografia (XLI)


[E falta rescrever
este post para acrescentar a luz que os amigos trazem ao mundo.]