quarta-feira, 21 de março de 2012

P de Poesia (X)


Tonino Guerra
1920 - 21 de Março de 2012

[Fotograma de Nostalghia]

terça-feira, 20 de março de 2012

P de Primavera (XIV)

Enviaram-me este poema noutra Primavera:
 
 
SPRING QUIET


Gone were but the Winter,
Come were but the Spring,
I would go to a covert
Where the birds sing.

Where in the whitethom
Singeth a thrush,
And a robin sings
In the holly-bush.

Full of fresh scents
Are the budding boughs
Arching high over
A cool green house:

Full of sweet scents,
And whispering air
Which sayeth softly:
“We spread no snare;

“Here dwell in safety,
Here dwell alone,
With a clear stream
And a mossy stone.

“Here the sun shineth
Most shadily;
Here is heard an echo
Of the far sea,
Though far off it be.”


- Christina Rossetti
 

F de Fazer Fotografia (LX)

segunda-feira, 19 de março de 2012

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XVIII)

DE MOMENTO EM MOMENTO


Porquê este caminho e não outro? Onde é que ele vai dar para nos atrair tanto? Que árvores e que amigos estão vivos atrás do horizonte das suas pedras, no milagre longínquo do calor? Viémos até aqui porque lá onde estávamos já não era possível. Torturavam-nos e queriam-nos escravos. O mundo, hoje em dia, é hostil aos Transparentes. Foi preciso partir de novo... E este caminho, que parecia um longo esqueleto, trouxe-nos a um país que só tinha o seu próprio fôlego para escalar o futuro. Como mostrar, sem as trair, as coisas simples desenhadas entre o crepúsculo e o céu? Pela virtude da vida teimosa, nos meandros do Tempo artista, entre a morte e a beleza.


René Char,
no prefácio a um dos meus livros de fotografia preferidos

[Trad. ID]

domingo, 18 de março de 2012

Pássaros anónimos (IV)


[Sete Rios, Março 2012]

sábado, 17 de março de 2012

P de Pássaros anónimos (III)

RECORDAÇÃO DA INFÂNCIA


Enterrei um pássaro
no chão do jardim
e ele voou tanto
que pousou em mim.

*


  A NOITE MISTERIOSA

Quando durmo, um pássaro
pousa no meu ombro.
Vou sem minha sombra
por essa alameda
que só há nos sonhos.
O sol rompe a névoa
que cai do céu branco.
O pássaro voa
e termina o assombro.


Lêdo Ivo

sexta-feira, 16 de março de 2012

F de "(Une) famille d'arbres" - II d *

Não fazer nada
visível murchar
As minhas mãos pertencem a um bater de asas roubado
Com elas vou cosendo um buraco
mas elas suspiram junto a este abismo aberto -


Nelly Sachs

* II


R de Regresso ao Trabalho (XLI)




A vista dos dias úteis

V de Vista para um pátio (II)

quinta-feira, 15 de março de 2012

P de (The) Privacy of Rain (XXIV)

ANIVERSÁRIO COM ESTÁTUA



Misturadas com a chuva, as recordações
deslizam pelo rosto
de mármore meio oculto pelas heras.
Penso que hoje a pena é maior
por causa da verde emboscada da chuva
que esta manhã te levou ao pátio.
Olho o rosto de mármore. Diz isto:
a terra promtida era a morte.


Joan Margarit, No estaba lejos, no era difícil (2011)

P de (The) Privacy of Rain (XXIII)




[...]

Maybe tomorrow
Today looks like it's bringing rain
And I'll leave everything in order
I don't want nothing standing in my way
There are jobs needing tending
And logs that are waiting to stack
And I'll leave everything in order
I don't want nothing that's gonna hold me back
    
  

quarta-feira, 14 de março de 2012

A de Anomalia Poética (II)


[Lisboa, 13/03/12]

R de Regresso ao trabalho (XL)


A luz dos dias úteis

terça-feira, 13 de março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (VIII)


Até a sombra das árvores já sonha, a cores, com a chegada da Primavera.

B de Biorritmo (CXXI)




Le corbeau s'approche
Atterit sur l'épaule de celui qui écrit
Reviens lui picorer le cou
Les veines sortent des chairs
Le sang se répand sur la page
Il crie ses dernières lignes
Et s'endort

[...]


[Obrigada, Rosa]

A de "até que os fios do coração" - XI b

LÍRICA DOS 70 ANOS


Que ninguém procure nesta lírica
grandes fogueiras solesticiais.
Quem as acende são os filósofos
e as religiões, mas não protegem
do frio que há na metafísica,
o mesmo que há na superstição.

Se neste frio tens de queimar a tua vida,
volta à terra dura.
Suporta quem foste
e não entres docilmente no teu inverno.

Esta mulher com quem discutes
mente sobre o passado, tal como tu.
Triste ao seu vento, ama-te amaldiçoando-te.
Mas não entres docilmente no teu inverno.


Joan Margarit, No estaba lejos, no era difícil (2011)
 

domingo, 11 de março de 2012

A de "até que os fios do coração" (XI)

[...]
El miedo no es más que la falta de amor, un pozo que tratamos de llenar inútilmente con las cosas más variadas, en una acción directa, sin subtilezas, que no se acaba nunca, porque el pozo siempre está igual de vacío y oscuro. Cuando no se entiende el miedo, no se puede intentar nada más que esta acción sin matices, que es la del egoísmo, porque no puede tener en cuenta nada más que, sin saber de donde procede, rellenar el proprio vacío. Entonces, el amor quizá no está lejos, pero es difícil. Hay que volver al tiempo antes del pozo, saber cómo y cuándo comenzó a cavarse. A mi edad esto es ineludible. A la sustitución del miedo por la lucidez, lo llamo dignidad. Entonces es cuando resulta que el amor no estaba lejos ni era difícil.
[...]


Joan Margarit,
no epílogo a No estaba lejos, no era difícil (2011)
  

T de Tratado de Pedagogia (XLV)

A EXPLICAÇÃO



De manhã cedo, à hora em que as ruas
se enchem de crianças
que vão para a escola, sente-se
no ar uma nova dignidade.

Alguns frequentam escolas pequenas com jardim
e professores que nunca levantam a voz.
Crianças com gestos dificeis que lembram
alguém que um dia se perdeu no ar.
Os seus pais choram com frequência
quando ficam sozinhos.

Demora-se tanto a entender.
Por isso ninguém tem duas oportunidades.
Mas estas crianças nunca o saberão,
digo eu, enquanto penso no sorriso
que hoje, angustiado, sinto a desvanecer-se.
Já só restam algumas memórias
para me explicar que é no amor
que fui deixando a vida.


Joan Margarit, No estaba lejos, no era difícil (2011)

T de Tratado de Pedagogia - XXVI b

sábado, 10 de março de 2012

B de Biorritmo (XXVI)


Uma canção com versos em dois poemas.

M de Mesa de Amigos - V b

Vi-o sair de casa
o fogo tinha-se-lhe pegado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
debaixo do braço
dentro estava pesada de letras e números
toda uma matemática -
No seu braço estava marcado a fogo:
7337 o indicativo
Estes algarismos tinham-se conjurado uns c'os outros
O homem era agrimensor
Já os seus pés se elevavam da Terra
Um esperava lá em cima por ele
pra construir um novo paraíso
"Mas espera - em breve repousarás também -"


Nelly Sachs, Poemas, trad. Paulo Quintela,
Lisboa: Portugália Editora, 1967

sexta-feira, 9 de março de 2012

P de Poesia - IV b

Se não pudermos dar tudo à poesia - e tudo quer dizer toda a verdade que há na nossa vida - não devemos continuar.


Joan Margarit, Nuevas cartas a un joven poeta (2009)

quinta-feira, 8 de março de 2012

S de Solidão (ou C de Comunidade) XL

[...]

O poeta e o leitor sabem que este caminho até ao crescimento interior passa por uma aproximação à lucidez, à verdade. Trata-se de fazer frente à desordem, à dor, ao mal, de maneira a que fique iluminado - como o pão de Dalí naquele quadro que é um dos melhores deste pintor - com uma claridade que por si só já consola. Uma claridade que - misteriosamente - permite viver sem necessidade de esquecer. Este é, para mim, o território da poesia, porque esta iluminação é a que o poema proporciona. Este é o objectivo, tanto de quem escreve como de quem lê poesia: alcançar cada um a sua própria maneira de fazer frente à solidão.


Joan Margarit, Nuevas cartas a un joven poeta,
Barcelona: Barril Barral, 2009

R de Regresso ao trabalho? - XXXIX




Take it easy boy, boy, 
go to your home smoke a cigar
take it easy boy, boy,
let the others do the hard work for you.
Take it easy boy, boy,
spend ev'ry dime have a good time
take it easy boy, boy,
let the others make the money to you.


If you don't do what I say
you will soon grow old and gray
just walk out be glad and gay
singing ha-ha hay, hay.


Take it easy boy, boy
go to your home smoke a cigar
take it easy boy, boy,
let the others do the hard work for you.

A de "Até que os fios do coração" (X)


O coração, hoje.

quarta-feira, 7 de março de 2012

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (VII)


No regresso a casa.

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XVII)

CONTRA LOS PUENTES LEVADIZOS


Pero ¿cómo sería tu amor
sin tus rencores?
Pablo Armando Fernández


hurrah! por fin ninguno
es inocente
Juan Gelman


[...]

2


No sé si es el momento
de decirlo
en este punto muerto
en este año desgracia

por ejemplo
decírselo a esos mansos
que no pueden
resignarse a la muerte
y se inscriben a ciegas
caracoles de miedo
en la resurrección
qué garantía

por ejemplo
a esos ásperos
no exactamente ebrios
que alguna vez gritaron
y ahora no aceptan
la otra
la imprevista
reconvención del eco

o a los espectadores
casi profesionales
esos viciosos
de la lucidez
esos inconmovibles
que se instalan
en la primera fila
así no pierden
ni un solo efecto
ni el menor indicio
ni un solo espasmo
ni el menor cadáver

o a los sonrientes lúgubres
los exiliados de lo real
los duros
metidos para siempre en su campana
de pura sílice
egoísmo insecto
ésos los sin hermanos
sin latido
los con mirada acero de desprecio
los con fulgor y labios de cuchillo

en este punto muerto
en este año desgracia
no sé si es el momento
de decirlo
con los puentes a medio descender
o a medio levantar
que no es lo mismo.


[...]

MARIO BENEDETTI

terça-feira, 6 de março de 2012

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXIX

MEJOR TE INVENTO


Estás alicaído, estás dudando,
no te alcanzan las pruebas ni las preces,
cada Dónde te ofusca, cada Cuándo.

Recorres el confort, las estrecheces
que quedaron atrás y es razonable
que reclames la vida que mereces,

las ventanas de paz, el techo estable.
Pero yo, te confieso, prefería
(cómo querés, hermano, que te hable?)

cuando tu vieja angustia estaba al día
con la angustia del mundo, cuando todos
éramos parte en tu melancolía.

Sé qué polvos trajeron estos lodos
pero saberlo no es la mejor suerte.
Inventaré quién sos. De todos modos,

inventarte es mi forma de creerte.


MARIO BENEDETTI
III



Bésale las piernas a la poesía
aunque diga que no / que aquí nos pueden ver
bésale las palabras hurga su luenga / hasta
que abra los brazos y diga Santo Dios!
o hasta que santodios abra los brazos de escándalo
bésale a la poesía a la loba
aunque diga que no que hay mucha gente que
aquí nos pueden ver / bésale las piernas las palabras
hasta que no dé más hasta que pida más
hasta que cante.


Jorge Boccanera
in Nueva poesía argentina (1987)

segunda-feira, 5 de março de 2012

B de Biorritmo (CXX)

A versão que passava ao lado, na rádio:

P de Pássaros anónimos (II)


[Num dos meus jardins de sempre, 1/3/12]

E de Espera (XVII)

HOMBRE EN LA SINAGOGA


Solía venir aquí en busca de consuelo
cuando amaba a una mujer que no me quiso.
Y cuando desoí a quienes me oyeron
y herí a quienes me amaron,
vine aquí en busca de perdón.

Un día estalló el último espejo
y mi vida fue un peso sin forma
y aquí volví en busca de Dios.
Dios calló como siempre
y entonces descubrí la sinagoga:
sus sólidas paredes,
el gratísimo silencio,
la fresca paz de este recinto en el verano,
y ya no me fui más.

Afuera la inclemencia empuja a la fe
y la fe al vacío.
Aquí dentro la ausencia de Dios importa poco.


Santiago Kovadloff
in Nueva poesía argentina (1987)

domingo, 4 de março de 2012

I de Intimidade

"Ah, pose
ton coude sur mon coeur."

PAUL VERLAINE

sábado, 3 de março de 2012

P de (The) Privacy of Rain (XXI)

LO FUSILARON CONTRA EL PAREDÓN DEL BAJO FLORES


Para que se borre de esta pared la sombra del pájaro
que esta madrugada surcaba el cielo en el preciso instante,
hará falta que la lluvia descascare la cal, trabaje las grietas
y la tierra enrojecida vuelva a ser barro bajo la lluvia,
hará falta que los hombres caminen ese barro, huella tras huella,
cansados como si toda la lluvia pesara sobre ellos.
Para que se borre de esta pared la sombra del pájaro
harán falta otras manos de cal, otras manos.


Alberto Szpunberg
in Nueva Poesía Argentina  (1987)

sexta-feira, 2 de março de 2012

T de Tratado de Pedagogia (XLIV) *


* ou R de Regresso ao Trabalho.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

F de Fazer fotografia - VII b

Não era o que queríamos     esta coisa a rasar a tristeza
e afinal até fiquei com um retrato
Agora hei-de ter sempre o Fellini ao teu lado
é     qualquer coisa que vem do cinema     não estava à espera
o Mastroianni no seu requiem     e nós também
mas nós ainda com as luzes de Lisboa     em direcção
ao bairro     as flores querendo romper do chão em obras
e eu sem saber ao certo em que céu guardar o meu segredo


Abel Neves

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XVI)

A de Anjos caídos (IV)


O meu carrossel dos dias úteis.


C de Carrosséis (XIV)

Henriette Grindat, Lausanne, c.1950

B de Biorritmo (CXIX)

TROUBLE IS A MAN


Nova Iorque, 1986: sente-se atraída
pela capa de um disco chamado Evol,
onde uma das canções se chama Marilyn Moore.
Não é fácil, para uma morta, ressuscitar
tão inesperadamente. Há, portanto,
quem se lembre do seu silêncio em tempo de ruído.

Em casa, o disco causa-lhe primeiro horror,
depois uma breve simpatia, e acaba
por reconhecer que a letra é o mais fiel retrato
que alguma vez pôde ter de si própria: "frustrated desire
turns you away/ and turns you insane/ over and over".

Marilyn Moore sabe, finalmente, que já pode morrer.




Manuel de Freitas, Marilyn Moore, com 3 desenhos de Adriana Molder,
Lisboa: Assírio & Alvim, Dezembro 2011

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

B de "[...] but some of us are looking at the stars." b



[...]
I'm waiting for the night to fall
When everything is bearable
And there in the still
All that you feel is tranquillity
[...]

 

A de Anomalia poética




Lisboa, 23/02/12

E de Espera (XVI)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

J de Janelas (VII)


Vilhelm Hammershøi, «Une ancienne cour de christianshavn», 1899


[Via Luis Manuel Gaspar]

M de Música para os meus olhos (XXVII)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

B de "[...] but some of us are looking at the stars."

LIX


AS ESTRELAS SÃO PESCADORES E ANDAM À PESCA DE GENTE


     Quanto mais avançava a noite mais se aclarava o céu. Bem podia o sol andar a mostrar as coisas a toda a luz quando o Antunes só de noite é que as sabia ver todas juntas, ainda para lá das estrelas! E não era todas as noites. Há noites como esta que marcam a vida de uma pessoa. Nunca a sua cabeça estivera tão a gosto como hoje àquela janela e com todo o espaço para voar. Nenhuma janela de nenhum andar se pode comparar à independência de uma janela de telhado. O Antunes reparou que ao começar a noite as primeiras janelas a acenderem-se eram as dos pátios, e alta a noite as últimas a apagarem-se as das águas-furtadas. Não admira, ficam mais perto das estrelas, e é por isso que subiram para cima dos telhados, para as ouvir melhor. Se não houvesse as águas-furtadas, o mundo estaria todo ainda por fazer e, além disso, em que outro sítio iriam ficar os descontentes? Quantas vezes o sol com a sua mania da pontualidade deixou por acabar a solução da humanidade numa água-furtada? Doce espectáculo da humanidade sem o contacto das gentes. Saudável refúgio que enche o quarto sem nada nas gavetas. Último patamar do mundo para descer ou subir, à escolha, à nossa escolha. A nossa vontade está-se a procurar no inconsciente da madrugada. Ou não é da vontade que se trata, é só do inconsciente, tão necessário nestes dias tão certos. Porque não me hei-de explicar, se tenho em mim todos os dados? Hei-de morrer sem saber dizer-me todo? Hei-de acabar por não me dar a conhecer bem a mim nem aos outros?
     Um rumor dentro de casa fê-lo despertar daquela evasão. O deserto não fica mais longe do mundo do que uma água-furtada. A sua garganta teve de tossir. Era o momento de mudar a posição do corpo no parapeito da janela. Ou as estrelas acessíveis ou a presença daquele quarto ligado à terra.


José de Almada Negreiros, Nome de Guerra

D de Davam grandes passeios ao domingo (V)



(A única função do amor é ajudar-nos a suportar as tardes dominicais, cruéis e intermináveis, que nos ferem para o resto da semana - e para toda a eternidade.)

  
Emil Cioran
in Précis de Décomposition

sábado, 25 de fevereiro de 2012

M de Música para os meus olhos (XXVI)

Mesmo se tirarmos o som, continuamos a ouvir a música. E devia ser sempre assim:

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

M de Música para os meus olhos - XXV b

E as estátuas:


Elliott Erwitt, Tate Gallery, London, 1993

P de Poética (XX)

SEGUNDA PROPOSIÇÃO

O poema
está terminado
agora parte-o
e quando se voltar a juntar
parte-o de novo
nos sítios em que toca a realidade
remove-lhe as articulações
os elementos fortuitos
que provêm da imaginação
os que restarem
une-os
com o silêncio
ou deixa-os soltos
quando
o poema estiver terminado
tira-lhe os alicerces
sobre os quais assenta
- os alicerces
restringem os movimentos -
então a construção
elevar-se-á
e por instantes vai
pairar acima da realidade
com a qual acabará
por colidir
essa colisão
será o nascimento
de um novo poema
estranho à realidade
surpreendendo-a
dividindo-a
e transformando-a
     
e ele próprio sofrendo
uma transformação

Tadeusz Rózewicz
in Inquiétude / in They came to see a poet

B de Biorritmo (CXVIII)




Alone together, beyond the crowd,
Above the world [...]


[Pedido emprestado ao vizinho do 1º Esquerdo] 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

R de Regresso ao trabalho (XXXVIII)

DESPEDIDA




Ela pensava
que o mundo era triste
à sua volta
que as flores eram tristes assim como a chuva
que a tristeza se tinha escondido
na lã áspera
cheirando a reseda-brava
que tristes eram as vozes
dos que partiam
e triste o alegre cocheiro do fiacre
que estalava o seu chicote
ela pensava
o céu e a terra
entristecem-se demasiado
em vez disso
eram as rodas que giravam cada vez mais
rápidas e distantes

Imensas e sem limites.




Tadeus Rózewicz
in Inquiétude, Paris: Buchet/Chastel, 2005

A de "até que os fios do coração" (IX)


Ontem, ainda no centro do mundo.

B de Biorritmo (CXVII)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

M de Música para os meus olhos (XXV)

... E as estátuas:

PASSEIO SOBRE A CIRCUNFERÊNCIA


     No interior do círculo que engloba os seres numa comunidade de interesses e de esperanças, o espírito inimigo das miragens abre um caminho do centro até à periferia. Já não consegue ouvir de perto o bulício dos humanos; quer observar do mais longe possível a simetria maldita que os une. Vê mártires em todo o lado: uns sacificam-se por carências visíveis, outros por necessidades incontroláveis, todos prontos a sepultarem os seus nomes sob uma certeza; e, como nem todos podem lá chegar, a maioria expia pela banalidade esse entusiasmo do sangue com que sonhou... As suas vidas são feitas de uma imensa liberdade de morrer que não souberam aproveitar: inexpressivo holocausto da história, a vala comum devora-os.
     Mas, o fervoroso das separações, ao procurar caminhos não frequentados pelas hordas, retira-se para a margem extrema e avança no limite do círculo, que não pode transpor enquanto estiver submetido ao corpo; no entanto, a Consciência paira mais longe, inteiramente pura num tédio sem seres nem objectos. Já não sofrendo, superior aos pretextos que nos convidam a morrer, ela esquece o homem que a suporta. Mais irreal do que uma estrela pressentida numa alucinação, ela propõe a condição de uma pirueta sideral, - enquanto sobre a circunferência da vida a alma se passeia, encontrando-se apenas a si própria e à sua impotência para responder ao apelo do Vazio.


Emil Cioran
in Précis de Décomposition (1949)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

P de Pássaros anónimos


A de Aniversário (IX)



I'm so happy 'cause today
I found my friends
They're in my head
I'm so ugly, that's okay
'Cause so are you
Broke our mirrors
Sunday morning is everyday
For all I care
And I'm not scared
Light my candles, in a daze
'Cause I've found God

[...]

A de Afinidades Electivas (III)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A DOR
[Jardins da Gulbenkian, 1926]


Para o Alexandre e o Diogo



A dor tem afinal memória.
Guardámos-lhe as promessas
quebradas, o sangue cosido,
todos os passos no mapa do tesouro
que nos trouxe a esta tarde.

E o mapa pode até ser falso
ou a luz demasiado pobre,
que não nos voltaremos a perder
assim: aprendemos a traficar
o caminho a três vozes,
deixando os nossos mortos
e ruínas a marcar cada encruzilhada.

Basta agora escolher
um horizonte, abrir as mãos,
evitar as pontes do hábito.
Será uma estrada nova,
nossa. Chegaremos então.



ID

R de Rezar na era da técnica (V)


[Santos, 18/02/12]

sábado, 18 de fevereiro de 2012

L de Ler (X)


Gerd Baatz, Image of destruction in Berlin, 1944-45

B de Biorritmo (CXVI)



in Paulo da Costa Domingos, Travesti,
Lisboa: &etc, 1979

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

E de Espera (XV)


Norman Parkinson, The Iron Road, November, 1947

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

P de Poética (XIX)




Sur la place chauffée au soleil
Une fille s'est mise à danser
Elle tourne toujours pareille
Aux danseuses d'antiquités
Sur la ville il fait trop chaud
Hommes et femmes sont assoupis
Et regardent par le carreau
Cette fille qui danse à midi

Ainsi certains jours paraît
Une flamme à nos yeux
A l'église où j'allais
On l'appelait le Bon Dieu
L'amoureux l'appelle l'amour
Le mendiant la charité
Le soleil l'appelle le jour
Et le brave homme la bonté

Sur la place vibrante d'air chaud
Où pas même ne paraît un chien
Ondulante comme un roseau
La fille bondit s'en va s'en vient
Ni guitare ni tambourin
Pour accompagner sa danse
Elle frappe dans ses mains
Pour se donner la cadence

[...]

Sur la place où tout est tranquille
Une fille s'est mise à chanter
Et son chant plane sur la ville
Hymne d'amour et de bonté
Mais sur la ville il fait trop chaud
Et pour ne point entendre son chant
Les hommes ferment leurs carreaux
Comme une porte entre morts et vivants

Ainsi certains jours paraît
Une flamme en nos cœurs
Mais nous ne voulons jamais
Laisser luire sa lueur
Nous nous bouchons les oreilles
Et nous nous voilons les yeux
Nous n'aimons point les réveils
De notre cœur déjà vieux

Sur la place un chien hurle encore
Car la fille s'en est allée
Et comme le chien hurlant la mort
Pleurent les hommes leur destinée

T de (Uma) teoria de pássaros (XXXIII)


Norman Parkinson, Tom Lehrer, 1959

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XIV)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

T de (Uma) teoria de pássaros (XXXII)



A vista a partir da mesa de trabalho, hoje.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A de "até que os fios do coração" (VIII)


Coração suficiente, hoje.

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XIII)

"Houve ocasião de tomarmos juntos o pequeno-almoço durante mais dum mês consecutivo García Lorca e eu. Um dia já na rua dirigiu-se a Federico um jovem enxuto como aço de navalha. Encostou-lhe o indicador ao peito e sentenciou: Tens de fazer arte social!

— Arte social?! Federico puxou escarro que não tinha e cuspiu-o para o lado: A arte é o social."


José de Almada Negreiros, Orpheu 1915-1965
Lisboa, Ática, 1965


[Obrigada, Luis Manuel Gaspar]

F de Falar para as paredes (XII)


[Lisboa, 12/02/12]

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

F de Fazer Fotografia - LIX b


Antonia Pozzi
[Pasturo, Setembro de 1937]

I de (A) Insustentável leveza do ser (II)


[Lisboa, 12/02/12]

domingo, 12 de fevereiro de 2012

S de "São tempos difíceis para os sonhadores."

B de Biorritmo (CXV)

Ouviu-se ontem, no final de mais uma noite de amigos:

sábado, 11 de fevereiro de 2012

I de Insónia (II)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Having a Coke with You


is even more fun than going to San Sebastian, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
or being sick to my stomach on the Travesera de Gracia in Barcelona
partly because in your orange shirt you look like a better happier St. Sebastian
partly because of my love for you, partly because of your love for yoghurt
partly because of the fluorescent orange tulips around the birches
partly because of the secrecy our smiles take on before people and statuary
it is hard to believe when I’m with you that there can be anything as still
as solemn as unpleasantly definitive as statuary when right in front of it
in the warm New York 4 o’clock light we are drifting back and forth
between each other like a tree breathing through its spectacles

and the portrait show seems to have no faces in it at all, just paint
you suddenly wonder why in the world anyone ever did them

I look
at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
except possibly for the Polish Rider occasionally and anyway it’s in the Frick
which thank heavens you haven’t gone to yet so we can go together the first time
and the fact that you move so beautifully more or less takes care of Futurism
just as at home I never think of the Nude Descending a Staircase or
at a rehearsal a single drawing of Leonardo or Michelangelo that used to wow me
and what good does all the research of the Impressionists do them
when they never got the right person to stand near the tree when the sun sank
or for that matter Marino Marini when he didn’t pick the rider as carefully
as the horse

it seems they were all cheated of some marvelous experience
which is not going to go wasted on me which is why I am telling you about it


- Frank O’Hara

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

P de Pele



When you hear sweet syncopation
And the music softly moans
'ain't no sin to take off your skin
And dance around in your bones


When it gets too hot for comfot
And you can't get an ice cream cone
T'ain't no sin to take off your skin
And dance around your bones


Just like those bamboo babies
Down in the South Sea tropic zone
T'ain't no sin to take off your skin
And dance around your bones

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

E de Estado da nação


[Lisboa, II/012]

R de Regresso ao Trabalho (XXXVII)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

N de "Nous deux encore"


[Benfica, II/012]


T de (Uma) teoria de pássaros (XXXI)

Holman Hunt, The Awakening Conscience (1853)

[detalhe]

Obrigada, David.

F de "(Une) Famille d'Arbres" - II c *


Uma das minhas fotografias preferidas:
Eduardo Gageiro / Lumiar, 1965


T de (Uma) teoria de pássaros (XXX)

A de Antes de amanhecer (II)

ASUNCIÓN DE TI


A Luz


[...]
3


Puedes querer el alba
cuando ames.
Puedes venir a reclamarte como eras.
He conservado intacto tu paisaje.
Lo dejaré en tus manos
cuando éstas lleguen, como siempre,
anunciándote.
Puedes
venir a reclamarte como eras.
Aunque ya no seas tú.
Aunque mi voz te espere
sola en su azar
quemando
y tu sueño sea eso y mucho más.
Puedes amar el alba
cuando quieras.
Mi soledad ha aprendido a ostentarte.
Esta noche, otra noche
tú estarás
y volverá a gemir el tiempo giratorio
y los labios dirán
esta paz ahora esta paz ahora.
Ahora puedes venir a reclamarte,
penetrar en tus sábanas de alegre angustia,
reconocer tu tibio corazón sin excusas,
los cuadros persuadidos,
saberte aquí.
Habrá para vivir cualquier huida
y el momento de la espuma y el sol
que aquí permanecieron.
Habrá para aprender otra piedad
y el momento del sueño y el amor
que aquí permanecieron.
Esta noche, otra noche
tú estarás,
tibia estarás al alcance de mis ojos,
lejos ya de la ausencia que no nos pertenece.
He conservado intacto tu paisaje
pero no sé hasta dónde está intacto sin ti,
sin que tú le prometas horizontes de niebla,
sin que tú le reclames su ventana de arena.
Puedes querer el alba cuando ames.
Debes venir a reclamarte como eras.
Aunque ya no seas tú,
aunque contigo traigas
dolor y otros milagros.
Aunque seas otro rostro
de tu cielo hacia mí.


Mario Benedetti, Inventario - Poesía 1950-1985,
Madrid: Visor Libros, 2008

B de Biorritmo (CXIV)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

R de Regresso ao Trabalho (XXXVI)

Os outros sempre foram um território difícil
(imagem do manual de História e Geografia de Portugal - 5º Ano):

T de (Uma) teoria de pássaros (XXIX)

[Mais uma razão para regressar a Copenhaga]

E de Espera (XIV)















Do primeiro filme que vi de
François Truffaut (6 de Fevereiro de 1932 - 1984).

domingo, 5 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

T de (Uma) teoria de pássaros (XXVIII)


Lucien Clergue, "Cocteau, Les Baux", 1959