[Lisboa, 02/12/12]
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
domingo, 2 de dezembro de 2012
S de Solidão (ou C de Comunidade) LIV
HORÓSCOPO
Primeira hora da tarde… Cemitério… E o vento cortante
como estilhaços de um osso na tábua do talhante.
Com um gesto brusco, a ferrugem expulsa a sua forma
do molde da tortura.
E por cima de tudo, por cima das lágrimas da vergonha,
a estrela quase se decidiu a confessar
porque entendemos o que é simples, apenas quando o coração
estala
e nesse instante somos nós mesmos, sem nada, sozinhos e sem
destino.
Vladimir Holan -
versão para português de Rui Miguel Ribeiro
(relida hoje).
[Vila Real, Novembro 2012]
sábado, 1 de dezembro de 2012
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
S de Solidão (ou C de Comunidade) LIII
Deixa-o, a ele que ocupa
o seu reduto. Nunca te afastes
nunca te aproximes. Deixa-o
buscar a sua água. Que ele arde
por trás da pele e tu cheia de sol
ardes também dentro do sangue.
Aprende a liberdade das distâncias
a sabedoria de não tocar em nada.
Cada estrela em sua solidão.
Cada solidão como uma estrela.
o seu reduto. Nunca te afastes
nunca te aproximes. Deixa-o
buscar a sua água. Que ele arde
por trás da pele e tu cheia de sol
ardes também dentro do sangue.
Aprende a liberdade das distâncias
a sabedoria de não tocar em nada.
Cada estrela em sua solidão.
Cada solidão como uma estrela.
Carlos Poças Falcão,
Arte Nenhuma (Poesia 1987-2012), 2012
C de Começar o dia com um livro novo (XVII)
Sempre dançaram. Mataram. Ergueram
pedra sobre pedra o seu desejo, o seu espanto.
Tinham de mudar o curso desses rios
tinham de suar. O sonho em ressaca
varria-lhes a vida. Não paravam.
As palavras eram o mais árduo
ofício de inventar. Julgavam que sabiam
com palavras. Os céus lentamente evoluíam
havia sempre a noite e sempre o dia.
Nunca suspeitaram que morriam.
pedra sobre pedra o seu desejo, o seu espanto.
Tinham de mudar o curso desses rios
tinham de suar. O sonho em ressaca
varria-lhes a vida. Não paravam.
As palavras eram o mais árduo
ofício de inventar. Julgavam que sabiam
com palavras. Os céus lentamente evoluíam
havia sempre a noite e sempre o dia.
Nunca suspeitaram que morriam.
Carlos Poças Falcão, Arte Nenhuma (Poesia - 1987-2012),
Guimarães: Opera Omnia, 2012
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
W de Walk the line (II)
Lisboa - Nazaré - José Carlos,
Novembro 2012
A propósito de sítios perante os quais nos sentimos como perante os livros que farão parte de nós. E a propósito do vento a desafiar; do horizonte, que pode ser outra onda, outro país ou outro tempo; e do inverno habitado por uma raça com veias alimentadas a café e olhos em forma de vela.
Mas a propósito, sobretudo, dos amigos com quem existir é sempre escrever um diário a dois.
P de Poética - XXXIV d
[...] É no Castelo que está traçada a preocupação de Kafka pelo grande espaço da presença, presença como tirania, como vocação de vampiro que há no ser humano. A torre do castelo, que se divisa de longe, é o símbolo da presença, e desde longe ela irrita e faz com que a alma humana se encabreie como uma cavalo espavorido. O castelo é a sede duma imaensa administração, em que a hierarquia reina até ao infinito. Destina-se a caçar a originalidade humana, a fazê-la depender da sua ordem prodigiosa. O único meio para lhe escapar é o de fazer-se pequeno, como um insecto; pequeno e repugnante e fácil de remover da face da terra.
[...]
Agustina Bessa-Luís, Kafkiana (2012)
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
terça-feira, 27 de novembro de 2012
P de Poética - XXXIV b
Os
inocentes são por assim dizer as musas dos criminosos. Mas há poucos inocentes,
não conheço nenhum, e não se busque sobretudo entre as crianças: as crianças são
monstruosas, eu sei, fui criança muito tempo, e o meu talento era monstruoso, o
talento visitavelmente simples de respirar, mexer-se, propor uma palavra, uma
frase, interpretar as coisas segundo a lei inspirada. A inocência é a tarefa de
uma vida e essa vida deve ser então redonda, completa. Não sei de vidas
completas.
De
modo que os criminosos acabam por incitar-se uns aos outros, e tudo parece
pequeno: ódio, vingança, crime; pode-se olhar face a face qualquer assassino:
nenhuma estrela de primeira grandeza conduz essas biografias nocturnas; têm-se
pela frente apenas as magias menores.
Alguns
poetas procuram atravessar as portas, e se a palavra treme e faz tremer é um
acto tremendo, uma passagem para a tenebrosa matéria de certas realidades, tenho
ouvido pouco dessa palavra sísmica; estamos num tempo verbal manso. O arrepio
que às vezes julgo percorrer uma voz, escuto melhor, não, não é daquela força
com que se falam inocência e crime. Os poetas cumprimentam o dicionário, a
gramática, a regra das formas, trazem luvas para trabalhar as massas sangrentas.
E saem limpos como de cirurgias a raios laser. Não compreendo. Porque penso em
todos aqueles que estão cobertos de sangue, não apenas as mãos bárbaras, mas os
rostos erguidos, as bocas que devoram corações, os próprios corações postos
fora; e a soberania deles, selvagem e nobre e inexorável e arrogante, funda-se
no enigma do sangue e da luz, é um diálogo rítmico, terrestre, entre crime e
inocência. O inferno não é o mal mas a fascinação que entre si exercem a candura
e o saber. São figuras antigas, essas, monárquicas, loucas, trono e ceptro
resplandecem. Por isso as venero. Os xamãs, os sacerdotes, os profetas. E os do
verbo primitivo e furioso, sangue e sopro, a lua nas trevas, os animais solares,
os fatais teoremas da dança e do abismo. Dante, Villon, Camões, Shakespeare,
Blake, Nietzsche, Rimbaud, Sá-Carneiro.
Os
outros, aqueles que vejo longe, que estão por aí, que os maus tempos tépidos
prometem, passarinham pelos corredores, levantam à volta uma poalha iridiscente,
nem se consegue sequer atribuir-lhes uma vida, são apócrifos.
E
então ponho-me atento aos indícios: há um quarto aceso na cidade, a noite cerca
esse quarto recôndito na sua luz, cada pequena coisa respira com destino à
insónia invisível; presumo de imagens que se cruzam na memória, imagens
insondáveis; presumo da crispada exaltação com que a insónia vigia o mundo que
dorme. [...]
Herberto
Helder
in Telhados de Vidro n.º4,
Lisboa: Averno, Maio de 2005
in Telhados de Vidro n.º4,
Lisboa: Averno, Maio de 2005
P de Poética (XXXIV)
[...] "Faz com que eu seja sempre um poeta obscuro." Mas na adolescência uma vontade crescia em mim: ser alguém com uma arma na mão, ter o amor dos outros. Inocência, pois as armas são perigosas, e o amor vira-se contra nós. Anos depois contemplava a bela frase, a humildade ardente dessa frase, e concluía que os caminhos do orgulho, que me haviam conduzido até ela, eram a minha solitária arma e a maneira de antecipar com vitoriosa alegria as várias mortes dos meus vários anos. Bem. Tenho algumas prateleiras com livros, meia dúzia de quadros e desenhos, uma dezena de discos. O quarto pode ficar subitamente cheio. [...]
Herberto Helder, Os Passos em Volta,
9ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2006
9ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2006
domingo, 25 de novembro de 2012
C de Começar o dia com um livro novo (XVI)
O AMOROSO QUOTIDIANO
A juventude é transparente,
é bom olhar através dessa transparência
(esta palavra já foi conspurcada pla
muralha repugnante dos políticos)
§
Excursões por livrarias, templos, jardins,
almoços, jejuns, faltas de dinheiro,
dores de dentes, jornais com anúncios luminosos,
amigos que morrem mal e ressuscitam bem impressos
§
A minha morte, o meu amor, o meu trabalho:
escutar-te todos os dias, à distância de muitos tiros,
calhandra toda lábios, em vôos coloridos
António Barahona, Maçãs de Espelho,
Lisboa: Língua Morta, 2012
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
F de Fazer Fotografia (LXXI)
(Re)lido hoje, na
inauguração da exposição “Fracções”,
de José Francisco
Azevedo e Ruth Rosengarten
– Teatro da Politécnica
UMA ESPÉCIE DE PERDA
Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho
e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.Por mapas, por um ninho de montanha, por uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
Idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
( - o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um
apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
Ingeborg Bachmann, O
Tempo Aprazado,
trad. Judite Berkemeier
e João Barrento,
Lisboa: Assírio &
Alvim, 1992
terça-feira, 20 de novembro de 2012
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
sábado, 17 de novembro de 2012
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
T de Tratado de Pedagogia (XLVI)
O PERIGO DA SABEDORIA
Aprendemos a viver sem paixão.
A ser razoáveis. Passamos fome
entre os celeiros gigantes
que este mundo é. Armazenamos bastante
para quando formos velhos e fracos.
É a nossa força que nos despoja.
Como Keats obedecer ao médico
que lhe disse que a melhor coisa para a
tuberculose era comer apenas uma
fatia de pão e um pedaço
de peixe por dia. Keats matou-se
à fome porque ansiava
tão desesperadamente regalar-se com Fanny Brawne.
Emerson e a mulher decidiram fazer
amor com moderação para acumularem
a paixão dele. Ensinam-nos a ser
moderados. A viver inteligentemente.
Jack Gilbert
[18/02/1925 – 11/11/2012]
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
O de Outono (XII)
NO OUTONO
Junto à cerca, os girassóis e seu brilho,
Doentes sentados ao sol, sem alento.
No campo, as mulheres cantam no trabalho,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Os pássaros contam lendas de encantar,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Há um violino no pátio a gemer.
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Todos parecem felizes, libertos,
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Os jazigos dos mortos estão abertos,
Pintados pelo sol que vai entrando.
Georg Trakl
[Trad. João Barrento]
[Vila Real, 03/11/12]
domingo, 11 de novembro de 2012
P de (Anti-)Poética XXXIII
MARFINS
Em pelota. Rubicundos como velhos gansos. Já fastidiosos. Empolam a membrana onde esgalham versos. Empifarados. Que rilkas coisas estas crianças enfolam no amor pelos livros.
Começam com um lago, um poente, uma flor. A sua mousseline pende das líricas videiras do silêncio.
Sobem ao monte mais próximo onde descobrem um cágado. Deitam-no de costas e põem-se a chorar porque ele não anda.
Começam com um Deus. Uma forma obscuríssima de vida. Depois, a meio caminho, enxotam animais e homens e cotejam essa agreste solidão com extractos de cultura.
Os poetinhas desdenham um teclado sujo.
Enfiam-se em casa, polindo os seus marfins. Despedem a misericódia dessa vida ingrata de reclusos e dão grandes passeios uterinos. Cansados dos avós, das palmadas no rabo, com o olho fito em bibliotecas, esgueiram-se pelos corredores onde os papões os esperam, afeitos à brincadeira. Então a mousseline estica como leite azedado de bambinos.
Os poetas armam zaragatas porque todos pretendem o melhor dos desaguisados.
O povo, esse instrumento sofredor na mão dos literatos, ouve essas bulhas de bufarinheiros, cospe nas mãos e chama-lhes sacanas.
"É perigoso este instrumento dado aos inocentes."
Os poetinhas fogem pela rua dos fanqueiros, das fardas de criada, das popelines e das sarjas. Cegam com o pó que se levanta das peças de riscado e quando as burguesas, furiosas, colocam os maridos no caixote, os poetas saltitam, desdobram mousseline sobre os restos e fazem fogos-fátuos.
O povo, esse vazio onde as pessoas poisam mas não aquecem o lugar para os nomes, desfibra então a paciência, conta os tostões, inveja carpetes, lustres, pianos, magnetofones, e não inspira confiança.
Andam aos bandos como um poema antigo. Aonde esta escolástica precoce que lhes antolha os membros? Deserdados de músculos, com utensílios ineficazes ao pescoço, os poetinhas marujam na versátil confusão dos versos. Vêem-se penosamente nas tardes baças, onde piam pássaros de modo lúgubre, nas noites rígidas e calafetadas. Quando o aquecimento ao rubro já não dá mais margem ao desespero, os poetinhas sobem às cadeiras, retiram as molduras e põem-se ao espelho como prostitutas.
Besuntam-se de tédio, colocam no rosto esses cremes nefastos que retiram dos armários culturais, desse arsenal de espólios que as famílias do espírito entesouraram para os descendentes.
Conhecem eles a guerra? O instante que se joga no gatilho? A cobiça dos bens? O mar de soluços que sobe pelas pernas podres dos que vão morrendo?
Arremedam o Instante, a Cobiça, o Soluço.
Fogem quando o pavor é real e a máquina uma força indomável que não cede a biografias nem a deuses.
E cantam.
Cantamos.
Armando Silva Carvalho, O Alicate,
Lisboa: Editorial Presença, 1972
sábado, 10 de novembro de 2012
A de Amor (XX)
"Lembro-me duma frase doutro escritor de língua alemã, Hermann Broch, que me impressiona ainda com a mesma intensidade, muitos anos depois de a ter lido. 'O amor é uma estranheza' - diz ele. Tudo o que nos desperta e até fere é um toque de alvorada do amor, ou é a descoberta da sua procura. Porque o amor nada mais é do que a procura incessante, a inspiração de toda a ausência de perigo para o qual o homem se acha destinado. [...] Kafka preocupa-se em criar obstáculos aos seus concidadãos de Praga e do mundo inteiro; obstina-se em ser desagradável e criar raízes assim no coração dos outros. A sua forma de amor é a hostilidade, a resistência à fatalidade do acordo, o desprezo da bonomia cuja superficialidade o magoa mais do que a agressão."
"Pois aquele que ama está num embaraço, não sabe o que faz, anda à procura. Não é esta a maneira menos decisiva de justificar a natureza incompleta da filosofia - termo cujo significado nunca se fixou definitivamente -, tarefa intrigante, que leva de cada vez a cabo uma inquiração de identidade, desde sempre grande motivo de escândalo. Com efeito, só se pode amar aquilo que não se possui. A imoderação própria da actividade filosófica tem a ver com a natureza do amor."
Agustina Bessa-Luís, Kafkiana,
Lisboa: Guimarães, 2012
*
"Pois aquele que ama está num embaraço, não sabe o que faz, anda à procura. Não é esta a maneira menos decisiva de justificar a natureza incompleta da filosofia - termo cujo significado nunca se fixou definitivamente -, tarefa intrigante, que leva de cada vez a cabo uma inquiração de identidade, desde sempre grande motivo de escândalo. Com efeito, só se pode amar aquilo que não se possui. A imoderação própria da actividade filosófica tem a ver com a natureza do amor."
Maria Filomena Molder, A Imperfeição da Filosofia,
Lisboa: Relógio D'Água, 2003
A de Aniversário - XII c
"J'ai tendu des cordes de clocher à clocher; des guirlandes de fenêtre à fenêtre; des chaînes d'or d'étoile à étoile, et je danse."
Arthur Rimbaud
[20/10/1854 - 10/11/1891]
[São Miguel, Agosto 2012]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
A de Aniversário - XII b
O fumo, os cafés, o tipo que te traz de madrugada,
aquele colega que fugiu, este que vem acordar-te,
as carícias, a coragem, uma manhã com Rimbaud...
Se o que ajuda a viver, o verdadeiro, não custa nada
porque é tão alto o preço da vida?
Violeta C. Rangel
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
A de Aniversário (XII)
[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto. [...]
João Miguel Fernandes Jorge, O Próximo Outono,
Lisboa: Relógio D'Água, 2012
P de Poesia (XI)
Cirque d'insectes. "Paon-de-nuit" volant autour d'une corde raide.
Berlin (Allemagne), 1934.
© Jacques Boyer / Roger-Viollet
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
L de "Lived in bars" (III)
BAR DO ACASO
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.
Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro
e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.
Rui Costa, O pequeno-almoço de Carla Bruni, 2008
terça-feira, 6 de novembro de 2012
T de "The days grow short..." - III b
TÃO POUCO
a linguagem das trevas
dormir
na neve dos limites
atravessar
flores distraídas
Decifrar
numa pedra fria
letras a arder
entrar
em comboios remotos
no olho gigante
das estações do fim do mundo
Ser um sinal
lançado ao acaso na noite
deixar
noutra boca
o gosto de uma ausência
Temos tão pouco tempo
tão pouco sonho
tão pouco
Ernesto Sampaio, Feriados Nacionais,
Lisboa: Fenda, 1999
[Vila Real, 03/11/12]
C de Começar o dia com um livro novo (XV)
[Lisboa, 21/09/12]
V
o corpo também é uma cidade,
mesmo que ele a abandone
e a trate como suor, evaporada
lembrança do sal,
a cidade jamais deixará de ser do corpo
assim como na areia a memória do deserto
VI
mas a cidade também é um corpo
basta cegá-la para ver
que ela tinha olhos
basta amputá-la para saber
que ela tinha membros
pisoteá-la
e descobrir a cotação dos ossos
torturá-la para ouvi-la
pena que não diga palavra alguma
articulada para os ouvidos
que esperam o ponto de os ossos cederem
e cantarem com sua voz seca
que tudo é um corpo e morre
Pádua Fernandes, Cálcio,
Lisboa: Averno, 2012
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
[...] Depois veio a morte e com a morte, o vazio. Converter as imagens em palavras foi um trabalho de entalhe, um trabalho de muitos anos que nunca termina e que nunca se faz bem. E a este trabalho, a esta palavra inarticulada e sucessória, chamamos viver. É um museu de cicatrizes. O certo fica longe.
Luis Rosales
domingo, 4 de novembro de 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
D de Dia de los Muertos (III)
*
CEMITÉRIO DO PÈRE-LACHAISE
*
AUX MORTS
No Père-Lachaise a solidão é um útero de regresso,
os mármores têm a aparência de leite cansado,
a eternidade é uma toupeira que dá de mamar aos seus mortos.
No Père-Lachaise há crianças albinas a mascar hera,
os corvos entesouram puxadores caídos de portas que ninguém conhece,
soam mais amargos os violinos de Enescu debaixo dos salgueiros.
Junto a Jim Morrison alguns cravos de outros tempos
ainda elevam vapores e descargas eléctricas.
Oscar Wilde é só musgo a rebentar a pedra.
Às seis da tarde um funcionário tranca a morte,
abre a cigarreira. Sumido entre o fumo talvez pense:
Que trabalho inútil viver. Quanto tempo perdido.
Uma roseira deixou os espigões abertos sobre Sadeq Hadayat.
Sentados nos seus ciprestes os anjos levantam âncoras.
O cemitério zarpa novamente e Paris é o Inverno.
Jesús Jiménez Domínguez
in Criatura n.º5, trad. de Luís Filipe Parrado, Outubro 2010
*
AUX MORTS
Cansados de haver manhã,
os corvos do Père Lachaise
pareciam dispostos a reocupar
as casas desiguais dos mortos.
Celebração ou abandono,
a esbaterem-se no rigor
de um mesmo nada, por entre flores
sem cheiro, vitrais partidos
e teias de aranha milenares.
São formas de beleza pouco aconselháveis,
uma resposta para a qual nos faltará
sempre a pergunta correcta
ou o desejo, sequer, de a encontrar.
Pois só duas pessoas saberão
- até ao fim do mundo -
o nenhum mas imperioso motivo
de colocar dois cravos sobre a terra gasta.
E a partir-se, por inépcia minha, aquele
branco que te quis lembrar num verbo
que conhece demasiado bem o futuro.
Manuel de Freitas, Intermezzi, Op. 25,
(Opera Omnia)
(Opera Omnia)
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
O PROBLEMA DO PÚBLICO
Em França, não temos tanto um problema da arte, mas sim um problema do público. Em todo o lado essa necessidade de "arejar o quarto", de encontrar um pouso fresco no travesseiro, de responder a perguntas misteriosas, obriga os artistas a vencer a preguiça do hábito, a criar coisas novas ou a apresentar velhos problemas sob um ângulo inesperado. [...] E o público? Será que o público quer sair desse sono que a novidade agita? [...]
Refiro-me a um público que aceitámos, há muito, como sendo o nosso. Esse famoso público de elite ao qual entregamos sem reservas o melhor de nós mesmos e que pensa sempre que lhe preparámos uma armadilha ou queremos troçar dele.
Ao anunciar na rádio que ia colaborar neste jornal, contei a minha surpresa aquando de um grande jogo entre a equipa canadiana e a equipa inglesa de hóquei sobre o gelo. No momento em que o jogo punha as duas equipas em confronto de tal modo que parecia estarmos a assistir à luta por uma alma entre anjos e demónios no reino do silêncio e da velocidade, em suma quando o espectáculo se tornou uma fascinante questão de vida ou de morte, vimos os camarotes e os lugares mais caros esvaziarem-se, enquanto os lugares mais baratos se inflamavam até aos gritos. O nosso público, o público de elite, o público com que tantos maus métodos nos obrigam a contar, mostrava-nos a frieza desatenta que concede à beleza sempre que ela não se apresenta sob uma forma que possa pôr em causa a sua inteligência.
Desporto... aborreço-me... vou-me embora. Um poeta... aborreço-me... fico.
Infelizmente, o problema continua por resolver até nova ordem. Este público de "adultos", este público que perdeu a sua infância e que por vezes a procura às escondidas no circo Médrano, é o público que paga e que paga sobretudo o luxo de julgar e matar com a desfaçatez do imperador quando condenava com um gesto do seu polegar um dos gladiadores do espectáculo.
Como atingir as massas? [...]
Jean Cocteau
domingo, 28 de outubro de 2012
R de Revisões da matéria dada - V c
EPÍLOGO A UM FILME
DEMASIADO TARDE
Um dia em que perguntei a Raimu porque é
que ele nunca ia ver os seus filmes, respondeu-me que já não os podia
aperfeiçoar e que isso o deixava doente.
Eis o drama das máquinas. Atraem-nos.
Devoram-nos. Fixam-nos.
Durante A BELA E O MONSTRO, o simples
trabalho manual esvaziava-me a cabeça e impedia-me de me criticar. Depois, é a
ordem da desordem, a desordem da ordem, uma massa onde o olhar se afunda e que
anquilosa o espírito crítico. Impossível corrigir, a menos que se
regresse ao estúdio, se reconstruam os cenários, se reúnam os artistas
dispersos.
Foi durante o festival de Cannes que
encontrei o verdadeiro fim do meu filme. É certo que este novo fim obrigaria a
refazer todas as imagens precedentes. Não passa, pois, de um sonho. Posso
apenas sentir-lhe a falta ao acordar.
A minha equipa empenhara todo o seu esplendor
no papel do Monstro. Quando Jean Marais se transforma em Príncipe Encantado, ela
já não tinha mais nada a dar. Por isso o público ama o Monstro e sente a sua
falta. Prefere a lagarta à borboleta em que ela se transforma.
Precisava de outro tipo de fim. O Monstro,
morrendo de amor, deveria implorar à Bela que fizesse a confissão que lhe
permitiria reviver como Príncipe Encantado. A Bela confessaria de todo o coração,
mas o Monstro pedira novamente uma confissão que surgisse por si só. Além
disso, a Bela não quer ir contra o que sente. Esta transformação não lhe
agrada; não a deseja. E o milagre não funciona. E o Monstro não se transforma.
E morre.
A Bela fica sozinha no mundo, de luto pelo
seu Monstro. Resta-lhe apenas a memória de uma aventura extraordinária. Não
quererá príncipe, nem marido, nem muitos filhos.
O conto perderia a sua exactidão e o seu
conformismo relativamente aos contos de fadas que quis seguir. Mas ganharia em
humanidade.
Infelizmente, como o Monstro, posso apenas
dizer: “É demasiado tarde.”
Jean Cocteau, Le foyer des artistes,
Paris: Librairie Plon, 1958
"[...]
- E a literatura? - perguntou ele por fim.
- Parei. Não me sinto de momento capaz de prosseguir. Não consigo encontrar o elo harmonioso entre a verdade e as ilusões que são necessárias para fazer arte sem denunciar as lacunas - sabe, como uma costura mal alinhavada. [...]"
Lawrence Durrell, Clea
sábado, 27 de outubro de 2012
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
U de "Uma arte"
A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias de intenção
de ser perderem que a sua perda não é uma calamidade.
Perder qualquer coisa todos dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.
Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.
Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.
Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.
- Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.
Elisabeth Bishop
in Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop,
trad. de Maria de Lourdes Guimarães,
Porto: Campo das Letras, 1999
S de Sense of Snow - VIII b
I.
CEGO POR VONTADE E POR DESTINO
PORQUE TUDO É IGUAL E TU SABES,
chegaste à tua casa, e fechaste a porta
com o mesmo gesto com que se tira um dia,
com que se arranca a folha atrasada do calendário
quando tudo é igual e tu sabes.
Chegaste à tua casa
e, ao entrar,
sentiste a estranheza dos teus passos
que já soavam no corredor antes de chegares
e acendeste a luz para voltares a comprovar
que todas as coisas estão exactamente colocadas como estarão dentro de um amo;
e depois
tomaste banho, respeitosa e tristemente, do mesmo modo que um suicida,
e olhaste para os teus livros como as árvores olham para as suas folhas,
e sentiste-te só,
humanamente só,
definitivamente só porque tudo é igual e tu sabes.
SIM, CHEGUEI À MINHA CASA, CHEGUEI, POR FIM, À MINHA CASA,
e agora é a mesma coisa de sempre,a mesma nogueira diária,
os quadros que ainda não tive tempo de pendurar e estão sobre a mesa que a minha irmã cobriu de folhos,
a madeira que dói,
e a pequena luz desabitando a nova habitação,
e a pequena luz que é como um vazio na penumbra,
e o copo para ninguém
e o punhado de sonhos,
e as estantes,
e estar sentado para sempre.
Sim, voltei da rua; estou sentado;
a neve já começa a ser bastante
mas continua a cair,
continua tudo a cair, continua a tornar-se igual,
continua a tornar-se fim,
continua a cair,
continua a cair tudo o que era Europa, o que era meu e tinha chegado a ser mais importante do que a vida,
o que nasceu de todos e era como uma fresta de luz entre a minha carne,
continua a cair,
continua a cair tudo o que era limpo,
o que já estava livre,
o que já estava indolor à conta da vida,
continua a cair,
continua a cair tudo o que era humano, certo e frágil
à semelhança de uma menina de seis anos que chorasse no sono,
continua a cair,
continua a cair tudo,
como uma aranha que tu visses cair,
que tu visses cair sempre,
que tu próprio visses,
tu, tristemente próprio,
que tu visses cair até te tocar na pupila com as suas patas felpudas
e aí a visses toda,
toda solteiramente a ser aranha,
e depois a sentisses penetrar no teu olho,
e depois a sentisses caminhar para dentro,
para dentro de ti caminhando e ocupando-te,
ocupando-te de aranha,
e perceberás que fazias parte do seu caminho porque cegavas dela,
e mesmo que depois a sentisses igual,
igualmente quebrada
e mesmo que…
– Boa noite, senhor Luis! –
[...]
Luís Rosales, La casa encendida, 1988
[Trad. ID]
terça-feira, 23 de outubro de 2012
To Women, As Far As I'm Concerned
The feelings I don't have I don't have. The feelings I don't have, I won't say I have. The felings you say you have, you don't have. The feelings you would like us both to have, we neither of us have. The feelings people ought to have, they never have. If people say they've got feelings, you may be pretty sure they haven't got them So if you want either of us to feel anything at all you'd better abandon all idea of feelings altogether.
D. H. Lawrence
in Answering Back - Living poets reply to the poetry of the past, 2008
in Answering Back - Living poets reply to the poetry of the past, 2008
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
O de Outono (X)
Answering Back - Living poets reply to the poetry of the past,
org. Carol Ann Duffy, Londres: Picador, 2008
[...] O chamado acto de viver não passa de um acto de imaginação. O mundo - que sempre tratámos de Mundo "exterior" - só se revela pela introspecção! Enfrentando este paradoxo cruel, mas necessário, o poeta verifica que lhe crescem cauda e orelhas, para melhor nadar contra as correntes da estupidez. O que parece ser um acto arbitrário de violência é precisamente o oposto, porque invertendo assim o processo ele une a corrente desorientada e apressada da humanidade ao calmo, tranquilo, imóvel e inodoro plano de onde provêm os seus móbeis e a sua essência. (Sim, mas é doloroso descobrir isto!) Se ele devesse abandonar o seu papel, toda a esperança de encontrar um ponto de apoio na superfície escorregadia da realidade ficaria para sempre perdida e tudo o que existe na natureza desapareceria! Mas este acto, o acto poético, tornar-se-á desnecessário quando cada um o puder realizar por si próprio. E o que os impede, perguntas tu? Bem, todos nós tememos naturalmente abandonar a nossa lastimável moralidade racionalizada - e o salto poético que eu preconizo fica justamente do outro lado da barreira. Aterra-nos simplesmente porque nos recusamos a reconhecer em nós próprios as horríveis goteiras que ornamentam os paus totémicos das nossas igrejas - assassinos, mentirosos, adúlteros e assim por diante. (Uma vez reconhecidas, as máscaras de cartão desvanecem-se.) Quem ousa o enigmático salto na realidade heráldica da vida poética descobre que a verdade possui a sua própria moralidade específica! Não mais se torna necessário usar funda. No interior da penumbra desta espécie de verdade a moralidade é desprezível, posto que não passa de um dado, uma parte da coisa, e não simplesmente um travão, uma inibição. Existe para ser vivida e não para ser pensada. [...]
Lawrence Durrell, Clea,
Lisboa: Editora Ulisseia, 1961
domingo, 21 de outubro de 2012
T de Tempo Sem Tempo (XIV)
[...] Porque os homens só aprendem para uso dos seus bisavós,
que já morreram. Só aos mortos sabemos ensinar as verdadeiras regras de viver.
Na tarde em que escrevo, o dia de chuva parou. Uma
alegria do ar é fresca de mais contra a pele. O dia vai acabando não em
cinzento, mas em azul-pálido. Um azul vago reflecte-se, mesmo, nas pedras das
ruas. Dói viver, mas é de longe. Sentir não importa. Acende-se uma ou outra
montra. Em uma outra janela alta há gente que vê acabarem o trabalho. O mendigo
que roça por mim pasmaria, se me conhecesse.
No azul menos pálido e menos azul, que se espelha nos prédios, entardece um pouco mais a hora indefinida.
Cai leve, fim do dia certo, em que os que crêem e erram se engrenam no trabalho do costume, e têm, na sua própria dor, a felicidade da inconsciência. Cai leve, onda de luz que cessa, melancolia da tarde inútil, bruma sem névoa que entra no meu coração. Cai leve, suave, indefinida palidez lúcida azul da tarde aquática — leve, suave, triste sobre a terra simples e fria. Cai leve, cinza invisível, monotonia magoada, tédio sem torpor.
No azul menos pálido e menos azul, que se espelha nos prédios, entardece um pouco mais a hora indefinida.
Cai leve, fim do dia certo, em que os que crêem e erram se engrenam no trabalho do costume, e têm, na sua própria dor, a felicidade da inconsciência. Cai leve, onda de luz que cessa, melancolia da tarde inútil, bruma sem névoa que entra no meu coração. Cai leve, suave, indefinida palidez lúcida azul da tarde aquática — leve, suave, triste sobre a terra simples e fria. Cai leve, cinza invisível, monotonia magoada, tédio sem torpor.
Bernardo Soares,
Livro do Desassossego
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
S de S.T.T.L.
"[...]
e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
[...]"
Manuel António Pina
in O pássaro da cabeça, capa e ilustrações de Maria Priscila,
Lisboa: A Regra do Jogo, s/d
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (II)
SERÁ SEMPRE MEU AMIGO
Será sempre meu amigo não aquele que na primavera
vai para o campo e se esquece entre a festa azul
dos homens que ama, e não vê o couro velho
por trás da nova pelagem, mas sim tu, verdadeira
amizade, peão celeste, tu, que no inverno
à luz da aurora, deixas a tua casa e começas
a andar, e no nosso frio encontras abrigo eterno
e na nossa profunda secura a voz das colheitas.
Claudio Rodríguez
[Trad. ID]
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
domingo, 14 de outubro de 2012
sábado, 13 de outubro de 2012
"Um voto arrasta consigo uma constelação de disposições motoras e espirituais elementares, isto é, fazer um voto implica uma palavra proferida entre iguais ou uma palavra silenciosa pertença do foro íntimo, mas, seja como for, implica sempre esse compromisso com a palavra que lança as suas sombras sobre o momento seguinte, dirige a conduta, prefigurando continuamente os contornos da memória que todo o futuro contém. Por isso fazer um voto exige uma palavra proferida e alguém que a escuta - mesmo que seja um ouvinte interior, invisível - e a toma como palavra dada."
Maria Filomena Molder
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