sábado, 16 de julho de 2016

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (VII)




*




Albert Camus
in Cadernos III, trad. António Ramos Rosa, 
Lisboa, Livros do Brasil, s/d


*


"no vivir por mano ajena"


Camilo José Cela



*




"O prazer da vida é apenas um: não ser um escravo."

Otar Iosseliani
in Ípsilon, 14/01/11

segunda-feira, 11 de julho de 2016

sábado, 9 de julho de 2016

M de Música para os meus olhos (XLI)




"Evolução de uma Miopia"
in Clarice Lispector, Todos os Contos,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016

segunda-feira, 4 de julho de 2016

T de Tratado de Pedagogia (LX)


10 VERSOS


Sim, estive nessa rua
à hora incerta, de costas
para os avisos da morte

que já então me cobiçava.
Fui pequeno, confiante,
tive um chapéu de palha,

aprendi a tabuada. A noite
roubou-me a voz, a sorte
deu-me estes versos, 1 x 10

igual a nada.


Rui Pires Cabral
in Nós, os desconhecidos,
Lisboa: Averno, 2012


*


íamos ali
no intervalo das duas mortes jogava-se
o bilhar
alguns velhos concêntricos moíam apostas baixas
à carambola
ponho talco nas mãos e no taco enquanto
observo resvalar a nota dobrada em quatro sobre o pano
verde
uma visão triangulada às tabelas da cabeceira
com gramsci nietzsche hemingway mal batidos
camurças de 1.ª entre duas novas mortes
também jogava às sortes nas traseiras do prédio
entre gente ordinária no gamão - tinha 13 anos
depois tanto fazia ganhar como perder


Paulo da Costa Domingos, 4,
Lisboa: & etc, 1981

domingo, 26 de junho de 2016

D de "Dust Motes Dancing in the Sunbeams" * - II


MAGSTRAEDE, 16


Apenas vos posso dizer que fica 
numa das ruas mais bem escondidas 
de Copenhaga, onde os prédios
dos séculos XVII e XVIII
se vestem de cores - estas sim -
realmente várias, obedientes
à lenta declinação da luz.

Portadas e janelas, nos seus graus
ínfimos de abertura e reclusão,
edificam um silêncio, uma dignidade,
que não consigo imaginar a Sul e que 
só um pintor dinamarquês soube captar.

Fica numa das ruas mais escondidas
de Copenhaga, embora vá fechar em Setembro 
de 2007, o restaurante Tyven Kokken hans Kone 
og hendes Eksten. E é sem querer, claro, que
nos despedimos para sempre destas paredes brancas. 


Manuel de Freitas
in Inês Dias, Lisboa: nigredo, 5 de Setembro de 2014



* O título é de um quadro de Vilhelm Hammershøi.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

P de Pássaros Anónimos (VI)






POEMA


Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos



Mário Cesariny, 19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão,
seguidos de Poemas de Londres (Quadrante)





[ID, 'Hyde Park - evening', Outubro 014]

quarta-feira, 22 de junho de 2016

C de "(O re)começo de um livro..." (V)

[...]
Não esqueço.
Aqueles a quem roubaram o sorriso. Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento, à porta de um dispensário, num coro constante de tosses, também ramela. Queixumes e câmbios de mazelas e, no fundo, ninguém quer que lhe tirem as suas doenças. Nada mais possuem. Depois como era!!?... E há os intelectuais: os intelectuais têm muita graça.

[...]




Paulo da Costa Domingos, Narrativa,
com capa e carta-prefácio de Vitor Silva Tavares,
Lisboa, Alambique, 26 de Maio de 2016

F de Fazer Fotografia (LXXVIII)


"Nos meus passeios reparava que toda a paisagem nos últimos meses tinha adquirido como que uma tonalidade estranha por causa daquela dor. Aqui ou ali havia uma árvore onde a dor tinha sido mais intensa, aqui ou ali uma vedação onde tinha batido com a mão ao caminhar. Quando passava novamente nesses sítios, nos dias em que não tinha dores, a dor parecia lá continuar, na vedação.
A dor é uma paisagem."


Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor,
trad. Ana Diniz, Porto: Edições Asa, 1992

quinta-feira, 16 de junho de 2016

segunda-feira, 13 de junho de 2016

sexta-feira, 10 de junho de 2016

L de Look down




[ID, 10 de Junho de 2011, 
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas]

quinta-feira, 9 de junho de 2016

T de Tratado de Pedagogia - LXIII





I'LL GO TO HELL


Escapar pelo rio,
fugir numa jangada,
acariciar o medo,
coleccionar estrelas,
gostar dos amigos.

Fumar a tristeza
num cachimbo de cortiça.
Ser a sombra que flutua,
uma alma sigilosa que se esconde do sol. 

Enfiar linha numa agulha
com um beijo,
ser a menina que lê
enquanto mexe no cabelo.

Irei para o inferno,
guardarei o teu segredo
do homem escondido
que procura a liberdade
e sonha que o futuro
não distingue as cores.

Irei para o inferno
contigo, Huckleberry,
e o fundo do teu abraço
será a minha salvação. 


ANA MERINO
[Trad. Inês Dias]





[ID, Sintra, Abril 016]

S de Segredo




[ID, Lisboa, 10/013]



sábado, 4 de junho de 2016

A de Amor (XII)


Não te aproximes tanto
de uma alma em cinzas. Apenas
arde

ou dá-me
do sol estrelas, escuros
fragmentos da mansidão. So tired

of dying
digo, baixinho, amo-te. Digo-o
pela tua boca.


- José Carlos Soares, Este perder-se
(2011)




[ID | 2011]

sexta-feira, 3 de junho de 2016

M de Morte (III)


O cão que persegue os pássaros não sabe
que nunca vai voar,
nem a encrespada onda que atingia a tua imensa
altura de criança conhecia
o seu destino de charco desfeito pelo vento.
E aquela nuvem também não
acordará inquieta, a meio da noite,
receando a chuva caída sobre os campos,
nem o pintassilgo que esculpe os seus sons de prata
nos muros do ar
se queima na cinza do seu próprio cantar.
Mas eu sei, quase nasci a saber,
que um dia não estarei sobre o teu coração
para compreender tudo.


Ángel Mendoza
in Criatura n.º 6, trad. Inês Dias,
Núcleo Autónomo Calíope / Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011





[ID, 'A perspectiva da morte', 14/06/016]

segunda-feira, 30 de maio de 2016

domingo, 29 de maio de 2016

A de Amor (XXIII)


Tristão e Isolda: o amor em si. À margem dos que ateiam os ciúmes e a inveja: dos olhos. À margem do ressoar das críticas e aprovações: os rumores. À margem dos olhos e dos rumores. Ninguém os viu e ninguém ouviu falar deles. Viviam no bosque. Um lobo e uma loba. Tristão e Isolda. Nada possuíam. Não levavam nada sobre os corpos. Nem tinham nada sob os pés. Acima deles não existia nada. Por detrás deles - nada, diante deles - o Nada. Nem amanhã, nem ontem, nem ano, nem hora. O tempo tinha-se detido. O mundo chamava-se bosque. O bosque chamava-se arbusto, o arbusto chamava-se folha, a folha chamava-se - tu. Tu chamava-se eu. Inexistência no vazio. O fundo como ausência, e a ausência como o fundo.


MARINA TSVIETAIEVA




Uma janela do meu antigo (e encerrado) liceu,
24/05/013

sexta-feira, 27 de maio de 2016

F de Fazer Fotografia - LXXVIII b




[ID, Intercidades Faro-Lisboa, Maio 016]


*



quarta-feira, 25 de maio de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) LX


[...]
aqui ao lado deste jardim (vê-se do jardim) há uma cegonha. vive numa chaminé, claro. a cegonha não lhes interessa, a estes homens, porque não está presa, acho que é por isso que a cegonha não lhes interessa, mas não sei se me deva contentar com essa explicação. sei que nas lojas às vezes têm animais em gaiolas. às vezes no meio da rua. é para abater a pedido, a carne palpitante. é um cheiro, não de fezes, mas de medo: toda a esquina, quase toda a rua, cheira a medo. no entanto os animais continuam a comer. comem até morrer. não sei se diga que são originais, quanto a estes visitantes, a estes homens, não sei se comem também até morrer, nem sei se já defecaram hoje, todos. chegam aqui e ficam à espera: olham para mim e uns para os outros e estão à espera: de qualquer coisa vinda de fora deles, de fora para dentro, um consolo, uma emoção, uma surpresa, um divertimento, qualquer coisa que lhes anime a vida, que por momentos os faça não estarem arrependidos de ter nascido. hoje melhor seria, claro, terem ficado diante da televisão, terem ficado a ler qualquer graciosa história de amor com happy-end, por exemplo aquela novela intitulada em português "um homem no jardim zoológico". não sabem por que é que eu estou aqui: mas sabem que não é para os divertir. e se as jaulas estivessem todas cheias com outros como eu, como eles? sim, se as jaulas estivessem todas cheias com outros como eles, como eu?

[...]


Alberto Pimenta
in Que lareiras na floresta, Porto: 7 Nós, 2010




[ID, 'A insustentável leveza do ser', 05/016]

segunda-feira, 23 de maio de 2016

V de Vida (VI)


21 de Fevereiro de 2014


É belo de mais para morrer
(M. G. Llansol, Caderno 1.62, p.62)


O que é belo de mais para morrer, não morre. Sobre ele, ela, isso, a morte não tem poder. E quando chega, só lhe reforça o sentido e o fulgor. O que é belo de mais para morrer conhece a morte, e sabe que ela não pode atingi-lo. A beleza é um antídoto para a morte. Traz em si mesma o seu destino, que é a escolha da sua verdade.


João Barrento, COMO UM HIATO NA RESPIRAÇÃO - Diário do Dia Seguinte
Lisboa: Averno, 2015

sexta-feira, 20 de maio de 2016

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A poesia é o menos (X)


quarta-feira, 18 de maio de 2016

C de Coimbra (II)




CAFÉ SANTA CRUZ


Se queres ver os tritões
- ou, se preferires, as sereias –
nos três vitrais da entrada,
deves chegar a meio da tarde
e obrigar-te a não ter pressa.
Em Coimbra morre-se devagar. É bom.

Conheci poucos lugares onde
reinasse assim o esplendor do incomum.
Cada mesa tão diferente da outra:
um pintor rústico que faz dos dedos
pincéis, dois namorados que já saíram,
com a pressa física do amor,
o velho reformado que lê pela décima vez
o jornal da véspera – ou ainda o que
regista envergonhado estes versos.
Desiguais abismos, maneiras de se
se estar só, encontram aqui um abrigo
temporário, senão a própria rasura do tempo.

Pouco importa. Abandona-te, finalmente,
ao sortilégio mudo de sereias
ou tritões. É tudo o que precisas.
Uma música feliz perde-se na tarde
e as lágrimas, afinal, são uma espécie de sorriso.


Manuel de Freitas, Juros de Demora, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007




[ID, Coimbra, 14/05/016]

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A de "A propósito de andorinhas"


A CONTRAPROVA


É preciso guardar
o recibo das andorinhas
quando reencontram,
tumultuosas,
o ninho.


António Osório, Décima Aurora,
Lisboa: Na Regra do Jogo, 1982





[ID, 'Vista para um saguão', Maio 2016]

quarta-feira, 11 de maio de 2016

C de Começar o dia com um livro novo (XLIV)


"Segues pela terceira rua à direita, depois pela primeira à esquerda, chegas a uma praça, voltas junto do café que conheces, segues a primeira rua à esquerda, depois a terceira rua à direita, lanças a tua estátua por terra e ficas."


- André Breton / Paul Éluard





[Miguel de Carvalho, Neste estabelecimento não há lugares sentados,
com arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Alambique, 2016]

terça-feira, 10 de maio de 2016

T de Tempo sem tempo (XIX)


XX


Caso contrário, se não houver uma dor profunda que torne os homens igualmente silenciosos, um ouve mais, outro menos, da poderosa melodia do pano de fundo. Muitos já nem a ouvem. São como árvores que esqueceram as suas raízes e que crêem que a sua força e a sua vida são o rumor dos seus ramos. Muitos não têm tempo para a ouvir. São impacientes para com o tempo à sua volta. São pobres apátridas, que perderam o sentido da existência. Primem as teclas dos dias e tocam sempre a mesma monótona nota perdida. 


Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas,
trad. de Sandra Filipe, Lisboa, Averno, 2011

quinta-feira, 5 de maio de 2016

E de Espiga - IV b





E de Espiga (IV)


A MORTE


Para Yvan Goll


A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora de estação. 

E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes.
Deixa-me ser o caule forte da sua alegria.


Paul Celan,
A morte é uma flor, trad. de João Barrento,
Lisboa: Cotovia, 1998

sábado, 30 de abril de 2016

B de Brincar com ossinhos - IX b





Como se pressentisse a sua ruína
como se cego fosse
estendeu a mão e deixou os seus dedos
desenharem as palavras desenhadas
na pedra "eu morte existo".


João Miguel Fernandes Jorge
in Sobre o mar e a casa, com pinturas de Pedro Calapez,
Lisboa: Europália, 1991




[ID, Lisboa, 2016 | Coimbra, 2012]

sexta-feira, 29 de abril de 2016

C de Começar o dia com um livro novo (XLIII)


[...]

Fala, também tu, fosses tu o último a falar. É o que um poema - e talvez estejamos agora melhor preparados para o entender - nos dá a ler, nos dá a viver, permitindo-nos retomar nele este movimento da poesia tal como Celan no-la propôs, quase ironicamente: A poesia, Senhoras e Senhores: esta palavra de infinito, palavra da morte vã e do único Nada. [...]




Maurice Blanchot, O Último a Falar,
com tradução e notas de Fernanda Bernardo, 
capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Averno, 2016

quarta-feira, 27 de abril de 2016

I de "I want to ride my bike"


[...]
Como decía mi padre: “yo he sido transparente viajando en bicicleta”. 
Es uno de sus poemas surrealistas.
[...]


terça-feira, 26 de abril de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXIV


Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
Com rosas e estrelas em um mundo novo.


Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,

Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.

Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.

Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.

Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.

Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.

É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]

Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».

Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.

[...]

Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.

Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.


- FERNANDO PESSOA
(para Mário de Sá Carneiro)

T de "The days grow short..." (II)


When roses cease to bloom, dear,
And violets are done,
When bumblebees in solemn flight
Have passed beyond the sun,

The hand that paused to gather
Upon this summer's day
Will idle lie, in Auburn, -
Then take my flower, pray!


- EMILY DICKINSON





[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 25/04/016]

quarta-feira, 20 de abril de 2016

R de Rezar na era da técnica (XXII)




Tadao Ando's Church of Light, in Osaka
 [Photograph by Hiroshi Sugimoto]

sábado, 16 de abril de 2016

M de Meia-estação



[ID, Regresso ao trabalho, 12/04/016]

sexta-feira, 15 de abril de 2016

S de Sexta-feira (III)


AQUI


Eu estou sempre aqui.
RUY CINATTI


Gostava da chuva mansa
dos dias do norte,
adorava a humidade sobre o rosto:
pouso no chão o telefone
sobre o tapete cinzento
e ajusto a luz nas persianas;
ria-se por nada às sextas-feiras
quando ao entardecer
enlouquece de súbito a cidade:
fecho a varanda
em pleno agosto para impedir
que se espalhe a campainha;
não perdia uma única
das manhãs de feira,
as rifas, as lojas com sardinhas:
abro um livro para fechá-lo,
não me sobressalte a meio de um verso
o som do telefone;
atava à esquerda
o cachecol sobre a gabardina
desproporcionalmente clara:
ponho um disco, embora baixo,
e olho com prazer o aparelho
mudo sobre o tapete;
gostava de passar a noite em comboios,
apanhar aviões, camionetas
para qualquer lado:
no meu caderno anoto uma data mais,
outro dia, outro mês, outro ano,
eu estou sempre aqui.



José Ángel Cilleruelo, Antologia,
trad. Joaquim Manuel Magalhães,
Lisboa: Averno, 2005

quarta-feira, 13 de abril de 2016

C de Cicatriz (V)


26 – DO TEMPO

Todo o tempo passado a trabalhar. Todo o tempo passado a falar com gente cheia de aspirações concretas. A esgravatar caminhos alternativos ao caminho que desde sempre soube e é o meu. Todo o tempo sóbrio, bêbedo, acordado, aqui. Fora da minha nuvem, Britânia imaginária. Todo o tempo perdido. Tanto. Roseiras por enxertar. Trutas à deriva. Bibliotecas de couro. Cavernames. Oboés doidos na charneca fria. Nunca os tocarei. O Tempo, indemne, não indemniza. Não se desdobra. Não se recupera. Resta-me ronronar e gemer. Ser gato. Exprimir o inefável com um orgulho estóico mas envelhecido. Tardio. O pêlo caindo. A pele demasiado larga para a carne. Peritonite infecciosa felina. O fim a instalar-se por toda a parte. O olhar triste. A espera. A inevitabilidade. Não conseguir saltar e saltar. O sonho. A sublime humanidade dos bichos. A redenção. Privada. Como uma cicatriz que torna a pele única e intransmissível e, por isso mesmo, mais bonita.


Miguel Martins, Lérias,
Lisboa: Averno, 2011

terça-feira, 12 de abril de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXIV


[...]

Davvero chiedono gli uomini altro che vivere?
pergunta Pasolini.

- Não percebo.

«Na verdade, clamam os homens por mais do que
viver?»

O pior é que viver
está nas mãos
dos donos disto, que, magnânimos, é certo,
há séculos que se contentam
com cobrar em trabalho
a riqueza e progresso, dizem,
que eles trazem à humanidade,
os donos deste tempo
e deste espaço,
bem como os que o não são
e querem ser, que são quase todos,
e nem sabem que ser donos
também tem dono.

Não me interesso muito por eles,
mas eles muito por mim, quer dizer,
por tudo à minha volta.

São imprevisíveis dentro do previsível,
ameaçam tornar as coisas certas
cada vez mais incertas,
controlam tudo:
agem, em suma,
como qualquer patrão.

Amigos, alguns, poucos,
eles já são poucos,
ou seja, poucos dos poucos,
ajudam-me quando preciso,
tentam que não seja já despedido
ou me despeça eu já.

Lembro-me dum slogan antigo:
«Os que podem aos que precisam».
«Precisar» é um verbo regular,
quer dizer,
constante na forma,
de uma à outra ponta
da sua vida verbal.
«Poder» não é,
regula e desregula ele mesmo
conforme lhe apraz que seja
e regulou e desregulou sempre
no passado e no presente.
Será este um resumo
de tudo?

- Quem sabe?


Alberto Pimenta, nove fabulo, o mea vox / de novo falo, a meia voz,
Lisboa: Pianola, 2016

sábado, 9 de abril de 2016

J de (O) Jardim e a Casa (XI)


TEMPO


I

Enquanto dormes
as estações passam
sobre a montanha.

A neve no alto
fundindo-se dá vida
ao vento:
atrás da casa o prado fala,
a luz
bebe os vestígios de chuva nos caminhos.

Enquanto dormes
anos de sol passam
entre as copas dos lariços
e as nuvens.


II

Posso colher junquilhos
enquanto dormes
porque sei onde crescem.
E que a minha verdadeira casa
com as suas portas e as suas pedras
fique distante,
que nunca mais a encontre,
mas continue errando
pelos bosques
eternamente -
enquanto dormes
e os junquilhos crescem
sem trégua.


Antonia Pozzi, Morte de uma Estação,
com sel., trad. e capa de Inês Dias,
prefácio de José Carlos Soares e posfácio de Matteo M. Vecchio,
Lisboa: Averno, 2012







[ID, Jardim Botânico da Ajuda, 03/12/011]

sexta-feira, 8 de abril de 2016

I.

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.


II.

Eu tinha três ideias em mente,
Como uma árvore
Em que estão três melros.




Wallace Stevens
[Trad. e fotografia: Inês Dias]

E de Espera (LVII)


Não é por acanhamento que olha para o chão,
mas pela volúpia da surpresa.

É capaz de percorrer bairros inteiros a matutar
no xadrez das calçadas.
em busca do vagaroso rei dos seus olhos.

Nos lancis vê peitos magros de braços guindados,
caudas enroscadas em flechas.
Em soleiras de portas,
canhões antiquíssimos a fumegar ainda
por entre a lã do movimento.

Fascina-a sobretudo a repentina simetria
dos pingos de chuva.

As vozes atravessam-na como bandeiras desferidas
no cimo da mais erma colina.
Toda a paisagem, fechando os olhos,
é uma investida solitária,
vociferada à constelação de nuvens que
circunspectamente
vai amparando o céu.

Ela sabe que entre a terra e o espaço
também os olhos se fecham.
O mundo é, a todas as horas, nas nações
e nos bosques, o útero de um raríssimo encontro
de bichos predadores
a que os deuses chamam embaixada.

No teu sonho, quando a tocas,
ela junta os pés,
como quem namora um precipício,
e balouça-se para trás.
Estranhamente, também tu sentes
que passaste os anos a fixar o caminho,
que só agora, na linha dos seus ombros,
surge o horizonte inapelável
da encarnação.

Que entre ti e ela é a terra e o espaço
que cruzam os olhos.


Vasco Gato, Primeiro Direito,
Lisboa: Artefacto, 2016

terça-feira, 5 de abril de 2016

P de (Po)ética (XLII)




Andrei Tarkovsky
(4 de Abril de 1934 - 1986)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O de "O mar, o mar" - VII b


"[...] estar ao abrigo do fim do amor, 
é a isso que eu chamo felicidade."


MARGUERITE DURAS




[ID, 'É aqui o amor?', 2015]

domingo, 3 de abril de 2016

P de Poética (XLI)



[Inês Dias, Lisboa, 12/03/016]



*




[Inês Dias, Lisboa - 24/02/012]

sábado, 2 de abril de 2016

sexta-feira, 1 de abril de 2016

S de Satisfação (há-de deixar-se fotografar umas vezes)


"Dark is a way and light is a place."

DYLAN THOMAS









[ID, Barnabé, 31/03/11]

quarta-feira, 30 de março de 2016

W de Walk the line - II b


(a mancha)

agora é a noite é quase noite / à hora em que vieres eu estarei acordada porque a estação é imensa e vou poder dizer-te o que quiseres oh fixa bem, oh fica bem, fica ao pé assim deitado mais para mim é quase noite e dou-te a ti o que guardei de dia aquela mancha no céu mais acima no céu aquela a outra isso a que ilumina mas eu não oh digas antes que ilumino pouco agora é quase noite é a noite seco limo verde azul por aí são esses tons os meus sob a onda estão lá bi...chos é a multidão mas o que quero é que tu oiças mesmo isto que é eu puxo eu vou eu vivo eu fico eu vim cheguei a crescer vou crescer muito também minguar / seria uma árvore e o meu corpo ainda seria duro e a voz dura e o leito frio / é quase noite vês aquela mancha

(...)

(a voz)

eu puxo eu vivo sou a registante das noites e dos dias vividos e vou poder dizer-te o que quiseres à hora em que vieres e bastará que arranhes eu estarei acordada ou te agaches ou me invoques eu estarei acordada ou me invoques qualquer coisa há-de servir para eu lembrar porque a estação é imensa as noites longas os dias grandes e eu estou cá. Ouves também.


Álvaro Lapa, Barulheira
& etc, 1982




[ID, Nazaré, Novembro 2012]