[ID, 'Do (meu) mundo', 08/017
segunda-feira, 7 de agosto de 2017
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
C de Começar o dia com um livro novo (XXXIX)
SOBRE OS PERIGOS DE TOCAR MÚSICA MEDIEVAL
- para Inês Dias e Ana Isabel Dias
Hipnotizantes, as pequenas mãos da harpista, pousadas,
balançando cada lado do espelho
que é ruído branco da cascata,
impedindo-nos de fazer a travessia para o Vazio.
Quando aquelas mãos voam, uma em direcção à outra,
o erotismo de ver e de tornar órfico,
- uma calma mais profunda no som - também a harpista,
arriscando-se a perder o toque que os seus dedos devem ter,
está em perigo de se hipnotizar a si mesma
com a sua própria e bem ensaiada divindade.
John Mateer, Descrentes,
A de "até que os fios do coração"
SOBRE O LADO ESQUERDO
De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».
- CARLOS DE OLIVEIRA
[14/03/011, às 7h40]
segunda-feira, 31 de julho de 2017
domingo, 30 de julho de 2017
C de "Chama a luz com um assobio" (II)
CASTELO DA BAIXA-CHIADO
As escadas, no coração da terra.
à hora tardia de julho. Cantava, na galeria
deserta, um mundo a que nunca pertenci.
Cantava, cantava sempre. A ondulação do verso subia
das águas fundas do Tejo, desfazia num murmúrio
a mágoa da sua voz
lançava, não a parede
de um fado, mas o túmulo do destino: violência inerte e fértil
dissolvia no céu vazio do verão
nos azulejos em eco
viajava no pátio e nas veias da cidade
sem valor e sem préstimo a que possa recorrer, sem
vislumbre de qualquer esperança
era a toada mercadora dos vermes brancos do fado
«que queres ouvir e ver e tão perto?» (parecia perguntar-me) e
avançava na espessa noite da terra
deteve-se no meu caminho
junto às ribeiras do rio, perdia-se
resto de lívida luz. A voz já não cantava
medida da perdição
bem próximo da minha pele. Alguém
apaixonado, compreenderia num olhar
o que não tinha nome em nenhuma outra língua
nem lugar em nenhuma outra pátria. A carruagem corria (taça de
metal branco) o timbre da sua voz
pela noite de Lisboa
sorte que está connosco
pronta a gerar plantas que envenenam a vida
num leito de folhas mortas.
João Miguel Fernandes Jorge, Castelos I a XXXV,
Lisboa: Averno, 2004
sexta-feira, 28 de julho de 2017
segunda-feira, 17 de julho de 2017
R de 'Rezar na era da técnica' (XXV)
Um dos poemas lidos ontem,
no Paralelo W, pelo Nuno Moura:
in Poemas Ameríndios - mudados para português por Herberto Helder,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997
sábado, 8 de julho de 2017
R de Regresso ao/do Trabalho (LI)
à saída do turno, na mudança de turno
de novo a névoa pelos ossos
a alma trata de si e por favor não me fales da noite
o tempo perdido pelo caminho
com essa coisa comerciante
mãos nos bolsos
subindo a estrada, entre as canas da índia
dentro das ruas como nos desenhos
até chegar a estas palavras
ardeu tudo há muito tempo
andamos com restos no bolso, um minuto por vigiar
como almas penadas, aquelas que erram
sem poderem regressar
nunca
ou não era bem assim
João Almeida, A Formiga Argentina,
Lisboa: Averno, 2005
[ID, 'Aqui a tua casa: esta névoa', São Miguel 015]
*
PARTE POÉTICA
Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.
José Miguel Silva, Últimos Poemas,
Lisboa, Averno, 2017
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
terça-feira, 4 de julho de 2017
segunda-feira, 3 de julho de 2017
C de "(O) começo de um livro..." (VI)
Não se regressa aos mortos:
eles expulsam-nos de qualquer regresso.
[...]
Rui Nunes, Lampedusa,
com arranjo gráfico de Luís Henriques,
Lisboa, Paralelo W, 2017
segunda-feira, 26 de junho de 2017
C de Carrosséis (VII)
"I used to know a little square/so long ago, when i was small/all summer long it had a fair/wonderful fair with swings and all/I used to love my little fair/and at the close of every day/I could be found, dancing around/a merry-go that used to play//ah, mon amour/à toi toujours/dans tes grands yeux/rien que nous deux (...)"
sexta-feira, 23 de junho de 2017
P de Poética (LXII)
Ricardo Marques, A Noite [Variações],
com capa a partir de colagem de Rui Pires Cabral e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Alambique, 2017
quarta-feira, 21 de junho de 2017
quinta-feira, 8 de junho de 2017
O de "Onde se lê 'gato'..." (XII)
QUE FAÍSCA FUGIU DO TEU OLHAR *
Nunca consegui despedir-me
dos meus mortos. Porque partíamospara outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.
Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre doméstico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sítio de partidas
que ele conhecia.
Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir a porta. O latir
de todas as chegadas. A probidade
do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.
Só os nosso animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de
nenhum hades, nenhum céu.
* verso de um poema de Ruy Belo
Inês Lourenço, Logros Consentidos,
Lisboa, & etc, 2005
[O Barnabé,
fotografado pela sua Inês]
domingo, 4 de junho de 2017
sexta-feira, 2 de junho de 2017
V de Vida (IX)
Como falava ele ao pequeno-almoço,
quando abria o verso
sobre a onda que nunca rebentava?
Riscava o coração com aparos
de prata
e num êxtase diário subia ao sótão das palavras
a perguntar por Deus?
Qual a distância entre a criatura
e esse muro indiscreto de suor e sonhos
esse labor de mãos sujas de tinta
essa estrada de nada
e de madeira
esse quadro infantil retido na sanita
esse cuco soturno que afinal é um logro
esses passos perdidos na flanela do tempo
a pequena sílaba que descia do queixo
num líquido sabor a maresia
esses gestos de enfado e paciência
que ajudam a memória a subir ao palco
esse pulso cortado pela lâmina de barba
por fazer e é preciso chegar cedo ao concerto?
O gato dorme no colo.
O cão sabe de cor um soneto de Antero.
A rodilha das mãos espremida
em desespero de causa.
A carne sempre à espera de um talho mais discreto
nos sons, no sangue, na exposição das entranhas.
Chegou o intervalo e a história não acaba.
Acabou o poema e a vida ainda não chega.
Armando Silva Carvalho, Lisboas,
Lisboa: Quetzal, 2000
quinta-feira, 1 de junho de 2017
P de Pássaros anónimos (X)
O CORVO
O céu desta cidade não me vence.
Ao ver a lua cheia num rasgão de nuvens
esqueço-me das casas da minha casa,
das ruas da minha rua, das vidas da minha vida.
Há uma noite acesa no meu mundo.
E tu deitas na mesa.
Primeiro as mãos que não querem esperar
pelo corpo à beira do colapso
que julgo financeiro
em matéria de sexos pois são muitos e novos
os que tu disfarças.
Depois vem o aparelho da fala com a tua metafísica
varrida por vassouras de metal pungente
que correm pelo teu rosto e tu tão bem disfarças
com a faca do riso entreaberta.
Por fim o teu cabelo. É belo olhá-lo.
E belo vê-lo pousar como um corvo
na toalha branca do jantar.
E ver por fim a natureza que te ocupa
o órgão do prazer,
a música de Bach ou o ramo de luz
que cresce dos teus olhos.
Não vejo o teu coração, deixei de ver a lua.
E o céu desta cidade não me vence.
terça-feira, 23 de maio de 2017
domingo, 21 de maio de 2017
D de Da Capo
[Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
com capa de Luís Henriques, Lisboa, Averno, 2013]
*
sexta-feira, 19 de maio de 2017
segunda-feira, 8 de maio de 2017
P de Postais - V c
[...]
Primeiro olha para mim. Muito. Diz-lhe Eu só sei
fingir e correr
pela calada. Finjo que te amo quando caminhamos
por uma zona onde podemos ser assaltados.
Eu finjo a coragem e o acolhimento.
Chego-te para mim para que não percebas como o
meu medo gelou esta zona perigosa. Só que eu começo
a tremer e sugiro-te um pouco desse frio.
Então trememos os dois
no frio do meu medo, de braço dado, passo mais rápido,
confundidos, de braço dado, ausentes um do outro,
rasteiros.
Em silêncio após vários dias, continuamos.
E ainda hoje continuamos.
[...]
Nuno Moura, A Minha Casa,
Lisboa, Tea For One, 2016
[ID, 'Parallel Walks', 013]
terça-feira, 2 de maio de 2017
S de Self (III)
77
começa a alvorada como se houvesse outras mais
irá florir a ameixoeira na varanda
e a indestrutível batata-doce
perdi um amigo
talvez dois
desencontrámo-nos, quebranto de encruzilhada
ou por simples fastio
é verdade que não sou íntegro
nem honesto, caio por pouco sem ninguém saber
para fugir à dor na estrada desavinda
por um afago de mão enganada na barriga
mas hoje imponho-me a alegria da rectidão
arrumei a roupa e tomei banho
saio sem pecado para o conhecimento da manhã
aonde quer que me leve
João Almeida, Um milagre no caminho,
Lisboa, Averno, Maio de 2011
sábado, 29 de abril de 2017
segunda-feira, 24 de abril de 2017
L de Ler (XIII)
Lá fora
ainda temos luz,
sem esquinas,
dessa que se deixa
às vezes ficar
como a cintura da jovem
junto ao braço do velho
no mesmo banco,
condoída da nossa prisão.
Mas deste lado de mim
está a cortina da noite,
atrás da noite
a escada que sempre subi
à tua frente,
dentro da escada
um rato
a escavar, a escavar
por entre os séculos.
E dentro do rato
um coração com urgência
de anjo exausto,
todo o sangue emparedado
da mais solitária personagem
neste nosso romance
com nome de jardim.
Inês Dias, Da Capo,
com capa de Luis Manuel Gaspar, fotografias de Mafalda Capela
e arranjo gráfico de Inês Mateus, Lisboa, Averno, 2014
sábado, 22 de abril de 2017
C de Começar o dia com um livro novo (L)
PONTO DA SITUAÇÃO
Hoje, eis o que tenho para dizer
Chegou a Primavera
No sangue ligeiro da camarera
Curvada na secção dos detergentes
Ela sabe o bem que traz ao mundo
- Fearful symmetry... sem dúvida
É bom não ter dúvidas
Ou seja
Não vale a pena andar com o maldito no cu
Tampouco com os guizos da alma à mostra
Segue o corpo
Dá-lhe pousio e esgotamento.
João Almeida, Hotel Zurique,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa, Averno, 2017
sexta-feira, 21 de abril de 2017
quinta-feira, 20 de abril de 2017
M de Meia-estação (IV)
Sempre acreditei que só as palavras
me saíam da boca, e eram elas
que me podiam adiar a morte.
Hoje sei que me sai da boca um fio,
transparente e tenaz como uma insónia,
que te atou à minha vida para sempre.
Amalia Bautista, Estou Ausente,
trad. de Inês Dias,
Lisboa, Averno, 2013
[ID, Santarém | 2017]
terça-feira, 18 de abril de 2017
segunda-feira, 17 de abril de 2017
sexta-feira, 7 de abril de 2017
W de Wild is the wind (XI)
10.
Não há cigarras nas árvores. Os besouros
fugiram. Apenas os grilos vêm beber aos
degraus das casas. O cão rodopia sobre
si mesmo encantado com a luz, mas a
mulher vive indiferente a tudo isso ______
Se houvesse aqui monumentos antigos
junto ao mar, ruínas, arcos, cemitérios,
mas não, não existe nada,
diz a mulher.
É o seu corpo agora que se enrola no
vento à procura de um espaço pequeno
onde possa esconder os objectos e rezar.
Jaime Rocha, Mulher inclinada com cântaro,
Nazaré: volta d' mar, 2012
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
quinta-feira, 6 de abril de 2017
P de Poética (LX)
"A poesia é tudo o que nasceu com asas a cantar."
Lawrence Ferlinghetti, A poesia como arte insurgente,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D' Água, 2016
quarta-feira, 5 de abril de 2017
terça-feira, 4 de abril de 2017
sábado, 1 de abril de 2017
sexta-feira, 31 de março de 2017
E de 'Em caso de tempestade este jardim será encerrado'
Mais uma vez os jacintos,
celestialmente azuis no meu jardim:
Eles, pelo menos, inalterados.
Amy Lowell, Não eram rosas,
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Língua Morta, 2012
[...]
Poetry is the synthesis of hyacinths and biscuits.
[...]
- CARL SANDBURG
terça-feira, 21 de março de 2017
P de Poética (XLII)
ASPECTOS DE UMA DEFINIÇÃO
[...]
- Destrói os teus escritos, já que não tens fé neles.
- São provas contra mim.
- E se todos os teus leitores te absolverem?
- Serei eu a denunciá-los, por serem meus cúmplices.
[...]
Se tivesse coragem, só escreveria poemas anónimos.
*
Escolher uma filosofia? Um taoismo da raiva.
[...]
A escreve um poema. B continua-o num desenho. Baseando-se nesse desenho, C compõe uma música. Graças a ela, D consegue aperfeiçoar os movimentos de um motor. Este último permite a E descobrir uma nova cura, que inspira F na sua teoria sobre a evolução do pensamento humano. G aplica a teoria de F em poesia. G e A são a mesma pessoa. Ou então: um poema só é válido se a sua última palavra for também a primeira palavra de dez poemas a escrever, a primeira pincelada de cem quadros a pintar, a primeira nota de mil sinfonias a compor. A poesia é indivisível e supera o poema, o seu tapa-buracos.
*
Tudo é desespero na poesia: o achado ainda não é o poema, a perfeição já não é o poema.
[...]
Escreve como se as tuas obras fossem já póstumas, e a tua língua uma língua morta. Mas: traduz todos os dias o teu poema da véspera na tua língua de amanhã.
[...]
- ALAIN BOSQUET
[Trad. ID]
sábado, 18 de março de 2017
R de Rebeca (XII)
Ele podia ouvir os cães à distância, e os seus latidos
levaram-no até à capela que se erguia junto à estrada,
mas não entrou nela. Isto ficava aquém de rezar,
e os cães negros eram apenas os seus pensamentos de noites de terror
através das rígidas e gratificantes florestas de Santa Cruz;
o coração dele coxeia, borbulhando sangue como bagas no seu caminho,
três ou quatro cristas de palmeira, e os berros loucos dos papagaios
são como o rumor dos testemunhos num julgamento obsceno,
mas atravessam o céu róseo e desvanecem-se, e regressa o consolo.
Na quente e oca tarde, um grito atravessa o vale,
um falcão plana, e atrás da chama das perpétuas uma colina arde
com um sulco de fumo azul; isto é tudo o que há de importante.
Ó folhas, multiplicai os dias da minha ausência para os subtrair
à humilhação do castigo, à emboscada da desgraça
pelo que são: excremento que não merece nenhum tema,
nem o nó e o aprumo de um cedro ou a erva branda,
apenas o desdém da indiferença, de suportar a tempestade de abusos
como o ágil movimento dos ramos que se agitam com a graça
da resistência, curvando-se do mesmo modo que o bambu obedece
às rajadas horizontais de chuva, não enquanto martírio
mas enquanto complacência natural; abaixo dele havia uma casa
em que sem qualquer ferida era mais do que bem-vindo,
e cães dóceis vinham até ao portão atraídos pela sua voz.
- Derek Walcott [1930 - 17 de Março de 2017]
in The Bounty, 1998
[Trad. Inês Dias]
[Trad. Inês Dias]
segunda-feira, 13 de março de 2017
E de "e é sempre segunda-feira / nas paragens" (VI)
HUMILDADE
Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tanto quanto se esquece.
Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.
E os pássaros detrás de grades de chuva,
e os mortos em redoma de cânfora.
(E uma canção tão bela!)
Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.
- CECÍLIA MEIRELES
sexta-feira, 10 de março de 2017
C de Começar o dia com um livro novo (XLVIII)
quando eu já cá não estiver
para gostar das coisas a que dei um nome
quem lhes dirá que o meu estava dentro delas
como uma folha de tília
desenhada no frio de uma ardósia?
[...]
Emanuel Jorge Botelho, Os ossos dentro da cinza,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa, Averno, 9 de Março de 2017
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
quinta-feira, 9 de março de 2017
P de (Po)ética (LV)
ESCREVER
A vida é demasiado séria para eu continuar a escrever. A vida costumava ser mais fácil, e muitas vezes agradável, e então escrever era agradável, embora também parecesse sério. Agora a vida não é fácil, tornou-se muito séria e, por comparação, escrever parece um pouco disparatado. Escrever não é, muitas vezes, sobre coisas reais, mas depois, quando é sobre coisas reais, está muitas vezes a ocupar o lugar de algumas coisas reais. Escrever é demasiadas vezes sobre pessoas que não aguentam mais. Tornei-me entretanto uma dessas pessoas. Sou uma dessas pessoas. O que eu devia fazer, em vez de escrever sobre pessoas que não aguentam mais, é pura e simplesmente desistir de escrever e aprender a aguentar. E prestar mais atenção à própria vida. A única maneira de me tornar mais inteligente é não voltar a escrever. Há outras coisas que eu devia estar a fazer em vez disso.
Lydia Davis, Não Posso nem Quero,
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2015
[ID, Coimbra 013]
Libellés :
"Porque agora vemos como por espelho",
The Wall
quarta-feira, 8 de março de 2017
N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (M.G.L.) - XI
ENTRE MARÇO E ABRIL
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril,
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?
Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.
Frésias,
ó pura memória
de ter cantado –
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
– que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?
EUGÉNIO DE ANDRADE
terça-feira, 7 de março de 2017
domingo, 5 de março de 2017
sábado, 4 de março de 2017
C de Começar o dia com um livro novo (XLVII)
AZUIS
I
Não sei se o fio do horizonte separa ou junta dois azuis. Faz rimar azul com azul, mas é talvez falsa, essa rima. O finito e o infinito, e ao meio uma só linha a cerzir azul com azul: céu e mar não rimam, e no entanto haverá rima mais perfeita? O mar, e depois dele o outro azul (que às vezes parece negro), assim por esta ordem. Ou é apenas falsa rima, a esconder, noite com noite, uma outra noite maior e mais dispersa?
[...]
Rosa Maria Martelo
in Siringe, com capa de Luis Manuel Gaspar e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Averno, 2017
[ID, 27/02/017]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
sexta-feira, 3 de março de 2017
V de Vista para um saguão (VI)
"MARÇO
O primeiro cuco e as primeiras brisas primaveris. Agora, nas ilhas mais ao sul, as primeiras cigarras começam a saudar a luz do Sol e as andorinhas a construir os ninhos nos beirais. (Destrói o ninho da andorinha e vais ficar com sardas, diz a lenda popular. Outra superstição diz que haverá uma morte na casa.) No primeiro dia do mês, os rapazes fazem uma andorinha de madeira, enfeitam-na com flores e vão de casa em casa, pedindo moedas e cantando uma pequena canção que varia de lugar para lugar na Grécia. Este costume vem da mais remota Antiguidade e é mencionado por autores gregos antigos.
Em algumas ilhas do Mar Egeu, os camponeses acham que dá azar lavar ou plantar vegetais durante os três primeiros dias de março. Se se plantar árvores, estas murcham. O sol de março queima a pele; e um fio vermelho e branco no pulso não deixa que os nossos filhos tenham queimaduras solares.
[...]"
Lawrence Durrel, As Ilhas Gregas,
trad. de Carlos Leite, Lisboa, Relógio D'Água, 2016
[ID, Abril 2016]
quinta-feira, 2 de março de 2017
E de "e é sempre segunda-feira / nas paragens" (V)
"[...] Quando vivia em Londres, o terror era quase insuportável. Não conseguia escapar aos homens; as suas vozes entravam pelas janelas, e até as portas trancadas se revelavam frágeis salvaguardas. Saía de casa para combater as minhas alucinações, e mulheres de rua miavam-me, homens carentes e furtivos lançavam-me olhares de cobiça, trabalhadores pálidos e exaustos passavam por mim a sorrir, com o seu olhar cansado e o seu andar ansioso, como veados feridos a pingar sangue, e pessoas idosas, curvadas e mortiças, cruzavam-se comigo, falando sozinhas, absolutamente indiferentes a um séquito esfarrapado de crianças trocistas. Refugiava-me então nalguma capela, mas mesmo aí a minha perturbação era tão grande que me parecia que o pregador palrava, encadeando Grandes Pensares tal como o Homem-Macaco fazia; ou numa biblioteca, e aí os rostos concentrados nos livros lembravam-me apenas criaturas pacientes à espera da sua presa. Os rostos vazios e inexpressivos das pessoas nos comboios e nos autocarros eram particularmente repelentes; eram tão parecidos com seres humanos como o seria um cadáver, de modo que não me atrevia a viajar a menos que tivesse a certeza de estar sozinho. E nem eu parecia ser uma criatura racional, mas apenas um animal atormentado por uma estranha perturbação do seu cérebro, que o obrigava a vaguear sozinho como um carneiro doente.
[...]"
H. G. Wells, A Ilha do Doutor Moreau,
trad. de Inês Dias,
Lisboa, Relógio D'Água, 2017
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
Q de "Que a alegria permaneça em mim" (VIII)
António Barahona, Só o som por si só (Quarto Tômo da Suma Poética),
com capa a partir de colagem do Autor e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Alambique, 17 de Janeiro de 2017
domingo, 19 de fevereiro de 2017
L de Ler (VIII)
(a Carson McCullers)
"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"
Carson McCullers moribunda ou recém-nascida
cessou de respirar sem alcançar a ciência?
Um velho, a criança, o café ambulante,
na madrugada da América o amor da cerveja,
e a mulher fugitiva dentro do velho
a entrar devagar pelos olhos da criança
"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"
"o sorriso era vivo. - Lembra-te de que te amo"
Eu serei aquele velho e tu a brancura,
a neve suspensa, à noite, sobre a cama,
quando o recordar-te para não morrer
for a única tarefa na solidão do poema
E direi como ele à criança d'alva:
"Sabes como o amor devia começar?"
"Sabes como o amor devia começar?"
(E nem alegria nem tristeza no meu rosto:
Um navio em dia de canícula
através do lago dos peixes dourados,
uma chuva miudinha, uma letra infantil
que salpica os painhos pousados nos mastros):
"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"
António Barahona, Eunice,
Lisboa, Ed. do Autor, 1970
Lisboa, Ed. do Autor, 1970
à memória de Carson McCullers
Uma árvore, um rochedo, uma nuvem
Carson McCullers moribunda ou recém-nascida
cessou de respirar sem alcançar a ciência?
Um velho, uma criança, um café ambulante,
na madrugada da América o sabor a cerveja,
e uma mulher fugitiva dentro do velho
a entrar devagar plos olhos da criança
Uma árvore, um rochedo, uma nuvem
o sorriso era vivo. - Lembra-te de que te amo
Eu serei aquele velho e tu a mulher,
a neve suspensa, à noite, sôbre a cama,
quando o recordar-te para não morrer
for a única tarefa na solidão do poema
E direi como ele à criança d'alva:
- Sabes como o amor devia começar?
E nem alegria nem tristeza no meu rosto:
um navio em dia de canícula
através do lago dos peixes dourados,
uma chuva miudinha, uma letra infantil
que salpica os painhos pousados nos mastros:
Uma árvore, um rochedo, uma nuvem.
António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tômo da Suma Poética),
Lisboa, Averno, 2015
R de Rosa Rotativa *
You are tired,
(I think)
Of the always puzzle of living and doing;
And so am I.
Come with me, then,
And we'll leave it far and far away—
(Only you and I, understand!)
You have played,
(I think)
And broke the toys you were fondest of,
And are a little tired now;
Tired of things that break, and—
Just tired.
So am I.
But I come with a dream in my eyes tonight,
And knock with a rose at the hopeless gate of your heart—
Open to me!
For I will show you the places Nobody knows,
And, if you like,
The perfect places of Sleep.
Ah, come with me!
I'll blow you that wonderful bubble, the moon,
That floats forever and a day;
I'll sing you the jacinth song
Of the probable stars;
I will attempt the unstartled steppes of dream,
Until I find the Only Flower,
Which shall keep (I think) your little heart
While the moon comes out of the sea.
- E. E. CUMMINGS
ROSA ROTATIVA
para o António Barahona e a Daniela Gomes
"Je vis mes roses rosées dans mes ténèbres."
PIERRE JEAN JOUVE
Já é tarde. Os grunhos do andar de cima terminaram, enfim, de celebrar estridentemente a vitória do Benfica em Bordéus. Na companhia de Chet Baker, estive a ler As Grandes Ondas e senti-me, uma vez mais, visitado por um fogo limpo que cresce a cada leitura. Até um descrente, como eu, acaba por encontrar ali a única religião possível, onde o amor (pelo que é belo e verdadeiro) e o ódio (pelo que é vil e interesseiro) sabiamente se equilibram numa corajosa Guerra Santa.
Foi sempre assim: há os que esculpem versos, recorrendo a aclamadas e simiescas habilidades ou a revoltas de papelão, e existem, nos antípodas (escandalosamente ignorados), os poetas incondicionais, na urgência do seu grito, sussurro ou pranto. Tive a sorte de conhecer alguns desses príncipes sem reino e, em particular, António Barahona. À partida, dir-se-ia, muito pouco nos poderia aproximar. Mas ignorámos ambos, até que fosse chegado o momento, que a amizade é uma ponte incalculável e que o fundo respeito pela língua que partilhamos se tornou uma moeda rara, desprezada por banqueiros, políticos ou linguistas que se deleitam com novas escravaturas, e que tudo procuram traduzir em números.
*
Ao poeta, se realmente o for, nada pode ser alheio. Sabe-o, crua e visceralmente, António Barahona: «E pergunto-me por que escrevo, do mesmo modo que pergunto por que respiro; e reaproprio-me de tudo, a fim de vislumbrar o Todo, na tentativa de converter em harmonia a dissonância do mundo». Daniela Gomes foi sensível a este apelo, permitindo que as rosas rotativas do poeta se fundissem no mar inominado em que corpo e espírito se equivalem, para que o verbo sangre e resplandeça.
*
Poucas grandes ondas tenho visto assim tão altas. Devia oferecer-vos, em vez deste texto, rosas brancas e vermelhas, coisas de cheiro feliz.
- Manuel de Freitas
in Telhados de Vidro n.º 18, Lisboa, Averno, Maio de 2013
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXXVII)
[ID, São Miguel, 28/06/015]
UM POEMA DE CARL SANDBURG
Quero-te
como as raízes secas
desejam a chuva
no verão
como o vento deseja
as folhas
do chão
e perdoa
dizer tudo isto tão
depressa
Emanuel Félix, 121 Poemas Escolhidos,
Lisboa, Edições Salamandra, 2003
[ID, São Miguel, 25/06/015]
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
S de Santa Cruz (XI)
[Navio Hay, encalhado a 5 de Fevereiro de 1929, em Santa Cruz, na actual Praia do Navio
- um dos fascínios da minha infância]
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
S de Santa Cruz (XV)
ADAMASTOR
[Miradouro de Santa Catarina, 1927]
Regressámos à praia,
esgotada essa série de acidentes
em que o menor foi o amor,
ao contrário do que se previa.
Deixámos a maré subir
na memória, cancelar-nos
a areia sob os pés, levar
até os restos do navio encalhado
corpo de ossos já limpos.
Podia ter sido o meu.
Somos, afinal, dos últimos:
desfiamos gerações, contando onda após onda
após onda, até ao mergulho final.
E escrevemos como vivemos,
na espuma ou nos vidros embaciados
da cidade, com a teimosa convicção de que
nada ficará – nós não ficaremos.
Inês Dias, Da Capo,
Lisboa, Averno, 2014
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
M de "My house, I say" (VIII)
O sorriso aos 2 minutos e 4 segundos:
"When he takes me in his harms/ The world is bright/ All right".
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
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