quinta-feira, 14 de março de 2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

A de Aniversário (III)

NECROFILIA



Estás morto. Eu sei. Mas amo-te.
Os meus amigos tentam distrair-me
com jogos, festas, copos e viagens.
Os meus pais sugerem-me com doçura
que podia consultar algum psiquiatra
de renome. Meu amor, que absurdo tudo isto.
Só tenho certeza de uma coisa:
não voltarei mais ao cemitério
até que o meu telefone toque
e a tua voz me peça um encontro.


Amalia Bautista, Cárcel de Amor,
Sevilla: Editorial Renacimiento, 1988

[trad. ID]

P de "Pelos caminhos da manhã" (III)






John Rogers Cox, "Gray and Gold", 1942

terça-feira, 12 de março de 2013

L de Leituras paralelas


DIZER NÃO AOS BONS OFICIAIS COMO OFÍCIO,
à sua máscara e ao seu enjoo.
Dizer basta à sua organização, à sua ordem,
acabou-se a tanto arcanjo diplomático.
Saber que cada abraço é um selo na boca
e que os nossos silêncios são comprados com pancadinhas
nas costas e nos ombros. Não hesitar na hora
de reprimir um lampejo das nossas vaidades.
A beatice mordeu-me em jovem
e converti o amor em meu inimigo.
Prometeram-me mundos e fundos
e dormi com a ambição, essa amante com espinhos.
Depois disse até aqui, e não era tarde
porque estremeci na magia
de um fio que me prendia à origem do mundo
e até lá passava pelas coisas secretas.
Mas vieram outra vez os bons com as suas músicas,
vestiram-me de limpo, casaram-me
com a decência e o decoro
e em troca cobraram-me muito sangue.
Já basta de Verdade com os seus remendos.
Já basta de chantagem, morte à sua derrota,
que a ameaça não prolongue a minha vida.
À hora da sesta, quando tudo é sonolência
e recupera a paisagem a sua nudez antiga,
como Gregory Corso subi ao sótão
e abri a janela para atirar as coisas
mais importante por ela: a Verdade, com a sua impostura,
disse-me: “Não faças isso, senão denuncio-te;
direi que foste infiel aos teus amigos,
à tua mulher, desleal com os teus pais,
uma má pessoa”. Fora!
E logo Deus a jurar por si mesmo
através dos seus templos e dos seus corifeus
isso do livre arbítrio, que Ele não teve culpa,
que está inocente
porque na sua essência sem contradição
não é capaz de mentir, nem dividir-se
no seu todo absoluto, excepto
quando ao sétimo dia
encarregou Heine de criar as nuvens.
E depois o Amor a prometer a sua felicidade
como um bolo de cascas,
enjoativo primeiro e depois sujo.
Livre!, sim, na condição de não obter
tal liberdade de joelhos fincados.
Livre!, mas de tanta liberdade,
essa que liga Deus às contradições
dos seus operários especializados, não às do santo
ou às do missionário que estão feitas de pão,
de vinho e de reunião:
a liberdade da sabedoria como uma circunferência,
a liberdade da razão sempre a duvidar,
a da fé não submetida ao seu dogma.
Ramos sem tronco floridos,
no extremo erigida a flor
como o sangue elevado no beijo,
sem a sua raiz a rosa na liberdade azul,
os pássaros com mãos ou os homens com asas.
E o seu fulgor como de feitiçaria.
Um sonho em que gire o universo.
Eu e a minha luz em solene despedida de tudo o que me prende,
à margem da lei, do seu artifício, do seu clã;
da justiça, que nunca enforca
os bolsos cheios.
Eu voando, voando onde não
há choro, voando no esquecimento.

Mas como costuma acontecer nos sonhos felizes
acordei nesse ponto,
quebraram-me de repente o mealheiro
como o entardecer o céu puro do oeste.


Antonio Hernández, O Mundo Inteiro,
Lisboa: Língua Morta, 2012

domingo, 10 de março de 2013

C de Cicatriz

"[...]
vivo para coser a pele com cuidado."

João Almeida, A Formiga Argentina,
Lisboa: Averno, 2005




Roland Topor
(1938-1997)

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLIV)


SERPENTES AURIVERDES



As fotografias ardem nas horas que ardem em mim
pele, carne, uma boca branca com bagas de insónia. Atirado com pedras
coloco a cabeça nos orifícios da fuga. E quando chegas e abres a porta
a árvore onde o sol brilha e que olho há 50 horas
desaparece debaixo do teu desespero

o trabalho e a casa sem mundo, o barulho do êxodo que lá fora entra
nas tuas e nas minhas mãos

para fugir não temos força, ganhámos o torpor amarelo da rendição
como quem come carne de semelhantes. Olhamo-nos 
e bolinhas de algodão caem à nossa volta,
pólens de luz eléctrica

a nossa voz sem palavras e sem fim
não é capaz de parar o murro que nos vicia 
pergunto se vais ajudar no piquete
já lá estive, o povo que se foda, só lá estamos nós a pregar aos peixinhos
que se incendeie tudo com gasolina e espanquemos o governador civil.


João Almeida, A Formiga Argentina,
Lisboa: Averno, 2005

Y de "y el sol era un domingo" (II)


seis horas
parece domingo   parece sempre domingo
quando se ouve a feira das gaivotas
e o infinito cheira a peixe
e ainda não nasceu o aroma dos cafés de máquina
as lojas da baixa fechadas
o casario despintado a sujar o olho
os pombos do largo são muitos
engordam com o ar da festa e das farturas
mas isto mais para diante
quando a manhã for mais clara
e a procissão estiver no adro
hão-de vir os comissários do cortejo   os acólitos
e mais pessoas investidas
os seráficos bombeiros
primeiro o andor da senhora com rosas
depois o senhor da cruz com rosas brancas
e o mirone do transístor na orelha com os pés no bordo do passeio


Abel Neves, Quasi Stellar,
Lisboa: Língua Morta, 2013

sábado, 9 de março de 2013

W de Wild is the wind (IX)


"Mendigo", disse Deus,
"ando de lixo em lixo.
Um cão morreu.
Alguém perdeu a carteira.
Uma criança chora
arranhada por um cometa.
Se peço esmola, faço-o
com um olhar amoroso.
Pesco um sapato no lago.
Não sei, ao certo, em que ano estou.
Consta que a primavera
se fez assassinar, além, entre os pinheiros.
A tempestade assobia,
que nem um deus se atreve a ir lá fora.
Dêem-me um pulover
mesmo com buracos."



Alain Bosquet, O Tormento de Deus,
trad. Jorge Guimarães,
Lisboa: Quetzal Editores, 1992

quinta-feira, 7 de março de 2013

R de Rezar na era da técnica - XI b


"Café-creme com travo de desânimo,
já provei", disse Deus.
"Como as horas de neura, que suporto,
ou não tivesse andado já para aí
a apanhar as beatas da existência.
O absurdo, às vezes, impacienta-me:
em que rails de que metro
encontra Deus,
dentes e rótula inidentificáveis?
A alva cheira a teia fresca.
A música é mais barata do que o vinho.
Chamam-me por socorro:
um assassino encarniça-se
sobre o orvalho."


Alain Bosquet, O Tormento de Deus,
trad. Jorge Guimarães,
Lisboa: Quetzal Editores, 1992 

quarta-feira, 6 de março de 2013

R de Rezar na era da técnica (XI)

III


- o deus é tigre
- eu persigo-o
- o deus é trigo
- ele será o meu festim
- o deus é neve
- eu sujo-o
- o deus é ouro
- eu gasto-o
- o deus é rio
- eu desvio-o
- o deus é riso
- eu aceito-o se ele matar os outros deuses



Alain Bosquet

[Trad. ID]

R de Regresso ao real - VI b


"[...] viu, com os olhos que este mesmo sol há-de ver fecharem-se, os desenhos fora do desenho."

terça-feira, 5 de março de 2013

R de Regresso ao real (VI)

[...]
 
Tenho uma recordação de mim em criança, a afagar um pormenor num romance. Recordar o momento é outra forma de restaurar a fé na ficção. A experiência foi hipnótica, com consequências para toda a vida, porque me mostrou como os mundos dos factos e da ficção podem interpenetrar-se. Eu tinha 13 anos, estava sozinho na biblioteca da escola, fascinado com The Go-Between, de L. P. Hartley. O herói, Leo, filho de uma família pobre, passa as férias de verão de 1900 com um colega, cuja família tem uma grande casa de campo. O cerne da acção é, claro, o papel de Leo como mensageiro numa relação amorosa ilícita. Mas o que me envolveu foi a onda de calor daquele mês de julho e o fascínio do rapazinho pelo termómetro da estufa, sempre à espera que o mercúrio atingisse os 100 graus. O exemplar dessa semana da revista satírica Punch chega à casa e, lá dentro, um desenho mostra "O Sr. Punch debaixo de uma sombrinha, franzindo o sobrolho, enquanto o Cão Toby, com a língua de fora, se arrasta atrás dele."
 
Lembro-me de pôr o livro de parte e, num movimento inspirado, atravessar a biblioteca até às prateleiras onde as velhas edições de Punch estavam guardadas, tirar o volume de 1900 e abri-lo no mês de julho. E lá estavam eles, o cão sobreaquecido, a sombrinha e o Sr. Punch a limpar a testa com um lenço! Era verdade. Senti-me cativado, deliciado, com o poder de algo simultaneamente imaginado e real. E por instantes senti uma tristeza inabitual, nostalgia por um mundo de que fora excluído. Por um momento, eu tinha sido Leo, a ver o que ele via, e era de novo 1962 e eu estava na escola interna, sem onda de calor, apenas com este pequeno vestígio de uma revista que amarelecia.
 
[...]
 
 
 
Ian McEwan, "Apostasia Ficcional"
(trad. de António Costa Santos)
in Atual/Expresso, 2 de Março de 2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

S de "Semantics won't do" (XVII)




[...]
and the wind going wild 
in the trees
[...]

domingo, 3 de março de 2013

P de Poética - XLII c


UM ADEUS



não te verei mais
há o mar a esvaziar
há o céu a vestir
o teu rosto atinge já as árvores
e durante quinze séculos
procurarei o teu riso 
sob os objectos saqueados
não te verei mais
há a lua a recolher
há o espaço e os outros espaços 
a abrigar nas minhas veias
os teus joelhos deslizam sob o rio
as tuas clavículas brilham
sobre a pele das falésias
não te verei mais
há a morte a enganar
há o planeta a morder
com os mil dentes que me deu a ausência


Alain Bosquet

[Trad. ID]

sábado, 2 de março de 2013

S de "Semantics won't do" (XVI)


"[...]
Le futur sera mieux
Tellement mieux que ça
[...]"

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLIII)


combate por mil desertores
a recusa da recusa
é um miosótis
o homem perdeu a carne do verbo
como se perde num campo
a coroa de um rei ainda não inventado



Alain Bosquet

[Trad. ID]

S de "Semantics won't do" - XV b


sexta-feira, 1 de março de 2013

S de "Semantics won't do" (XV)


P de Poética - XLII b


Tratam mal a vossa linguagem:
é por isso que
as vossas framboesas dão víboras,
os vossos arquipélagos tossem sangue,
as vossas colinas se quebram
como copos de licor,
os vossos sóis estão doentes
e se vão sentar em camas desfeitas.
A vossa linguagem
trata-vos mal: irão morrer
logo ao primeiro ataque de prosa.


Alain Bosquet
 
[Trad. ID]