sábado, 18 de março de 2017

R de Rebeca (XII)


Ele podia ouvir os cães à distância, e os seus latidos
levaram-no até à capela que se erguia junto à estrada,
mas não entrou nela. Isto ficava aquém de rezar,
e os cães negros eram apenas os seus pensamentos de noites de terror
através das rígidas e gratificantes florestas de Santa Cruz;
o coração dele coxeia, borbulhando sangue como bagas no seu caminho,
três ou quatro cristas de palmeira, e os berros loucos dos papagaios
são como o rumor dos testemunhos num julgamento obsceno,
mas atravessam o céu róseo e desvanecem-se, e regressa o consolo.
Na quente e oca tarde, um grito atravessa o vale,
um falcão plana, e atrás da chama das perpétuas uma colina arde
com um sulco de fumo azul; isto é tudo o que há de importante.
Ó folhas, multiplicai os dias da minha ausência para os subtrair
à humilhação do castigo, à emboscada da desgraça
pelo que são: excremento que não merece nenhum tema,
nem o nó e o aprumo de um cedro ou a erva branda,
apenas o desdém da indiferença, de suportar a tempestade de abusos
como o ágil movimento dos ramos que se agitam com a graça
da resistência, curvando-se do mesmo modo que o bambu obedece
às rajadas horizontais de chuva, não enquanto martírio
mas enquanto complacência natural; abaixo dele havia uma casa
em que sem qualquer ferida era mais do que bem-vindo,
e cães dóceis vinham até ao portão atraídos pela sua voz.


- Derek Walcott [1930 - 17 de Março de 2017]
in The Bounty, 1998
[Trad. Inês Dias]

segunda-feira, 13 de março de 2017

E de "e é sempre segunda-feira / nas paragens" (VI)


HUMILDADE


Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tanto quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva,
e os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.


- CECÍLIA MEIRELES

sexta-feira, 10 de março de 2017

C de Começar o dia com um livro novo (XLVIII)


quando eu já cá não estiver
para gostar das coisas a que dei um nome
quem lhes dirá que o meu estava dentro delas
como uma folha de tília
desenhada no frio de uma ardósia?

[...]




Emanuel Jorge Botelho, Os ossos dentro da cinza, 
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos, 
Lisboa, Averno, 9 de Março de 2017

quinta-feira, 9 de março de 2017

R de Rezar na era da técnica (XXIV)


P de (Po)ética (LV)


ESCREVER


A vida é demasiado séria para eu continuar a escrever. A vida costumava ser mais fácil, e muitas vezes agradável, e então escrever era agradável, embora também parecesse sério. Agora a vida não é fácil, tornou-se muito séria e, por comparação, escrever parece um pouco disparatado. Escrever não é, muitas vezes, sobre coisas reais, mas depois, quando é sobre coisas reais, está muitas vezes a ocupar o lugar de algumas coisas reais. Escrever é demasiadas vezes sobre pessoas que não aguentam mais. Tornei-me entretanto uma dessas pessoas. Sou uma dessas pessoas. O que eu devia fazer, em vez de escrever sobre pessoas que não aguentam mais, é pura e simplesmente desistir de escrever e aprender a aguentar. E prestar mais atenção à própria vida. A única maneira de me tornar mais inteligente é não voltar a escrever. Há outras coisas que eu devia estar a fazer em vez disso.


Lydia Davis, Não Posso nem Quero,
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2015




[ID, Coimbra 013]

quarta-feira, 8 de março de 2017

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (M.G.L.) - XI


ENTRE MARÇO E ABRIL


Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril,
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?

Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.

Frésias,
ó pura memória
de ter cantado –
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
– que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?


EUGÉNIO DE ANDRADE

terça-feira, 7 de março de 2017

C de Começar o dia com um livro novo XLVII - b




[Uma epígrafe
in Rosa Maria Martelo, Siringe, 
Lisboa, Averno, 2017]

domingo, 5 de março de 2017

T de Teacher Was Here (II)


"[...]
O lugar está em mim. O céu está em ti."





[ID, 04/03/017]

sábado, 4 de março de 2017

C de Começar o dia com um livro novo (XLVII)


AZUIS


I

Não sei se o fio do horizonte separa ou junta dois azuis. Faz rimar azul com azul, mas é talvez falsa, essa rima. O finito e o infinito, e ao meio uma só linha a cerzir azul com azul: céu e mar não rimam, e no entanto haverá rima mais perfeita? O mar, e depois dele o outro azul (que às vezes parece negro), assim por esta ordem. Ou é apenas falsa rima, a esconder, noite com noite, uma outra noite maior e mais dispersa?

[...]


Rosa Maria Martelo
in Siringe, com capa de Luis Manuel Gaspar e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Averno, 2017





[ID, 27/02/017]

sexta-feira, 3 de março de 2017

V de Vista para um saguão (VI)


"MARÇO

O primeiro cuco e as primeiras brisas primaveris. Agora, nas ilhas mais ao sul,  as primeiras cigarras começam a saudar a luz do Sol e as andorinhas a construir os ninhos nos beirais. (Destrói o ninho da andorinha e vais ficar com sardas, diz a lenda popular. Outra superstição diz que haverá uma morte na casa.) No primeiro dia do mês, os rapazes fazem uma andorinha de madeira, enfeitam-na com flores e vão de casa em casa, pedindo moedas e cantando uma pequena canção que varia de lugar para lugar na Grécia. Este costume vem da mais remota Antiguidade e é mencionado por autores gregos antigos.
Em algumas ilhas do Mar Egeu, os camponeses acham que dá azar lavar ou plantar vegetais durante os três primeiros dias de março. Se se plantar árvores, estas murcham. O sol de março queima a pele; e um fio vermelho e branco no pulso não deixa que os nossos filhos tenham queimaduras solares.
[...]"


Lawrence Durrel, As Ilhas Gregas,
trad. de Carlos Leite, Lisboa, Relógio D'Água, 2016




[ID, Abril 2016]

quinta-feira, 2 de março de 2017

E de "e é sempre segunda-feira / nas paragens" (V)


"[...] Quando vivia em Londres, o terror era quase insuportável. Não conseguia escapar aos homens; as suas vozes entravam pelas janelas, e até as portas trancadas se revelavam frágeis salvaguardas. Saía de casa para combater as minhas alucinações, e mulheres de rua miavam-me, homens carentes e furtivos lançavam-me olhares de cobiça, trabalhadores pálidos e exaustos passavam por mim a sorrir, com o seu olhar cansado e o seu andar ansioso, como veados feridos a pingar sangue, e pessoas idosas, curvadas e mortiças, cruzavam-se comigo, falando sozinhas, absolutamente indiferentes a um séquito esfarrapado de crianças trocistas. Refugiava-me então nalguma capela, mas mesmo aí a minha perturbação era tão grande que me parecia que o pregador palrava, encadeando Grandes Pensares tal como o Homem-Macaco fazia; ou numa biblioteca, e aí os rostos concentrados nos livros lembravam-me apenas criaturas pacientes à espera da sua presa. Os rostos vazios e inexpressivos das pessoas nos comboios e nos autocarros eram particularmente repelentes; eram tão parecidos com seres humanos como o seria um cadáver, de modo que não me atrevia a viajar a menos que tivesse a certeza de estar sozinho. E nem eu parecia ser uma criatura racional, mas apenas um animal atormentado por uma estranha perturbação do seu cérebro, que o obrigava a vaguear sozinho como um carneiro doente. 
[...]"


H. G. Wells, A Ilha do Doutor Moreau, 
trad. de Inês Dias, 
Lisboa, Relógio D'Água, 2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Q de "Que a alegria permaneça em mim" (VIII)




António Barahona, Só o som por si só (Quarto Tômo da Suma Poética),
com capa a partir de colagem do Autor e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Alambique, 17 de Janeiro de 2017

domingo, 19 de fevereiro de 2017

L de Ler (VIII)


(a Carson McCullers)


"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"
Carson McCullers moribunda ou recém-nascida
cessou de respirar sem alcançar a ciência?

Um velho, a criança, o café ambulante,
na madrugada da América o amor da cerveja,
e a mulher fugitiva dentro do velho
a entrar devagar pelos olhos da criança

"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"
"o sorriso era vivo. - Lembra-te de que te amo"
Eu serei aquele velho e tu a brancura,
a neve suspensa, à noite, sobre a cama,
quando o recordar-te para não morrer
for a única tarefa na solidão do poema

E direi como ele à criança d'alva:
"Sabes como o amor devia começar?"
(E nem alegria nem tristeza no meu rosto:
Um navio em dia de canícula
através do lago dos peixes dourados,
uma chuva miudinha, uma letra infantil
que salpica os painhos pousados nos mastros):

"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"


António Barahona, Eunice,
Lisboa, Ed. do Autor, 1970






à memória de Carson McCullers


Uma árvore, um rochedo, uma nuvem
Carson McCullers moribunda ou recém-nascida
cessou de respirar sem alcançar a ciência?

Um velho, uma criança, um café ambulante,
na madrugada da América o sabor a cerveja,
e uma mulher fugitiva dentro do velho
a entrar devagar plos olhos da criança

Uma árvore, um rochedo, uma nuvem
o sorriso era vivo. - Lembra-te de que te amo
Eu serei aquele velho e tu a mulher,
a neve suspensa, à noite, sôbre a cama,
quando o recordar-te para não morrer
for a única tarefa na solidão do poema

E direi como ele à criança d'alva:
- Sabes como o amor devia começar?
E nem alegria nem tristeza no meu rosto:
um navio em dia de canícula
através do lago dos peixes dourados,
uma chuva miudinha, uma letra infantil
que salpica os painhos pousados nos mastros:

Uma árvore, um rochedo, uma nuvem.


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tômo da Suma Poética),
Lisboa, Averno, 2015

R de Rosa Rotativa *


You are tired,
(I think)
Of the always puzzle of living and doing;
And so am I.

Come with me, then,
And we'll leave it far and far away—
(Only you and I, understand!)

You have played,
(I think)
And broke the toys you were fondest of,
And are a little tired now;
Tired of things that break, and—
Just tired.
So am I.

But I come with a dream in my eyes tonight,
And knock with a rose at the hopeless gate of your heart—
Open to me!
For I will show you the places Nobody knows,
And, if you like,
The perfect places of Sleep.

Ah, come with me!
I'll blow you that wonderful bubble, the moon,
That floats forever and a day;
I'll sing you the jacinth song
Of the probable stars;
I will attempt the unstartled steppes of dream,
Until I find the Only Flower,
Which shall keep (I think) your little heart
While the moon comes out of the sea.


- E. E. CUMMINGS





ROSA ROTATIVA


para o António Barahona e a Daniela Gomes

                       
                         "Je vis mes roses rosées dans mes ténèbres."

                        PIERRE JEAN JOUVE


Já é tarde. Os grunhos do andar de cima terminaram, enfim, de celebrar estridentemente a vitória do Benfica em Bordéus. Na companhia de Chet Baker, estive a ler As Grandes Ondas e senti-me, uma vez mais, visitado por um fogo limpo que cresce a cada leitura. Até um descrente, como eu, acaba por encontrar ali a única religião possível, onde o amor (pelo que é belo e verdadeiro) e o ódio (pelo que é vil e interesseiro) sabiamente se equilibram numa corajosa Guerra Santa. 
      Foi sempre assim: há os que esculpem versos, recorrendo a aclamadas e simiescas habilidades ou a revoltas de papelão, e existem, nos antípodas (escandalosamente ignorados), os poetas incondicionais, na urgência do seu grito, sussurro ou pranto. Tive a sorte de conhecer alguns desses príncipes sem reino e, em particular, António Barahona. À partida, dir-se-ia, muito pouco nos poderia aproximar. Mas ignorámos ambos, até que fosse chegado o momento, que a amizade é uma ponte incalculável e que o fundo respeito pela língua que partilhamos se tornou uma moeda rara, desprezada por banqueiros, políticos ou linguistas que se deleitam com novas escravaturas, e que tudo procuram traduzir em números.

*

Ao poeta, se realmente o for, nada pode ser alheio. Sabe-o, crua e visceralmente, António Barahona: «E pergunto-me por que escrevo, do mesmo modo que pergunto por que respiro; e reaproprio-me de tudo, a fim de vislumbrar o Todo, na tentativa de converter em harmonia a dissonância do mundo». Daniela Gomes foi sensível a este apelo, permitindo que as rosas rotativas do poeta se fundissem no mar inominado em que corpo e espírito se equivalem, para que o verbo sangre e resplandeça.

*

Poucas grandes ondas tenho visto assim tão altas. Devia oferecer-vos, em vez deste texto, rosas brancas e vermelhas, coisas de cheiro feliz.


- Manuel de Freitas
in Telhados de Vidro  n.º 18, Lisboa, Averno, Maio de 2013

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXXVII)



[ID, São Miguel, 28/06/015]



UM POEMA DE CARL SANDBURG


Quero-te 
como as raízes secas
desejam a chuva
no verão

como o vento deseja
as folhas
do chão

e perdoa
dizer tudo isto tão
depressa


Emanuel Félix, 121 Poemas Escolhidos, 
Lisboa, Edições Salamandra, 2003




[ID, São Miguel, 25/06/015]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

S de Santa Cruz (XI)


[Navio Hay, encalhado a 5 de Fevereiro de 1929, em Santa Cruz, na actual Praia do Navio
- um dos fascínios da minha infância]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

S de Santa Cruz (XV)


ADAMASTOR
[Miradouro de Santa Catarina, 1927]


Regressámos à praia,
esgotada essa série de acidentes
em que o menor foi o amor,
ao contrário do que se previa.
Deixámos a maré subir
na memória, cancelar-nos
a areia sob os pés, levar
até os restos do navio encalhado
que ressuscitava todas as manhãs,
corpo de ossos já limpos.
Podia ter sido o meu.
Somos, afinal, dos últimos:
desfiamos gerações, contando onda após onda
após onda, até ao mergulho final.

E escrevemos como vivemos,
na espuma ou nos vidros embaciados
da cidade, com a teimosa convicção de que
nada ficará – nós não ficaremos.


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa, Averno, 2014





sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

M de "My house, I say" (VIII)


O sorriso aos 2 minutos e 4 segundos: 
"When he takes me in his harms/ The world is bright/ All right".



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017