segunda-feira, 20 de julho de 2020

P de "(As) Praias Obscuras" (III)




António Nobre, ,
2.ª ed. revista, aumentada e ilustrada, Lisboa: Guillard, Aillaud & C.ª, 1898



P de (Po)ética - XLIX d


À BEIRA DE UM MAR PARECIDO


Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017



domingo, 19 de julho de 2020

P de Pássaros anónimos (XVIII)





recado


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto, Horto de Incêndio,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997





[ID, Santa Cruz,  2016-2018]

quinta-feira, 16 de julho de 2020

P de Perder a cabeça - IV b


(O pardal)

A catástrofe das pequenas coisas.
Um pássaro canta sobre a esfera de pedra.
Envolve-o a secura, não a do deserto, mas a do cimento. Desbotado.
Nem um vaso, nem uma cadeira, nem um toldo, nem uma rosa de ninguém:
a luz nos mosaicos anuncia a aridez de uma execução.
A catástrofe das pequenas coisas.
Em baixo, tão em baixo que é preciso olhar para baixo, o artifício das árvores. É esta varanda que lhes tira a humanidade. Mas que é a humanidade de uma árvore? Não o pássaro que a esfera tornou um pássaro de pedra. Um canto de pedra.
Que acrescenta à pedra a forma de um voo.
Não lhe atenua a aridez:
exalta-a.
Exibe-a.
A catástrofe das pequenas coisas.
Não lhe vejo o bico entreaberto, nem o estremecimento das penas: ouço-lhe o canto.
Como um memorial.
De súbito, levantará voo.
E a pedra deixará a pedra. Sem uma marca.
:
um osso exposto
fractura quem o vê?


Rui Nunes, A Crisálida,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016




[ID, 'Memory of a bird', 07/020]

domingo, 12 de julho de 2020

F de Flor Suficiente (XXIII)


"[...]
Mas há dias encontrei, por acaso, um nenúfar branco, e a estação pela qual esperava chegou finalmente. É o símbolo da pureza. Nasce tão belo e puro perante os nossos olhos, e tão docemente perfumado, como se pretendesse mostrar-nos a pureza e doçura que podem brotar do lodo e do esterco da terra. [...]
A escravatura e o servilismo nunca produziram anualmente flores perfumadas para encantar os sentidos dos homens, pois não têm vida real: são apenas decadência e morte, desagradáveis para qualquer nariz saudável. Não nos queixamos de que estejam vivos, mas sim de que não sejam enterrados. Deixem que os vivos os enterrem até eles servem para estrume."


Henry David Thoreau, "A Escravatura no Massachusetts",
A Desobediênia Civil e Outros Ensaios, trad. de Inês Dias,
Lisboa, Relógio D'Água, 2017




[ID | Lisboa | Junho 018]

L de "Les yeux du chat" (IV)




EUGÉNIO DE ANDRADE

terça-feira, 7 de julho de 2020

sábado, 4 de julho de 2020

A de "A propósito de andorinhas" (X)



Takahashi Shôtei, 'Village with Japanese Yellow Rose', b. 1916

S de Solidão (ou C de Comunidade) LXIX




Tonino Guerra, Histórias para uma noite de calmaria,
trad. de Mário Rui de Oliveira, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002

sexta-feira, 3 de julho de 2020

C de Complicadíssima Teia



Le Journal de Jules Renard lu par Fred
[1988]


*



[ID | Madeira, 12/019]

quarta-feira, 1 de julho de 2020

B de Boal


A ILHA


para a Ângela


A ilha era deserta e o mar com medo
de tanta solidão já te sonhava:
ia em vento chamar-te para longe
e longamente em espuma te esperava.

À cinza dos rochedos atirava
na grande madrugada adormecida,
já saudosos de ti, os braços de água,
sem ter acontecido a tua vida.

Sim, meu amor, antes de Zarco vir
provar o sumo e o travo à solidão,
no litoral de pedra pressentida
o mar imaginava esta canção.

E as lúcidas gaivotas desse tempo
talhavam com um voo o teu amor:
o início de lava e sal que deixa
(talvez) neste poema algum esplendor (1).

_____

(1) A ilha hoje é um paraíso inglês
     de orquídeas e renques orvalhados:
     mister X e a cana do açúcar
     mister Y, bancos, luz, bordados.

     Ó Cesário, pudesses tu voltar
     e deste cais onde não há varinas
     ver os garotos na água a implorar
     (sir, one penny) o oiro das neblinas.


CARLOS DE OLIVEIRA




[ID | S. Martinho, 12/019]

sexta-feira, 26 de junho de 2020

T de Tratado de Pedagogia - LXII


Outro dia reli o romance de Thomas Mann, A Montanha Mágica. Este livro encena uma doença que eu conheci muito bem: a tuberculose; através da leitura, reunia na minha consciência três momentos  dessa doença: o momento da anedota, que se passa antes da guerra de 1914, o momento da minha própria doença, por volta de 1942 e o momento actual, em que a moléstia, vencida pela quimioterapia, já não tem a mesma gravidade que tinha antigamente. Ora a tuberculose que vivi é muito pouco parecida com a tuberculose da Montanha Mágica: os dois momentos confundiam-se, igualmente afastados do meu presente. Apercebi-me então com espanto (só as evidências podem espantar) que o meu próprio corpo era histórico. Em certo sentido o meu corpo é contemporâneo de Hans Castorp, o herói da Montanha Mágica; o meu corpo, que ainda não tinha nascido, tinha já vinte anos em 1907, o ano em que Hans penetrou e se instalou na "região do alto"; o meu corpo é bastante mais velho do que eu, como se nós conservássemos sempre  a idade dos medos sociais por que passámos ocasionalmente. Se, afinal, quero viver, devo esquecer que o meu corpo é histórico e devo alimentar a ilusão de que sou contemporâneo dos jovens corpos presentes e não do meu corpo passado.  Numa palavra, devo renascer periodicamente, tornar-me mais jovem do que sou. [...] Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas surge em seguida uma outra em que se ensina o que se não sabe: a isso se chama procurar.


Roland Barthes, Lição
trad. Ana Mafalda Leite, Lisboa: Edições 70, 1988

domingo, 21 de junho de 2020

L de "Les yeux du chat" (III)


8 de Novembro de 1981


Morte de Branca. 
Mal posso estar, mal posso viver no silêncio que a morte de Branca produz; mal a deixo aproximar-se em imagem, só tenho lágrimas. Quem era o ser que evoluía pelos armazéns e pelos sítios escondidos, aparecendo e desaparecendo com absoluta confiança em nós? Lembro-me dela sobre o parapeito da janela da casa de Jodoigne, por detrás da forsythia; lembro-me dela em toda a parte, na sua imobilidade branca, a recuar e a avançar sobre os meus pés com os sorrisos diferentes dos seus olhos, pois um era verde e outro azul. Mas são só palavras para o nada, estas que eu escrevo agora e sempre. 
Com Branca havia outra realidade, e por detrás dela estava anunciada uma alegria que eu desconheço. Sua morte súbita tornou preciosos para mim todos os seres de Herbais, incluindo eu própria. Vejo-a sempre sorrir numa clarividência total, e não vou continuar agora porque, neste momento, já procuro a escrita. Só sei dizer que ela, escapando da altura inacessível de um telhado, veio para nós de forma espontânea. Se ela pudesse voltar a vir, se eu pudesse voltar a recebê-la, e tê-la a viver connosco no âmbito do jardim, dos armazéns, do espaço da casa. Mas acabou definitivamente com esta forma. 
Gostava de ter uma recordação palpável de Branca. Mas qual?
Branca não possuía nada. 
Tinha-a feito figura para um livro; hoje ela é uma sombra de alegria.

[...]




Maria Gabriela Llansol, Herbais foi de silêncio - Livro de Horas VI,
Porto, Assírio & Alvim, 2018

sexta-feira, 19 de junho de 2020

T de Tratado de Pedagogia (LIII)


NUMA SALA DE AULA


Falando de poesia, carregando com os livros
às braçadas até à mesa onde as cabeças
se curvam ou olham para cima, escutando, lendo em voz alta,
falando de consoantes, elisões,
cativas do como, esquecidas do porquê:
olho para a tua cara, Jude,
que não franze o sobrolho nem acena que sim,
opaca na obliquidade das partículas de pó sobre a mesa:
uma presença como uma pedra, se uma pedra pensasse
O que não posso dizer, sou eu. Para isso vim.


Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem,
Lisboa: Cotovia, 2008

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Q de Quarentena (XIV)




Paulo da Costa Domingos, Ilícito,
Lisboa, Averno, 2020

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A de "A propósito de andorinhas" (IX)





Ao fim da tarde, o canto
do pequeno pássaro e o vento diziam
a mesma coisa: não deixes o incêndio
do deserto invadir-te o coração.
Sem que tu o suspeites, sequer.

- EUGÉNIO DE ANDRADE

F de Fazer Fotografia (XXXIX)


POEMA


Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca.


Mário Cesariny, Pena Capital

domingo, 31 de maio de 2020

B de Biorritmo (CLXI)


domingo, 24 de maio de 2020

N de "Nous deux encore" (IX)




MARIA VELHO DA COSTA

S de Santa Cruz (III)


PEVIDE



     Estava sentada à soleira das vossas portas com o coração prevenido mas manso. Vendia sentada à borda dos vossos bancos. O dentro dos dedos estava cheio de sal fino, uma sequeira. Lambia-os de relance, eu não queria ofender, sentada à porta dos vossos bancos. Sabiam ao torrado das sementes, a forno. Enrolava os pequenos dinheiros por tamanhos, como era de vosso uso. Estava sentada às vossas sombras sem nada de necessário para trocar. E via:
     O desnome das caras passeantes, o desavindo andar, as portas de redondo vidro, cromos, as pernas a galgar ao alto do meu ver, riquezas, bons cheiros, girações, o apertado coração de pressas e os que vagueavam até mim, de graça: o sal atrai e aquele estar tão queda, o funil de jornal, minhas sementes.
     Tinha eu então o coração como um trapo: nada me chegava. Porque nada me chegava talvez porque eu quisesse o pouco. O bom de algum bem quieto e poder estar ao sol. Via as ervas crescerem e revirem, nas montras, ao lado da bulha das buzinas. Que manso pasmo, as lindas folhas onde, à beira, nada parava. Fazia frio e seco, molhado outras, os anos, tudo a passar. Os que diziam “Vem” tinham outro ofício a dar-me – mulherar aos dias. Eu não tinha ofício a receber. Diziam “Pois quê?” e só eu podia como não, isso não. Acho que passaram os tempos todos e eu não me fazia mesmo velha. Não me fazia nada, de nada feita. A pouco e pouco, ainda perguntava, fui não estando à espera. Porque estando à espera, não fazia nada que não fosse da espera e ela gasta-se. Há um podre na coisa quieta sem usos que vem do dentro para o fora. Ia saindo isso e formando uma pequena nuvem de enxofre no meu regaço, salobrava. Não me parecia bem. Foi tudo passando mais de largo. Como eu era frouxa assim empodrecendo do que não ficava, não chegava, sentada à soleira das vossas pedra-mármore, balcoarias, janelos de papel-moeda, deposita. De só querer o pouco, o demenos. O só bom. O não buscar.
     Foi então que vieram levar-me porque eu não tinha roupas de direito, nomes, licença de cobrar, fazer levantamentos, vendilhona era daquele tempo.
     Mas posso fazer renda, digam. Voltar e fazer renda à soleira das vossas trocas? Malha de malha de malha até que nem já veja e então volte devida a este fora parte onde me têm? Eu só queria estar perto do vosso buliçar de ofícios, vender o verem da minha mansidão. Que medo faz paciência pobre, semente gôra seca, outra sede. Medo de malmorrer, não ter aonde. Mas aqui.


Maria Velho da Costa, Desescritas,
Porto: Afrontamento, 1973