sábado, 23 de maio de 2020

A de Aniversário (XV)


FIDELIDADE


Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.


- JORGE DE SENA




[ID, Faro | 016]

segunda-feira, 18 de maio de 2020

C de "celui qui regarde une fenêtre fermée" (II)


JANELA BAIXA


Lembra-me a janela do último
filme de Béla Tarr, mas
agora somos muitos – e a realidade
(desculpem o termo) faz-se de cores
fortes, que o calor sublinha ou desfoca,
à revelia de quaisquer intenções estéticas.

Apaixonei-me logo por este rectângulo
onde fulgura um horizonte dourado,
cruamente medido pela rotina de rebanhos
ovinos, caprinos ou humanos – semelhantes
no destino, mas desiguais no esplendor.

Ao lado, entre a ruína de dois moinhos,
pessoas vivem ou morrem
dos seus ordeiros rebanhos, da música
que emoldura tardes felizmente iguais,
debaixo de um sol inclemente.

Esta janela, afinal, não precisa de comparações.
Durará enquanto houver silêncio.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt
Lisboa, Averno, 2014





[Beja, Agosto 013]

domingo, 17 de maio de 2020

B de Biorritmo (CLX)




[...]
I've got those Monday blues
Straight through Sunday blues

[...]

quinta-feira, 14 de maio de 2020

B de Biorritmo (CLIX)


[...]
Ah, on a day
As cold
And gray
As today
[...]



quarta-feira, 13 de maio de 2020

Q de Quarentena (XIII)


JOSEF SUDEK




"As últimas rosas" 
(1956)

*


"Labirinto no meu atelier" 
(1960)

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Q de Quarentena (XII)




Carlos de Oliveira, Trabalho Poético,
3.ª ed., Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1998

domingo, 10 de maio de 2020

Q de Quarentena (XI)


É na axila que um pássaro se aninha
e toma carne e febre,
cantando o trabalho paciente
do sonho e da melancolia.
Pássaro num outro espaço,
para onde nos vão desejos e poemas...
Eu te saúdo, pássaro de branca neve e papoila viva,
ao pé do bebedouro e do espinheiro.
Pássaro: casa pequena de ossos
espalhados no alvoroço de ventos e marés...


Jacques Izoard, Jardins Mínimos e outros poemas,
tradução colectiva (Mateus, Maio de 1993) revista e apresentada por Fernando Pinto do Amaral,
Lisboa, Quetzal, 1994





Philip Evergood, "Lily and the sparrows", 1939

sábado, 9 de maio de 2020

Q de Quarentena (X)


INTERMITÊNCIAS


O autocarro afasta-se,
e a praça é uma aranha de seis patas.

Tal como esta paisagem,
a minha ideia de mim próprio foi mudando:
não posso estar completamente satisfeito.

Sei que parece um lugar-comum,
mas os lugares-comuns
                                  - como muros
de ambos os lados da estrada -
dão-nos segurança,
                            delimitam-nos.

Parar é prosseguir a caminhada.
Arbusto
            ou papoila,
também na margem existe vida.


Josep M. Rodríguez, A Caixa Negra,
trad. Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno, 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Q de Quarentena (IX)




[ID, 'Natureza interior', 03/04/012]

Q de Quarentena (VIII)


De quando em quando, alguém escreve diante de uma janela que dá para outra janela. Vive depois da deflagração e da rasura, e às vezes, ao tocar no rosto, percebe que as cinzas e o vento o escavaram até o deixarem desabitado. Escreve como quem apanha as palavras do chão e lhes tira o pó e o cotão, ao erguê-las na sua palma. Endireita-lhes os cantos dobrados e, ao observá-las com atenção, receia que já não lhe sirvam para nada. Mas não tem outras, porque vive num quarto de hotel arrasado e silencioso, e neste livro começou a caminhar no sentido contrário ao horizonte; a contar a vida de novo, embora desta vez não haja ninguém em frente para anuir com exclamações moídas. Contar a vida de um modo vacilante, precário, coxo e repondo as palavras espalhadas pelos escombros sem luz nem certezas. É nisto que consiste escrever: é esse café que vamos tomar depois de estarmos sem falar e que alguém propõe com pouca convicção, “fala-me de ti, conta-me a tua vida” e o outro, ao começar, só encontra um olhar no espelho que está atrás do balcão.


José Ángel Cilleruelo
in Cão Celeste n.º3, 
trad. Inês Dias, Lisboa, Maio de 2013

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Q de Quarentena (VII)




Edouard Boubat
[1978]

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Q de Quarentena (VI)




Caspar David Friedrich | Christian Friedrich, "A mulher com a teia de aranha", 1803

segunda-feira, 4 de maio de 2020

B de "[...] but some of us are looking at the stars." c




EUGÉNIO DE ANDRADE

domingo, 3 de maio de 2020

ALEGRIA MORTÍFERA


Ó morte, vem a meus braços,
já que não posso morrer!

AFONSO DUARTE


     A morte rondava, rotatita, ritual e ríspida:
     comia os adjectivos todos, não perdoava a eternidade dos momentos, levara a mãe e alguns dos seus melhores amigos.
     A morte respirava perto, descalça, a dansar sobre cacos de vidros.

§

     A morte punha a nu a sua castidade toda.

§

     Dormiam como dois irmãos, unidos pelo mesmo sangue, que circulava através da ternura.

§

     Esperavam um pelo outro, enquanto dormiam.

§

     Amava sem medida, sem deixar de ser perverso: andava pelo verso a verificar o som do vinho a cair no copo,
     a vibração do eco colorido e do sabor,
     cansado do cansaço, o coração cheio de musgo,
     emparedado entre a paixão e o remorso.


24.II.96


António Barahona, Maçãs de Espelho,
Lisboa: Língua Morta, 2012

quarta-feira, 29 de abril de 2020

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXXVIII)


V

A um sol de oiro,
cai em golas, das folhas,
a manhã deslumbrada.

Vai o menino
atirar pedras às águas
(leva os bolsos cheios
de calhaus colhidos
nas furnas da pedreira).

[...]


- CARLOS DE OLIVEIRA





[ID | S. Miguel | 08/012]

domingo, 26 de abril de 2020

Q de Quarentena (V)


INSTRUÇÕES PARA DAR CORDA AO RELÓGIO


     Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
     Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada. 


Julio Cortázar, Histórias de cronópios e famas,
trad. de Alfacinha da Silva,
Lisboa, Estampa, 1973




sábado, 18 de abril de 2020

N de "Nous deux encore" (VIII)


Sem mo dizeres - compreendi que a nossa vida é, principalmente, a vida dos outros... Melhor: compreendi que a ternura era o melhor da vida. O resto não vale nada. [...] O importante é a comunicação de alma para alma. A mão que aperta a nossa mão, o olhar húmido que procura o nosso olhar, o sorriso que nos acolhe, desvendam-nos o mundo. Às vezes é um nada que nos faz reflectir, é o momento, é uma figura que nos entra pela porta dentro e de que nos sentimos logo irmãos...


Raul Brandão, "O Silêncio e o Lume"
(Dezembro, 1924)

sexta-feira, 10 de abril de 2020

P de Poética (LXI)


Julgavas, então, que a poesia era um discurso
de palavras em sentido? Sei quanto a musa aprecia
glória, poder e uniforme, quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida, afinal, anda lá fora, antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna, comparada ao arbusto
que, mal tocada a haste, se desvai em fumo.

Por isso eu fico lendo as crónicas, as lendas,
o jornal que, bem ou mal, cruza as palavras com o tempo,
e contudo! quando o lábio se engana, solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente, e então se diz: eis
a verdadeira e pura poesia! pois seria, talvez,
somente a tua mão, cobrindo a folha.


- ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE





Edward Burne-Jones
[detalhe]

terça-feira, 7 de abril de 2020

Q de Quarentena (IV)


Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.


José de Almada Negreiros, Poemas,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2005





[ID, Guimarães, 08/013]

domingo, 5 de abril de 2020

Q de Quarentena (III)


"[...]

Passa uma faca sobre a vida. Tudo se apaga. A  tentação de parar ao lado de alguém é esta chuva branda, esta música de infância, testemunho a passar até onde pudermos, até desaparecermos ao longe, atrás dos rios e das montanhas, no vento dos transes dos navios, no clima dos campos de combate, onde já não são sombras quem nos espera, mas uma quarentena, a catedral, o elevador que desce até ao infinito glaciar da vida."


Ernesto Sampaio, As Coisas Naturais,
Lisboa: Averno, 2013