sexta-feira, 28 de julho de 2023

D de Do outro lado do espelho




*




Beatrix Potter, "O Conto do Porquinho Robinson",
in Contos, trad. de Inês Dias,
Lisboa, Relógio D'Água, 2017

sexta-feira, 14 de julho de 2023

L de (A) Luz da Sombra - XXVb


"[...]
Tinham as suas próprias palavras para as coisas, um jargão de origem obscura: por razões que até eles tinham esquecido, referiam-se à manteiga como queijo; chamavam inhos aos melros que pousavam nos cimos das árvores. Era um círculo que traçavam à sua volta como se fosse um abrigo. 'Não contes a ninguém de França', começava Mia, antes de lhe contar baixinho um segredo, e a resposta de Warren era invariavelmente: 'Nem uma girafa selvagem me conseguiria arrancá-lo.' 
E depois, aos onze anos - quase doze -, Mia descobrira a fotografia.
[...]"


Celeste Ng, Pequenos Fogos em Todo o Lado,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2018




Abelardo Morell, "Laura and Brady in the shadow of our house", 1994

quinta-feira, 13 de julho de 2023

a de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências"


"Le hasard a de ces sortilèges, pas la nécessité. Pour qu’un amour soit inoubliable, il faut que les hasards s’y rejoignent dès le premier instant comme les oiseaux sur les épaules de Saint François d’Assise."


MILAN KUNDERA

terça-feira, 20 de junho de 2023

T de (Uma) teoria de pássaros (XXXV)

 


T de (Uma) teoria de pássaros (XI)

CONQUISTA

III

Os pássaros conhecem-me.
Eu não os conheço:
conhecer pássaros é um destino diferente.

Ao secar,
indicarei caminhos com os meus ramos bruscos.


Jorge de Sena, Coroa da Terra,
Porto: Lello & Irmão, 1946

segunda-feira, 29 de maio de 2023

F de Feira do Livro (II)


PARA A FEIRA DO LIVRO


A Ángel Crespo


Folheada, a fôlha de um livro retoma
o lânguido e vegetal da fôlha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a fôlha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em fôlha de árvore
melhor do que vento em fôlha de livro.
Todavia a fôlha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania, varrendo o podre a zero.


*


Silencioso: quer fechado ou aberto,
incluso o que grita dentro; anônimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o posto do quadro na parede,
aberto a vida tôda, quanto da música,
viva apenas enquanto voam suas rêdes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.



João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra,
Rio de Janeiro: Editôra do Autor, 1966
(comprado, hoje, na Feira do Livro de Lisboa)

segunda-feira, 20 de março de 2023

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (VI)


Ri sobre mim a Primavera. Regressam,
como se sabe, as andorinhas. Partem para longe
as palavras estultas dos amigos.
Já voltam para mim as antigas
palavras de amor. Em ti, rapaz,
resplandecem. Brincam nos teus passos
inseguros. Mas segura em mim caminha
solitária e serena a felicidade.


- Sandro Penna, No Brando Rumor da Vida 
(Assírio & Alvim)

domingo, 19 de fevereiro de 2023

L de Lar


MY HOUSE, I SAY 


My house, I say.  
But hark to the sunny doves 
That make my roof the arena of their loves, 
That gyre about the gable all day long 
And fill the chimneys with their murmurous song: 
Our house, they say; and mine, the cat declares 
And spreads his golden fleece upon the chairs; 
And mine the dog, and rises stiff with wrath 
If any alien foot profane the path. 
So, too, the buck that trimmed my terraces, 
Our whilom gardener, called the garden his; 
Who now, deposed, surveys my plain abode 
And his late kingdom, only from the road.

 
Robert Louis Stevenson

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XII)


A ÁRVORE DAS RAÍZES


a minha infância tem uma árvore
assombrosa. é uma bela história de amor
entre as nossas mãos pequeninas
e aqueles seus braços enormes, bravos e
loucos como o riso das mães,
que faziam abrandar o medo e a tarde.

oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros
pelo labirinto de grutas cavado nas raízes,
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

ao parar, há dias, na Deslocação do Labirinto,
imaginei que talvez Vieira da Silva
tivesse sonhado a minha árvore.
ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento
engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo:

azuis e verdes com riscos ferozes
onde a vista se afunda para depois
nos libertar. assim é, entre o céu da memória
e a erva húmida destes dias,
a árvore da minha infância.


Renata Correia Botelho, Small Song,
2.ª ed., Lisboa: Alambique, 2015

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

E de Espera (XL)





PARDAL DE NATAL


A primeira coisa que ouvi esta manhã
foi um rápido bater de asas, suave, insistente -

asas contra vidro, como se percebeu depois,
lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro
agitando-se na moldura de uma janela alta,
tentando lançar-se através do
enigma de vidro até à ampla luz.

E então um ruído na garganta do gato
que estava pregado ao tapete
contou-me como o pássaro ficara lá dentro,
transportado na noite fria
através da portinhola na porta da cave,
e posteriormente solto do aperto suave dos dentes.

De pé numa cadeira, prendi as suas pulsações
numa camisa e levei-o para a porta,
tão leve que parecia
ter desaparecido no ninho de tecido.

Mas cá fora, quando abri as mãos,
ele saiu disparado para o seu elemento,
mergulhando sobre o jardim adormecido
num espasmo de bater de asas
e desaparecendo sobre um renque alto de acácias.

Durante o resto do dia,
senti o seu vibrar selvagem
contra a palma das mãos, sempre que pensava
nas horas que a ave deve ter passado
presa nas sombras da sala,
escondida nos ramos pontiagudos
da nossa árvore decorada, onde respirou
entre anjos metálicos,  maçãs de loiça, estrelas de verga,
os seus olhos abertos, como os meus, deitado aqui esta noite,
imaginando este pardal sortudo e raro
aconchegado agora num arbusto de azevinho,
com a neve caindo através da escuridão, sem uma aragem.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014



[ID, 02/05/012]

O de "Onde se lê gato" - b


Há dias em que poderia jurar que
estão tristes os olhos do meu gato,
mas não, é apenas a melancolia
ilícita que o meu devaneio lhes empresta.
Os gatos tristes, se é que os houve,
morreram talvez num Inverno fugaz e antigo.
E, no fundo, acabo por gostar mais deste.

É por desrazões semelhantes que se escreve
um poema, essa coisa singela
absoluta em frivolidade.



Manuel de Freitas, Levar Caminho I,
Lisboa: Averno, 2022

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

V de Vida


Um livro: 
Etty Hillesum, Cartas (1941-1943), 
col. Teofanias, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009 

"Há lama, tanta lama, que é necessário termos algum sol interior algures nas nossas entranhas se não quisermos tornar-nos vítimas psicológicas de todo aquele lamaçal."

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

E de Espera (XXXVII)


REBANHO


'Calcula-se que para cada exemplar da Bíblia 
de Gutenberg... foram necessárias as peles de 300 ovelhas.'
 - de um artigo sobre imprensa


Parece que as estou a ver apertadas no curral
por trás do edifício de pedra
onde a prensa funciona,

todas elas se ajeitando
para encontrar um pouco de espaço
e tão parecidas umas com as outras

que seria quase impossível
contá-las,
e não há forma de dizer

qual delas irá levar a notícia
de que o Senhor é um pastor,
uma das poucas coisas que elas já sabem.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014




domingo, 11 de dezembro de 2022

E de Espera (XLII) - 3.º Domingo de Advento





"Tenho recordações de que não me lembro: são as mais belas."

- MARIA GABRIELA LLANSOL





[ID, Londres, 11/015]

domingo, 4 de dezembro de 2022

E de Espera (II) - 2.º Domingo de Advento





Gerhard Richter, "Velas"

domingo, 27 de novembro de 2022

E de Espera (XXV) - 1.º Domingo de Advento



Benjamin Katz, "Painter Gerhard Richter in his studio", 1991




Gerhard Richter, 1983

terça-feira, 22 de novembro de 2022

O de "Onde se lê gato"


[17/10/10]


Pela manhã o gato estende-se
vagaroso nesse impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.


Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam.
Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.


Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.


Manuel de Freitas, Todos contentes e eu também,
Porto: Campo das Letras, 2000

domingo, 20 de novembro de 2022

O de "Onde se lê gato" (II)

Lisboa, 20/11/10

C de Começar o dia com um livro novo (XXVII) *




Beatriz Hierro Lopes, É Quase Noite,
Lisboa: Averno, 2013


* e com muitas saudades deste gato
que nos deixava chamar-lhe Barnabé.