sexta-feira, 31 de julho de 2026

m, de memória


    Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
    Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
    Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Troia,
    assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
    Um dia, o Diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
    Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
    Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
    Rimbaud se mandou para África,
Hemingway de miragens.
    Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
    Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.


Paulo Leminski, Toda Poesia,
São Paulo, Companhia das Letras, 2013

quinta-feira, 30 de julho de 2026

R de Regresso ao trabalho (V)

"Doenças do trabalho. Um problema político de primeira importância. Hoje em dia, uma grande percentagem dos empregos faz mal às pessoas."

W. H. Auden, O Prolífico e o Devorador, Lisboa: &etc, 2010

quarta-feira, 22 de julho de 2026

F de Falar para as paredes (III)

[Em Santa Catarina também]

F de Falar para as paredes (IV)

[No Marquês de Pombal]

domingo, 14 de junho de 2026

A de Amor (II)




sábado, 2 de maio de 2026

A de "A propósito de andorinhas" (III)


A 4 de outubro de 2015, na Gulbenkian, o concerto do grupo Hirundo Maris começou assim:




Anima nostra, 
sicut passer, 
erepta est 
de laqueo 
venantium

quinta-feira, 30 de abril de 2026

T de Tratado de Pedagogia (XLII)







[Duas fotografias de ARTHUR TRESS]

sábado, 18 de abril de 2026

P de (Po)ética - XLIX e







Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017

segunda-feira, 13 de abril de 2026

sábado, 4 de abril de 2026

P de Páscoa Feliz (II)


"Ajoelhada no relvado húmido e perfumado do parque da aldeia, Clara Morrow escondeu cuidadosamente o ovo de Páscoa e pensou em ressuscitar os mortos, o que tencionava fazer logo após o jantar. [...]"


Louise Penny, O mais cruel dos meses,
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2016






"Várias colunas dóricas, entrelaçadas por uma trepadeira de madressilva, davam um aspecto de velha mansão sulista à fachada da casa de Fondero. A impressão era dissipada pelo enorme carro funerário preto estacionado ao lado. Atrás do carro funerário, havia um pequeno carro desportivo vermelho. A incongruência entre os dois veículos divertiu Pinata. A morte e a ressurreição, pensou ele. Se calhar é assim que os americanos de hoje imaginam a ressurreição, como um carro desportivo vermelho, levando-os por uma estrada de espuma sintética em direcção a um nirvana de nylon."


Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo,
trad. Inês Dias, Lisboa: Averno, 2011

P de Páscoa Feliz



Ferdinand Hodler, Cerisier en fleurs (c.1905)

sábado, 3 de janeiro de 2026

P de "Pássaros de acaso" (II)

 
JACINTOS
 
 
 
Os teus jacintos ainda estão vivos
E o sopro da morte
é um voo de pombas no céu de janeiro.
 
 
André Pieyre de Mandiargues

V de Viagens (III)

Porque um Ano Novo também é uma viagem - e apetece-me sempre estrear um caderno/livro/diário/bloco/folha no dia 1 de Janeiro:

Os meus blocos estão atafulhados de apontamentos desordenados: lugares, nomes, cheiros, horários, citações, títulos de livros ou autores que não encontrei, direcções, números de telefone para onde não liguei ou liguei e não atenderam, tarefas que me propunha fazer e afinal consistiam no prazer de estrear a quadrícula das folhas em branco.
Raramente começo uma viagem sem um bloco novo. Procuro-os nas pequenas papelarias, preferencialmente de província, onde me anima acreditar que sou esperado por um bloco de folhas imaculadamente pardas, dimensão consentânea com o bolso da camisa, do blusão, sem que a espiral metálica entre em conflito com a lapiseira e o cachimbo.
Essa ronda é apenas um dos muitos subterfúgios a que recorro para ritualizar a viagem da escrita em viagem (...).
Jorge Fallorca, A Cicatriz do Ar,
Lisboa: Edição de autor, 2009

domingo, 2 de novembro de 2025

L de Lost in translation


A MORTE E A DONZELA



AMY LOWELL (E.U.A., 1874-1925)


GROTESCO


Porque é que os lírios me deitam a língua de fora
Quando os corto;
E se torcem e contorcem
E se estrangulam entre os meus dedos, 
Ao ponto de mal conseguir tecer esta grinalda 
Para o teu cabelo? 
Porque é que gritam o teu nome 
E me cospem 
Quando os tento juntar?
Terei de os matar 
Para que fiquem quietos, 
E enviar-te uma coroa de cadáveres suspensos 
Que murchem e apodreçam 
Na tua testa  
Enquanto dansas?


*


ANTONIA POZZI (Itália, 1912-1938)


NOVEMBRO


E depois – quando eu partir
restará alguma coisa
de mim
no meu mundo –
restará um fino rasto de silêncio
no meio das vozes –
um ténue sopro de branco
no coração do azul –

E numa noite de Novembro
uma menina frágil
à esquina de uma rua
venderá braçadas de crisântemos
e lá estarão as estrelas
gélidas verdes distantes –
Alguém chorará
em algum lugar – em algum lugar –
Alguém irá procurar crisântemos
para mim
no mundo
quando sem regresso
eu tiver de partir.


*


ALEJANDRA PIZARNIK (Argentina, 1936-1972)


CAPÍTULOS PRINCIPAIS


Chega a morte com o seu rebanho de ossos
sorrio submissa a uma menina idiota
que implora em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro trabalho senão odiar
No final todos se casam:
o mar e as ondas,
a noite e o escuro,
o copo e o vinho,
o anel e o dedo,
a morte e o cadáver.



Poemas escolhidos/traduzidos por Inês Dias,
 aqui compostos/impressos por Luís Henriques e Manuel Diogo 
para A Faca Romba, Lisboa: Oficina do Cego, 2012




quarta-feira, 15 de outubro de 2025

C de "Canção diante de uma porta fechada"


O título é de Agustina Bessa Luís; a fotografia de uma capela entrevista em Cascais;
a vontade de (re)ler The Time of the Angels, de Iris Murdoch, e todos os livros de Ana Teresa Pereira.

sábado, 4 de outubro de 2025

P de (Dois Anos de) Pássaros





"On the set of the film The Mirror, Andrey Tarkovsky included himself in one scene, lying in a hospital bed and holding a tiny bird on his right hand. And this is what happened to him at the end of his life: in his sick-room in Paris, the room where he died, a little bird would fly every morning through the open window and come to light on him."


- in Instant Light - Tarkovsky Polaroids,
Londres, Thames & Hudson, 2009

S.T.T.L.





[...]
Já referi que São Francisco se recusava a deixar de ver as árvores por causa do bosque; mais ainda, também se recusava a deixar de ver os homens por causa da multidão. Aquilo que distingue este democrata genuíno de um mero demagogo é o facto de nunca ter enganado os outros nem se ter deixado enganar pela ilusão da sugestão de massas; por muito que gostasse de monstros, nunca viu diante de si um animal com muitas cabeças: apenas via a imagem de Deus, multiplicada, mas nunca monótona. Para ele, um homem era sempre um homem e, se não desaparecia no deserto, também não desaparecia no meio de uma densa multidão. [...]

G. K. Chesterton, São Francisco de Assis,
Lisboa: Alêtheia Editores, 2013

terça-feira, 30 de setembro de 2025

D de Do outro lado do espelho



Deborah Levy, Direito de Propriedade
trad. de Inês Dias,
Lisboa: Relógio D'Água, 2021

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

T de "The days grow short" (XI)


6.


Mas possa eu, Senhor, não perder nunca
os olhos com que ao frio me enamoro
das folhas que se movem casuais
ao vento outonal das alamedas.


in Telhados de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004




[Coimbra, Janeiro 014]

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

P de "Photographing Fairies" (II)

 


[ID, Caneiras, 17/08/013]



[ID, Raposa, 23/08/025]