Com muitos anos de atraso, descubro estas palavras na parede do meu antigo liceu. As escolas, apesar de terem centenas de pessoas lá dentro, podem ser sítios muito solitários também:
(Lisboa, Março 2010)

A Revista Única do Expresso publicou este balanço das coisas que desapareceram para sempre no decurso da década que agora termina. É verdade que já não há telegramas, nem Concorde, nem Feira Popular, nem filme para a Polaroid que ainda guardo na gaveta porque foi um dos meus objectos mágicos, mas os outros "epitáfios" são um pouco apressados: a Nazaré continua a ser uma feliz excepção aos esforços da ASAE no sentido de proibir o consumo de fritos em plena areia; o giz ainda é uma realidade em muitas escolas (e bem mais ecológico e funcional por vezes); ainda há quem escreva cartas manuscritas (apesar de os alunos desconhecerem, em muitos casos, o significado da expressão "papel de carta"); e a minha rua conjuga, em certos dias e sem qualquer esforço de reconstituição histórica, um engraxador quase cativo, um amolador itinerante e uma costureira de bairro permanente. Sou uma privilegiada - ou se calhar também desapareci para sempre e ainda não reparei...[para a Maitê]
Na rua onde moro
junto ao restaurante da esquina
plantaram um pequeno roseiral
na calçada esburacada
houve logo quem ficasse com medo
que subisse o preço das refeições
mas afinal isso não aconteceu
há uma semana que as rosas
vão esmorecendo na calçada
enquanto o medo muda de cor.