sexta-feira, 5 de agosto de 2011
C de Cachaça
Tem gente que ama, que vive brigando
E depois que briga acaba voltando
Tem gente que canta porque está amando
Quem não tem amor leva a vida esperando
Uns amam pra frente, e nunca se esquecem
Mas são tão pouquinhos que nem aparecem
Tem uns que são fracos, que dão pra beber
Outros fazem samba e adoram sofrer
Tem apaixonado que faz serenata
Tem amor de raça e amor vira-lata
Amor com champagne, amor com cachaça
Amor nos iates, nos bancos de praça
Tem homem que briga pela bem-amada
Tem mulher maluca que atura porrada
Tem quem ama tanto que até enlouquece
Tem quem dê a vida por quem não merece
Amores à vista, amores à prazo
Amor ciumento que só cria caso
Tem gente que jura que não volta mais
Mas jura sabendo que não é capaz
Tem gente que escreve até poesia
E rima saudade com hipocrisia
Tem assunto à bessa pra gente falar
Mas não interessa o negócio é amar...
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
F de Fazer Fotografia - XIII b
[...] Há coisas que dificilmente se conseguem fotografar – o vento nas searas, borboletas a esvoaçar à nossa volta, a maior parte das coincidências (duas velas a serem acesas ao mesmo tempo, por pessoas diferentes mas com a mesma intenção). [...]
Ontem à noite, descobrimos também que não se pode fotografar a canção que passa imprevistamente ao jantar, apenas a amizade:
Ontem à noite, descobrimos também que não se pode fotografar a canção que passa imprevistamente ao jantar, apenas a amizade:
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
V de Vício (VIII)
Um dos problemas de se comprar um livro 60 anos depois do seu lançamento, é que já se chega demasiado tarde para coisas destas:
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
domingo, 31 de julho de 2011
B de Biorritmo (C)
Ouviu-se ontem, numa noite muito bonita:
[...]
Rumbo a la cosecha cosechero yo seré
Y entre copos blancos mi esperanza cantaré
Con manos curtidas dejaré en el algodón
Mi corazón.
La tierra del chaco quebrachera y montaraz
Prenderá en mi sangre con un ronco sapucay
Y será en el surco mi sombrero bajo el sol
Faro de luz
[...]
[...]
Rumbo a la cosecha cosechero yo seré
Y entre copos blancos mi esperanza cantaré
Con manos curtidas dejaré en el algodón
Mi corazón.
La tierra del chaco quebrachera y montaraz
Prenderá en mi sangre con un ronco sapucay
Y será en el surco mi sombrero bajo el sol
Faro de luz
[...]
sábado, 30 de julho de 2011
P de (Os) Pássaros em Volta (XVIII)
Sir Edward Burne-Jones,
"Ladies and animals sideboard - good and bad animals - study for a lady feeding parrots",
1860
E de "É a Hora!" *
* O título é, claro, de Fernando Pessoa.
A música de algumas das melhores madrugadas dos últimos tempos
.
N de "No fundo, é isto" (II)
ACUSAÇÃO AO PRINCÍPIO DA TARDE
Viajo atrás do guarda-freio um saco de livros na mão
o eléctrico quase cheio e na paragem da Sé lá saem
ao que diz o condutor e com ciência pura os carteiristas
muito nervoso aquele que saiu pela porta da frente
E ao dobrar a esquina da Catedral subindo à luz
da Graça insinua então o advogado dos passageiros
atirando na minha direcção a nuca e o polegar dirigido também
mas à frente do peito resguardado
e contando por certo que eu não o visse que andaria eu à cata
pois então das carteiras vizinhas
Meio mundo ficou de rosto para mim
e eu como se todo o mundo
tivesse cristalizado no clarão da coisa insinuada
Nisto de carteiristas
o saber de experiência feito dos guarda-freios faz lei
E posso reafirmá-lo porque chegando à Graça
e em pedindo explicações a criatura lá foi dizendo que
se eu reagia por alguma coisa seria Fiquei
a compreender melhor
o murro de Billy Budd no mestre de armas Claggart
na bela novela
de Herman Melville De um eléctrico na Graça
ao navio Indomável ainda vai existindo a porra do inexplicável
- Abel Neves
Viajo atrás do guarda-freio um saco de livros na mão
o eléctrico quase cheio e na paragem da Sé lá saem
ao que diz o condutor e com ciência pura os carteiristas
muito nervoso aquele que saiu pela porta da frente
E ao dobrar a esquina da Catedral subindo à luz
da Graça insinua então o advogado dos passageiros
atirando na minha direcção a nuca e o polegar dirigido também
mas à frente do peito resguardado
e contando por certo que eu não o visse que andaria eu à cata
pois então das carteiras vizinhas
Meio mundo ficou de rosto para mim
e eu como se todo o mundo
tivesse cristalizado no clarão da coisa insinuada
Nisto de carteiristas
o saber de experiência feito dos guarda-freios faz lei
E posso reafirmá-lo porque chegando à Graça
e em pedindo explicações a criatura lá foi dizendo que
se eu reagia por alguma coisa seria Fiquei
a compreender melhor
o murro de Billy Budd no mestre de armas Claggart
na bela novela
de Herman Melville De um eléctrico na Graça
ao navio Indomável ainda vai existindo a porra do inexplicável
- Abel Neves
quinta-feira, 28 de julho de 2011
quarta-feira, 27 de julho de 2011
R de Regresso ao Trabalho (XVII)
[...]
Não vou lamentar, o que passou, passou
Eu vou embora, meu tempo acabou
Tenho muita coisa para descobrir
[...]
P de Poética (VI)
O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúptia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma
- Luiza Neto Jorge
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúptia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma
- Luiza Neto Jorge
terça-feira, 26 de julho de 2011
segunda-feira, 25 de julho de 2011
C de "Canção diante de uma porta fechada" (III)
Termina assim o livro Eis o Amor a Fome e a Morte:
Se te perguntarem
dirás que não preferes os versos
antes a melodia anterior a suspeita da calma
Mas eles são os espalhados ícones
a derradeira hipótese no lado esquerdo do peito
A página é um tecido intenso tenso como a lira
e seria belo que entrasses na página
como o pássaro no arvoredo
ABEL NEVES
domingo, 24 de julho de 2011
M de Medo (III)
Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.
- Herberto Helder, Ou o poema contínuo (Assírio & Alvim)
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.
- Herberto Helder, Ou o poema contínuo (Assírio & Alvim)
C de Cicatriz (IV)
PREÇO
Meu casaco
acha bonito?
De segunda mão
De segunda meu cabelo
o sorriso que te dei
na última quarta-feira
e a promessa que farei
cega e nua sob aplausos
De segunda aquele orgasmo
leiloado por credores
a cicatriz que se alastra
na tenda dos camelôs
Novo somente
o perdão por conhecer
todas as coisas e gestos
pechinchados sem vergonha
redimidos pelo uso
Sempre novo esse perdão
inédito
como uma farpa sob a unha
no polegar esmagado
Fabio Weintraub, Baque, São Paulo: Editora 34, 2007
sábado, 23 de julho de 2011
P de (Os) Pássaros em Volta (XII)
Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.
- Daniel Faria
[AQUI]
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.
- Daniel Faria
[AQUI]
sexta-feira, 22 de julho de 2011
quinta-feira, 21 de julho de 2011
P de Poética - IV b
In a manner of speaking
Um dos meus momentos preferidos do Hamlet, além de outro em que aquela espécie de António Carlos Cortez da peça – quer dizer, a Ofélia – morre afogada, é uma enumeração, talvez a melhor de toda a história da literatura: “words, words, words.”. Em vez de cair na tentação que seria repetir, por si, este recurso de estilo, Zbigniew Herbert consegue dar à mesma ideia uma expressão nova, a qual perde por destruir a simplicidade mas, ao mesmo tempo, ganha em imagética: “we live on archipelagos/ and that water these words what can they do what can they do prince”.
Talvez por acidente, talvez não, o feito que o poeta polaco aqui consegue é sintomático do problema que à partida afecta a nossa possibilidade de nos entendermos. As palavras sofrem da síndrome da peça de mosaico e, mesmo quando ligadas entre si, em todo o poder de uma imagem, não ligam propriamente dois corpos um ao outro, duas compreensões uma à outra, tal como a água, verdadeiramente, nunca liga duas ilhas: “In a manner of speaking/ Semantics won't do/ In this life that we live we only make do/ And the way that we feel/ Might have to be sacrified”.
Hamlet, entre outras coisas, é uma peça sobre a impossibilidade absoluta de extremarmos os sentimentos que temos uns pelos outros. O Eugénio, quando escreveu que “São como um cristal,/ as palavras./ Algumas, um punhal,/ um incêndio”, não podia estar mais longe da verdade. As palavras não são nada, perdem-se entre nós e nós perdemo-nos com elas pelo caminho. Somos ilhas que sobrevivem entre os sussurros de outras, numa solidão em que só podemos ser amigos, em que só podemos ser inimigos de nós próprios. Isto é que é morrer.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
M de Mesa de Amigos (VII)
Ontem, a desoras, ainda nos lembrámos deste poema:
Deitei a tarde pela janela e fiquei só
com a linha onde a luz se suspendeu
num tom rosado, tão calmo, quase
artificial neste fim de Abril, a descer sobre
o azul da minha voz. Pus-me a fumar
por cima de um caderno, enchendo
e virando páginas, um punho a apoiar
este rosto agarotado e um dedo
passando pela boca que há muito
não se embeiça por sentidos razoáveis.
Não sei se tentava voltar aos braços
de alguma remota ilusão, se me fiquei
por um circuito de estilhaços ou qualquer
outra lesão silenciosa. Mais óbvios
todos os destinos, dói mais ao princípio:
ver como os dias vão saindo repetidos. E daí,
a repetição talvez seja só eu, esta pequena
intriga ou vago remorso que me escreve.
Não era como se tivéssemos muito
a esperar das ruas, mas saímos
e depressa demos com o labirinto de excessos
na noite que o corpo nos exigia. Os dois
à boleia do tempo, juntando mais
umas horas a esta idade que tresanda já
a maus hábitos, paixões sem interesse
e fantasias voltando a casa destruídas,
cada vez menos e menos inocentes.
Por aí a imaginação perdia
toda a confiança, dócil, foi-se ajoelhando
e enfrentou confissões ordinárias,
sepultando os sorrisos
que nos caíram entre os lábios.
Esquecemos tantas outras vidas.
Sentados de costas para a entrada,
no Saloio da 24, insististe que a vidinha,
enfim, lá tinha dado connosco. E que lugar
tão triste para o admitirmos, entre a fatia
de pizza, o rissol e os copos de plástico
que não foram suficientes para afastar-nos
da razão, nem sequer distrair os sinónimos
que chegam, às vezes, demasiado cedo,
quando o coração é um ódio
tão natural, uma forma de pedir
que não contem mais connosco.
Um tudo-nada comovidos, aguentou-nos
um silêncio que também já não era só nosso.
Arrumados para estatísticas:
eu levando um curso aos chutos vai agora
para uns cinco anos, e tu, diplomado
e num primeiro emprego, a seres pago
para gastares com a infelicidade
as incertezas que te restam. Os dois,
como é normal, mimando e entretendo
a carne agarrada aos ossos.
A CARNE AGARRADA AOS OSSOS
com a linha onde a luz se suspendeu
num tom rosado, tão calmo, quase
artificial neste fim de Abril, a descer sobre
o azul da minha voz. Pus-me a fumar
por cima de um caderno, enchendo
e virando páginas, um punho a apoiar
este rosto agarotado e um dedo
passando pela boca que há muito
não se embeiça por sentidos razoáveis.
Não sei se tentava voltar aos braços
de alguma remota ilusão, se me fiquei
por um circuito de estilhaços ou qualquer
outra lesão silenciosa. Mais óbvios
todos os destinos, dói mais ao princípio:
ver como os dias vão saindo repetidos. E daí,
a repetição talvez seja só eu, esta pequena
intriga ou vago remorso que me escreve.
Não era como se tivéssemos muito
a esperar das ruas, mas saímos
e depressa demos com o labirinto de excessos
na noite que o corpo nos exigia. Os dois
à boleia do tempo, juntando mais
umas horas a esta idade que tresanda já
a maus hábitos, paixões sem interesse
e fantasias voltando a casa destruídas,
cada vez menos e menos inocentes.
Por aí a imaginação perdia
toda a confiança, dócil, foi-se ajoelhando
e enfrentou confissões ordinárias,
sepultando os sorrisos
que nos caíram entre os lábios.
Esquecemos tantas outras vidas.
Sentados de costas para a entrada,
no Saloio da 24, insististe que a vidinha,
enfim, lá tinha dado connosco. E que lugar
tão triste para o admitirmos, entre a fatia
de pizza, o rissol e os copos de plástico
que não foram suficientes para afastar-nos
da razão, nem sequer distrair os sinónimos
que chegam, às vezes, demasiado cedo,
quando o coração é um ódio
tão natural, uma forma de pedir
que não contem mais connosco.
Um tudo-nada comovidos, aguentou-nos
um silêncio que também já não era só nosso.
Arrumados para estatísticas:
eu levando um curso aos chutos vai agora
para uns cinco anos, e tu, diplomado
e num primeiro emprego, a seres pago
para gastares com a infelicidade
as incertezas que te restam. Os dois,
como é normal, mimando e entretendo
a carne agarrada aos ossos.
Diogo Vaz Pinto, Nervo (Averno)
domingo, 17 de julho de 2011
P de Poética (IV)
Ontem, a noite começou - e tão bem - com esta canção:
[...]
Give me the words
That tell me everything
In a manner of speaking
Semantics won't do
[...]
[...]
Give me the words
That tell me everything
In a manner of speaking
Semantics won't do
[...]
sexta-feira, 15 de julho de 2011
quinta-feira, 14 de julho de 2011
C de Começar o dia com um livro novo (II)
Os homens de idade cultivam
pequenas certezas:
o correio chegar
às três e quarenta e cinco em ponto,
as palavras cruzadas virem
no canto superior esquerdo
da página vinte e três.
O peso de um recém-nascido,
a largura e a profundidade de um sapato
a quantia exacta de uma conta,
e, quando se justifica,
o sítio onde tudo aconteceu
não o motivo - apenas o sítio preciso.
Os homens de idade
não gostam mesmo nada
de ir para além
das ligações já estabelecidas…
Não gostam de vaguear na escuridão
ou de programar muito o futuro
nem de estar muito longe de casa.
Não, os homens de idade não gostam
mesmo nada de ir para além destas
pequenas certezas -
o nome, a data e o local e o número
e a fome e o amor…
Mas serão só os homens de idade?
Todos somos velhos de vez em quando.
Tennessee Williams, Alguns Poemas,
trad. de Ricardo Marques,
trad. de Ricardo Marques,
Lisboa: Língua Morta, 11 de Julho de 2011
R de Revisões da matéria dada - II b
RATTLESNAKES (1984),
Lloyd Cole and The Commotions
Jodie wears a hat although it hasn't rained for six days
she says a girl needs a gun these days
hey on account of all the rattlesnakes
she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront
she reads Simone de Beauvoir in her American circumstance
she is less than sure if her heart has come to stay in San Jose
and her neverborn child still haunts her
as she speeds down the freeway
as she tries her luck with the traffic police
out of boredom more than spite
she never finds no trouble she tries too hard
she's obvious despite herself
she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront
she says all she needs is therapy
yeh, all you need is love is all you need
Jodie never sleeps because there are always needles in the hay
she says that a girl needs a gun these days
hey on account of all the rattlesnakes
she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront
as she reads Simone de Beauvoir in her American circumstance
her heart… heart is like crazy paving
upside down and back to front
she says ooh, it's so hard to love
when love was your great disappointment
Lloyd Cole and The Commotions
Jodie wears a hat although it hasn't rained for six days
she says a girl needs a gun these days
hey on account of all the rattlesnakes
she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront
she reads Simone de Beauvoir in her American circumstance
she is less than sure if her heart has come to stay in San Jose
and her neverborn child still haunts her
as she speeds down the freeway
as she tries her luck with the traffic police
out of boredom more than spite
she never finds no trouble she tries too hard
she's obvious despite herself
she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront
she says all she needs is therapy
yeh, all you need is love is all you need
Jodie never sleeps because there are always needles in the hay
she says that a girl needs a gun these days
hey on account of all the rattlesnakes
she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront
as she reads Simone de Beauvoir in her American circumstance
her heart… heart is like crazy paving
upside down and back to front
she says ooh, it's so hard to love
when love was your great disappointment
[Obrigada, João Luís]
quarta-feira, 13 de julho de 2011
H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (XI)
Onde se lê "Bolanger", deve ler-se "Boulanger",
criador do primeiro restaurante - no sentido moderno do termo.
[Restaurante Vin Rouge, Cascais]
terça-feira, 12 de julho de 2011
B de Brincar com ossinhos (IV)
In darkness let me dwell, the ground shall sorrow be,
The roof despair to bar all cheerful light for me,
The walls of marble black that moistened still shall weep,
My music hellish jarring sounds, to banish friendly sleep,
Thus wedded to my woes and bedded to my tomb,
O let me living, living, die till death do come.
P de Poética (III)
FIESTA DEL ALMA
Por qué pasas tan deprisa
las páginas de tus nervios?
Todo se ceremonia a cada paso contado
Tú ibas a escuchar el ruído del lavarropas
y creías oír sonar la flauta de Dios
Quién asimila la máscara de las horas?
El antifaz terrible de la vida
Hasta el último instante estuvimos llevando
las colgaduras del alma
- Carlos Edmundo de Ory
in Sin Permiso de Ser Ángel, New York: Vanguardo Editions Gas Station, 1988
Por qué pasas tan deprisa
las páginas de tus nervios?
Todo se ceremonia a cada paso contado
Tú ibas a escuchar el ruído del lavarropas
y creías oír sonar la flauta de Dios
Quién asimila la máscara de las horas?
El antifaz terrible de la vida
Hasta el último instante estuvimos llevando
las colgaduras del alma
- Carlos Edmundo de Ory
in Sin Permiso de Ser Ángel, New York: Vanguardo Editions Gas Station, 1988
V de Vício (VII)
As personagens deste livro, incluindo os touros, são completamente fictícias.
[Nota prévia em:
Rex Stout, O Touro Assassino, col. Vampiro, Lisboa: Livros do Brasil, 2000]
segunda-feira, 11 de julho de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
sexta-feira, 8 de julho de 2011
quinta-feira, 7 de julho de 2011
A de "Álcool, nem vê-lo"
Monkey Shoulder Whisky
[Os macacos, libertei-os eu, suavemente.
A foto é do RMR. As artes finais serão da Sf.]
quarta-feira, 6 de julho de 2011
R de Revisões da matéria dada - b
DIALOGO DEL PERRO Y DEL ANGEL
El perro le dijo al ángel: "yo te beso"
el ángel le dijo al perro: "yo te muerdo"
el perro le dijo al ángel: "yo te canto"
el ángel le dijo al perro: "yo te ladro"
el perro le dijo al ángel: "yo te alabo"
el ángel le dijo al perro: "yo te meo"
el perro le dijo al ángel: "yo te leo"
y el ángel: "cállate que me estropeo!"
el perro le dijo al ángel: "yo te canto"
el ángel le dijo al perro: "yo te ladro"
el perro le dijo al ángel: "yo te alabo"
el ángel le dijo al perro: "yo te meo"
el perro le dijo al ángel: "yo te leo"
y el ángel: "cállate que me estropeo!"
Carlos Edmundo de Ory, Sin Permiso de Ser Ángel,
New York: Vanguardo Editions Gas Station, 1988
terça-feira, 5 de julho de 2011
R de Regresso ao Trabalho (XVI)
E uma borboleta enorme passou redentoramente à frente da janela,
enquanto esperava o início de mais uma reunião.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
P de (Os) Pássaros em Volta (X)
- "Si un oiseau savait dire précisement ce qu'il chante, pourquoi il le chante, et quoi, en lui, chante, il ne chanterait pas."
- "Il faut être léger comme l'oiseau et non comme la plume."
- "Every bird a word, every word a bird." (What Is Poetry?)
- "Il faut être léger comme l'oiseau et non comme la plume."
PAUL VALÉRY
[Obrigada, Hugo]
- "If you call yourself a poet, sing it, don't state it." (Poetry As Insurgent Art)
- "Every bird a word, every word a bird." (What Is Poetry?)
LAWRENCE FERLINGHETTI
domingo, 3 de julho de 2011
D de Desejo
VIE DANGEREUSE
Aujourd'hui je suis peut-être l'homme le plus heureux du monde
Je possède tout ce que je ne désire pas
Et la seule chose à laquelle je tienne dans la vie chaque tour de l'hélice m'en [rapproche
Et j'aurai peut-être tout perdu en arrivant
- Blaise Cendrars
Aujourd'hui je suis peut-être l'homme le plus heureux du monde
Je possède tout ce que je ne désire pas
Et la seule chose à laquelle je tienne dans la vie chaque tour de l'hélice m'en [rapproche
Et j'aurai peut-être tout perdu en arrivant
- Blaise Cendrars
sábado, 2 de julho de 2011
sexta-feira, 1 de julho de 2011
T de "(um) torso dobrado pela música" (IX)
Basta senhora harpa das belas imagens
Dos furtivos cosmos iluminados
Outra coisa outra coisa buscamos
Sabemos pousar um beijo como um olhar
Plantar olhares como árvores
Engaiolar árvores como pássaros
Regar pássaros como heliotrópios
Tocar um heliotrópio como uma música
Esvaziar uma música como um saco
Degolar um saco como um pinguim
Cultivar pinguins como vinhedos
Ordenhar um vinhedo como uma vaca
Desarvorar vacas como veleiros
Pentear um veleiro como um cometa
Desembarcar cometas como turistas
Enfeitiçar turistas como serpentes
Colher serpentes como amêndoas
Descascar uma amêndoa como um atleta
Abater atletas como ciprestes
Acender ciprestes como faróis
Aninhar faróis como cotovias
Exalar cotovias como suspiros
Bordar suspiros como sedas
Derramar sedas como rios
Tremular um rio como uma bandeira
Depenar uma bandeira como um galo
Apagar um galo como um incêndio
Vogar em incêndios como em oceanos
Ceifar oceanos como searas
Repicar searas como sinos
Esquartejar sinos como cordeiros
Desenhar cordeiros como sorrisos
Engarrafar sorrisos como licores
Engastar licores como jóias
Electrizar jóias como crepúsculos
Tripular crepúsculos como navios
Descalçar um navio como um rei
Pendurar reis como auroras
Crucificar auroras como profetas
- Vicente Huidobro
(tradução de Luis Pignateli)
in Natureza Viva, Hiena
Dos furtivos cosmos iluminados
Outra coisa outra coisa buscamos
Sabemos pousar um beijo como um olhar
Plantar olhares como árvores
Engaiolar árvores como pássaros
Regar pássaros como heliotrópios
Tocar um heliotrópio como uma música
Esvaziar uma música como um saco
Degolar um saco como um pinguim
Cultivar pinguins como vinhedos
Ordenhar um vinhedo como uma vaca
Desarvorar vacas como veleiros
Pentear um veleiro como um cometa
Desembarcar cometas como turistas
Enfeitiçar turistas como serpentes
Colher serpentes como amêndoas
Descascar uma amêndoa como um atleta
Abater atletas como ciprestes
Acender ciprestes como faróis
Aninhar faróis como cotovias
Exalar cotovias como suspiros
Bordar suspiros como sedas
Derramar sedas como rios
Tremular um rio como uma bandeira
Depenar uma bandeira como um galo
Apagar um galo como um incêndio
Vogar em incêndios como em oceanos
Ceifar oceanos como searas
Repicar searas como sinos
Esquartejar sinos como cordeiros
Desenhar cordeiros como sorrisos
Engarrafar sorrisos como licores
Engastar licores como jóias
Electrizar jóias como crepúsculos
Tripular crepúsculos como navios
Descalçar um navio como um rei
Pendurar reis como auroras
Crucificar auroras como profetas
- Vicente Huidobro
(tradução de Luis Pignateli)
in Natureza Viva, Hiena
[Previsivelmente roubado aqui]
quinta-feira, 30 de junho de 2011
A de Aniversário (V)
HOROSCOPES FOR THE DEAD
Every morning since you disappeared for good,
I read about you in the daily paper
along with the boxscores, the weather and all the bad news.
Some days I am reminded that today
will not be a wildly romantic time for you,
nor will you be challenged by educational goals,
nor will you need to be circumspect at the workplace.
Another day, I learn that you should not miss
an opportunity to travel and make new friends
though you never cared much about either.
I can't imagine you ever facing a new problem
with a positive attitude, but you will definitely not
be doing that, or anything like that, on this weekday in March.
And the same goes for the fun
you might have gotten from group activities,
a likelihood attributed to everyone under your sign.
A dramatic rise in income may be a reason
to treat yourself, but that would apply
more to all the Pisces who are still alive,
still swimming up and down the stream of life
or suspended in a pool in the shade of an overhanging tree.
But you will be relieved to learn
that you no longer need to reflect carefully before acting,
nor do you have to think more of others,
and never again will creative work take a back seat
to the business responsibilities that you never really had.
And don't worry today or any day
about problems caused by your unwillingness
to interact rationally with your many associates.
No more goals for you, no more romance,
no more money or children, jobs or important tasks,
but then again, you were never thus encumbered.
So leave it up to me now
to plan carefully for success and the wealth it may bring,
to value the dear ones close to my heart,
and to welcome any intellectual stimulation that comes my way
though that sounds like a lot to get done on a Tuesday.
I am better off closing the newspaper,
putting on the clothes I wore yesterday
(when I read that your financial prospects were looking up)
then pushing off on my copper colored bicycle
and pedaling along the shore road by the bay.
And you stay just as you are,
lying there in your beautiful blue suit,
your hands crossed on your chest
like the wings of a bird who has flown
in its strange migration not north or south
but straight up from earth
and pierced the enormous circle of the zodiac.
- Billy Collins
(2011)
B de Biorritmo (XCVII)
Sonhou-se hoje:
[...]
Si more cantando,
si more sonando
la Cetra, o Sampogna,
morire bisogna.
Si muore danzando,
bevendo, mangiando;
con quella carogna
morire bisogna.
[...]
[...]
Si more cantando,
si more sonando
la Cetra, o Sampogna,
morire bisogna.
Si muore danzando,
bevendo, mangiando;
con quella carogna
morire bisogna.
[...]
quarta-feira, 29 de junho de 2011
T de Tratado de Pedagogia - II b
INTRODUÇÃO À POESIA
Peço-lhes que peguem num poema
E que o segurem contra a luz
Como um slide de cores
Ou que encostem o ouvido ao seu formigueiro.
Eu digo-lhes para lançar sobre ele um rato
E contemplá-lo, enquanto encontra uma saída,
Ou que entrem dentro do seu quarto
e tacteiem as paredes na procura do interruptor.
Quero que façam ski
Sobre a superfície do poema
Saudando o nome do autor na margem
Mas tudo o que querem fazer
É atar o poema a uma cadeira
E tentar arrancar-lhe uma confissão.
Começam por bater-lhe com uma mangueira
Para perceber o que realmente quer dizer.
- Billy Collins
[Trad. Ricardo Marques]
T de Tratado de Pedagogia (XXXV)
If you have to teach poetry, strike your blackboard with the chalk of light.
Lawrence Ferlinghetti, Poetry as insurgent art
[Válido, mesmo quando os quadros já são brancos, o giz foi substituído por marcadores e passamos quase mais tempo a escrever relatórios do que a ver a luz nascer.]
[Válido, mesmo quando os quadros já são brancos, o giz foi substituído por marcadores e passamos quase mais tempo a escrever relatórios do que a ver a luz nascer.]
terça-feira, 28 de junho de 2011
F de "(Une) Famille d'Arbres (II)
RELATÓRIO DE AUTO-AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO
Faz hoje um ano que o vi pela última vez vivo. Vivo… sem mexer praticamente o corpo, alimentado à força, de olhos teimosamente fechados e rito de dor. Mas procurou-me a mão, apertou-a, com a força possível, e há algo de dolorosamente consolador em saber ainda de cor esta data, como se lembrá-lo me protegesse, por sua vez, do esquecimento dos outros.
Período em avaliação: 28 de Junho de 2010 a 28 de Junho de 2011
A avaliada: ID
Para Abel de Freitas
Faz hoje um ano que o vi pela última vez vivo. Vivo… sem mexer praticamente o corpo, alimentado à força, de olhos teimosamente fechados e rito de dor. Mas procurou-me a mão, apertou-a, com a força possível, e há algo de dolorosamente consolador em saber ainda de cor esta data, como se lembrá-lo me protegesse, por sua vez, do esquecimento dos outros.
Durante uma semana, aprendemos os horários dos comboios, qual o lado da sombra – que nem sempre coincidia com o do rio –, as horas das visitas, os corredores mais suaves. Nem era tanto esperança, apenas a liberdade que vinha de estarmos por enquanto entre a vida e a morte, entre uma cidade e outra, entre a resistência e a aceitação – a tal viagem libertadora entre a cadeia e o tribunal onde se ouvirá a sentença, que repeti tantas vezes nas minhas viagens e citei nos meus textos.
E, tirando a camisa escura que comprei na manhã seguinte para o funeral e que nunca mais consegui usar por me lembrar uma mortalha, as imagens dessa semana são inesperadamente luminosas. O primeiro pássaro que fotografei a voar. A caixa de música à entrada do hospital. A coragem de esperar. O azul das últimas flores que ele olhara. O descer as escadas ao fim da noite mais comprida e ter alguém à espera para procurar comigo os ciprestes perdidos na cidade.
Claro que o buraco no coração aumenta. É mais um que faltará doravante à chamada e já passou um ano inteiro de ausência. Um ano de gatos que nasceram e desapareceram, de árvores que caíram, de casas vendidas e ilhas cada vez mais distantes. Um ano que não bastou para lhe descobrir ondas suficientemente belas para a eternidade. E escrevem-se relatórios que nunca poderão levar selo branco, nem caber em poemas, mas que nos ajudam a ganhar balanço para mais um ano em que todos os cães nos lembram o pelo morno da Rebeca já morta, em que nadaremos sempre mais sozinhos, em que teremos medo pelo que ainda nos resta perder. Os pais nunca nos deveriam morrer, insiste o meu coração egoísta. Se lhes sobreviver, quem estará ao meu lado quando ficar doente outra vez? Quem se sentirá tão mortal e sozinho como eu? Quem parará de viver comigo, em vez de me relembrar que o mundo continua lá fora, sem mim? Quem me exigirá que seja melhor, mesmo que esse melhor se resuma a sobreviver?
Mas um gato de olhos verdes vigia-nos a solidão, nunca nos deixando ficar demasiado tempo do lado oposto da casa. Os amigos vão chegando e tentando preencher o buraco no nosso coração. Não nos deixam descansar enquanto não o pusermos de novo a funcionar, por muito que doa ao princípio respirar e tudo pareça sal sobre uma ferida aberta sobre outra ferida ainda. Aprende-se, aos poucos, a brincar com a crosta da ferida, a utilizar o espaço vazio para acolher mais pessoas, mais sentidos. Crescemos, mesmo com o nosso coração esburacado, como Michaux nos explicou. E, entre todos, talvez consigamos reconstruir um coração inteiro, partilhável, que ajude a sobreviver ao ritmo certo. A noite fica para trás; é tão precioso ver a manhã a nascer ao fundo da estrada e ir ao seu encontro, sem ter verdadeiramente pressa de chegar.
A avaliada: ID
G de Golpe d'asa
If you call yourself a poet, don't just sit there. Poetry is not a sedentary occupation, not a "take your seat" practice. Stand up and let them have it.
- Lawrence Ferlinghetti, Poetry as insurgent art
segunda-feira, 27 de junho de 2011
domingo, 26 de junho de 2011
sábado, 25 de junho de 2011
P de Poética (II)
[...]
[...]
- A rigidez dos carteiros não poderia ser desfeita pela técnica. Fazer versos, contar histórias, inventar a cura para todas as doenças e a arma infalível em qualquer guerra: modalidades de um viver exterior em que se perde a solidão, a compaixão que fica nuns passos para cá e para lá, no escuro da noite, junto ao mar, acompanhando o grito antiquíssimo, todos os gritos elididos na caixa branca e no seu destino certo - a Quinta do Anjo. Atravessar o deserto em direcção a um gesto simples e sem remédio - lançar-se no destino, cumprimentar o sol, era esse o modo como o poeta fazia estremecer a vida fossilizada. Preferiram esquecê-lo. Preferem sempre trasladar os ossos, contar a história.
- Querem que sejamos razoáveis.
- Querem-nos mortos.
[...]
- Silvina Rodrigues Lopes, "Nada a declarar"
in Telhados de Vidro n.º 3 (Averno)
R de Realizar? (V)
Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo
A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães
- Ernesto Sampaio
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo
A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães
- Ernesto Sampaio
sexta-feira, 24 de junho de 2011
T de (Uma) teoria de pássaros
LARES
I keep going back to that bird, snagged
by a halter or skein of fibre or yarn
and strung from the gutter of the opposite house
where it quartered the wind, each bead of its spine
and the dead-drop of its skull
lit up against the breeze-block wall,
claws pushed out as if skidding to a halt
while its beak transmitted code.
I say a prayer to you, small ghost,
small noosed spirit of the eaves,
dangling from the prow of the house
singing all four winds, the spindle and pin
and needle and thorn of your hollow bones
riding you on air that is redolent with spores
after the fact of your scavenged heart,
the stolen tissues of your wings.
Fiona Benson
in Faber New Poets 1
quinta-feira, 23 de junho de 2011
O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XVI)
LÍRICA DE PARDILHÓ
Então acordo e sinto a meu lado
o esplendor tranquilo
da amada que respira
adormecida deitada sobre o flanco
vertendo a prata dum sorriso
nas ravinas da noite
esferas cantam a alegria
é um sítio de grama rociada
e passam horas
durante as que da rua
ouvindo vozes turvas
eu ficarei teimando
na claridade a todo o preço
de que me falam as aves
- Fernando Assis Pacheco
Então acordo e sinto a meu lado
o esplendor tranquilo
da amada que respira
adormecida deitada sobre o flanco
vertendo a prata dum sorriso
nas ravinas da noite
esferas cantam a alegria
é um sítio de grama rociada
e passam horas
durante as que da rua
ouvindo vozes turvas
eu ficarei teimando
na claridade a todo o preço
de que me falam as aves
- Fernando Assis Pacheco
L de Ler (V)
Ouve-se na página 43 deste livro:
Christian Charrière, Dites-le avec des fleurs, Paris: Fayard, 1969
Christian Charrière, Dites-le avec des fleurs, Paris: Fayard, 1969
P de (Os) Pássaros em Volta (VIII)
Hoje contemplei Sujata a beber chá em frente do jardim
de Pangim com gestos de pomba escura até à alva
e a ossatura de platina fluorescente, a cabeleira
fulminada numa pose que o vento ventilava fulva
Sujata sorriu como de costume no romance por escrever
que eu jamais escreverei (a acção não se desenrola)
e o poema nu também não há: havia, há, haverá uma veia
aberta de onde emergem as linhas de uma epopeia em transe
Nessa polpa amarga me situo e o sumo do fruto escorre
aos cantos do luto, não dos lábios, aos cantos do palácio
andorinha fugitiva que ri com a boca toda numa rosa
Voltavam as asas, voltavam, as inúmeras espécies de voo
estudadas inculcavam o cubo: voltavam as aves, voltavam
com romãs no bico e cada uma com um verso, todas as manhãs
- António Barahona
in Livros da Índia, Imprensa Nacional
[Encontrado aqui, como sempre]
de Pangim com gestos de pomba escura até à alva
e a ossatura de platina fluorescente, a cabeleira
fulminada numa pose que o vento ventilava fulva
Sujata sorriu como de costume no romance por escrever
que eu jamais escreverei (a acção não se desenrola)
e o poema nu também não há: havia, há, haverá uma veia
aberta de onde emergem as linhas de uma epopeia em transe
Nessa polpa amarga me situo e o sumo do fruto escorre
aos cantos do luto, não dos lábios, aos cantos do palácio
andorinha fugitiva que ri com a boca toda numa rosa
Voltavam as asas, voltavam, as inúmeras espécies de voo
estudadas inculcavam o cubo: voltavam as aves, voltavam
com romãs no bico e cada uma com um verso, todas as manhãs
Naga Masjid/Curti
Monção de 1982
- António Barahona
in Livros da Índia, Imprensa Nacional
[Encontrado aqui, como sempre]
quarta-feira, 22 de junho de 2011
T de Tratado de Pedagogia (XXXIV)
Em dia de exame nacional de Matemática:
MATHS
To commemorate the grand bazaar
the king is given a prize goat (x)
that is one and a half metres high.
Given that a prize goat eats
ten square yards of grass a day,
how long should the leash (y)
be tied so the prize goat can roam free
and feed until the next grand bazaar?
To the man who can give an answer
in yards and show his working,
goes the talcum hand of the virgin princess
who is also one and a half metres high.
Men come. One brings a ball of string
and a cauliflower to show he is both wise
and humble, another swings a bag of seeds,
two brothers flex their matching red braces.
So the suitors measure, scribble, compare
their feats of mind, strenght and faith.
Bunting feathers the eaves, a local man
juggles numbers through the streets
dressed in the fleece and horns of a buck.
The princess bites her lip, her hair plaited
with ribbons the colours of her country.
Meanwhile the goat goes hungry.
Jack Underwood
terça-feira, 21 de junho de 2011
segunda-feira, 20 de junho de 2011
R de Realizar? (III)
THEOLOGY
He tried to think about the zoo,
the bird he'd seen with an anvil head,
slinking lizards in the reptile house.
It had been a good day.
But he remembered the panther enclosure
where he had waited for thirty minutes,
staring up at a dark hut hidden in the trees.
Suppose there was no panther.
- Jack Underwood
in Faber New Poets 4
He tried to think about the zoo,
the bird he'd seen with an anvil head,
slinking lizards in the reptile house.
It had been a good day.
But he remembered the panther enclosure
where he had waited for thirty minutes,
staring up at a dark hut hidden in the trees.
Suppose there was no panther.
- Jack Underwood
in Faber New Poets 4
E de Espera (XVI)
APELO DE URGÊNCIA
De Rutland Sq., Boston, Massachussets, mandaste as boas-festas.
Depois, vi-te em Bruxelas, na Grand'Place, mas nada foi possível,
porque conduzias uma excursão turística
e o autocarro
ia partir, na hora.
Em Ruão, encontrámo-nos, na Rue de L'Horloge.
E em Paris, na esplanada de um café, em Saint André-des-Arts.
Mas nada dissemos um ao outro
porque tivemos medo de que nenhum de nós fosse um ou o outro.
Em Ottignies, nevava,
vi passar o teu rosto colado ao vidro da carruagem de
segunda classe da composição
da linha do outro lado.
Eu ia para Gent.
E tu?
Direction Liège?
De então para cá, tenho-te visto, juro,
atravessando uma rua qualquer de uma qualquer cidade
de qualquer documentário cinematográfico
ou, súbito, ao passar,
numa qualquer fotografia de jornal.
Entretanto,
este breve postal de Tientsin :
"From China, with love".
E não assinas Laura,
não te chamas Beatriz
nem Annabelle Lee.
Sei, porém, o teu nome e o teu corpo,
mas não sei onde moras
(quem o sabe?).
E por isso te peço que, se um dia
(extremamente improvável)
este apelo de urgência
chegar às tuas mãos,
cair sob os teus olhos,
tombar no teu coração,
então que escrevas, escrevas logo, prontamente,
dizendo o teu país,
a tua cidade,
a tua morada.
Porque eu voltarei a cobrir a cabeça de cinzas,
calçarei as sandálias,
tomarei de novo o meu bastão de buxo,
abraçarei os parentes e os amigos
e partirei à procura
do infinitamente inefável.
- Emanuel Félix
R de Realizar
AGORA ESCREVO
Que queriam fazer de mim?
Uma palavra, um gemido obsceno,
Uma noite sem nenhuma saída,
Um coração que mal pudesse
Defender-se da morte,
Uma vírgula trémula de medo
Num requerimento azul, azul,
Uma noite passada num bordel
Parecido com a vida, resumindo
Brutalmente a vida!
A chave dos sonhos, o segredo
Da felicidade, as mil e uma
Noites de solidão e medo,
A batata cozida do dia-a-dia,
O muscular fim de semana,
As sardinhas dormindo,
Decapitadas, no azeite,
O amor feito e desfeito
Como uma cama
E ao fundo – o mar…
Mas defendi-me e agora escrevo
Furiosamente, agora escrevo
Para alguém:
Lembras-te, meu amor, dos passeios que demos
Pela cidade? Dos dias que passámos
Nos braços da cidade?
Coleccionámos gente, rostos simples, frases
De nenhum valor para além do mistério
Também simples do nosso amor,
Inventámos destinos, cruzámos vidas
Feitas de compacta vontade,
De dura necessidade, rostos frios
Possuídos por uma ausência atroz,
Corpos extenuados mas sem nenhum sono para dormir,
Olhos já sem angústia, sem esperança, sem qualquer
Pobre resto de vida!
Seguimos a alegria das crianças, agressiva
Como o carvão riscando uma parede,
Aprendemos a rir (oh que vergonha!...)
Com a gente «ordinária», e calados
Descemos até ao rio – e ali ficámos
A ver!
O amor continua muito alto,
Muito acima, muito fora
Da vida, muito raro
E difícil: maravilhoso
Quando devia ser fiel,
Fiel em cada dia,
Paciente e natural em cada dia,
Profundo e ao mesmo tempo aéreo,
Verde e simples,
Como uma árvore!
Ganhámos juntos o que perdemos separados:
A luz incomparável, esta luz quase louca
Da primavera, esta gaivota
Caída dos ombros da luz,
E a leve, saborosa tristeza do entardecer,
Como uma carta por abrir,
Uma palavra por dizer…
Ganhámos juntos o que vamos perdendo
Separados:
A alegria – inocente
Cidade,
Coração aberto pela manhã,
Pequeno barco subindo
Nitidamente o rio,
Fumegando, fumando
Com o seu ar importante de homenzinho…
E a ternura – beijo sobrevoando
O teu rosto fiel,
Fogo intensamente verde sobre a terra,
Intensamente verde nos teus olhos,
Pequeno «nariz ordinário»
Que entre os meus dedos protesta
E se debate…
Duas árvores de avanço,
Uma corrida louca…
… E o teu coração na minha boca!
E o amor,
Não o que destrói, o que não é amor,
Não a fúria dos corpos quando trocam
Desespero por desespero,
Não a suprema tristeza de existir,
A obscena arte de viver,
A ciência de não dar e receber,
Mas o amor que se traduz
Pela bondade, a confiança,
A pureza, a fraternidade,
A força de viver, de triunfar da morte,
De triunfar da sorte,
A vertigem de conhecer
Necessidade e liberdade!
Ganhámos juntos o que perdemos separados.
Flechas velocíssimas,
Nossos sonhos voavam
Em direcção à vida,
E era na vida que queriam acertar,
Era na vida que queriam morder,
Era à vida que nos queriam ligar!
Nos nossos sonhos entrava gente viva,
Entravam cartas, poemas, versos
Tão cheios de sentido como ruas
E ruas plenas de ritmo e sentido,
Como os melhores versos,
Entravam amigos, desejos, lutas
E esperanças comuns.
Recordações, amores antigos
Como navios perdidos muito ao longe
Ou já imóveis sob anos e anos de silêncio,
Leituras discutidas, evocadas: sonhos
E destinos próximos, tristezas e alegrias semelhantes,
Vidas exemplares,
Vidas fulgurantes de vida!
Michaux, o que dizia
A cada passo: «Et comment!»
Para exprimir o seu apago à vida,
A sua indomável alegria!
E N-2 e Berta,
Um ao outro presos
Como fantasmas,
Mas vivendo e ajudando a viver!
E Éluard, os seus poemas
Simples como gestos de alegria,
Directos como palavras
De justa cólera,
Irreprimíveis como beijos
Quentes de ternura,
Completos como pássaros
Rápidos no azul!
E muitos outros ainda,
Muitas outras vidas,
Reais ou inventadas
Exemplarmente do real!
Nos nossos dias entravam dúvidas e erros,
A terrível solidão de certas horas
Sem um ombro amigo,
O coração abandonado, flutuando
Como um peixe morto, um resto
De calor dentro do frio.
Dúvidas, erros,
E a tentação de levantar andaimes,
De entrar «em obras», de instalar
Em cada dia um «problema»
E de dourar
O «problema» de cada dia…
Mas não só a dúvida e o erro,
O coração entornado, a cabeça perdida
Entravam nos nossos dias.
Porém
Tratava-se de realizar.
«Realizar»: fazer passar
Para a realidade,
Pôr em prática sonhos,
Ideias, teorias.
Por exemplo: a indústria,
A agricultura realizam
Certas teorias
Químicas, físicas,
Biológicas.
Por exemplo: hoje
Estão a ser realizados
Os mais velhos
Sonhos do homem.
Por exemplo – mais pessoal
Mas não menos importante:
Em ti
Via realizados os meus sonhos!
- Alexandre O'Neill
relido em:
Surrealismo/Abjeccionismo, org. Mário Cesariny de Vasconcelos, Lisboa: Edições Salamandra, 1992
Que queriam fazer de mim?
Uma palavra, um gemido obsceno,
Uma noite sem nenhuma saída,
Um coração que mal pudesse
Defender-se da morte,
Uma vírgula trémula de medo
Num requerimento azul, azul,
Uma noite passada num bordel
Parecido com a vida, resumindo
Brutalmente a vida!
A chave dos sonhos, o segredo
Da felicidade, as mil e uma
Noites de solidão e medo,
A batata cozida do dia-a-dia,
O muscular fim de semana,
As sardinhas dormindo,
Decapitadas, no azeite,
O amor feito e desfeito
Como uma cama
E ao fundo – o mar…
Mas defendi-me e agora escrevo
Furiosamente, agora escrevo
Para alguém:
Lembras-te, meu amor, dos passeios que demos
Pela cidade? Dos dias que passámos
Nos braços da cidade?
Coleccionámos gente, rostos simples, frases
De nenhum valor para além do mistério
Também simples do nosso amor,
Inventámos destinos, cruzámos vidas
Feitas de compacta vontade,
De dura necessidade, rostos frios
Possuídos por uma ausência atroz,
Corpos extenuados mas sem nenhum sono para dormir,
Olhos já sem angústia, sem esperança, sem qualquer
Pobre resto de vida!
Seguimos a alegria das crianças, agressiva
Como o carvão riscando uma parede,
Aprendemos a rir (oh que vergonha!...)
Com a gente «ordinária», e calados
Descemos até ao rio – e ali ficámos
A ver!
O amor continua muito alto,
Muito acima, muito fora
Da vida, muito raro
E difícil: maravilhoso
Quando devia ser fiel,
Fiel em cada dia,
Paciente e natural em cada dia,
Profundo e ao mesmo tempo aéreo,
Verde e simples,
Como uma árvore!
Ganhámos juntos o que perdemos separados:
A luz incomparável, esta luz quase louca
Da primavera, esta gaivota
Caída dos ombros da luz,
E a leve, saborosa tristeza do entardecer,
Como uma carta por abrir,
Uma palavra por dizer…
Ganhámos juntos o que vamos perdendo
Separados:
A alegria – inocente
Cidade,
Coração aberto pela manhã,
Pequeno barco subindo
Nitidamente o rio,
Fumegando, fumando
Com o seu ar importante de homenzinho…
E a ternura – beijo sobrevoando
O teu rosto fiel,
Fogo intensamente verde sobre a terra,
Intensamente verde nos teus olhos,
Pequeno «nariz ordinário»
Que entre os meus dedos protesta
E se debate…
Duas árvores de avanço,
Uma corrida louca…
… E o teu coração na minha boca!
E o amor,
Não o que destrói, o que não é amor,
Não a fúria dos corpos quando trocam
Desespero por desespero,
Não a suprema tristeza de existir,
A obscena arte de viver,
A ciência de não dar e receber,
Mas o amor que se traduz
Pela bondade, a confiança,
A pureza, a fraternidade,
A força de viver, de triunfar da morte,
De triunfar da sorte,
A vertigem de conhecer
Necessidade e liberdade!
Ganhámos juntos o que perdemos separados.
Flechas velocíssimas,
Nossos sonhos voavam
Em direcção à vida,
E era na vida que queriam acertar,
Era na vida que queriam morder,
Era à vida que nos queriam ligar!
Nos nossos sonhos entrava gente viva,
Entravam cartas, poemas, versos
Tão cheios de sentido como ruas
E ruas plenas de ritmo e sentido,
Como os melhores versos,
Entravam amigos, desejos, lutas
E esperanças comuns.
Recordações, amores antigos
Como navios perdidos muito ao longe
Ou já imóveis sob anos e anos de silêncio,
Leituras discutidas, evocadas: sonhos
E destinos próximos, tristezas e alegrias semelhantes,
Vidas exemplares,
Vidas fulgurantes de vida!
Michaux, o que dizia
A cada passo: «Et comment!»
Para exprimir o seu apago à vida,
A sua indomável alegria!
E N-2 e Berta,
Um ao outro presos
Como fantasmas,
Mas vivendo e ajudando a viver!
E Éluard, os seus poemas
Simples como gestos de alegria,
Directos como palavras
De justa cólera,
Irreprimíveis como beijos
Quentes de ternura,
Completos como pássaros
Rápidos no azul!
E muitos outros ainda,
Muitas outras vidas,
Reais ou inventadas
Exemplarmente do real!
Nos nossos dias entravam dúvidas e erros,
A terrível solidão de certas horas
Sem um ombro amigo,
O coração abandonado, flutuando
Como um peixe morto, um resto
De calor dentro do frio.
Dúvidas, erros,
E a tentação de levantar andaimes,
De entrar «em obras», de instalar
Em cada dia um «problema»
E de dourar
O «problema» de cada dia…
Mas não só a dúvida e o erro,
O coração entornado, a cabeça perdida
Entravam nos nossos dias.
Porém
Tratava-se de realizar.
«Realizar»: fazer passar
Para a realidade,
Pôr em prática sonhos,
Ideias, teorias.
Por exemplo: a indústria,
A agricultura realizam
Certas teorias
Químicas, físicas,
Biológicas.
Por exemplo: hoje
Estão a ser realizados
Os mais velhos
Sonhos do homem.
Por exemplo – mais pessoal
Mas não menos importante:
Em ti
Via realizados os meus sonhos!
- Alexandre O'Neill
relido em:
Surrealismo/Abjeccionismo, org. Mário Cesariny de Vasconcelos, Lisboa: Edições Salamandra, 1992
Subscrever:
Mensagens (Atom)





