[Lisboa, 26/01/12]
sábado, 28 de janeiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XII)
[...]
Poesia, risco, amor. Neste feixe repete-se um rosto.
Rosto furador de muralhas, como verifica o poeta Paul Éluard, e do planeta minúsculo faz-se a partida para ilimitadas terras.
Acendem-se pássaros em pleno céu. A terra treme e o mar inventa canções novas. O cavalo do sonho galopa em cima das nuvens. A flora e a fauna transformam-se. A cortina do son, que ainda há pouco desceu sobre o tédio do velho mundo, volta a levantar-se para surpresas de astro e areia. E vingados que ficamos dos minutos lentos, dos corações tépidos, das mãos racionais, finalmente olhamos.
[...]
René Crevel
(na introdução que termina, citando
A poesia não é acto de um, mas de todos.)
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
B de Biorritmo - CXIII b
TIEMPOS DIFÍCILES
Era todo tan triste y tan absurdo.
No vivías apenas. Te colgabas de la pared de la melancolía
y veías pasar las lentas horas
que hacia nada conducen y hacia nunca.
Las mujeres te habían retirado
su protección, los dioses su asistencia
y la literatura su cobijo.
Fueron tiempos difíciles aquéllos.
Luis Alberto de Cuenca, El hacha y la rosa (1993)
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - XI c
[...] Para a multidão, uma vedeta é uma pessoa que caminha sobre as águas: triunfa, por procuração, dessa sensação de "mergulho" prenhe de angústia que é a sorte do homem moderno arpoado pelo anonimato voraz da multidão das grandes cidades. Ao ver os olhares prenderem-se à pantalha como a uma bóia de salvação, compreende-se perfeitamente que o seu contacto, mesmo imaginário, imunisa contra a morte, triunfa, ainda que por um só instante, do sentimento de não-reconhecimento que é o lote da vida das moléculas humanas em vão rebeladas contra a condição que lhes foi criada de entrar sem apelo "em composição". O difícil é saber-se a partir de quando uma fixação a princípio tão imprevista começou a ver-se mais ou menos sabiamente solicitada: porque é evidente não ter a oferta ficado muito tempo em atraso sobre a solicitação. O acidental, o imprevisto, como no cinema, ritualizou-se prontamente, e no negócio nem sempre é esquecido o juro do culto. Tudo se passa hoje como se produzisse uma "corrente de ar" que se tornou para o artista uma perigosa causa de desquilíbrio: é evidente que a partir dum certo grau de sucesso inicial, o escritor moderno se sente apesar de tudo apanhado pela "dimensão do grande homem". O nascimento do grande escritor corresponde em 1949 (pelo que diz respeito à grande massa do público) não a uma condecoração por serviços prestados (frequentemente a título póstumo) mas antes à necessidade difusa de prover sem demora a faltas e vazios entre os cabeças de cartaz (e isto é especialmente evidente nos meios fechados, como o da Boa Imprensa de extrema-esquerda, onde se produzem com frequência, por uma ou outra razão, mutações ou "separações"). A verdade é que o escritor dispõe hoje de mil maneiras de se manifestar de alcance muito mais eficaz do que que os seus livros. A sua situação ganha muito em rapidez ao servir-se de outras vias além da lenta penetração duma obra escrita, da lenta digestão dela por um público que a fome nem sempre devora. [...]
Julien Gracq
in A Literatura no Estômago, pp. 45 e 46
in A Literatura no Estômago, pp. 45 e 46
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XII)
LÍNEA CLARA
a Pollux Hernúñez
Dicen que hablamos claro, y que la poesía
no es comunicación, sino conocimiento,
y que sólo conoce quien renuncia a este mundo
y a sus pompas y obras - la amistad, la ternura,
la decepción, el fraude, la alegría, el coraje,
el humor y la fe, la lealtad, la envidia,
la esperanza, el amor, todo lo que no sea
intelectual, abstruso, místico, filosófico
y, desde luego, mínimo, silencioso y profundo -.
Dicen que hablamos claro y que nos repetimos
de lo claro que hablamos, y que la gente entiende
nuestros versos, incluso la gente que gobierna,
lo que trae consigo que tengamos acceso
al poder y a sus premios y condecoraciones,
ejerciendo un servil y injusto monopolio.
Dicen, y menudean sus fieras embestidas.
Defiéndenos, Tintín, que nos atacan.
Luis Alberto de Cuenca, La Vida en Llamas (2006)
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
L de (A) Luz da Sombra (XX)
Duas formas de luz (re)confirmadas ontem ao jantar:
a poesia e os amigos.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - XI b
[…]
Desde que existe um público literário (quer dizer: desde que há uma literatura) o leitor, colocado diante de uma grande variedade de escritores e de obras, reage de duas maneiras: por um gosto e por uma opinião. Instalado diante de um texto, vai produzir-se nele o mesmo clic interior que sentimos, sem regra e sem razão, quando encontramos alguém: "ama" ou "não ama", sente ou não sente, à medida que vai virando as páginas, a sensação de ligeireza, de liberdade pura, embora suspensa, que se pode comparar à sensação de um galope sobre um cavalo de raça. Pode-se dizer, efectivamente, no caso de uma feliz conjugação, que o leitor adere à obra, enche de segundo a segundo a capacidade exacta da forma vazia que vai aprofundando numa rapidez voraz, formando com ela, no vento contínuo das páginas viradas, esse bloco de velocidade lubrificada e sem falhas cuja recordação depois da última página vir bruscamente "cortar o gás" nos deixa atordoados e vacilantes como num princípio de náusea. Alguém que tenha lido um livro desta maneira fica preso a ele por um laço forte, uma espécie de aderência, qualquer coisa parecida com o sentimento vago de ter sido iluminado; durante uma conversa, cada um poderá reconhecer noutrém, mesmo só através de uma inflexão de voz particular, esse sentimento quando ele se exprime, por vezes com os mesmos rodeios e o mesmo pudor próprios do amor, e se uma certa ressonância se produz dir-se-ia que se tocaram dois fios eléctricos. É este sentimento, e ele só, que transforma o leitor em prosélito fanático que não descansa (sendo esse, talvez, o mais desinteressado sentimento que exista) enquanto não fizer partilhar por outros a sua singular emoção. Há livros que nos queimam as mãos, que semeamos como por encanto, que compramos meia dúzia de vezes sempre contentes por nunca os vermos voltar. Cinquenta leitores deste quilate, fazendo incessantemente vibrar quem os rodeia, são outros tantos portadores de vírus filtrantes que chegam para contaminar um vasto público – bastam algumas dezenas de anos, por vezes um pouco mais, frequentemente muito menos; a glória de Mallarmé, como se sabe, não teve outro veículo: cinquenta leitores que se deixariam morrer por ele.
domingo, 22 de janeiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XI)
[...] Aliás, algo agradava a esse público no tom destas vozes proféticas: a seguir à guerra, ele esperava instintivamente da sua literatura uma explosão, um levantamento em massa - tinha o direito de o esperar - representava-a de antemão brutal, excedida, apocalíptica, conquistadora, um pouco à maneira desse desembarque que tinha esperado durante tão longos meses. Comprava muitos livros - todos os que lhe eram propostos de semana a semana, de olho vidrado e sobrancelha carregada, como se lhe estendessem revólveres prontos a disparar, pelos arautos da nova Promessa. Quem o sabia? talvez fosse aquele, era preciso não perder o messias. [...] Contudo a arca milagrosa não se abria, não se avistavam senão os primeiros clarões precursores. Era preciso esperar; à beira do santo Lugar as revistas multiplicavam os novos acampamentos e faziam bicha - equipavam-se como para proteger a raça inteira dos dentes do dragão. Os meses passsaram, e os anos; veio a fadiga, e o desencanto; o público esfregou os olhos. Tinha diante de si este espectáculo chulo: jockeys de "Grand Prix" cavalgando lesmas.
Julien Gracq
in A Literatura no Estômago,
trad. Ernesto Sampaio, Lisboa: A Barca Solar, s/d
sábado, 21 de janeiro de 2012
C de Começar o dia com um livro novo (VII)
Nunca soube porque é que todos lhe chamavam "filosofia".
Ela dizia-me que eu era o sol e ela a lua, que eu era o cubo e ela a esfera, que eu era o ouro e ela a prata. Então saíam chamas do meu corpo e chuva de todos os poros do seu.
Abraçávamo-nos e as minhas chamas misturavam-se à sua chuva e formavam-se infinitos arco-íris à nossa volta. Foi então que ela me ensinou que eu sou o fogo, e ela, a água.
Arrabal, La Pierre de la Folie,
Paris: René Julliard, 1963
[Trad. ID]
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
F de Falar para as paredes (XI)
GRAVIDADE DO CORAÇÃO
A água das fontes corre gravemente como a boca de um cão. A rosa intimida-me. Nunca ri. E a árvore dorme de pé. Não brinca. Ordena, por exemplo, à sua sombra: deita-te, descansa, partimos assim que anoitecer. Ao anoitecer, a sombra sobe-lhe para os ramos e partem.
Quem ama escreve nas paredes.
Se eu visse o meu coração, já não teria coragem para te sorrir. Ele trabalha demasiado nesta noite sem lua. Deitado sobre ti, espreito o seu galope, que me traz uma má notícia.
Jean Cocteau, Tanta coisa por dizer,
Lisboa: Língua Morta, 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
P de (The) Privacy of Rain (XX)
O QUE PENSAS QUANDO OLHAS PARA MIM E NÃO DIZES NADA
Há um jardim com anões de barro quando não falas
mas isto sou eu a dizer e posso enganar-me e aliás
para que serve o que digo?
Estás a pensar na chuva que há-de cair só nas tuas mãos
nas minhas que me importa?
É a chuva? Pensas nela enquanto olhas
para mim Que mundo é este? Fala
diz qualquer coisa
ou deixa que assim seja por todos os séculos
ou eu ou a chuva
muito bem não podes decidir
É um prazer saber-e Amen
Abel Neves, Eis o amor a fome e a morte (1999)
domingo, 15 de janeiro de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
P de Poética (XVI)
LA EDUCACIÓN SENTIMENTAL
RÉQUIEM
Solía repetir con menosprecio:
la poesía para nada sirve.
Me quiso preparar para un infierno
donde, al bajar la guardia se arriesga uno a perder,
donde sólo el dinero protege de este frío
de la edad. Pero, en cambio, no sabía
que es por este motivo que la necesitamos,
que es preciso rastrear la poesía
por hospitales y juzgados: luego
ya hablará de la amada.
Hay poesía incluso en gente
que, al igual que mi padre, odió la vida.
Y tenía razón en su argumento:
de nada sirve, aquélla que él leía.
*
RÉQUIEM
Es la fotografia de un grupo de poetas.
Tiene una extraña mancha:
procede de la sombra de un árbol, o es el resto
de algún mal revelado.
Poca cosa, unos poetas:
son tan débiles.
Simulan fortaleza,
pasión, indiferencia.
Muertos mejoran, dicen.
Afortunados quienes pueden
hacer surgir el mito desde algunos versos
y desde un amarillo retrato de poetas.
Yo, que no aguantaría
ni una hora a Verlaine,
siento pena por ti,
amigo al cual no me devuelven
ni versos ni retratos
con las manchas que pone
la muerte al señalar
el primer candidato
al mito o al olvido,
dos formas, nada más, de un solo engaño.
Joan Margarit, Aguafuertes (1998)
R de Regresso ao Trabalho (XXXV)
"É curioso, mas uma prisão é menos sinistra do qualquer local de trabalho."
Albert Cossery, A violência e o escárnio,
Lisboa: Antígona, 1999
[Leitura de cabeceira desde os tempos do estágio]
[Leitura de cabeceira desde os tempos do estágio]
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
E de Espera (XXII)
Foi possível sabes?
O dia foi breve menos do que os outros possível
tão breve a passagem dum melro todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite tão breve
O dia foi breve menos do que os outros possível
tão breve a passagem dum melro todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite tão breve
Abel Neves, Eis o amor a fome e a morte (1998)
CHAPLINESQUE
We will make our meek adjustments,Contented with such random consolationsAs the wind depositsIn slithered and too ample pockets. For we can still love the world, who findA famished kitten on the step, and knowRecesses for it from the fury of the street,Or warm torn elbow coverts. We will sidestep, and to the final smirkDally the doom of that inevitable thumbThat slowly chafes its puckered index toward us,Facing the dull squint with what innocenceAnd what surprise! And yet these fine collapses are not liesMore than the pirouettes of any pliant cane;Our obsequies are, in a way, no enterprise.We can evade you, and all else but the heart:What blame to us if the heart live on. The game enforces smirks; but we have seenThe moon in lonely alleys makeA grail of laughter of an empty ash can,And through all sound of gaiety and questHave heard a kitten in the wilderness.- Hart Crane
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
ACTUALIDADES PATHÉ
Sobre vinte quilómetros de tela
Chapéu de coco e asas de anjo
Passa São Charlot,
O bem-amado do mundo,
Para o ensinar a rir
O riso universal
E redentor.
No cinema
Em cinco continentes ao mesmo tempo
É a minha pátria.
Claire Goll (trad. João Barrento)
in O Bosque Sagrado - o cinema na poesia,
Porto: Gota de Água, 1986
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
T de (Uma) teoria de pássaros (XXV)
O FAROL
Conto popular argentino
Cada mañana había que limpiar la linterna
de pájaros muertos.
Azorín
Deserto adentro,
Construir um farol.
Há algo que salvar em todas as partes.
Não deixes que me esqueça,
por favor.
Ânsia de escuridão torna-se caverna,
isolamento.
Graças a ti,
acedo ao exterior,
desenho um rumo.
Assim amanheço luz de entre as minhas sombras:
Pouco importa se há pássaros mortos.
Josep M. Rodríguez, Raíz
domingo, 8 de janeiro de 2012
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - IX
[...]
ILS ÉTEIGNENT LES ÉTOILES À COUPS DE CANON
Les étoiles mouraient dans ce beau ciel d'automne
Comme la mémoire s'éteint dans le cerveau
De ces pauvres vieillards qui tentent de se souvenir
Nous étions là mourant de la mort des étoiles
Et sur le front ténébreux aux livides lueurs
Nous ne savions plus que dire avec désespoir
ILS ONT MÊME ASSASSINÉ LES CONSTELLATIONS
Mais une grande voix venue d'un mégaphone
Dont le pavillon sortait
De je ne sais quel unanime poste de commandement
La voix du capitaine inconnu qui nous sauve toujours cria
IL EST GRAND TEMPS DE RALLUMER LES ÉTOILES
Les étoiles mouraient dans ce beau ciel d'automne
Comme la mémoire s'éteint dans le cerveau
De ces pauvres vieillards qui tentent de se souvenir
Nous étions là mourant de la mort des étoiles
Et sur le front ténébreux aux livides lueurs
Nous ne savions plus que dire avec désespoir
ILS ONT MÊME ASSASSINÉ LES CONSTELLATIONS
Mais une grande voix venue d'un mégaphone
Dont le pavillon sortait
De je ne sais quel unanime poste de commandement
La voix du capitaine inconnu qui nous sauve toujours cria
IL EST GRAND TEMPS DE RALLUMER LES ÉTOILES
[...]
Guillaume Apollinaire
sábado, 7 de janeiro de 2012
C de Começar o dia com um livro novo (VI)
22
Na universidade aprendeste a luz
que não vem nos livros, às escuras,
no teu quarto velho. Dois olhos, nariz
e boca. sargaços que são pernas e
braços de dois corpos que experimentam
a direcção do vidro queimado entre o
sol e a esperança, a dor que te ensina.
Rui Costa, Breve ensaio sobre a potência,
Lisboa: Língua Morta, Janeiro de 2012
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
M de Música para os meus olhos (XXII)
SONATA
Ouço-a enquanto a chuva cai,
e penso naquele cão solitário
que ia atrás do caixão de Mozart.
Sigo-o nos compassos deste piano
e nos caminhos que a água traça
ao deslizar pelos vidros.
Vou, misteriosamente feliz, seguindo um cão
feito ao mesmo tempo de música e de chuva.
Joan Margarit
[Trad. ID]
S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXV b
VIAGEM
Estou a pensar em ti dentro de um comboio
parado na estação de uma cidade
em que nunca estive.
Uma estação de plataformas cansadas.
De crepúsculo difícil.
Quando se esgota o tempo
é tão desolador atrever-se a sonhar.
O comboio arranca e passa em frente de uns edifícios.
Atrás de uma janela iluminada
vejo o interior: é um instante
com a vaga suspeita de umas vidas.
Também não sei muito mais
sobre aquilo a que chamámos o nosso amor.
Joan Margarit, Misteriosamente Feliz, 2009
[Trad. ID]
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
P de Poesia (IX)
A LIÇÃO DE ESTÉTICA
«Mas que beleza há na poesia?»
Escuta, quando vês um grande amigo
rodeado de mulheres, quando estás
fascinado com a orquestra, e sob o reflector
resplandecem as cores de uma deusa
que desce seminua à plateia,
onde tu estremeces, escondido
em toda aquela multidão!, quando em noite
escura e serena amigos dançam sem mulheres
numa praça ao som de um
acordeão e tu ficas à parte; pois bem, isso
não é belo para ti? Também é belo
para um velho que se chama
crítico e acha beleza em muitas coisas
e que até se aventurou a descobrir no mundo
e talvez fora do mundo, coisas cada vez
mais belas, mas que diz, com amor: «que belo
é este poema!» E tu,
tu olhas-me sem sequer me dares um beijo?
Sandro Penna, No Brando Rumor da Vida,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2003
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
E de Equilíbrio de forças (II)
Dícen?
Olvidan.
No dícen?
Envídian.
Hacen?
Fatal.
No hacen?
Igual.
Para que
'Sforzar?
Todo es
Hurgar.
Olvidan.
No dícen?
Envídian.
Hacen?
Fatal.
No hacen?
Igual.
Para que
'Sforzar?
Todo es
Hurgar.
Mário Cesariny, O Virgem Negra,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1996
R de Regresso ao real (III)
[...]
Mas nós, amigo, chegamos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem,
Mas acima de nós, lá em cima, noutro mundo.
Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar
Se estamos vivos, tanto nos querem poupar.
Pois nem sempre pode um frágil vaso contê-los,
O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina.
Depois toda a nossa vida é sonhar com eles. Mas os erros,
Tal como o sono, ajudam, e a necessidade e a noite fortalecem,
Até que haja suficientes heróis, criados em berço de bronze,
De coração corajoso, como dantes, semelhantes aos Celestiais.
Depois eles chegam, trovejantes. Entretanto penso por vezes
Que é melhor dormir do que estar assim sem companheiros,
Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,
Nem que dizer, pois para que servem poetas em tempo de indigência?
Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho
Que em noite santa vagueavam de terra em terra.
[...]
Mas nós, amigo, chegamos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem,
Mas acima de nós, lá em cima, noutro mundo.
Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar
Se estamos vivos, tanto nos querem poupar.
Pois nem sempre pode um frágil vaso contê-los,
O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina.
Depois toda a nossa vida é sonhar com eles. Mas os erros,
Tal como o sono, ajudam, e a necessidade e a noite fortalecem,
Até que haja suficientes heróis, criados em berço de bronze,
De coração corajoso, como dantes, semelhantes aos Celestiais.
Depois eles chegam, trovejantes. Entretanto penso por vezes
Que é melhor dormir do que estar assim sem companheiros,
Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,
Nem que dizer, pois para que servem poetas em tempo de indigência?
Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho
Que em noite santa vagueavam de terra em terra.
[...]
Friedrich Hölderlin, "Pão e Vinho"
in Elegias, Lisboa: Assírio e Alvim, 1992
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
R de Regresso ao Trabalho (XXXIV)
TÉ
La anciana echó hojitas de té en el agua hirviendo para ver mi vida. Por el humo se fueron mis sueños.
*
AJEDREZ
Estoy jugando el ajedrez con la Señora Muerte a la orilla del mar. Hemos cambiado las reglas. Cada vez que Ella o yo tocamos una pieza del contrario, la arrojamos tranquilamente al océano. Al cabo de cinco minutos quedan sólo su Rey y el mío.
- Oiga - le pergunto -, cuando ya no queden piezas, que hacemos? Tiramos el tablero?
Pero la Muerte abre muchíssimo la boca y me sonríe. No sé por qué, sospecho que Ella piensa en tirar otra cosa.
*
PURGATORIO
Mañana, casi todo el dia, será martes. O también miércoles. Es igual. Yo confundo los días. Ayer fue jueves y hoy es lunes. Llevo tanto tiempo encerrado que sólo espero al Domingo para que alguien me saque de aquí.
Javier de Navascués
in Isla de Siltolá – Revista de Poesía, 5-6,
Sevilha, 2011
domingo, 1 de janeiro de 2012
B de Bom Ano Novo (VI) *
LEGENDA
Hoje, quero da vida
Que ela seja tranquila;
Que seja uma dor e doa,
Mas uma dor boa:
Sem o sal que na ferida
A torna mais dorida.
- Emanuel Félix
* Uma espécie de resolução de Ano Novo.
T de (Uma) teoria de pássaros (XXIII)
THE BEGINNING OF MEMORY
There's a story in an ancient play about birds called The Birds
And it's a short story from before the world began
From a time when there was no earth, no land.
Only air and birds everywhere.
But the thing was there was no place to land.
Because there was no land.
So they just circled around and around.
Because this was before the world began.
And the sound was deafening. Songbirds were everywhere.
Billions and billions and billions of birds.
And one of these birds was a lark and one day her father died.
And this was a really big problem because what should they do with the body?
There was no place to put the body because there was no earth.
And finally the lark had a solution.
She decided to bury her father in the back of her own head.
And this was the beginning of memory.
Because before this no one could remember a thing.
They were just constantly flying in circles.
Constantly flying in huge circles.
- Laurie Anderson
[Obrigada, Hugo.
E Luís.]
sábado, 31 de dezembro de 2011
B de Bom Ano Novo (V)
THE MUSIC CREPT BY US
I would like to remind
the management
that the drinks are watered
and the hat-check girl
has syphilis
and the band is composed
of former SS monsters
However since it is
New Year's Eve
and I have lip cancer
I will place my
paper hat on my
concussion and dance
- Leonard Cohen
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
E de Espinhas para um gato (XII)
BLACK CAT
A ghost, though invisible, still is like a place
your sight can knock on, echoing; but here
within this thick black pelt, your strongest gaze
will be absorbed and utterly disappear:
just as a raving madman, when nothing else
can ease him, charges into his dark night
howling, pounds on the padded wall, and feels
the rage being taken in and pacified.
She seems to hide all looks that have ever fallen
into her, so that, like an audience,
she can look them over, menacing and sullen,
and curl to sleep with them. But all at once
as if awakened, she turns her face to yours;
and with a shock, you see yourself, tiny,
inside the golden amber of her eyeballs
suspended, like a prehistoric fly.
Rainer Maria Rilke
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
B de Brincar com ossinhos (VII)
PASATIEMPO
Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía
cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque era océano
la muerte solamente
una palabra
ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros
ahora veterano
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra
Mario Benedetti, Inventario: Poesía 1950-1985,
Madrid: Visor Libros, 2008
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
P de "Para realizar um fantasma entrevisto" (IV) *
Não assombra a sua casa quem quer. É preciso haver tempestade e incêndio. Conheci períodos em que a minha me não queria. Recusava-me a sua ajuda. As paredes não se impregnavam com nada. Faltavam-lhes as grandes sombras do fogo, os ondeados da água. Quanto mais a casa se esvaziava de mim, mais eu me esvaziava dela. Esta falta de permuta construía um tédio. Nem eu nem ela já éramos capazes de armadilha. E sem armadilha, nenhuma caça. É vivermos sem chegar a nada. Os meus amigos sentiam-no. E recuavam, como as paredes. Ia ser necessário eu esperar que os eflúvios voltassem, se contrariassem, formassem essa mistura explosiva que faz as nossas casas arderem. Porque elas nos imitam e só devolvem o que lhes damos. Mas este eco fala e obriga ao diálogo.
Jean Cocteau, "Das casas assombradas"
in Visão Invisível, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005
* Enquanto revisito outros fantasmas.
* Enquanto revisito outros fantasmas.
P de Poética (XIV)
LAS PALABRAS
Al mundo no le hacen falta las palabras. Sabe pronunciarse
en rayos de sol, en hojas, en sombras. Las piedras del camino
no son menos reales por yacer innumerables y sin catalogar.
Las hojas hablan con soltura el idioma de ser y nada más.
Un beso es un beso completo aunque ninguna palabra lo diga.
Y una palabra lo convierte en algo más pequeño o en otra cosa -
indebido, casto, rutinario, conyugal, disimulado.
Aun llamándolo beso delata la ansiedad de las manos
que tantean la piel o se abrazan a un hombro, la lenta inclinación
del cuello o la rodilla, el contacto de dos lenguas en el silencio.
Pero las piedras son menos reales para quienes no son capaces
de nombrarlas, de leer las mudas sílabas enterradas en el sílice.
Ver una piedra roja es menos que verla como un jaspe -
cuarzo metamórfico, pariente del pedernal que los Kiowa
ilaron para sus flechas. Nombrar es conocer y perpetuar.
La luz del sol no precisa aprobación cuando atraviesa los nubarrones
y unge con su claridad las hojas y las rocas, evaporando luego
cada gota cristalina para devolverla a las nubes que la engendraron.
La luz del día no precisa elogios, y sin embargo siempre la elogiamos -
es superior a nosotros y a todas las palabras etéreas que logramos reunir.
DANA GIOIA,
trad. de Jesús Jiménez Dominguez
in Isla de Siltolá - Revista de Poesía, 5-6,
Sevilha, 2011
domingo, 25 de dezembro de 2011
sábado, 24 de dezembro de 2011
M de Merry (?) Christmas (V)
Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, laiá, laiá, laiá, laiá
Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto, laiá, laiá, laiá, laiá
Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha história e esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá, laiá, laiá
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, laiá, laiá, laiá, laiá
Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto, laiá, laiá, laiá, laiá
Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha história e esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá, laiá, laiá
C de Cicatriz (VIII)
RADIOGRAFÍA
He visto el esqueleto de mi alma,
y no he tenido miedo.
Yo no he visto los huesos
que calmarán el hambre de los buitres
o encontrarán su tumba bajo el agua,
entre la sal y los naufragios.
No todavía.
Tampoco he visto en ellos cicatrices:
quizá no he estado nunca en la batalla,
siguiendo las estelas de los tanques,
golpeando otros huesos com mis huesos.
No todavía.
He visto el esqueleto de mi alma:
era una catedral del siglo XIII,
sólo niervos y vanos,
y nada alrededor, clara y oscura.
MARÍA M. BAUTISTA
in Isla de Siltolá - Revista de Poesía, 5-6,
Sevilha, 2011
P de Poética (XIII)
Tenho uma grande novidade triste a anunciar-te: estou morto.
[...]
Peço-te desculpa. Foi para pedir desculpa que fiz o estranho esforço de aparecer. A poesia é parecida com a morte. Conheço o seu olhar azul. Dá náuseas. Esta náusea de arquitecto sempre a implicar com o vazio, aí tens o que é próprio do poeta. O verdadeiro poeta é, como nós, invisível aos vivos. Só este privilégio o distingue dos outros. Não tresvaria: conta. Mas anda numa areia movediça, e às vezes a sua perna afunda-se tanto que chega até nós.
Jean Cocteau, "Visita"
in Visão Invisível, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005
B de Biorritmo (CVII)
Give me back my broken night
my mirrored room, my secret life
it's lonely here,
there's no one left to torture
Give me absolute control
over every other living soul
And lie beside me, baby,
that's an order!
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
B de Biorritmo (CVI)
Before I let you down again,
I just want to see you in your eyes.
I wouldn't have taken everything out on you,
I only thought you could understand.
They say every man goes blind in his heart,
And they say everybody steals somebody's heart away.
And I got nothing more to say about it
Nothing more than you would me.
Send me your flowers of your december,
Send me your dreams of your candied wine.
I've got just one thing I can't give you...
Just one more thing of mine
They say every man goes blind in his heart
And they say everybody steals somebody's heart away
And I've been wondering why you let me down
And I've been taking it all for granted
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
R de Regresso ao Trabalho (XXXIII) *
* Hoje não, pela primeira vez. Mas continuo a achar que a Carris e o Metro de Lisboa podiam usar estes versos como slogan:
[...]
I see you in the subway and I see you on the bus.
I see you lying down with me and I see you waking up.
I see your hand, I see your hair, your bracelets and your
brush. And I call to you, I call to you, but I don't call
soft enough - There ain't no cure, there ain't no cure, there
ain't no cure for love.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
V de Vida - c
Não criamos nada. Juntamos coisas.
Ana Teresa Pereira
in O Lago, Lisboa: Relógio D'Água, 2011
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
B de Biorritmo (CV)
BOM DIA TRISTEZA
[Adoniran Barbosa & Vinicius de Moraes]
Bom dia tristeza, que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando até meio triste
De estar tanto tempo longe de você
Se chegue tristeza
Se sente comigo
Aqui nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
C de Começar o dia com um livro novo (V)
SUPER-REALIDADE
Eu era de terra quando me procuraste,
estranho à franqueza dos teus modos, baço
para os teus sentidos.
Parávamos o carro num beco qualquer,
queimávamos o rastilho das palavras
até ao deserto onde dávamos as mãos.
Lá fora, a realidade era o espaço inteiro
deitado nos vidros, o mundo caído
para dentro do silêncio.
Gastávamos depressa o tempo, perdidos
no nosso único mapa,
nenhum sinal de mudança no regresso a casa.
Rui Pires Cabral, A Super-Realidade,
Lisboa: Língua Morta, Dezembro de 2011
domingo, 18 de dezembro de 2011
E de Espera (XXI) - 4º Domingo de Advento
VELAS
Temos à frente os dias do futuro
como uma fila de velas acesas –
quentes e vivas e douradas velas.
Ficam atrás os dias passados,
fileira triste de velas sem chama:
ainda sobe fumo das que estão mais perto,
vergadas pelas frias que já se apagaram.
Eu não quero vê-las: tanto me entristece o seu ar de agora
como relembrar o fulgor antigo.
Olho à minha frente as velas acesas.
Não vou voltar-me nem vou ver num arrepio
como cresce tanto a fileira escura,
como é tão veloz o apagar das velas.
Konstandinos Kavafis, Páginas Íntimas,
trad. João Carlos Chainho, Lisboa: Hiena Editora, 1994
sábado, 17 de dezembro de 2011
J de (O) Jardim e a Casa (XIII)
This is the garden:colours come and go,
frail azures fluttering from night's outer wing
strong silent greens silently lingering,
absolute lights like baths of golden snow.
This is the garden: pursed lips do blow
upon cool flutes within wide glooms,and sing
(of harps celestial to the quivering string)
invisible faces hauntingly and slow.
This is the garden. Time shall surely reap
and on Death's blade lie many a flower curled,
in other lands where other songs be sung;
yet stand They here enraptured,as among
the slow deep trees perpetual of sleep
some silver-fingered fountain steals the world.
frail azures fluttering from night's outer wing
strong silent greens silently lingering,
absolute lights like baths of golden snow.
This is the garden: pursed lips do blow
upon cool flutes within wide glooms,and sing
(of harps celestial to the quivering string)
invisible faces hauntingly and slow.
This is the garden. Time shall surely reap
and on Death's blade lie many a flower curled,
in other lands where other songs be sung;
yet stand They here enraptured,as among
the slow deep trees perpetual of sleep
some silver-fingered fountain steals the world.
E.E. Cummings
[Obrigada, Maria José]
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