sexta-feira, 12 de outubro de 2012

L de (A) Luz da Sombra (XXVIII)

 
 
[Sintra, 12/10/12]
 

T de Tratado de Pedagogia (LVI)

Que faria se hoje fosse professor de Filosofia?
 
Jean-Paul Sartre: Perguntaria aos estudantes de que é que gostariam que falássemos e se queriam que eu estivesse presente. Caso não quisessem no curso, não o faria. Apoiá-los-ia totalmente na sua luta. Procuraria, sobretudo, fazer o que eles já não conseguem devido ao isolamento a que foram votados: explicar para o exterior que não pequenos-burgueses niilistas, mas, simplesmente, jovens prestes a cair na armadilha e que recusam um ensino de molde a realizar homens servis. Explicaria também o sentido profundo da manobra Faure: substituir a ditadura dos pequenos régulos do saber, professores acomodados à sombra dum poder caduco, por uma aparente ligação de disciplinas e por um trabalho colectivo, ilusões cuidadosamente acarinhadas para esconder a "modernização" da Universidade em função doss monopólios capitalistas cujas exigências, anónimas, ao nível de região e de nação, já não aparecem como interesses privados, mas como a ditadura da "razão".
 
 
In Juventude e Contestação,
Lisboa: Publicações D. Quixote, 1969


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

S de "Semantics won't do" (III)




Sou um homem comum
Qualquer um
Enganando entre a dor e o prazer
Hei de viver e morrer
Como um homem comum
Mas o meu coração de poeta
Projeta-me em tal solidão
Que às vezes assisto
A guerras e festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um
Ninguém é comum
E eu sou ninguém
No meio de tanta gente
De repente vem

Mesmo eu no meu automóvel
No trânsito vem
O profundo silêncio
Da música límpida de Peter Gast
Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Peter Gast
O hóspede do profeta sem morada
O menino bonito Peter Gast
Rosa do crepúsculo de Veneza
Mesmo aqui no samba-canção
Do meu rock'n'roll
Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Sou um homem comum

P de Paisagem urbana (VI)

 
 
Ilustração
em
Jean-Paul Sartre, L'Engrenage, Lausanne: La Petite Ourse, 1953
 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

L de Levantar a cabeça (XI)

 
 
[Lisboa, 10/10/12]
 

S de "Semantics won't do" (II)


CASIDA VII
DE LA ROSA





La rosa,
no buscaba la aurora:
casi eterna en su ramo,
buscaba otra cosa.

 
La rosa,
no buscaba ni ciencia ni sombra:
confín de carne y sueño,
buscaba otra cosa.

 
La rosa,
no buscaba la rosa:
inmóvil por el cielo
buscaba otra cosa.

 


Federico García Lorca
(na voz, claro, de Chavela Vargas)

 
 
 
 
[Santa Cruz, Setembro 2012]
 

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LI

"- Só depois de viver mais ou melhor, conseguirei a desvalorização do humano - dizia-lhe Joana às vezes. Humano - eu. Humano - os homens individualmente separados. Esquecê-los porque com eles minhas relações apenas podem ser sentimentais. Se eu os procuro, exijo ou dou-lhes o equivalente das velhas palavras que sempre ouvimos, "fraternidade", "justiça". Se elas tivessem um valor real, seu valor não estaria em ser cume, mas base de triângulo. Seriam a condição e não o facto em si. Porém terminam ocupando todo o espaço mental e sentimental exactamente porque são impossíveis de se realizar, são contra a natureza. São fatais, apesar de tudo, no estado de promiscuidade em que se vive. Nese estado transforma-se o ódio em amor, que nunca passa na verdade de procura de amor, jamais obtido senão em teoria, como no cristianismo.
[...]
- É difícil tal desvalorização do humano - continuava -, difícil fugir dessa atmosfera de fracasso de revolução - a adolescência -, de solidariedde com os homens na mesma impotência de conseguir. No entanto como seria bom construir alguma coisa pura, liberta do falso amor sublimizado, liberta do medo de não amar... Medo de não amar, pior do que o medo de não ser amado..."


Clarice Lispector

terça-feira, 9 de outubro de 2012

N de Natureza morta (II)

"A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua guardada há muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refrescavam-na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conservá-la um pedaço de carne morna e quieta. "
 
 
Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem,
Lisboa: Livros do Brasil,s/d

W de Wild is the Wind (V)

 
 
[São Miguel, Agosto 2012]
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXV)

W de "Whereas I am merely in disguise"

"Na minha vida não há evolução; o que há é uma permanente fuga para a frente. Passei décadas a fugir para mim mesmo, e a sensação é de nunca ter chegado à meta; o meu "eu" anda sempre dois ou três passos à minha frente.
Na adolescência gostava de pensar que ainda não tinha nascido; estava à espera de ser maior de idade para me despejar na minha pessoa verdadeira. Para me ocupar e para me ser. Esse espaço continua de algum modo vazio; a inconclusa fuga circular continua.
[...]"


Roger Wolfe

sábado, 6 de outubro de 2012



[06/10/12]
 

F de Flor Suficiente (XXIV)

 
 
[Pelos caminhos da manhã, 05/10/12]
 

E de Espera (XIV)

[...]

Às vezes não há nada a dizer. Ou então há, mas o momento não é oportuno. As pausas e os tempos mortos são tão importantes como os períodos de produção. A curiosidade contemplativa e o silêncio ajudam-te a manter os olhos e os ouvidos abertos, para se que vá filtrando por eles o material. A escrita é uma forma de olhar e uma forma de escutar. A escrita é uma forma de estar no mundo. Ou seja: uma forma de viver, de respirar. E de esperar.
Vale tudo para alimentar a máquina. Um escritor está sempre a trabalhar. Tem os seus registos, os seus arquivos, o seu processo mental. Há coisas que usará conscientemente, e outras que pensa ter esquecido, mas que irão aflorar, mais cedo ou mais tarde, no que escrever. O escritor não sabe o que é o desperdício. A sua existência é um exercício permanente de armazenamento e reciclagem. Nada nem ninguém se pode considerar perdido ou a salvo depois de entrar em contacto com ele. Para o escritor não existe lixo. Só existe combustível.
 
[...]
 
 
 
Roger Wolfe
 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

M de "My house, I say" - b


 
[05/10/12]
 



L de Longe da aldeia - b

ROBERT WALSER
 
 
 
De sapatos novos,
aí vai o sacristão,
como se resplandecesse o dia,
e o jardineiro
varre o caminho de saibro
como se alisasse
a memória,
mas não irão pôr ordem
no tempo antes do inverno,
lançam os iscos
ao ar e dizem
que os pássaros são peixes.
 
Regressas,
mais pesado,
às casas que nunca
partilharam contigo
uma infância,
 
na aldeia
ninguém te conhece
 
no olho
da betoneira
giram os céus
dilacerados.
 
 
Jürg Beeler
[Trad. João Barrento]
 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O de "Oh! qu'ils sont chers, les trains manqués/ Où j'ai passé ma vie à faillir m'embarquer!..." - c



[Lisboa-Santarém, 04/10/12]
 

C de Chocolate Jesus (V)

 
 
Terminar o dia com uma fatia de relicário, em Santarém.
 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

M de Música para os meus olhos (XXXIII)



 
"Menina calçando a meia
[Estufa-Fria, 1966]",
de Inês Dias
 
pela mão de António Barahona.
 

O de Outono - III b



Egon Schiele, "Árvore de Outono agitada pelo vento", 1912



terça-feira, 2 de outubro de 2012

S de Santa Cruz (X)

 
 
 
 

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXXVI)

LISBOA (3)



imaginaste um país imóvel devorado pelo sol
e o arrepio do canto espalhou-se pelas ruas 
onde o tempo passa lento e branco em direcção
a outro tempo igual
 
ao fundo do restaurante o olhar preso em ti
da dama do charuto - café flor do mundo
encruzilhada onde se dorme frente à europa
apercebida como uma sombra que se afunda
nas veias dos arrumadores de carros
 
imaginaste que em ti permaneceria
esse barulho metálico de continentes abandonados
enfim
ontem foi o último dia
em que conseguiste calçar-te - essa guerra
que te deixou por sarar
um túnel de veludo ensanguentado na cabeça
 
 
Al Berto

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

 
 
[Bairro Alto, 28/09/12]
 

domingo, 30 de setembro de 2012

F de Fazer Fotografia (LXVII)





"Nous nous sommes promenés dans le jardin. J’ai pris, moi aussi, quelques photos, il semblait qu’après tout ce soit une chose à faire. Et Ezra Pound a levé la tête. J’ai compris en un instant qu’il était complètement lucide. Son œil de rapace m’a transpercé. Difficile d’oublier cette petite boule noire d’acier qu’il avait au fond de l’orbite, et qui vous jugeait. Nous sommes partis. Le film s’est mal enroulé dans l’appareil. Les images se sont superposées. Comme si son univers mental l’avait emporté sur son apparence physique. Mais il ne pouvait en être autrement avec Ezra Pound."


Jean-Michel Folon
 in L’Express, 4 de Dezembro de 1972

sábado, 29 de setembro de 2012

M de Matemática aplicada

INTEMPÉRIE 7
 
   
    
Quando se agrupam, os humanos tendem a formar triângulos. Uns ocupam o vértice superior; a maioria a base. Nalgum lugar profundo estará inscrita esta figura. Quando se trata de poder, dinheiro e tantas outras coisas, parece muito claro o que domina o triângulo. Em questões de arte e inteligência - talvez até em política - já é não óbvio que o prestígio se situe no vértice. Tende-se a pensar que é assim. Assim se narra o passado. Mas inquieta ver que tantas vezes o ponto dominante, a imposta excelência, se situa a meio da hipotenusa.
 
 

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXXIV)

 
 
[Príncipe Real, 28/09/12]
 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A de Aniversário (XI)

 
[São Miguel, Agosto 2012]
 
 
 
 
Lonely spider waiting in her web
Hoping she can catch some happiness
Then who should stumble into here but you

Got you where I want you
Got you where I want you

Lovely lady spider likes you best
Begs you to come live in her own nest
Feeds you clothes you gives her heart to you

Got you where I want you
Got you where I want you

Don't know why you put up such a fight
Make the lady spider cry all night
You never have to be alone again

Got you where I want you
Got you where I want you

Lonely spider waiting in her web
Hoping she can catch some happiness
Oh when will happiness come by again
 
 
 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

T de Tempo Sem Tempo (XIV)


 [...]
As Joe moves about the house making tea, smoking cigarettes, reading trash, he finds that he is, from time to time, holding his breath. At such times a sound exhales from his lips, a sound of almost unbearable pain. It is not a pain he can locate in bodily terms. It isn't exactly his pain. It's as if some creature inside him is suffering horribly, and he doesn't know exactly why, or what to do to alleviate the pain, which communicates itself to him as a paralyzing fatigue, an inability to do the simplest thing—like fill out the driver's license renewal form. Each night he tells himself firmly that he will do it tomorrow, and tomorrow finds that he simply cannot do it. The thought of sitting down and doing it causes him the indirect pain that drains his strength, so that he can barely move.
What is wrong? To begin with, the lack of any position from which anything can be seen as right. He cannot conceive of a way out, since he has no place to leave from. His self is crumbling away to shreds and tatters, bits of old songs, stray quotations, fleeting spurts of purpose and direction sputtering out to nothing and nowhere, like the body at death deserted by one soul after the other.
 
[...]
 
 
William S. Burroughs, The Western Lands, 1987 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

L de (A) Luz da Sombra (XXVII)










[Lisboa, Setembro 2012]
 

S de Santa Cruz (IX)


DA LARGURA DO MAR APENAS SABE O MEDO
mas há barracas às cores, toldos
às cores, cores disfarçando
a tristeza do mundo, a repressão,
o rancor ancestral do indignado,
COMO A PRATA, o homem dos gelados
com o seu carrito como uma vinheta branca e anil,
os guarda-sóis imitando as Caraíbas,
o Troy na sua azáfama de um lado para o outro
da calçada, Ali, Álvaro, Mohamed,
a costura total do horizonte,
eu no meio, arrebatado, na onda do mundo,
do Universo só [...]


Antonio Hernández, O Mundo Inteiro,
Lisboa: Língua Morta, Setembro 2012

 

[Santa Cruz, 22/09/12]
 

domingo, 23 de setembro de 2012

P de (The) Privacy of Rain (XXXII)

Não porque chove serei digno. E quando
o serei, em que momento? Entre a pausa
que vai de gota a gota? Se chegasses
de súbito e juntamente com a manhã,
juntamente com este crescente mês, sabendo,
como a chuva sabe da minha infância,
que uma coisa é chegar e outra chegar-me
desde aquela vez para nada…
Se chegasses de repente, o que diria?
Cheira a silêncio cada ser e rápida
a visão cai desde o mais alto, sempre.
Como o húmus dos campos, basta,
basta ao meu coração ligeira sementeira
para se dar até ao limite. Também basta,
não sei porquê, à nuvem. Que eficácia
a do amor. E chove. Estou a pensar
que a chuva não tem o sal das lágrimas.
Pode ser que já seja um pouco mais digno.
E é pelo sol, por este vento, que eleva
a vida, pelo fumo dos montes,
pela rocha, na noite ainda mais precisa,
pelo distante mar. É pelo único
que purifica, pelo que nos salva.
Queria estar contigo não para te ver
mas para ver o mesmo que tu, cada
coisa em que respiras como nesta
chuva de tanta simplicidade, que lava.
 
 
Claudio Rodríguez, Don de la Ebriedad, 1953

sábado, 22 de setembro de 2012

M de (O) Mundo Inteiro


TRATADOS COMO CÃES
(UM TÍTULO DE JORNAL)

 
A um Poeta de dezassete anos

 

Cumpre-nos fazer imensa coisa.
Cumpre-nos odiar a natureza.
Cumpre-nos adiar a natureza.
Cumpre-nos matar para não morrer, e vice-versa.
Cumpre-nos saber escolher meticulosamente os termos: senhor, dinheiro, fuso horário, compromisso, falcatrua, mostruário de vermes, atenção ao trânsito, postos, subalternos, garrafa queimada, omissão das ciências naturais.
Cumpre-nos estudar o mundo do avesso.
[…]
Cumpre-nos não ser tratados como cães.

 
Raul de Carvalho, Quadrangular, 1976

P de Paisagem urbana (V)

 
 
[Telheiras, 21/09/12]
 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

 
 
[Lisboa, Dezembro 2011]

P de Poética - XXV b

What can a poet do without pain?
He needs it as much as his typewriter.

Charles Bukowksi, South of No North, 1973



terça-feira, 18 de setembro de 2012

R de Regresso ao Trabalho (XLVI)



Lisboa, "pelos caminhos da manhã"
PIAZZA I


Uma tarde
é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
uma tarde de inverno
sobre um grave pátio
onde garòfani .... milk-shake & Claude
obcecado com anjos
ou vastos motores que giram com
uma graça seráfica
tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado... provado... sonhado
& longos viveiros municipais
sem procurar compreender
imaginar
a medula sem olhos
ou pássaros virgens
aconteceu que eu revi
a simples torre mortal do Sonho
não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
Swift Jarry com barulho
de sinos nas minhas noites de bárbaro
os carros de fogo
os trapézios de mercúrio
suas mãos escrevendo & pescando
ninfas escatológicas
pequenos canhoes do sangue & os grandes olhos abertos
para algum milagre da Sorte.

 Roberto Piva, PIAZZAS, 
São Paulo: Massao Ohno Editora, 1964
 
[Obrigada, Miguel]

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

S de Solidão (ou C de Comunidade) L


E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXXIII)


ABYSSUS   ABYSSUM   ABYSSINIA

 

Que país este… Que absoluto corte com tudo o que é vital, que é bom, que tem sabor humano e fresco.
  
Que torvas personagens abrasadas de medo povoam este enorme convento mortuário   Que cruz cada esquina   Que assomo de vingança luz nos olhos apenas na imaginação: porque o mar flutua não sobre a terra não mar para navios – mar podre com abraços de mortos quase mortos contaminando as águas no nauseabundo gosto que deixaram na vida enquanto erguiam braços depostos nado-mortos. Vê-los agora assim flutuantes      decifrar-lhes nos ossos transparentes de finos emblemas conseguidos definitivamente pela morte pelo sal pela água que os cerca cambaleantes: é tê-los todos juntos no mapa que é tão fácil – mercê só da lembrança… – erguer em carne viva quando o era e já carne morena mas entregue ao seu destino humano deste país enfermo: onde homens e mulheres – despidos ou vestidos – sorrindo ou não chorando o que é o mesmo – pendurando sinais em qualquer parte eu ninguém vê – São meus irmãos, vos digo, e no entanto…
Que absoluto golpe rachou de cima a baixo os músculos a vontade o céu deste lameiro. Que assombro e ciclone, que insensatez de sombra e que terrível dom de não nos ver: tem este meu país que não tem nome porque o nome se dá a alguém vivo.
   
Que terrena e solene podridão escorre ainda deste poema e todos os poemas.
      
Não temos mais ninguém. Ouvimo-nos a sós. Andamos baixo. Calcorreamos – mas só no pensamento – estradas percorridas pelos vivos. Semelhamos alguém – e cada um de nós – que vá bater, noite alta, a uma porta que nunca tem dentro dela o dia – e que o odeia, que odeia!, que mata quem lhe bata receando que morra sem que tenha sabido o que é amor. Luta tenaz mantemos – dia a dia, e sem nenhum esmorecimento contra a fome de cão o rabo do polícia, o magarefe que… sorrindo está no Alto! foice em punho! Imagens – só de imagens se compõe o nosso pão. Os livros as mulheres as carnes quentes e saborosas das mulheres de Matisse: aí está – como vêem! – um sonho que é vedado caminho que em silêncio unidos percorremos. Miséria. – que miséria! Ter olhos que, se lá estão, são olhos que esta morna humildade sem ter quarto – de longe empalidece.
As mãos? – Que mãos te movem, meu pobre caçador de outros navios que foram do século de quinhentos das brumas da aceite fatalidade dos canais moribundos por onde neles se escoa a fome pura da forma que por não ter forma nossa vai vogando ao sabor estrangeiro das bocas entrevistas somente quando se dorme. Estamos, pois, sempre, dormindo. Que sono tão de pedra e tão disforme – que nem sono será: antes, tudo fingido, tudo fingido! Até no sono parece que não temos sono de homens… parece que já não merecemos pena de morrer por ter nascido, parece, sim!, que andamos só em volta do poste que se ergue e tem no cimo a ávida sigla funesta, ávida maratona que em galope vai seguindo, vai lendo, vai formando: passos que não são nossos, são da sombra que fomos: NUNCA FOMOS.

Fodemos, procriamos, dormimos, acordamos. Mas nunca, nunca fomos nem seremos: aqueles que do lado de lá dos nossos sonhos formam barreira intransponível para membros sem força, para olhos sem vista, para lábios sem lume, para loucos sem nenhum acesso verdadeiro à verdadeira loucura, para silentes vermes que caminham por entre as sílabas como se vermes fossem, somente, vermes, nada mais que vermes: deixando atrás de si no rastro que os assinala: a lengonha que deixam – nas cicatrizes da alma, – se é que há alma! – os ditos, as risadas, os conciliábulos dos doutores, a sabedoria frouxa e sem nervo dos pobres de espírito que acreditam – ainda! – em Deus, no Deus futuro.
Ninguém se importa que nos sirvam veneno hora a hora. Ninguém. Nem nós nos importamos. Já não temos impulso para recusar o copo. Vamos bebendo, e pronto. Esperanças já não luzem no brilho dos licores.
Até um dia!... Salvo seja.
   
Até na caridade nós mentimos.
    
Que cara nos serviram de encomenda que parece verdade que existimos.

 
Raul de Carvalho, Quadrangular (1976)
 

domingo, 16 de setembro de 2012

M de Música para os meus olhos (XXXII)

 
"[...] eu esperava o cair da noite,
ébrio de infinito, de estranheza, de solidão,
com o coração mais leve do que um pássaro."
 
André Gide, Si le grain ne meurt, 1926
 
 
 
 

T de Teste de Rorschach



Edgar Allan Poe, a desoras, no Príncipe Real.

S de "Semantics won't do"

E todos dansaram ontem:




I'm so happy 'cause today
I found my friends
They're in my head
I'm so ugly, but that's okay
'Cause so are you
Broke our mirrors
Sunday morning is everyday
For all I care
And I'm not scared
Light my candles in a daze
'Cause I've found god


[...]


sábado, 15 de setembro de 2012

A de "até que os fios do coração" (XIV)



[Lisboa, 14/09/12]


[…] Quando estou naquilo a que os rigoristas chamam bem, aspiro ao mal porque me é necessário um certo mal para me distrair; quando estou no que se convencionou chamar mal, sinto uma nostalgia confusa, como se o que o comum das gentes entende por bem fosse realmente uma espécie de seio maternal donde se poderia sugar um leite susceptível de refrescar. Toda a minha vida é feita destas oscilações: se estou tranquilo, aborreço-me de morte e desejo não importa que alteração, mas, mal surge na minha existência um real elemento de subversão, perco pé, hesito, esquivo-me e a maior parte das vezes renuncio. Sou incapaz, em todo o caso, de agir sem reticência e sem remorso, nunca me entrego sem uma segunda intenção de voltar atrás e, se permaneço dobrado sobre mim mesmo, não é nunca sem a nostalgia de um abandono, que desejo veementemente. […]


Michel Leiris, Idade de Homem,
Lisboa: Editorial Estampa, 1971

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

P de Ponto de fuga



[Ponta Delgada, Agosto 2011]

F de Fazer Fotografia - XIII f


PORQUE NÃO POSSUÍMOS
(O olhar)


 I


Porque não possuímos,
vemos. A combustão do olho a esta
hora do dia quando a luz, cruel
de tão verdadeira, corrompe
o olhar já não me traz aquela
simplicidade. Já não sei o que é que morre,
o que ressuscita. Mas observo,
recupero o fervor, e o olhar faz-se
beijo, já não sei se de amor ou traição.
Quer cunhar as coisas,
deter a sua indefinida pressa
de adeus, vestir, cobrir
a sua feroz nudez de despedida
com seja o que for: com essa membrana
delicada do ar,
ainda que fosse apenas
com a subtil ternura
do véu que separa os bagos
da romã. Quer espalhar o seu óleo
denso de juventude e de cansaço,
em tantas dobradiças luminosas que abre
a realidade, entrar
deixando aí, em alcovas tão fecundas,
o seu pouso e o seu despojo,
o seu ninho e a sua tormenta,
sem poder habitá-las. Que olhar
escuro vendo coisas tão claras. Observa, observa:
ali sobe fumo, começam
a sair dessa fábrica os homens,
de olhos baixos, de cabeça baixa.
Ali está o Tormes com o seu céu alto,
crianças nas margens entre escombros
onde esgaravatam galinhas. Observa, observa:
vê como já,  mesmo com encaixes e cavilhas,
com rugas e asperezas,
vão fluindo as coisas. Brota, fonte
de rico veio, meu olhar, minha única
salvação, sela, grava,
como numa árvore os apaixonados,
a loucura harmoniosa da vida
nas tuas velozes águas passageiras.


Cláudio Rodríguez
[Trad. ID]

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

F de Falar para as paredes (XVII)

 
 
[Lisboa, Setembro 2012]

M de Museu Imaginário - IX c


[Santa Cruz, 08/09/12]
 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

M de Museu Imaginário - IX b



Léon Spilliaert, 1908

T de Tempo Sem Tempo (XIII)

GARRETTEANA
 
 
 
Há soldados cinzentos espalhados
por toda a parte inútil da cidade.
Levantam-se cedíssimo.
Deitam-se com a morte.
 
 
Raul de Carvalho, Quadrangular,
Lisboa: Livraria Quadrante, 1976
 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

L de (A) Luz da Sombra (XXVI)



Santos / Setembro 2012


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

B de Biorritmo (CLIV)


 
 
[...]
Y la vida siguió,
como siguen las cosas que no
tienen mucho sentido
[...]
 

T de Tempo Sem Tempo (XII)

coitado de quem não ouve
o fenecer pausado das roseiras
pequenino serrote intransigente


há um rumor de escravos pelos gestos
todos os gestos
ímpares sempre     e impuros
- e o tempo despe as horas de segredos



José Manuel Pressler, Filipa,
Lisboa: editado por Manuel de Castro, 1967

domingo, 9 de setembro de 2012

W de Walk the line



[Lisbon revisited, Setembro 2012]

E de Estado da nação (II)


 
[Praia de Porto Novo, 08/09/12]
 

sábado, 8 de setembro de 2012

S de Santa Cruz (VIII)

 
 
 
[Praia de Santa Cruz, 07/08/12]
 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

P de Poética (XXXI)



[Obrigada, Bruno]



[São Miguel, Agosto 2012]


terça-feira, 4 de setembro de 2012

B de Biorritmo (CLIII)

J de Janelas (IX)


ALHEIO


Longo parece o dia a quem não ama
e ele sabe-o. E ele ouve esse som
curto e duro do corpo, a sua cansada
canção, tocando sempre à distância.
Fecha a sua porta e fica bem fechada;
sai e, por um momento, os seus joelhos
cedem até ao chão. Mas a aurora,
com perigosa generosidade,
refresca-o e ergue-o. Está muito clara
a sua rua e percorre-a com passos escuros,
e coxeia depois porque anda
só com o seu cansaço. E diz ar:
palavras mortas com a sua boca viva.
Prisioneiro por não querer, abraça
a sua própria solidão. E está confiante,
mais confiante do que ninguém porque nada
possuirá; e ele bem sabe que nunca
viverá aqui, na terra. A quem não ama,
como podemos conhecer ou como
perdoar? Dia longo e ainda mais longa
a noite. Mentirá ao tirar a chave.
Entrará. E nunca habitará a sua casa.



Cláudio Rodríguez, Alianza y Condena, 1965

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

R de Regresso ao Trabalho (XLV)



[Lisboa 2012]

domingo, 2 de setembro de 2012

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

R de Revisões da matéria dada (XII)




Spellbound, de Alfred Hitchcock (1945)



terça-feira, 28 de agosto de 2012

J de (O) Jardim e a casa (VIII)


József Rippl-Rónai, "Um parque à noite", 1892-1895



*



Esta solidão com árvores abandonadas (eu ando sempre na ponta dos pés dentro dos grandes jardins, porque comunica logo comigo uma alma estranha ali encantada e presente) fixou-se-me para o resto da vida. As casas são sempre as mesmas casas, os homens são sempre os mesmos homens de toda a parte. Os jardins não.




Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas - Notas e Paisagens,
Açores: Artes e Letras, Setembro de 2009

JEJUANDO




Às vezes convém desprendermo-nos,
tirarmos da boca o mais particular.
Negarmos o apetite afirma-nos.
Perdermos a sorte,
                              desalojarmo-nos,
sairmos de casa por um fogo
que limpe de impurezas a nossa casa.

Deixarmo-nos ir, em ondas,
declinar quem somos e quem fomos.
Às vezes ajuda-nos renunciar
às nossas certezas, proceder
afiando,
             libertando-nos
das nossas ilusões.
                             A moderação
de estar entre as coisas sem desejo,
para desejar estar entre as coisas.

Às vezes o vazio
em que parece que flutuamos
é o mais absoluto que nos preenche.
Muitas vezes convém ser mendigo
da nossa realidade,
                              ficar em jejum
do que mais amamos e nos ama.
Ficar de lado,
                      vendo-nos passar,
dando-nos a esmola de não darmos
outra esmola senão a de continuar vivos.

Convém endurecer,
                               calejar as subtilezas.
E regressar ao mundo, vorazes,
com novas ânsias.


Carlos Marzal, Ánima Mia,
Barcelona: Tusquets, 2009

P de (The) Privacy of Rain (XXXI)



[São Miguel, 24/08/12]