domingo, 22 de setembro de 2019

P de (The) Privacy of Rain - XXIX b


WORKING IN THE RAIN


My father loved more than anything to
work outside in wet weather. Beginning
at daylight he'd go out in dripping brush
to mow or pull weeds for hog and chickens.
First his shoulders got damp and the drops from
his hat ran down his back. When even his
armpits were soaked he came in to dry out
by the fire, making coffee, read a little.
But if the rain continued he'd soon be
restless, and go out to sharpen tools in
the shed or carry wood from the pile,
then open up a puddle to the drain,
working by steps back into the downpour.
I thought he sought the privacy of rain,
the one time no one was likely to be
out and he was left to the intimacy
of drops touching every leaf and tree in
the woods and the easy mutterings of
drip and runoff, the shine of pools behind
grass dams. He could not resist the long
ritual
, the companionship and freedom
of falling weather, or even the cold
drenching, the heavy soak and chill of clothes
and sobbing of fingers and sacrifice
of shoes that earned a baking by the fire
and washed fatigue after the wandering
and loneliness in the country of rain.



Robert Morgan





[ID, Santa Cruz | 019]

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

F de Frequências (III)





[ID, 'Conference of the birds', 019
*
Jean Renoir]

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Q de Que a alegria em mim permaneça (III)


O FUTURO OUTRORA



[...]



g.

Livre é o dom das mãos do mundo: a alegria; nunca
saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
que o teu e as suas várias almas conhecem;

Mas para que uma última vez possas dançar
Podemos, sim, podemos pôr aqui o fogo
e a árvore da música:

a vibração do mundo quando não estamos a olhar.


Manuel Gusmão
in Telhados de Vidro n.º6,
Lisboa: Averno, Maio de 2006

sábado, 10 de agosto de 2019

A de Aniversário (VII)


O SORRISO


Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


- EUGÉNIO DE ANDRADE



terça-feira, 6 de agosto de 2019

P de "(As) Praias Obscuras" (II)



[ID, Nazaré, 02/08/019]



Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje eu quero paz de criança dormindo
E abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de irmãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda pureza que eu quero lhe dar


- Dolores Durán

sábado, 27 de julho de 2019

F de Fidelidade




Silvina Rodrigues Lopes
- Cão Celeste n.º 1, Lisboa, Abril de 2012

segunda-feira, 22 de julho de 2019

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXVIII


SOROR MARIANA - BEJA 


Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor.


- Sophia de Mello Breyner Andresen




[ID, Beja, 12 de Agosto de 2013]

terça-feira, 16 de julho de 2019

V de Vista para um saguão (VII)


SEGREDO


Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


                  MIGUEL TORGA

terça-feira, 9 de julho de 2019

M de Música para os meus olhos - XXXIII b


MENINA CALÇANDO A MEIA
[Estufa-Fria, 1966]


Não te mexas.

O futuro é perder o equilíbrio,
cair até bater no fundo
de uma insónia hora a hora
interrompida para respirar
à superfície da luz.

Não te mexas, ainda.

Não hesites, não assustes o sonho
pousado em teia sobre ti,
não agites as águas.
E talvez a vida se deixe
ficar à margem
com os seus dias armados de pedras.


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa, Averno, 2014



[ID, "Menina calçando a meia", 11/017]

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - VII b


O trabalho é um dom. O mais das vezes representa uma pena, pois não há nenhum mérito em trabalhar se o trabalho tiver como finalidade servir uma cadeia de lucro. O trabalho, em si mesmo, degrada; não aperfeiçoa o homem. É uma abjecção presumida e um estorvo para a paz. No entanto, o trabalho é um dom. Quando constitui uma glória recatada, uma ciência paciente; quando não significa humilhação, mas sim identidade.


Agustina Bessa-Luís, Crónica da Manhã,
Lisboa, Guimarães Editores, 2015

quinta-feira, 23 de maio de 2019

C de "Celui qui regarde une fenêtre fermée" (V)


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012





[ID, 20/01/017]

domingo, 5 de maio de 2019

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI c




Manuel de Freitas
[Manuel de Freitas | Federica Gullotta, trad. de Roberto Maggiani,
Milão, Edb Edizioni, 2019]

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI b


GRANDES ARMAZÉNS


Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de chuva,
em tempo de flores,
nas Galerias Lafayette ou Galerias Barbès:
"Mamã, compra-me, por favor, um poema."
Ela era doce, ela era demasiado prática
e comprava-me romances,
os Jules Verne,
os Maupassant e os Dickens.
Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de amor,
em tempo de medo,
no Monoprix ou na Félix Potin:
"Mamã, compra-me, por favor, o invisível."
Ela era boa, ela era previdente
e comprava-me coisas:
camisolas, trotinetes,
kodaks, bicicletas.
Acabei por me calar e por escrever poemas.
Há muito tempo que a minha mãe morreu,
Jules Verne envelheceu
e as minhas bicicletas já não têm rodas.
Em tempo de cansaço,
em tempo de raiva,
vou ao Supermercado,
beber um conhaque sem gosto.
Quando, mais tarde, for uma criança
num mundo melhor,
direi à minha mãe:
"Mamã, compra-me, por favor, o silêncio."


ALAIN BOSQUET
[Trad. ID]

quarta-feira, 1 de maio de 2019

m, de memória (III)


RUA DOS CAVALEIROS DA ESPORA DOURADA

Para a Ginja


Imagino-os sempre
de olhos cegos,
de quem correu o mar
e aprendeu outra cor
para o mesmo sangue
– gridelém.

Não se apressam.
O coração mais fielmente negro
parou entretanto de bater,
deixando-lhes o peso
do seu embalo nas mãos vazias;
e trazem colada ao corpo
a cal da memória
– raparigas com cabelo de linho,
olhos de esmalte.

Chamam cada onda
pelo seu nome,
agora que todas elas são cinza
de lume familiar.
Tornaram-se veladores,
guiados pelo desatar invisível
da água nessa longa noite
– mortos ainda à procura
do calor de um gato.


Inês Dias
in AA.VV., Sete, volta d' mar, 2018




[Inês Dias, Ponto-Sombra, São Paulo, Corsário-Satã, 2018]

S.T.T.L.


"[...]
Feitos que poovoam o espaço e que chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, a não ser que exista uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. Que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou inconsistente perderá o mundo? A voz de Macedonio Fernández, a imagem de um cavalo rubro no baldio de Serrano e de Charcas, uma barra de enxofre na gaveta de uma secretária de mogno?"


- JORGE LUIS BORGES,
 (trad. de Fernando Pinto do Amaral)




[ID, Estrela, Maio de 2017]

domingo, 14 de abril de 2019

P de (Po)ética



sexta-feira, 12 de abril de 2019

I de Interseccionismo


12


Há sempre um rapaz triste
em frente a um barco

a água é sempre azul
e sempre fresca

Em que país encontraria
amor e compreensão

em que país
sentiriam
a sua vida e a sua morte

Não respondem as gaivotas
porque voam

Há sempre um rapaz triste
com lágrimas nos olhos
em frente a um barco


António Reis, Poemas Quotidianos,
Lisboa: Portugália, 1967





domingo, 17 de fevereiro de 2019

F de Fazer Fotografia (LI)




Realização: Theodoros Angelopoulos
Música: Eleni Karaindrou

sábado, 9 de fevereiro de 2019

C de Começar o dia com um livro novo (LV)


BARREIRINHA


De repente, pai, entre
o silêncio de duas ondas
ouvimos a única pergunta:

quantas vezes
ainda nadaremos juntos?


Manuel de Freitas, Boal,
com capa de Luís Henriques e desenhos de Luis Manuel Gaspar,
Lisboa, Alambique, 2019



[ID, Barreirinha, 2008]

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

N de "Nous deux encore" (II)


A DOIS PASSOS


Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais 
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós 
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso - esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que 
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno - estava-se bem. 


Rui Caeiro, "Do inferno - cinco aproximações"
in Telhados de Vidro n.12,
Lisboa: Averno, Maio 2009

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

H de Humanidade (V)


[...]
Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.


Albert Camus, O Mito de Sísifo,
trad. Urbano Tavares Rodrigues,
Lisboa: Livros do Brasil, s/d




[Emile Savitry, "Alberto Giacometti dans son atelier", c.1946]

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

L de Lunário


II

Não esperava, trinta anos depois, reconhecer
a Nazaré. Igual a si mesma, fintou o progresso
no desmando da morte e no cheiro seco
dos carapaus jacentes (só um gato preto, sem
jeito para o negócio, foi poupado ao extermínio).

Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente 'pardonner'.

Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.


Manuel de Freitas, Pedacinhos de ossos,
Lisboa: Averno, 2012




[ID | 21/01/019]

P de Prazeres


A TIA JEANNETTE


Ela lia a borra do café
e dava o dinheiro aos cegos.
O resplendor da janela
atravessava-lhe a escassa cabeleira
até alcançar a demi-tasse que a mão segurava.

"Vejo tormenta", disse um dia.
Não sei se falava de mim.

A minha mãe encerrava a dor nos livros. E Jeannette,
que trazia no nome a sua sina, preferia a leitura do café.

Todas as tardes na sua casa a fila de mentes desesperadas:
que uma viagem, que a amante, que a morte,
um encontro, qualquer coisa
que tornasse extraordinária a sua vida simples.

Ela, Jeannette, era a essência imperfeita do amor,
cega entre cegos velava a tormenta. 

"Escreve tudo", disse-lhe, "escreve tudo o que vês."
Nunca me ouviu, ausente,
sob o esfumado da lua. 


Jeannette Lozano
in Los momentos del agua, Barcelona: Ediciones Polígrafa, 2006
[Trad. ID]






[Henri Fantin-Latour]

sábado, 19 de janeiro de 2019

S de Sense of Snow (XV)


"[...]
The glass of the window was covered with mist, and I started writing words. Moor. Heather. Snowdrop. I needed those words to feel safe.
[...]"

Ana Teresa Pereira, Fugue States,
London, Vanguard Editions, 2018



 


[ID, Vale | 01/019]

Começar o dia com um livro novo (XLV)


A CADA DIA


A cada dia a sua descoberta: a luz
acesa pra se ver a côr dos sons.

[...]

A cada dia o seu poema de viver:
ver o Anjo da morte e não morrer.


António Barahona, Ocarina (Terceiro Tômo da Suma Poética),
com capa de Andrea Martha (Mumtazz) e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2016





[ID, 'Aubade', 2013]

domingo, 23 de dezembro de 2018

P de Paralelo W





"We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars." 
- OSCAR WILDE

P de Pássaros Anónimos (VIII)




[Vista para um pátio, no Paralelo W | 2/05/012]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (VI)




Paulo Leminski
in Toda Poesia, São Paulo, Companhia das Letras, 2013

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

U de Último dia de aulas (ou S de "Stôra, podemos sair mais cedo?")


L'instituteur_ Non, je ne sais pas, je ne sais rien... Qu'est-ce qui reste à votre avis Monsieur Ernesto...

Ernesto_ Tout à coup, l'inexplicable... la musique... par exemple...


Marguerite Duras
in La pluie d'été (pp.113/114)

domingo, 25 de novembro de 2018

D de Do outro lado do espelho (II)


DESEJO DE COISAS LIGEIRAS


Jucal leve louro
como um campo de espigas
junto ao lago celeste

e as casas de uma ilha distante
cor de vela
prontas a zarpar -

Desejo de coisas ligeiras
no coração que pesa
como uma pedra
dentro de um barco -

Mas chegará uma noite
a estas margens
a alma liberta:
sem vergar os juncos
sem agitar a água ou o ar
partirá - com as casas
da ilha distante,
para um alto recife
de estrelas -


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
sel. e trad. de Inês Dias, Lisboa, Averno, 2012




[ID | Lisboa, 2012]

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

P de (The) Privacy of Rain (XXXVIII)


PALAVRAS COM ÁGUA


A chuva gosta de escrever. Imprime as suas obras sobre o vidro das janelas, na carroçaria dos automóveis. E quando cai sobre um papel ouve-se o ruído de prazer com que o pisa. Sabe traçar uma fenda na superfície, como fazia a velha tipografia, depois arredonda-a. E, sobretudo, se houver algo de escrito, desbota-o até conseguir apagá-lo. O que a chuva escreve prevalece sobre qualquer tinta. E no dia seguinte, quando o papel tiver secado, ficam gravados os seus sinais, uma iconografia quase cuneiforme que é secreta e que é também para sempre. 


[Trad. ID]




[ID | Coimbra, 13/05/12]

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - XIX b


NUUR


                        para Patrícia Joana


    A pouca luz que tenho no rosto, provém do facto de ler, todas as madrugadas, um fragmento do Alcorão.
    Muito pouca luz, mas redonda.
    O meu corpo é anguloso, ossudo e imerso em trevas. Só quando caminho se acendem luzes, como o plâncton, à noite, nas margens do mar da Índia. Então, entre os meus passos, perpassam estrêlas.
    Se estou imóvel, porém, só o meu rosto se distingue. Nem eu próprio me vejo todo por fora, nem mesmo diante dum espelho, tal a profundidade dêste mergulho interior.
    Aqui respira-se melhor.
    Pode dizer-se o que se quiser.
    O rigor da poesia é ganhar esta Grande-Guerra-Santa com a nossa própria alma.

    Cada vez mais se me antolha evidente ser a vida uma preparação para a morte: lugar comum, onde todos nos sentamos.
    Há quem fique de pé, mas por pouco tempo.

                                                                     *

    A pouca luz que tenho no rosto, provém igualmente de um beijo teu.
    Um beijo muito núbil, cheio de castidade e desejo, num perfeito equilíbrio de suavidade religiosa.
    Um beijo inspirado por Deus.
    Agora, quando leio o Alcorão, de madrugada, a pequenina luz circular do meu rosto aumenta de diâmetro e ilumina o som do texto.
    Já não preciso do candeeiro aceso.


António Barahona, Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea,
Lisboa, Averno, 2011

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XIX)

PARIS AT NIGHT



Três fósforos acesos um a um durante a noite
O primeiro para ver o teu rosto inteiro
O segundo para ver os teus olhos
O último para ver a tua boca
E a escuridão inteira para recordar isso tudo
Enquando te aperto nos meus braços.


- JACQUES PRÉVERT

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXXVII)


FRAGMENTO (NARRATIVA)


ao Laureano, in memoriam


"A democracia manda-nos falar e eu murmuro
excita-nos a grito e silencio. Depois a tirania
obriga a segredar. Então eu falo.
Impõe-nos o silêncio. É quando grito".
Assim ele ia, neste lucubrações, em grande perigo
de estranhamento e dor sob o céu baixo
das nuvens suburbanas. "De mim sai o silêncio
como um grito".  E caminhava. Nomes bárbaros
de indústrias e comércios seguiam-lhe o andar
("são nomes de demónios?, de gigantes") e as fachadas
irradiavam luzes de obscuros interiores.
Assim ele ia atento, regressando, em grande perigo.

"Não falo a vossa língua, não pertenço a esse código
por todo o lado oculto, o Livro não escrito
de onde saem ordens e discursos criminais".
Assim ele ia em combate, contrapondo voz humana
a seduções difusas e palavras-talismã.
E entretanto Outono, o fim da tarde. "A inteligência
comove-se a olhar seu próprio tempo." Alteou-se-lhe
de súbito o esterno, um arco tenso
sobre a democracia. "Não seja nunca o sonho
a comandar a vida. Que a voz que em mim compõe
me seja dura." E apressando-se
assim ele ia orando, de regresso, em grande perigo.


Carlos Poças Falcão
in Telhados de Vidro n.º 11,
Lisboa: Averno, Novembro de 2008

L de (A) Luz da Sombra (LI)






Tens direito à luz que sobra de cada um dos teus dias. 
Não te servirá de nada, 
mas não deixa de ser um direito que tu tens.

Rui Caeiro, Deus e outros animais
Lisboa, Averno, 2015

domingo, 16 de setembro de 2018

R de Rebeca - XX b


O DONO, SEGUNDO O SEU CÃO


Ainda que pareça tão jovem,
estou a envelhecer mais depressa do que ele,
sete para um
é a proporção que costumam dizer.

Seja qual for o número,
vou ultrapassá-lo um dia
e assumir a liderança
tal como faço nas nossas caminhadas no bosque.

E se isto alguma vez
lhe passar pela cabeça,
seria a mais doce
sombra que alguma vez lancei sobre a neve ou a erva.


Billy Collins, Amor Universal
trad. de Ricardo Marques, Lisboa, Averno, 2014




[A Kiki, no seu sítio preferido, a 8/09/019]

sábado, 15 de setembro de 2018

R de Rebeca (XX)


Era uma vez um homem que tinha um cão. Quando passeava no bosque o cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. Um dia o cão morreu. O homem comprou outro cão. Como o anterior o novo cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se do outro cão. Mas um dia também esse cão morreu. De novo o homem comprou outro cão. Como os anteriores também este trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se dos outros cães. Por fim não foi preciso comprar mais nenhum cão. Para onde fosse uma matilha seguia-o. Mais tarde nem era preciso já ir passear para o bosque.


Ana Hatherly, 463 Tisanas,
Lisboa, Quimera, 2006




terça-feira, 11 de setembro de 2018

L de Ler (VI)

outra maneira de ler, num dos meus jardins de sempre:



sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A de A poesia é o menos - III c



Suzuki Harunobu 
(1725 – 1770) 



Alvin Langdon Coburn, “Woman in a Kimono with Sunflower” 
(Autochrome), 1908

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A de A poesia é o menos - III b


SOMBRAS


Iluminar o mundo - com palavras.
velas, algum vinho.
Dito assim, quase parece simples.

Mas chovia muito e resguardou-se
cada um na sua tão pequena chama
ou numa cómoda e fria indiferença.

Talvez fosse de esperar. As velas,
porém, continuaram a arder.
Enquanto cinco rostos se reflectiam na parede

e a poesia era, de novo, a única luz.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014




Suzuki Harunobu 
(1725 – 1770)

terça-feira, 4 de setembro de 2018

T de Tratado de Pedagogia (LXIX)




Silvina Rodrigues Lopes
no posfácio a Manuel de Freitas, Sunny Bar,
com org. de Rui Pires Cabral, Lisboa, Alambique, 2015

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

T de "The days grow short" (XV)


ROSS, 1989


É uma fotografia de alguém
que vai morrer. Deus,
tanto quanto sei, nunca apreciou
o preto e branco de Bob
Mapplethorpe. É um homem,
portanto. Esconde-se
ou mostra-se na secura
quase oriental das flores. Biombos,
talvez biombos, imprimem
no seu corpo a luz fatídica de Setembro.
E nada disto tem, para já,
uma relação directa com a buganvília
que me sepultou a infância.

Mas toca - e como toca - o que
de mais sinuoso e vegetal
alguma vez compôs um ouvido
humano. "Floriram
por engano as rosas bravas"?

Voltam, desoladas, a florir.


Manuel de Freitas, Büchlein für Johann Sebastian Bach,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003




terça-feira, 28 de agosto de 2018

A de Amor (XXVIII)


[Para o M.]


PALERMO


Foi estúpido termos deixado o nosso quarto.
A praça vazia estava um caldo.
O relógio parecia prestes a derreter.

O calor era um taco batendo numa bola 
e arremessando-a para as urtigas do verão.
Mesmo as abelhas estavam desmaiadas perante tal dia. 

A única coisa que se deslocava além de nós
(e entretanto tínhamos parado sob um toldo)
era um esquilo que corria de um lado para o outro

como se estivesse com dúvidas
acerca de atravessar ou não a rua,
com a cabeça e a cauda contorcendo-se de indecisão. 

Tu olhavas para uma montra
mas eu reparava no esquilo
que agora se levantava sobre as patas traseiras,

e, depois de fazer uma pausa para olhar em todas as direcções,
começou a cantar com uma bonita voz
uma ária melancólica sobre a vida e a morte, 

as patas dianteiras apertadas contra o peito,
o rosto cheio de saudade e esperança,
à medida que o sol incidia

nos telhados e toldos da cidade,
e a terra continuava a girar
e a manter no sítio a lua

que apareceria mais tarde naquela noite
quando nos sentámos num café
e, incentivado pelo proprietário,

eu me pus de pé em cima da mesa
e cantei para ti e para os outros
a canção que o esquilo me ensinara a cantar.


Billy Collins, Amor Universal,
com trad. de Ricardo Marques, Lisboa, Averno, 2014

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

P de (The) Privacy of Rain (XXXV)


LITANIA


Tu és o pão e a faca,
a taça de cristal e o vinho...

- Jacques Crickillon


Tu és o pão e a faca,
a taça de cristal e o vinho.
Tu és o orvalho na erva matinal
e a roda ardente do sol.
Tu és o avental branco do padeiro,
e as aves do paul ao esvoaçarem repentinamente.

No entanto, tu não és o vento no pomar,
as ameixas na bancada,
ou o castelo de cartas.
E não és certamente o ar com odor a pinho.
Não há qualquer hipótese de seres o ar com odor a pinho.

É possível que sejas o peixe debaixo da ponte,
até mesmo o pombo na cabeça do general,
mas nem sequer estás próximo
de ser o campo de centáureas ao pôr-do-sol.

E uma breve mirada no espelho poderá mostrar-te
que nem és as botas ao canto
nem o barco descansando no ancoradouro.

Talvez te interesse saber,
já que falamos do enorme imaginário do mundo,
que eu sou o som da chuva sobre o telhado.

E que por acaso sou a estrela cadente.
o jornal da tarde a esvoaçar pela viela,
e o cesto de castanhas na mesa da cozinha.

Sou também a lua detrás das árvores
e a chávena de chá da mulher cega.
Mas não te preocupes, não sou o pão e a faca. 
Tu ainda és o pão e a faca.
Serás sempre o pão e a faca,
para não falar da taça de cristal e - por alguma razão - o vinho.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. de Ricardo Marques, Lisboa, Averno, 2014




[ID | São Miguel, Agosto 2012]

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

P de (As) Praias Obscuras


IRMÃO SIAMÊS


Aquela alga gotejando como um folho húmido
experimento em volta do meu braço
como uma manga de túnica ou uma renda de baile,
estou sentada numa rocha com os pés na espuma
e gozo sozinha esta beleza ocasional
sem estar preocupada com o sentido estético
de algum irmão siamês adstrito a mim, em nome
de algum afecto absorvente.

Este meu sentir a meias obsessivamente
tornou-me metade do corpo demasiado pesada
estou sozinha respirando sozinha
e sinto Verão nesta solidão,
(quem disse que a solidão é um ser de Inverno?)

Ó esta liberdade de não pensar o que outro irá pensar,
esta limpidez de uma só garganta,
esta infância do olhar e da boca,
este estado divino de me bastar às minhas sensações!

Quem disse que os amores e as partilhas são o sal da vida
não esteve nesta rocha
não encontrou esta alga
nem descobriu esta praia. 


Inês Lourenço, Um quarto com Cidades ao Fundo,
Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2000




Gustave Gain
[autochrome, 1921]

terça-feira, 14 de agosto de 2018

R de "Rua da Infância"


COVA DO LOBO


Para a bisavó Jaquelina e o tio Nunes,
que fazem parte da minha primeira memória


A um nome antigo,
com o sangue afiado pelo tempo, 
devemos pedir segredo,
ouvidos capazes de adivinharem 
a queda da primeira folha, 
promessas de uma noite 
mais escura, encrespada.

Mas aqui até as bocas de lobo são
um desengano em forma de flor,
não como esses lírios de Júlio César, 
a estaca no fundo à espera
da alma do último inimigo. 
À violência acossada e ciosa da lenda 
restou apenas o pescoço dos cães
no limite da humanidade,
o sacrifício da pedra que se abate
ritualmente sobre as amêndoas,
talvez um joelho esfolado em silêncio.

(Uma vida inteira na órbita
repetida de uma cadeira de balouço,
entre o Sol do tamanho de uma baga
poeirenta e a fonte cercada de mãos
que sabem prender sem amarrotar.)

Assim de frágil é a memória do presente.
O contrário da vida depois, 
lá fora, entre a alcateia. 
Nunca mais estaremos tão possuídos
pelo acaso, tão confortáveis junto ao mal,
como antes de o reconhecermos
e destruirmos as palavras que o diziam. 


Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
Lisboa, Averno, 2013



*





Manuel de Freitas, Sob o Olhar de Neptuno,
Porto, 50Kg, 2018

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

C de Começar o dia com um livro novo (XXVIII)


Perdi a caneta
de tinta eterna
no teu cabelo.

O Adamastor lá estava, no relvado,
onde mais duma vez nós conversámos
a contemplar o rio com desencanto.

A caneta perdida impedia-me de escrever
quanto te amo e odeio
como se ardesse a frio num incêndio.

A côr da friagem na minha barba hirsuta
toldada de brancura e nevoeiro:
é a velhice magra que me espreita, atenta
à caneta perdida em teu cabelo.


António Barahona, Pátria Minha,
Lisboa: Averno, 2014

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

S de Sol


UMA PALAVRA


Longe de mim querer corromper a juventude,
É um trabalho que sobreleva as
Minhas capacidades.
Antes cicuta.
Mas tenho que explicar o sentido
Da palavra “desesperança”.

É uma esperança negativa.
A gente senta-se num cais
E deixa o sol trabalhar.
O sol minúsculo, isto é, o calor na pele.
Chamo a isto a experiência mínima.

Feito isto:
Venha de lá então
Essa catástrofe.


Manuel Resende, Poesia Reunida,
Lisboa, Cotovia, 2018




[ID | Junho 018]

quinta-feira, 12 de julho de 2018

P de "Pássaros de acaso" (VII)


RETRATO DE UMA SENHORA CAMINHANDO


No Norte os pássaros afagam um vento firme.
Ela é linda.
O Outono deposita gelo na casca dos limões.
O seu fazer vagaroso acompanha a mente sombria.
A geada confere ao lago uma frágil quietude.
No pequeno tufo de erva húmida e fresca
Os pássaros caem como uma chuva de vidro. 


Djuna Barnes (trad. Rui Caeiro)
in Telhados de Vidro n.º 8, Lisboa, Averno, Maio de 2007



sábado, 7 de julho de 2018

A de "A propósito de andorinhas" (VII)


SÉTIMO CAPÍTULO


Hoje contemplei Sujata a beber chá em frente do jardim
de Pangim com gestos de pomba escura e tão alva,
e a ossatura de platina fluorescente, a cabeleira
fulminada numa pose que o vento ventilava fulva

Sujata sorriu como de costume no romance por escrever
que eu jamais escreverei (a acção não se desenrola)
e o poema também não há: havia, há, haverá uma veia
cortada de onde emergem as linhas de uma etopeya em transe

Nesta polpa amarga me situo e o sumo do fruto escorre
aos cantos do luto, não dos lábios, aos cantos do palácio
andorinha fugitiva que ri com a bocca toda numa rosa

Voltavam as asas, voltavam, as inúmeras espécies de vôo
estudadas inculcavam o cubo: voltavam as aves, voltavam
com romãs no bico e cada uma com um verso, todas as manhãs


Naga Massjid/Curti, Monção de 1982



António Barahona, Aos Pés do Mestre (Sexto Tômo da Suma Poética),
Lisboa, Averno, 2018

terça-feira, 3 de julho de 2018

L de (A) Luz da Sombra (L)





"J'ai tendu des cordes de clocher à clocher; 
des guirlandes de fenêtre à fenêtre; 
des chaînes d'or d'étoile à étoile, 
et je danse."

- Arthur Rimbaud




[ID, Porto, 22/06/018]