sábado, 14 de setembro de 2013

T de Tratado de Pedagogia - VII b


[...] Desfizemos as malas no dormitório e agora estamos sentadas em rebanho, juntas, sob mapas que representam o mundo inteiro. Há escrivaninhas com tinteiros a transbordar. Aqui serão escritos a tinta os nossos deveres. Mas aqui não sou ninguém. Não tenho rosto. Esta grande comunidade, toda vestida de sarja castanha, roubou-me a identidade. Somos todas insensíveis, hostis. Vou procurar um rosto, um calmo rosto monumental, e vou conceder-lhe o dom da sabedoria, usá-lo por baixo do vestido como um talismã, e então hei-de encontrar (é uma promessa) um pequeno vale numa floresta e aí depositarei a minha provisão de estranhos tesouros. Prometo a mim própria. Assim, já não preciso de chorar. 
[...]"


Virginia Woolf, As Ondas,
trad. Francisco Vale, Lisboa: Relógio D'Água, 1988

domingo, 8 de setembro de 2013

P de Poética (L)


"The blues to me is like being very sad, very sick, going to church, being very happy. There's two kinds of blues, happy blues and then sad blues. I don't know, blues is sort of a mixed-up thing. You just have to feel it. Everything I do sing is part of my life."



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

P de (Po)ética - XLIX c


À BEIRA DE UM MAR PARECIDO


Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over,
com capa de Luis Manuel Gaspar e arranjo gráfico de Olímpio Ferreira,
Lisboa: & etc, 2002




[ID, Santa Cruz, 14/08/013]

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

N de "Na casa de Julho e Agosto" (III)


II. ORLANDO PANTERA
I am a professional



e dançámos
lentos & digestivos

mas tentemos antes passar
o dia a limpo:

o Peugeot 205 vermelho embalado no auto-
rádio a praia pequena a seguir ao Guincho
deserta

o teu peito mulato
contra as ondas o riso ladrado
da cadela entrando e não entrando
no mar

as rochas o mexilhão a navalha
o regresso aos poucos a tua casa
coentros água doce tachos

o lume
onde cozeste o pão
e que ateaste usando as páginas da lista telefónica
- queimando toda a rede fixa de Carcavelos - 
o pássaro
morto na escrivaninha
o desenho a meio

depois a noite a lua

o alpendre onde já não se ouvia o mar
a cadela fingia o sono no tapete suspirava
no fumo dos cigarros

ao fundo do jardim sobre a relva
deixámos várias caixas de sapatos
adaptadas para a fotografia pinhole
abríamos o obturador e o tempo de
exposição era toda a madrugada


Miguel-Manso
in Telhados de Vidro n.º12,
Lisboa: Averno, Maio de 2009

domingo, 25 de agosto de 2013

P de "Postais do fim do mundo" (III)


Dizer tudo um ao outro num diálogo de surdos,
incerto dizer sem dizer o nada onde
a vida não se viva nunca a dizer
a ruína e o mar, o bolor da espuma,
a caliça nos cabelos molhados.


Rui Baião, Rude,
Lisboa: Averno, 2012




[Santarém / Agosto 013]

sábado, 24 de agosto de 2013

H de (A) Humanidade em Agosto (V)


NAUSICAA II


One doesn't know where one has landed.
One knows only: here
the sun never fails to shine.
Soft rush of waves
on the gentle sand of the pale shore:
island rythm.

Naked the other sex 
approaches the new arrivals:
phallic flowering
the mid-day heat
generates.

Life is and death is
very simple: a toothless cowering
at the end, the eye
on the motionless sea, the back
towards the rough cliffs, no more expectations,
no hope: a final recognition 
that the place lost in passage
was no other than
Scheria. 


Günter Kunert
[Trad. Agnes Stein]

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

H de (A) Humanidade em Agosto - III b



[21/08/013]

H de (A) Humanidade em Agosto (III)

I



O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstracção
Que fica uma possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.
Sons de passos ecoam na memória
Descem o caminho que nós não seguimos
Em direcção à porta por nós nunca aberta
Para o jardim de rosas. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espirito.
                                   Mas com que propósito
Perturbam o pó numa taça de folhas de rosa
Não sei.
              Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos seguir?
Depressa, disse o pássaro, procurai-os, procurai-os,
Ao voltar da esquina. Pelo primeiro portão,
Para dentro do nosso primeiro mundo, vamos seguir
O ludíbrio do tordo? Para dentro do nosso primeiro mundo.
Ali estavam, graves, invisiveis,
Moviam-se sem pressa, sobre as folhas mortas,
No calor do Outono, pelo ar vibrante,
E o pássaro chamou, em resposta
À inaudível música oculta nos arbustos,
E o invisível relance perpassou, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como convidadas nossas, acolhidas e acolhedoras.
Assim nós e elas avançámos, num padrão formal,
Pela alameda vazia, até ao círculo de buxo,
Para olhar para dentro do lago esvaziado.
O lago seco, o cimento seco, de bordos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita da luz do Sol,
E o lótus subiu, devagar, devagar,
A superfície cintilou do coração da luz,
E ficaram por detrás de nós, reflexos no lago.
Passou então uma nuvem, e o lago ficou vazio.
Ide, disse o pássaro, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Em excitação contidas, a refrear o riso.
Ide, ide, ide, disse o pássaro: a espécie humana
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.


T. S. Eliot, "Burnt Norton", Quatro Quartetos,
trad. Gualter Cunha, Lisboa: Relógio D'Água, 2004

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A de Amizade (III)


"[...] A habit of speech is a deep matter. [...]"

Iris Murdoch

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O de "Onde se lê gato" (VIII)




Rui Caeiro, Um Gato no Inferno, 
com desenhos de Inês Caria,
Lisboa, 2013

terça-feira, 13 de agosto de 2013

U de "Uma promessa do deserto"




[Moinho Grande, 10/08/013]

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

D de "Die schöne Müllerin" (II)


OUTRO ORÁCULO


Diante dos brancos,
reluzentes, metálicos moinhos,
no ar tão limpo do inverno,
põe-se devagar o sol.
Penso no tempo em que não existiam.
Pouco a pouco compreendo que foram dias 
de horizonte mais amplo. Hoje erguem-se
no seu lugar, brutais, estes moinhos
preparados para uma época difícil.
Aproximo-me de um deles: sinto a sua indiferença.
Acaricio o enorme mastro frio,
sinto o amanhã nessa poderosa
linguagem de foice que vai ceifando o ar
com grandes pás que, furiosas, giram 
voltadas para o poente.
Como alguém que dissesse a verdade.


Joan Margarit, Misteriosamente Feliz,
Madrid: Visor, 2009

[Traduzido pela Inês Dias
para a Ana Isabel Soares
e todos os amigos do Moinho Grande]

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

P de (Po)ética - XLIX b


felicidade


Acorda com as mãos em concha
a defender a sombra onde fez casa
e permanece sentado. Os dias passam
na sua claridade e ele, imóvel,
doente de palavras, não as suporta,
não servem para nada. Imóvel,
não quer mais sentir-se ferido,
ameaçado. Dorme e acorda
nessa inactividade. Espera.
E expectante crê que um dia
a luz há-de encher o quarto.
Não se consegue levantar, não
consegue senão a consciência
desse instante vago, olhos fixos
no soalho ou rente às paredes
da casa, atento às sombras a quem, 
horror, sorri. Assim o encontram
dias mais tarde. Como se estivesse
a rezar. Ele, cuja metafísica
era saber que as palavras não são
suficientes para nos tornar mais tristes.


Carlos Bessa, Em Partes Iguais,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

sábado, 3 de agosto de 2013

L de (A) Luz da Sombra - XXXV b




[Guimarães, 1/08/013]

quarta-feira, 31 de julho de 2013

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXVII

VII.


Tantos pintores

A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

Tantos escritores

A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros, na cidade
e algures

Tantos mortos no rio

A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito

Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na     para um bocado
não se lhe chegam muito     pode sufocar

Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade


Mário Cesariny, Titânia e a Cidade Queimada,
Lisboa: Publicações D. Quixote, 1977

terça-feira, 30 de julho de 2013

D de "Die schöne Müllerin"


JOÃO E MARIA


O Alentejo não tem caroço, nem casca,
não tem paredes nem teto; certa vez

um velho deixou suas memórias sobre a mesa
todas queimaram, porque os fantasmas lá

não resistem à luz que se lança de altas espigas
para o pátio onde cada faísca risca e dança

entre sobreiros junhos girassóis e dura
mesmo noite adentro. Sente o cheiro

da madeira queimada? São fantasmas, nada.
O mundo é pequeno, o Alentejo é imenso

e lá estava o homem depois de todas as viagens
sem poder dizer de si mesmo algo como:

o dono e seu retorno. Afinal, onde a casa 
o relógio a mulher o cachorro o nome?

O retrato da Virgem a lâmpada a cama onde?
Desdobra-se o horizonte em céus em dunas

de poeira em túnicas no vento em fios
e não há nunca filhos ou amigos ou espelho.

Que lugar a cidade a fidelidade urdindo
desfazendo e outra vez os anéis sem fim

da espera? Indaga os livros os mortos
até que as areias do mar, do mar que

parecia distante,
lentamente - não, de repente - cobrem-lhe

a voz e o tempo. O mundo
é pequeno, o Alentejo é imenso.



Eucanaã Ferraz
in Relâmpago n.º31-32,
Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2013