segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

L de Lunário


II

Não esperava, trinta anos depois, reconhecer
a Nazaré. Igual a si mesma, fintou o progresso
no desmando da morte e no cheiro seco
dos carapaus jacentes (só um gato preto, sem
jeito para o negócio, foi poupado ao extermínio).

Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente 'pardonner'.

Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.


Manuel de Freitas, Pedacinhos de ossos,
Lisboa: Averno, 2012




[ID | 21/01/019]

P de Prazeres


A TIA JEANNETTE


Ela lia a borra do café
e dava o dinheiro aos cegos.
O resplendor da janela
atravessava-lhe a escassa cabeleira
até alcançar a demi-tasse que a mão segurava.

"Vejo tormenta", disse um dia.
Não sei se falava de mim.

A minha mãe encerrava a dor nos livros. E Jeannette,
que trazia no nome a sua sina, preferia a leitura do café.

Todas as tardes na sua casa a fila de mentes desesperadas:
que uma viagem, que a amante, que a morte,
um encontro, qualquer coisa
que tornasse extraordinária a sua vida simples.

Ela, Jeannette, era a essência imperfeita do amor,
cega entre cegos velava a tormenta. 

"Escreve tudo", disse-lhe, "escreve tudo o que vês."
Nunca me ouviu, ausente,
sob o esfumado da lua. 


Jeannette Lozano
in Los momentos del agua, Barcelona: Ediciones Polígrafa, 2006
[Trad. ID]






[Henri Fantin-Latour]

sábado, 19 de janeiro de 2019

S de Sense of Snow (XV)


"[...]
The glass of the window was covered with mist, and I started writing words. Moor. Heather. Snowdrop. I needed those words to feel safe.
[...]"

Ana Teresa Pereira, Fugue States,
London, Vanguard Editions, 2018



 


[ID, Vale | 01/019]

Começar o dia com um livro novo (XLV)


A CADA DIA


A cada dia a sua descoberta: a luz
acesa pra se ver a côr dos sons.

[...]

A cada dia o seu poema de viver:
ver o Anjo da morte e não morrer.


António Barahona, Ocarina (Terceiro Tômo da Suma Poética),
com capa de Andrea Martha (Mumtazz) e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2016





[ID, 'Aubade', 2013]

domingo, 23 de dezembro de 2018

P de Paralelo W





"We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars." 
- OSCAR WILDE

P de Pássaros Anónimos (VIII)




[Vista para um pátio, no Paralelo W | 2/05/012]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (VI)




Paulo Leminski
in Toda Poesia, São Paulo, Companhia das Letras, 2013

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

U de Último dia de aulas (ou S de "Stôra, podemos sair mais cedo?")


L'instituteur_ Non, je ne sais pas, je ne sais rien... Qu'est-ce qui reste à votre avis Monsieur Ernesto...

Ernesto_ Tout à coup, l'inexplicable... la musique... par exemple...


Marguerite Duras
in La pluie d'été (pp.113/114)

domingo, 25 de novembro de 2018

D de Do outro lado do espelho (II)


DESEJO DE COISAS LIGEIRAS


Jucal leve louro
como um campo de espigas
junto ao lago celeste

e as casas de uma ilha distante
cor de vela
prontas a zarpar -

Desejo de coisas ligeiras
no coração que pesa
como uma pedra
dentro de um barco -

Mas chegará uma noite
a estas margens
a alma liberta:
sem vergar os juncos
sem agitar a água ou o ar
partirá - com as casas
da ilha distante,
para um alto recife
de estrelas -


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
sel. e trad. de Inês Dias, Lisboa, Averno, 2012




[ID | Lisboa, 2012]

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

P de (The) Privacy of Rain (XXXVIII)


PALAVRAS COM ÁGUA


A chuva gosta de escrever. Imprime as suas obras sobre o vidro das janelas, na carroçaria dos automóveis. E quando cai sobre um papel ouve-se o ruído de prazer com que o pisa. Sabe traçar uma fenda na superfície, como fazia a velha tipografia, depois arredonda-a. E, sobretudo, se houver algo de escrito, desbota-o até conseguir apagá-lo. O que a chuva escreve prevalece sobre qualquer tinta. E no dia seguinte, quando o papel tiver secado, ficam gravados os seus sinais, uma iconografia quase cuneiforme que é secreta e que é também para sempre. 


[Trad. ID]




[ID | Coimbra, 13/05/12]

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - XIX b


NUUR


                        para Patrícia Joana


    A pouca luz que tenho no rosto, provém do facto de ler, todas as madrugadas, um fragmento do Alcorão.
    Muito pouca luz, mas redonda.
    O meu corpo é anguloso, ossudo e imerso em trevas. Só quando caminho se acendem luzes, como o plâncton, à noite, nas margens do mar da Índia. Então, entre os meus passos, perpassam estrêlas.
    Se estou imóvel, porém, só o meu rosto se distingue. Nem eu próprio me vejo todo por fora, nem mesmo diante dum espelho, tal a profundidade dêste mergulho interior.
    Aqui respira-se melhor.
    Pode dizer-se o que se quiser.
    O rigor da poesia é ganhar esta Grande-Guerra-Santa com a nossa própria alma.

    Cada vez mais se me antolha evidente ser a vida uma preparação para a morte: lugar comum, onde todos nos sentamos.
    Há quem fique de pé, mas por pouco tempo.

                                                                     *

    A pouca luz que tenho no rosto, provém igualmente de um beijo teu.
    Um beijo muito núbil, cheio de castidade e desejo, num perfeito equilíbrio de suavidade religiosa.
    Um beijo inspirado por Deus.
    Agora, quando leio o Alcorão, de madrugada, a pequenina luz circular do meu rosto aumenta de diâmetro e ilumina o som do texto.
    Já não preciso do candeeiro aceso.


António Barahona, Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea,
Lisboa, Averno, 2011

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XIX)

PARIS AT NIGHT



Três fósforos acesos um a um durante a noite
O primeiro para ver o teu rosto inteiro
O segundo para ver os teus olhos
O último para ver a tua boca
E a escuridão inteira para recordar isso tudo
Enquando te aperto nos meus braços.


- JACQUES PRÉVERT

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXXVII)


FRAGMENTO (NARRATIVA)


ao Laureano, in memoriam


"A democracia manda-nos falar e eu murmuro
excita-nos a grito e silencio. Depois a tirania
obriga a segredar. Então eu falo.
Impõe-nos o silêncio. É quando grito".
Assim ele ia, neste lucubrações, em grande perigo
de estranhamento e dor sob o céu baixo
das nuvens suburbanas. "De mim sai o silêncio
como um grito".  E caminhava. Nomes bárbaros
de indústrias e comércios seguiam-lhe o andar
("são nomes de demónios?, de gigantes") e as fachadas
irradiavam luzes de obscuros interiores.
Assim ele ia atento, regressando, em grande perigo.

"Não falo a vossa língua, não pertenço a esse código
por todo o lado oculto, o Livro não escrito
de onde saem ordens e discursos criminais".
Assim ele ia em combate, contrapondo voz humana
a seduções difusas e palavras-talismã.
E entretanto Outono, o fim da tarde. "A inteligência
comove-se a olhar seu próprio tempo." Alteou-se-lhe
de súbito o esterno, um arco tenso
sobre a democracia. "Não seja nunca o sonho
a comandar a vida. Que a voz que em mim compõe
me seja dura." E apressando-se
assim ele ia orando, de regresso, em grande perigo.


Carlos Poças Falcão
in Telhados de Vidro n.º 11,
Lisboa: Averno, Novembro de 2008

L de (A) Luz da Sombra (LI)






Tens direito à luz que sobra de cada um dos teus dias. 
Não te servirá de nada, 
mas não deixa de ser um direito que tu tens.

Rui Caeiro, Deus e outros animais, 
Lisboa, Averno, 2015

domingo, 16 de setembro de 2018

R de Rebeca - XX b


O DONO, SEGUNDO O SEU CÃO


Ainda que pareça tão jovem,
estou a envelhecer mais depressa do que ele,
sete para um
é a proporção que costumam dizer.

Seja qual for o número,
vou ultrapassá-lo um dia
e assumir a liderança
tal como faço nas nossas caminhadas no bosque.

E se isto alguma vez
lhe passar pela cabeça,
seria a mais doce
sombra que alguma vez lancei sobre a neve ou a erva.


Billy Collins, Amor Universal, 
trad. de Ricardo Marques, Lisboa, Averno, 2014




[A Kiki, no seu sítio preferido, a 8/09/019]

sábado, 15 de setembro de 2018

R de Rebeca (XX)


Era uma vez um homem que tinha um cão. Quando passeava no bosque o cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. Um dia o cão morreu. O homem comprou outro cão. Como o anterior o novo cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se do outro cão. Mas um dia também esse cão morreu. De novo o homem comprou outro cão. Como os anteriores também este trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se dos outros cães. Por fim não foi preciso comprar mais nenhum cão. Para onde fosse uma matilha seguia-o. Mais tarde nem era preciso já ir passear para o bosque.


Ana Hatherly, 463 Tisanas,
Lisboa, Quimera, 2006




terça-feira, 11 de setembro de 2018

L de Ler (VI)

outra maneira de ler, num dos meus jardins de sempre:



sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A de A poesia é o menos - III c



Suzuki Harunobu 
(1725 – 1770) 



Alvin Langdon Coburn, “Woman in a Kimono with Sunflower” 
(Autochrome), 1908

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A de A poesia é o menos - III b


SOMBRAS


Iluminar o mundo - com palavras.
velas, algum vinho.
Dito assim, quase parece simples.

Mas chovia muito e resguardou-se
cada um na sua tão pequena chama
ou numa cómoda e fria indiferença.

Talvez fosse de esperar. As velas,
porém, continuaram a arder.
Enquanto cinco rostos se reflectiam na parede

e a poesia era, de novo, a única luz.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014




Suzuki Harunobu 
(1725 – 1770)

terça-feira, 4 de setembro de 2018

T de Tratado de Pedagogia (LXIX)




Silvina Rodrigues Lopes
no posfácio a Manuel de Freitas, Sunny Bar,
com org. de Rui Pires Cabral, Lisboa, Alambique, 2015