sexta-feira, 10 de abril de 2020

P de Poética (LXI)


Julgavas, então, que a poesia era um discurso
de palavras em sentido? Sei quanto a musa aprecia
glória, poder e uniforme, quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida, afinal, anda lá fora, antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna, comparada ao arbusto
que, mal tocada a haste, se desvai em fumo.

Por isso eu fico lendo as crónicas, as lendas,
o jornal que, bem ou mal, cruza as palavras com o tempo,
e contudo! quando o lábio se engana, solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente, e então se diz: eis
a verdadeira e pura poesia! pois seria, talvez,
somente a tua mão, cobrindo a folha.


- ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE





Edward Burne-Jones
[detalhe]

terça-feira, 7 de abril de 2020

Q de Quarentena (IV)


Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.


José de Almada Negreiros, Poemas,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2005





[ID, Guimarães, 08/013]

domingo, 5 de abril de 2020

Q de Quarentena (III)


"[...]

Passa uma faca sobre a vida. Tudo se apaga. A  tentação de parar ao lado de alguém é esta chuva branda, esta música de infância, testemunho a passar até onde pudermos, até desaparecermos ao longe, atrás dos rios e das montanhas, no vento dos transes dos navios, no clima dos campos de combate, onde já não são sombras quem nos espera, mas uma quarentena, a catedral, o elevador que desce até ao infinito glaciar da vida."


Ernesto Sampaio, As Coisas Naturais,
Lisboa: Averno, 2013

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Q de Quarentena (II)


CHORDS



Birds leave behind
shadows in a nest

so leave your lamp
instrument and book

let us go to a hill
where air grows

I will point out
the absent star

tender rootlets
buried by turf

springs of cloud
rising unsullied

a wind lends its mouth
so that we migth sing

we'll knit our brows
we won't say a word

clouds have haloes
just like the saints

we have black pebbles
where eyes should be

a good memory cures
the scar a loss leaves

radiance may descend
down our bent backs

verily verily I say unto you
great is the abyss
between us
and the light


- ZBIGNIEW HERBERT





[ID | Santarém, 30/03/13]

segunda-feira, 30 de março de 2020

P de Poética (LV)


RONDÓ CAPRICHOSO


Por algum tempo, mesmo
que seja mínimo, as
coisas são perfeitas. A
rosa ganha caule mas
não desabrocha. A faca
brilha no ar mas não
desfere o golpe. Os lábios 
humedecem, antes
de cerrar os dentes.

Por algum tempo uma
criança habita a casa, um
gato aquece ao sol a
sua grata pelagem, um corpo
cansado adormece
no lençol limpo.

Por algum tempo, os insultos
não são proferidos
e os corpos enlaçam-se
apiedados do abismo
entre as próprias imagens.

Por algum tempo acreditamos
em grandes amores e viagens. Depois
consumimos
sucedâneos ou literatura.

Por algum tempo, olhamos
o quadro sem turistas
à frente. Escutamos o virtuose
sem tosses na assistência.

Por algum tempo, descobre-se
a cura. O amor regressa. A teoria
convence. A fé ressuscita. Acreditamos
em Únicos e Pátrias.

Até que esse algum tempo
perfeito e mensurável
em desmedido tempo
se transforma.


Inês Lourenço, Logros Consentidos,
Lisboa: &etc, 2005





[ID, São Miguel, 06/015]

domingo, 29 de março de 2020

R de Revisões da matéria dada (II)




Marlon Brando e Eva Marie Saint
em
Há Lodo no Cais (1954), de Elia Kazan

quinta-feira, 26 de março de 2020

L de (A) Luz da Sombra (XLIII)


REMEMBER


Abri o rádio de pilhas pirilampos 
a música da feira de Paço d'Arcos
mudámos entre duas cervejas com
açorda de marisco atrás da camioneta
os móveis empilhados torre de Pisa
que havia no escritório do meu pai
na estrada marginal às gargalhadas
A casa era muito dividida
com perspectivas dúbias com djinns
que corriam atrás dos cães
pilhas de pirilampos empilhados
os móveis quase a cair para
o mar iluminado pelos teus dentes
onde nascia o Sol quando te beijava


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015




[ID, 'Memória da luz das 7h30', 05/012]

domingo, 22 de março de 2020

P de Poética (LVIII)


UM DESTINO


Luzes e cabanas
nas encruzilhadas
chamaram os companheiros.

Para ti, resta
esta pálida estrada na noite
que o vento te revela:
para a tua sede
a água das torrentes que caem,
para a pessoa exausta
a erva dos pastos que se renova
no espaço de um sono.

Absorto no seu próprio fogo
cada ser humano
se abandona a uma única vida.

Mas no teu
lento andar de rio que não encontra foz,
a prateada luz de infinitas
vidas - das estrelas livres
treme agora:

e se nenhuma porta
se abre para o teu cansaço,
se te é
devolvido a cada passo o peso do teu rosto,
se é tua
esta, mais do que dor,
alegria de continuar sozinha
pelo límpido deserto dos teus montes

aceita então
que és poeta.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação, 2.ª ed. rev. e aumentada,
com sel. e trad. de Inês Dias, prefácio de José Carlos Soares, 
desenhos de Débora Figueiredo e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa,  Averno, 2019

sábado, 21 de março de 2020

M de "My house, I say" (II)




A minha casa é lá longe onde nascem os lobos
Nessa terra dourada onde germinam as plantas ardentes do amor
Com as raízes flutuando entre as espumas da memória
As janelas abrem-se e mostram paisagens arrebatadoras à beira do
abismo
Ou fecham-se de súbito formando a erosão das lágrimas nas planícies melancólicas onde vivem os mortos
As escadas precipitam-se como feras atrás dos meus passos
Afundam-se na eternidade e sobem até às maiores alturas
Atrás das cortinas velhas múmias de prata lavrada pelos costumes
errantes
Iluminam com uma claridade lunar
As tapeçarias transparentes das carícias
A saudades desesperadas a violência da despedida
O fulgor dos países perdidos e das cabeças à deriva no mar de outros
anos
Eu espero-te até que a casa se suma lentamente à flor da terra




Ernesto Sampaio, Fernanda,
Lisboa: Fenda, 2000

[Fotografias: ID, 02/014]

T de Tempo Sem Tempo (III)


EMBRIAGAI-VOS


     É preciso estar sempre bêbado. Tudo reside nisso: eis a questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que esmaga os vosso ombros e vos inclina para a terra, precisais embriagar-vos sem tréguas.
     Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa vontade. Mas embriagai-vos.
     E se às vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na morna solidão do vosso quarto, acordardes, a bebedeira leve ou curada, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “São horas de embriagar-se! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude,à vossa vontade.”


Charles Baudelaire, O Spleen de Paris,
trad. Jorge Fazenda Lourenço,
Lisboa: Relógio D'Água, 2007




[Mathieu Kassovitz, O Ódio, 1995]

terça-feira, 17 de março de 2020

T de "The days grow short..."


MUDANÇA DE ESTAÇÃO


para te manteres vivo - todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio - uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes
que se enforcam com a corda dos noctilucos
estendida nesta mudança de estação


- AL BERTO

domingo, 15 de março de 2020

P de "Postais do fim do mundo" (II)


VERTIGENS OU CONTEMPLAÇÃO DE ALGO QUE TERMINA


Este lilás desfolha-se.
De si mesmo cai
e esconde a sua antiga sombra.
Hei-de morrer de coisas assim. 


Alejandra Pizarnik, Antologia Poética,
trad. de Fernando Pinto do Amaral,
Lisboa, Tinta da China, 2020




[ID, 'Postais do fim do mundo', 05/04/2013]

U de "Uma promessa do deserto" (II)


[...] 
Reconhecemo-nos, desaparecemo-nos, amigo a quem eu mais queria.
Eu, assistindo ao meu nascimento. Eu, à minha morte.
E eu caminharia por todos os desertos deste mundo e mesmo morta continuaria a procurar-te, a ti, que foste o lugar do amor.


Alejandra Pizarnik, Antologia Poética,
trad. de Fernando Pinto do Amaral,
Lisboa, Tinta da China, 2020


*


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto,
Lisboa, Moraes Editores, 1962

domingo, 8 de março de 2020

W de Women's Studies (III)


METADE PÁSSARO


A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


sábado, 7 de março de 2020

m, de memória (II)


ARTE POÉTICA


Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.


- ANTÓNIO RAMOS ROSA




[Andrei Tarkovsky, O Espelho, 1975]

quinta-feira, 5 de março de 2020

A de "A propósito de andorinhas" (VIII)




António Nobre, Só,
2.ª ed. rev. e aumentada, Lisboa: Guillard, Aillaud e C.ª, 1898

sábado, 29 de fevereiro de 2020

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (VIII)


ESTRELA


Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.


CARLOS DE OLIVEIRA




[Fotograma de In the Mood for Love, de Wong Kar-Wai]

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

I de Intimidade - c




Leonard Cohen, Poemas e Canções II,
com tradução de Inês Dias,
Lisboa: Relógio D'Água, 2019

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

S de Santa Cruz - XI c




[Uma poética - ID / 2011]

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLV)




[A epígrafe de um livro de George Steiner.]