quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

F de "Ferrugem e osso" (IV)


[Lisboa, Dezembro 2012]

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

S de "Solo se pierde lo que no se ama" (II)


NÃO TEMOS MUITO TEMPO PARA AMAR



Não temos muito tempo para amar
a luz vai desaparecendo,
as coisas que amamos são as mesmas
que em breve perderemos

Os piores vestidos são os que
diariamente se vão usar.
Os teus cabelos já te vi pentear,
em silêncio - íntimo,
escuro e caloroso.

Tentaria tocar-te num braço,
mas escolhi não o fazer.

Podia, mas não quis, quebrar
aquilo que se mantém imóvel.
(O mais ténue suspiro
quase seria um estridente grito).

Por isso, os momentos passam
como se quisessem ficar
E não temos muito tempo para amar
Uma noite. Um dia...


Tennessee Williams, Alguns Poemas, 
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Língua Morta, 2011

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

M de Museu Imaginário (XXVII)


Lubin Baugin, "Le dessert de gaufrettes", c. 1630-1635

H de Humanidade (IV)


Ao longe esse gato enferrujado. Ao longe
essa árvore que se coça. Ao longe
essa ilha que se prostitui
para comprar um nome de mulher.
Ao longe esse azul prisioneiro.
Ao longe esses vulcões rabugentos.
E aqui nada! nem a tristeza,
nem o suspiro, essas palmeiras nuas.
Aqui cada um de nós morreu
ao longo de vinte séculos tantas vezes,
que já não sabe o que fazer
para morrer de uma morte que mate.


Alain Bosquet
[Trad. ID]

domingo, 24 de fevereiro de 2013

C de "C'était lors de mon premier arbre" *




* O 1º verso de um poema de Jules Supervielle.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

F de Fazer Fotografia - XIII g *


 
 
*
 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A de "até que os fios do coração" - b




[Dezembro 012]


C de Começar o dia com um livro novo (XXIV)






                                                                                                                                                       Neste caso, (re)começar o mesmo dia, 140 anos depois:

Selma Lagerlöf, The Diary of Selma Lagerlöf,
trad. de Velma Swanston Howard,
Londres: T. Werner Laurie, 1937

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

T de "(um) torso dobrado pela música" (XII)



Robert Doisneau, "Tapisserie des Gobelins - la harpe de laine", Paris, 1945


[Obrigada, Daniela]

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LV


“não, afasta qualquer dúvida, a verdade não pode ser gravada em fita magnética como fez o teu pai não pronuncies o seu nome com o canto dos pássaros mortos ou feridos de morte a verdade não faz ninho nas palavras agoniza nas palavras e morre com elas na melhor das hipóteses a verdade não habita em lado nenhum nem sequer no silêncio que fica por debaixo das palavras cospes sangue em silêncio e é verdade morre-te um irmão em silêncio e é verdade sentes uma dor aguda em silêncio e é verdade uma dor aguda no coração e num braço mas não o digas fecha-te dia após dia cada vez mais no silêncio na sua profunda trincheira quando ao homem lhe falta o suporte da palavra assemelha-se aos deuses mas não sabe dizê-lo não pode dizê-lo não deve querer dizê-lo […]”


Camilo José Cela, Oficio de Tinieblas 5,
Barcelona: Plaza & Janés Editores, 1989

domingo, 17 de fevereiro de 2013

P de "Para realizar um fantasma entrevisto" (V)



[Lisboa, 15/02/13]

P de (The) Privacy of rain (XLV)



"It can rain and it can blow - these are not the things that count; often on a rainy day a small joy possesses one so that one retires into a private happiness. One stands looking straight ahead, laughing softly now and then and glancing around. What is one thinking of? A clear pane in a window, a ray of sunlight on the pane, a view across to a little stream and perhaps to a break of blue in the sky. It need not be more.
At other times even unusual events cannot jolt a man out of a dreary and cheerless mood; in the middle of a ballroom he can sit unmoved, indifferent , and impassive. For it is within ourselves that the sources of joy and sorrow lie. [...]"


Knut Hamsun, Pan,
trad. James W. McFarlane, 
Londres: The Folio Society, 1983

sábado, 16 de fevereiro de 2013

P de Poética (XLI)

[...]

A poesia não existe para ornamentar, consolar ou sequer servir de contraponto às dificuldades do trabalho. Ela só existe se se dissolver no ar. Se se oferecer à respiração. Precisamos de oxigénio, da falha que é a construção do poema enquanto busca de luz e salvaguarda da noite que há na noite, essa que se dá sempre de maneira única e intempestiva. [...]


Silvina Rodrigues Lopes
in Telhados de Vidro  n.º4,
Lisboa: Averno, Maio de 2005

C de Cicatriz - X c

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

C de Cicatriz - X b

VERÃO



a paisagem dissolve-se
na cintilação. Cresce a cobra
na vereda de som a explodir
na carqueja. Fecha-se a poeira
gota a gota na luz. Abre-se 
na pedra a ruga. O seu gume
sorri na boca. Um nome
suporta a voz. A trepadeira. 


Rui Nunes
in Telhados de Vidro n.º4, 
Lisboa: Averno, Maio de 2005

C de Cicatriz (X)

[Hoje, em Lisboa]

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A de Amor - XXI b


A de Amor (XXI)

BEIJOS, PEDRADAS



Juntando-nos, afastamos a fera às pedradas. Enquanto foge por entre os matos da nossa tensa idade, que é na verdade um fantástico restolho, sorrimos imbuídos de gratidão e de um premonitório terror. Porque já não é a primeira vez que afastámos a fera e sorrimos, e receámos o seu regresso: e voltou. Agora apertamo-nos, mordemo-nos de amor, e falamos de esperança com lacónicas e furiosas braçadas - sem soltar as últimas pedras. A nossa sabedoria e a nossa tristeza tocam-se nos seus extremos: estamos sempre à espera de um novo ataque. Má fera feita do metal do nada, não-ser feito fera, alimária maior do que a aversão que inspira, com músculos tão poderosos como as dobradiças dos anos. Prisão que se move até hoje, da amplidão de um deserto, matemática, rigorosa. Precisa fera que se arrasta sob a lua, olhando-nos com a avareza sonolenta de um dinossauro entre os lodos da pré-história.

Ameaçando-nos com o seu estereofónico rugido listrado de estridências de nascença, a fera olha-nos e prolonga a sua espera imortal antes do salto. Tu vês como ela nos olha, tu bem o vês; o que interessa se a carne se rasga entre os seus dentes. Com o sangue derramado no amor pelo terror poderíamos cobrir esta região que olhamos apaixonados, abraçados pela cintura como elos. Arranha o que quiseres, sejamos tão ferozes como o nosso destino.

Nunca te disseram que o amor é essa desgraça?



 Félix Grande, Biografía (1958-2010),
Barcelona: Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 2011

[Trad. ID]