
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
A de Amor (VIII)
À PHILIS
Et la mer et l’amour ont l’amer pour partage,
Et la mer est amère et l’amour est amer,
L’on s’abîme en amour aussi bien qu’en la mer,
Car la mer et l’amour ne sont point sans orage.
Celui qui craint les eaux, qu’il demeure au rivage,
Celui qui craint les maux qu’on souffre pour aimer,
Qu’il ne se laisse pas à l’amour enflammer,
Et tous deux ils seront sans hasard de naufrage.
La mère de l’amour eut la mer pour berceau,
Le feu sort de l’amour, sa mère sort de l’eau,
Mais l’eau contre ce feu ne peut fournir des armes.
Si l’eau pouvait éteindre un brasier amoureux,
Ton amour qui me brûle est si fort douloureux,
Que j’eusse éteint son feu de la mer de mes larmes.
Pierre de Marbeuf (1596-1645)
O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (V)
Reza escreve cisma sonha
tagarela sempre
tagarela sempre
Adília Lopes, Apanhar ar (Assírio & Alvim)
terça-feira, 30 de novembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
P de (Dois Anos de) Pássaros (X)
São os pássaros que levantam o dia para o cego.
Ouve-se a luz pendurada das árvores
e uma transfusão de sangue acelerado que acumula nos tímpanos
os latidos roubados à noite.
Amanhece.
Tíbias gotas de azul salpicam de manhã
os párabrisas dos carros.
Alguém, equivocado,
abriu o guarda-chuva pensando que chove.
Ouve-se a luz pendurada das árvores
e uma transfusão de sangue acelerado que acumula nos tímpanos
os latidos roubados à noite.
Amanhece.
Tíbias gotas de azul salpicam de manhã
os párabrisas dos carros.
Alguém, equivocado,
abriu o guarda-chuva pensando que chove.
Federico Gallego Ripoll
(versão de LP)
domingo, 28 de novembro de 2010
O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (III)
Recuerdo com cierta precisión el momento en el que tuve
la certeza de que estas luces merecían un poema.
Recuerdo que el frío había entrado en nuestras vidas con el
impulso de los días previos al invierno y recuerdo también
cómo ceñías
tu cuerpo al mío para no dejarte atrapar.
En aquella plaza abarrotada, la misma que es antesala cada día
de paseos de palomas, niños y del resto, mientras el último
concierto
de las fiestas se consumía alcé la vista y hallé la belleza.
Recuerdo que al ver las luces nada pude hacer ya
o nada supe hacer.
Me dejé llevar por la palidez de las nubes blancas, de la niebla
amontoada en nuestros pechos y el río alborotado por el
viento.
Recuerdo en aquella noche de niebla espesa
la caída de dos lágrimas al ver las luces de la ciudad.
la certeza de que estas luces merecían un poema.
Recuerdo que el frío había entrado en nuestras vidas con el
impulso de los días previos al invierno y recuerdo también
cómo ceñías
tu cuerpo al mío para no dejarte atrapar.
En aquella plaza abarrotada, la misma que es antesala cada día
de paseos de palomas, niños y del resto, mientras el último
concierto
de las fiestas se consumía alcé la vista y hallé la belleza.
Recuerdo que al ver las luces nada pude hacer ya
o nada supe hacer.
Me dejé llevar por la palidez de las nubes blancas, de la niebla
amontoada en nuestros pechos y el río alborotado por el
viento.
Recuerdo en aquella noche de niebla espesa
la caída de dos lágrimas al ver las luces de la ciudad.
Ignacio Escuín Borao,
Habrá una vez un hombre libre
(Huacanamo)
sábado, 27 de novembro de 2010
F de Fazer Fotografia (XXV)
Um resumo da efemeridade: velas que se apagam, reflexos que se transformam e fotografias que perdem os nomes.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
terça-feira, 23 de novembro de 2010
F de Flor Suficiente (III)
HOJE, MORRENDO, LEVO SAUDADES
Hoje, morrendo, levo saudades
De cada pedra, de cada flor.
Destas violetas, levo saudades
Que hão-de ir comigo, seja onde for!
Levo saudades da praia bela
Em não passando, nela, ninguém.
Levo saudades, saudades dela,
Mas dela, apenas. De mais ninguém!
Levo saudades daquela casa,
Espelho baço da minha vida.
Levo saudades daquela casa,
Inútil, grande, triste, perdida.
Nódoas ocultas? Segredos de alma?
Casa ensombrada pelo Poeta!
Por que a inquietaram, vendo-a tão calma?
Por que a abandonaram, ao vê-la inquieta?
Levo saudades da noite fria,
Por entre as campas a que fui dar.
(Quantas espadas na ventania!)
Mármore, gelo, nudez, Luar.
Levo saudades de haver criado
A minha própria ressurreição.
Que, sem rodeios, o meu pecado
Está nas coisas. Nos homens não!
Está no medo, na poesia
E (sobretudo!) no que se esconde
Por trás das grades frígidas, onde
Só,
Um crisântemo
Sorria…
De cada pedra, de cada flor.
Destas violetas, levo saudades
Que hão-de ir comigo, seja onde for!
Levo saudades da praia bela
Em não passando, nela, ninguém.
Levo saudades, saudades dela,
Mas dela, apenas. De mais ninguém!
Levo saudades daquela casa,
Espelho baço da minha vida.
Levo saudades daquela casa,
Inútil, grande, triste, perdida.
Nódoas ocultas? Segredos de alma?
Casa ensombrada pelo Poeta!
Por que a inquietaram, vendo-a tão calma?
Por que a abandonaram, ao vê-la inquieta?
Levo saudades da noite fria,
Por entre as campas a que fui dar.
(Quantas espadas na ventania!)
Mármore, gelo, nudez, Luar.
Levo saudades de haver criado
A minha própria ressurreição.
Que, sem rodeios, o meu pecado
Está nas coisas. Nos homens não!
Está no medo, na poesia
E (sobretudo!) no que se esconde
Por trás das grades frígidas, onde
Só,
Um crisântemo
Sorria…
Pedro Homem de Mello, As Perguntas Indiscretas
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
domingo, 21 de novembro de 2010
N de “no lugar seguro da próxima Primavera” (M.G.L.)
Já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;
por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor. Não chores
- o melhor movimento do meu cérebro vale menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz
somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo
E a morte julgo nenhum parêntesis
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;
por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor. Não chores
- o melhor movimento do meu cérebro vale menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz
somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo
E a morte julgo nenhum parêntesis
e. e. cummings, xix poemas,
trad. Jorge Fazenda Lourenço (Assírio & Alvim)
B de Biorritmo (XLI) - o sentimento da(s) véspera(s)
Tell me why
I dont like Mondays
Tell me why
I dont like Mondays
Tell me why
I dont like Mondays
I wanna shoo-oo-oo-oo-oo-oot the whole day down
[Obrigada, Alexandra]
sábado, 20 de novembro de 2010
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
G de Gostava de ter sido eu a tirar esta fotografia (II)
À noite
com a iluminação pública
as sombras dos choupos
nas cortinas das janelas
da minha sala
com a iluminação pública
as sombras dos choupos
nas cortinas das janelas
da minha sala
Adília Lopes, Apanhar Ar (Assírio & Alvim)
terça-feira, 16 de novembro de 2010
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
E de Estado de espírito (II)
Animula vagula, blandula,
Hospes comesque corporis,
Quae nunc abibis in loca
Pallidula, rigida, nudula,
Nec, ut soles, dabis iocos...
P. Elius Hadrianus, Imp.
Hospes comesque corporis,
Quae nunc abibis in loca
Pallidula, rigida, nudula,
Nec, ut soles, dabis iocos...
P. Elius Hadrianus, Imp.
sábado, 13 de novembro de 2010
S de Sino da minha aldeia (III)
Eu sei que é um xilofone, mas parecem quase sininhos e dão-me sempre vontade de dançar.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
B de Biorritmo (XL)
"[...] Nothing's ever as it seems/ Climb the ladder to your dreams/ If I die before you wake/ Don't you cry, don't you weep/ Nothing's ever yours to keep/ Close your eyes; go to sleep"
R de Regresso ao trabalho (VI)
Eu gostava,
gostava de descansar!
De poisar os meus olhos sobre outros…
descansar!
sobre outros de qualquer cor
e tamanho…
E, também, de escrever
com amabilíssima calma,
perfeita tranquilidade.
gostava de descansar!
De poisar os meus olhos sobre outros…
descansar!
sobre outros de qualquer cor
e tamanho…
E, também, de escrever
com amabilíssima calma,
perfeita tranquilidade.
Irene Lisboa, Um dia e outro dia...
terça-feira, 9 de novembro de 2010
S de Sino da minha aldeia (II)
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
P de (Dois Anos de) Pássaros (V)
[Para a Renata, este filme de que sempre gostei e que começa justamente com um pássaro a ser salvo junto ao mar. Ela sabe porquê.]
domingo, 7 de novembro de 2010
S de Solidão (ou C de Comunidade) V
Il y a tant de savoir maudit qui embarrasse, qui obstrue. Ces mots, tous ces mots empoisonnés et menteurs qui engorgent, qui gonflent les muqueuses, qui empêchent l'air d'arriver. Tant de mots : tant de murs.
Mais il y a d'autres mots qui libèrent, et on ne comprend pas pourquoi. Ne sont-ils pas les mêmes ? Ne sont-ils pas, eux aussi, du langage des hommes . Ils arrivent facilement, sans qu'on les cherche, ils sont légers, ils ne veulent rien, ils n'écrasent pas. Des mots aériens, suspendus sur le ciel blanc en escadres immobiles. C'est eux que l'on perçoit à présent, rien qu'eux. Comment un tel langage a-t-il pu s'inventer. On aimerait croire que c'est un mirage, un hasard, et pourtant on sait bien (à cause justement de tous les mots du langage lourd) que ce n'est pas une coïncidence. La musique ne trouble que la musique, et les mots d'Iniji retrouvent au fond de vous leur propre image, comme survolant un grand lac immobile.
Le poème est venu de loin, comme cela, calmement, avec ses gestes, avec sa vie, pour vous retrouver.
Mais il y a d'autres mots qui libèrent, et on ne comprend pas pourquoi. Ne sont-ils pas les mêmes ? Ne sont-ils pas, eux aussi, du langage des hommes . Ils arrivent facilement, sans qu'on les cherche, ils sont légers, ils ne veulent rien, ils n'écrasent pas. Des mots aériens, suspendus sur le ciel blanc en escadres immobiles. C'est eux que l'on perçoit à présent, rien qu'eux. Comment un tel langage a-t-il pu s'inventer. On aimerait croire que c'est un mirage, un hasard, et pourtant on sait bien (à cause justement de tous les mots du langage lourd) que ce n'est pas une coïncidence. La musique ne trouble que la musique, et les mots d'Iniji retrouvent au fond de vous leur propre image, comme survolant un grand lac immobile.
Le poème est venu de loin, comme cela, calmement, avec ses gestes, avec sa vie, pour vous retrouver.
J.M.G. Le Clézio
in Vers les Icebergs (1978)
sábado, 6 de novembro de 2010
P de (Dois Anos de) Pássaros (III)
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
T de Tratado de Pedagogia (XV)
THE LEADEN-EYED
Let not young souls be smothered out before
They do quaint deeds and fully flaunt their pride.
It is the world's one crime its babes grow dull,
Its poor are ox-like, limp and leaden-eyed.
Not that they starve; but starve so dreamlessly,
Not that they sow, but that they seldom reap,
Not that they serve, but have no gods to serve,
Not that they die, but that they die like sheep.
Vachel Lindsay
(1914)
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
O de Outono (VI)
Vou subindo por uma escarpa
Que vai ter à mansão divina.
Em cada corda da minha harpa
Canta uma estrela vespertina.
Em meio de luzes tantas,
Que sempre refulgirão,
Vejo astros às minhas plantas
E colho estrelas com a mão.
Quantos sublimes resplandores
Cintilam castos no meu peito!
São os responsos precursores
Da paz do meu último leito.
Minh’alma é árvore deserta
Que o Outono vem desfolhar.
Quando o sonho me desperta,
No meu peito canta o luar…
O Inverno passa, a primavera
Esconde-se entre alas de lírios:
Mas a minh’alma sempre espera
Dores novas, novos martírios.
Tudo me é sonoro e suave:
Emperolado de sol,
Bate as suas asas de ave
No meu peito de rouxinol.
As minhas ilusões são rosas
Esfolhadas por mãos celestes;
São como brisas silenciosas
Entre alamedas de ciprestes.
No campanário onde me acho,
Entre cítaras de luar,
Contemplo a lua debaixo
Da minh’alma, a soluçar…
Que vai ter à mansão divina.
Em cada corda da minha harpa
Canta uma estrela vespertina.
Em meio de luzes tantas,
Que sempre refulgirão,
Vejo astros às minhas plantas
E colho estrelas com a mão.
Quantos sublimes resplandores
Cintilam castos no meu peito!
São os responsos precursores
Da paz do meu último leito.
Minh’alma é árvore deserta
Que o Outono vem desfolhar.
Quando o sonho me desperta,
No meu peito canta o luar…
O Inverno passa, a primavera
Esconde-se entre alas de lírios:
Mas a minh’alma sempre espera
Dores novas, novos martírios.
Tudo me é sonoro e suave:
Emperolado de sol,
Bate as suas asas de ave
No meu peito de rouxinol.
As minhas ilusões são rosas
Esfolhadas por mãos celestes;
São como brisas silenciosas
Entre alamedas de ciprestes.
No campanário onde me acho,
Entre cítaras de luar,
Contemplo a lua debaixo
Da minh’alma, a soluçar…
ALPHONSUS DE GUIMARAENS
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
B de Biorritmo (XXXVIII)
"[...]
Então vem, eu quero abraçar você
Seu poder vem do sol
Minha medida
[...]"
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
P de (Um Ano de) Pássaros (XVIII)
A ÚLTIMA NOITE DA TERRA
O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.
O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.
Roger Wolfe
in CRIATURA nº5
(tradução de Luís Filipe Parrado)
in CRIATURA nº5
(tradução de Luís Filipe Parrado)
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
A de Alegoria da Cave
FEIRA DO LIVRO - EDIÇÕES AVERNO
Livros manuseados a 2 euros
28 Outubro (5ªf), a partir das 22h30,
BAR NA CAVE
(R. Imprensa Nacional, 116b, cave do restaurante BS)
terça-feira, 26 de outubro de 2010
F de Fazer Fotografia (XXIII)
III
O meu poema é uma écloga
fechada num quarto cheio de borboletas
e esta mulher sólida e pacífica
que modela no lume esculturas frias
O meu poema não é um poema
mas apenas transposição de ver,
por exemplo, agora, o espanhol que viaja há três anos
a dormir em cemitérios
O meu poema é olhar,
velar a técnica,
fotografar as mãos para acender a luz
Um dia serei eu próprio o meu poema
com dentes de perdiz em tempo de caça
fugitivo
sensitivo
procurador
extintor de sono
O meu poema é uma écloga
fechada num quarto cheio de borboletas
e esta mulher sólida e pacífica
que modela no lume esculturas frias
O meu poema não é um poema
mas apenas transposição de ver,
por exemplo, agora, o espanhol que viaja há três anos
a dormir em cemitérios
O meu poema é olhar,
velar a técnica,
fotografar as mãos para acender a luz
Um dia serei eu próprio o meu poema
com dentes de perdiz em tempo de caça
fugitivo
sensitivo
procurador
extintor de sono
Muhammad Abdur Rashid Ashraf (António Barahona)
in Criatura, nº 5
domingo, 24 de outubro de 2010
F de Fazer Fotografia (XXII)
CLICHÉ
Não é que seja o momento para trocar
cartões-de-visita. José Maria da Silva,
fotógrafo profissional com estúdio em Lisboa,
tem por hábito mudar-se para a vila da Ericeira
na época balnear. Ainda está por aqui
no dia 5 de Outubro. Um notável testemunho
(gelatina e sais de prata, memória pronta e fiel)
que, com sorte, há-de chegar à Ilustração
Portuguesa. Além disso, uma kodak não tropeça
em estrangeirismos, ornatos de sabor clássico,
no jeito francês da frase, nos defeitos da sintaxe.
José Maria da Silva, fotógrafo profissional,
passa o resto da tarde com um nervoso
miudinho. Até revelar as chapas. Olhem bem
para estas caras, estas formas do passado. Nada mau
para seres humanos. Pode dizer-se que sim.
Vítor Nogueira, Quem diremos nós que viva? (Averno)
sábado, 23 de outubro de 2010
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
O de Outono (III)
Para o Mané,
que tem de ensinar aos pobres adultos
onde é que as folhas das árvores estão durante o Outono
terça-feira, 19 de outubro de 2010
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
domingo, 17 de outubro de 2010
S de Solidão (ou C de Comunidade) IV
Que tristeza. O dia levanta-se. Retida pelo sono e pelo sonho, ainda penso que posso viver sem ter que satisfazer as minhas necessidades imediatas. Mas é domingo, dia em que a nostalgia começa ao entardecer, quando sei que amanhã devo levantar-me em perfeita contradição com o tempo. O tempo assusta-se, talvez, eu vou desempenhar o meu papel de mulher que trabalha. […] Se não fosse a imposição do trabalho, muito raramente estaria com outras pessoas, e só em condições especiais. Cada um devia partir para seu lado e canto, durante anos de solidão, ou seja, durante o tempo necessário de fazer outros tipos de conhecimento. É preciso ter outras relações, as relações entre os homens são de matéria plástica, opaca, violenta. O olho vê apenas outro olho; o dente esbarra com outro doente.
Mas hoje ainda é domingo, ainda é manhã escura em que poderei continuar a ser terna com quem está aqui na casa, sem necessária aparência de homem, e com raro espírito de ver.
Mas hoje ainda é domingo, ainda é manhã escura em que poderei continuar a ser terna com quem está aqui na casa, sem necessária aparência de homem, e com raro espírito de ver.
Maria Gabriela Llansol, UM ARCO SINGULAR – Livro de Horas II,
Assírio & Alvim, p.146
Assírio & Alvim, p.146
sábado, 16 de outubro de 2010
B de Biorritmo (XXXVII)
"[...] I'll love you 'til the bluebells/ Forget to bloom/ I'll love you 'til the clover/ Has lost it's perfume/ And I'll love you 'til the poets/ Run out of rhyme."
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
M de Museu Imaginário (XIb)
Há aqui tapeçarias, Abelone, tapeçarias. Imagino que tu estás aqui; são seis tapeçarias; anda, vamos vê-las devagar. Mas primeiro recua um pouco e vê-as todas a um tempo. Que tranquilas, não é verdade? São pouco variadas. É sempre esta ilha oval e azul, flutuando sobre o fundo discretamente vermelho, que é florido e habitado de pequenos animais ocupados consigo mesmos. Só acolá, na última tapeçaria, é que a ilha sobe um pouco, como se se tivesse tornado mais leve. Traz sobre ela sempre uma figura, uma mulher, de trajo diferente, mas sempre a mesma. Por vezes, há a seu lado uma figura mais pequena, uma serva, e há sempre os dois animais heráldicos, grandes, também sobre a ilha, também dentro da acção. À esquerda, um leão, e à direita, de cor clara, o licorne; seguram estandartes iguais, ao alto, acima deles; três luas de prata, subindo, em banda azul sobre fundo vermelho. – Já viste? Queres começar pela primeira?
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, trad. Paulo Quintela
[Obrigada, Sandra]
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
P de (Um Ano de) Pássaros (XIV)
Tenho afeição pelo estorninho, se bem
Que não aprove inteiramente os seus
Costumes. Ave proletária,
Nidifica em recessos e buracos, suja tudo
E por vezes deixa os ovos
Onde calha – no relvado da frente, por exemplo.
Ele julga que também sabe cantar. Na Primavera
Estão em todos os telhados, nos altos ramos
Ou nos postes telegráficos, num chinfrim
De notas dissonantes, repetindo os clichés
Dos outros melodistas.
Mas vai a Trafalgar Square
E demora-te, pela tardinha, nos degraus da
igreja de St. Martin;
Vê-os, lá no alto,
Os estorninhos, antes do recolher, numa revoada –
Centenas deles, a girar,
A pairar, a dançar, e todo o sonoro bando
Volteia como um único pássaro: uma imagem
Intuída da cidade.
Que não aprove inteiramente os seus
Costumes. Ave proletária,
Nidifica em recessos e buracos, suja tudo
E por vezes deixa os ovos
Onde calha – no relvado da frente, por exemplo.
Ele julga que também sabe cantar. Na Primavera
Estão em todos os telhados, nos altos ramos
Ou nos postes telegráficos, num chinfrim
De notas dissonantes, repetindo os clichés
Dos outros melodistas.
Mas vai a Trafalgar Square
E demora-te, pela tardinha, nos degraus da
igreja de St. Martin;
Vê-os, lá no alto,
Os estorninhos, antes do recolher, numa revoada –
Centenas deles, a girar,
A pairar, a dançar, e todo o sonoro bando
Volteia como um único pássaro: uma imagem
Intuída da cidade.
JOHN HEATH-STUBBS, “The Starling”
in On Wings of Song, Everyman’s Library, 2000.
[Tradução de RPC]
in On Wings of Song, Everyman’s Library, 2000.
[Tradução de RPC]
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
sábado, 9 de outubro de 2010
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
P de (The) Privacy of Rain (IV)
[Aconselha-se o visionamento das 4 partes seguidas, para ajudar a chuva a passar.]
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
B de Biorritmo (XXXV)
Passe a ironia:
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
David Mourão-Ferreira, "Casa",
cantado por Camané in Do amor e dos dias
O de Outono (II)
Las riendas de la vida cogí entre café y café para no quedarme dormido. El poder de la decisión, me dije. La elección moral y estelística que sea mía, que sólo yo sea dueño de mis actos y mis errores, mejor dicho, que sólo los errores que me incumban sean sólo míos sin interminables excusas ajenas. Pero soñaba, ya soñaba. Aquellos cafés no eran suficiente, mantenerme despierto después de toda aquella montaña de papeles amontonados, cosas que leer, textos que escribir, el horror sumergido en el fondo de todos aquellos informes. La vida me esperaba demasiado cargada de bombo, demasiado brava, me tomó por los pelos y me dejó allí a la deriva, medio muerto y ansiando los días refugiado tras los cristales mientras caía el otoño, o llegaba la primavera, vaya, lo mismo es, da igual, estaciones de tránsito, como mi vida, una vida de tránsito entre la obligación y la alegría del hombre libre.
Ignacio Escuín Borao, Habrá una vez un hombre libre
(Huacanamo)
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